Raízes da MPB – CHIQUINHA GONZAGA

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Autoria de LuDiasBH chiquinha

Antes de vermos Chiquinha Gonzaga mergulhar no ambiente musical carioca, na década de 1870, vamos conhecer um pouco desse ambiente. Os primeiros gêneros populares da música brasileira foram a modinha e o lundu e atendiam assim a demanda básica da sociedade. A modinha se encarregava do aspecto romântico e o lundu traduzia o humor e a sensualidade. No lundu soa claramente a influência rítmica da presença negra no Brasil. Até a chegada da polca em 1845 era essa a nossa música popular. (Henrique Cazes – músico, produtor, arranjador e escritor)

A compositora, pianista, arranjadora e regente Francisca Edwiges Neves Gonzaga nasceu no Rio de Janeiro/RJ, em 1935. Seu pai, José Basileu Neves Gonzaga, oficial de uma família de tradição militar, era amásio de sua mãe, Rosa Lima Maria que, ao contrário do pai, era filha de escrava, tendo sido alforriada ao ser batizada. Os dois filhos naturais,  Mamede e Joana, tiveram a paternidade reconhecida depois. Francisca Edwiges foi a terceira a nascer, depois de sua mãe passar por uma complicação durante o parto, inclusive, seu nome foi uma homenagem à santa do dia.

O pai de Francisca contratou o cônego Trindade para ensinar a filha as partes de leitura, escrita, cálculo e catecismo. As aulas de piano foram dadas pelo Maestro Lobo. Ao dar à filha uma primorosa educação, seu pai tinha como objetivo encontrar para ela um bom marido. Antes, o então major legalizou a situação dos sete filhos, casando-se com a mãe de seus rebentos.

Antônio Eliseu, tio de Francisca pelo lado paterno, tocava flauta e animava festas de famílias. Foi ele o responsável pela estreia da sobrinha numa noite de Natal, quando ela tinha onze anos de idade, apresentando sua primeira composição denominada Canção dos Pastores, com versos também de seu irmão Juca, dois anos mais novo que ela.

Chiquinha era uma garota irrequieta, namoradeira, dona de uma personalidade forte, de modo que, na visão daquele tempo, quando tivesse marido e filhos seus modos mudariam totalmente ou, caso contrário, poderia ir para o convento. O fato é que a menina, ainda nos seus 16 anos, casou-se com Jacinto Ribeiro do Amaral, então com 24 anos, filho de uma família importante. E assim, o filho do casal, João Gualberto, nasceu antes que seus pais completassem um ano de casados.

A dedicação de Chiquinha ao piano e à música passou a incomodar Jacinto Ribeiro. Ele precisava viajar ao sul do país, mas deixar Chiquinha sozinha na cidade do Rio de Janeiro preocupava-o, mesmo ela tendo mais uma menina para cuidar: Maria do Patrocínio. Optou então o marido por levá-la consigo. Ela se desesperou por ver a Guerra do Paraguai de perto e por se encontrar longe da música, embora ele lhe arranjasse um violão. E, quando seu marido exigiu que ela escolhesse entre ele e a música, Chiquinha preferiu a segunda. Mas, ao descobrir que estava grávida do terceiro filho, reatou com o cônjuge, contudo, acabou não aguentando dar continuidade ao relacionamento. Após o nascimento do filho Hilário, separou-se dele. Sua família ficou tão revoltada com seu procedimento, que proibiu até mesmo que seu nome fosse pronunciado, considerando-a como morta. E, como o último filho fosse moreno como ela, ao contrário dos outros dois, as más línguas suspeitaram de que não fosse fruto de Jacinto Ribeiro.

A modinha e o lundu foram os primeiros gêneros populares de nossa música. A polca chegou em 1845. E, como não poderia deixar de acontecer, ela acabou ganhando influência da música portuguesa e africana, nascendo daí o choro, sendo o flautista e compositor Antônio da Silva Callado o primeiro líder entre os chorões. Foi ele o responsável por organizar os primeiros conjuntos de choro. E foi através dele que Chiquinha Gonzaga aproximou-se do choro e dos chorões.

Quando estava com 23 anos, Chiquinha apaixonou-se pelo engenheiro João Batista Carvalho, a quem acompanhou nos acampamentos da estrada de ferro Mogiana, no interior mineiro. Quando assumiram o romance, e estando Chiquinha prestes a ter um filho do companheiro, Jacinto, de quem ela havia se separado, mas não legalmente, entrou com um processo de divórcio no Tribunal Eclesiástico, acusando-a de abandonar o lar e de adultério.

Decepcionada com seu novo relacionamento, que acabou em separação, Chiquinha voltou-se totalmente para a música, publicando a polca Atraente, primeira composição a se tornar de conhecimento público. E, ao fazer parte do grupo de Silva Callado, passou a ser considerada a primeira chorona. Ela compunha choro, valsa, polca, tango… Também dava aulas de piano, canto, francês, geografia, história e português, para complementar sua renda. Fazia parte dos encontros de boêmios e intelectuais, engajando-se na causa abolicionista. Mas, após a morte de seu amigo Callado, dedicou-se ao piano, sob o comando de Arthur Napoleão, que veio a se tornar seu editor. Daí entrou no teatro de variedades, recém-chegado ao Brasil, bem diferente das óperas e do teatro, e que vinha atraindo o público.

Em 1884, ao compor a opereta a Corte na Roça, bem aceita pela crítica, Chiquinha foi reconhecida como maestrina, tornando seu nome sinônimo de sucesso. Acabou tendo muito êxito com o teatro musicado. Mas continuou tendo problemas com a família. Não convivia com os filhos, o pai morreu sem lhe conceder o perdão e sua mãe só se aproximou dela após perder o marido. Ela se tornou amiga do grande compositor Carlos Gomes, responsável por acabar com o preconceito que os eruditos do Conservatório dirigiam à sua música. Ela criou sucessos como Corta Jaca e a primeira música de Carnaval, a marcha-rancho Ó Abre Alas.

Chiquinha fez parceria com o farmacêutico e teatrólogo Ernesto Souza. Ele comprou um galpão, onde promovia saraus dos quais participavam ela, já perto de seus 50 anos, tocando piano, e músicos amadores e estudantes. E foi num desses encontros que um estudante português, de 16 anos de idade, apaixonou-se por Chiquinha. O romance ficou em segredo durante dois anos, pois, nem empregados ela contratava para sua casa. Mas, após uma viagem à Europa, e já tendo João Batista Fernandes Lages completado a maioridade, eles se apresentaram como mãe e filho, ao retornarem, embora ninguém acreditasse em tal parentesco, até mesmo pelo sotaque português do gajo. Mas não houve maiores comentários. Ela recebeu amor e dedicação do rapaz, 36 anos mais novo do que ela, que realmente poderia se um de seus filhos.

Francisca, ou Chiquinha, viveu numa época em que a cidade do Rio de Janeiro era dividida meio a meio entre cidadãos livres e escravos, num total de 250.000 habitantes, em meio a problemas de toda ordem. Ela morreu aos 88 anos de idade, em 1935. Sua música, cujo gênero vai do maxixe à música sacra, continua viva, enriquecendo a cultura musical de seu país, além de ter deixado seu exemplo de mulher talentosa e aguerrida, bem adiante do tempo em que viveu.

Nota
Ouçam, clicando no link abaixo, a canção Lua Branca.
http://www.youtube.com/watch?v=SdpQi4ceHYA

Fonte de pesquisa:
Raízes da Música Popular Brasileira/ Coleção Folha de São Paulo.

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