UM CORPO PARA A PROVA DE CIRURGIA
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Autoria do Dr. Ivan Large

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Na parede, ao lado do velho retrato, meu diploma de médico suscita, às vezes, a curiosidade dos meus pacientes.

– Como? O Senhor se formou no Haiti? – perguntam-me alguns.

– Eu me formei, sim! – respondo

Esta resposta lembra-me as dificuldades que tive que enfrentar ao término dos meus estudos de medicina. Nessa época, eu estava concluindo o segundo semestre do ú1timo ano do curso de medicina. Já tinha realizado, com sucesso, quase todas as provas finais exigidas para obtenção do diploma de médico. Apenas uma última prova erigia-se como um obstáculo intransponível entre a minha vida de estudante e a concretização dos meus anseios de me tornar, oficialmente, um discípulo de Esculápio. Tratava-se da prova prática de técnica cirúrgica, que consistia em realizar, num cadáver, atos cirúrgicos escolhidos pelo examinador. Nessa ocasião, usava-se um corpo para cada dois alunos. Como tinha mais de cem alunos em cada turma, essa prova exigia o número respeitável de pelo menos cinquenta cadáveres para a sua realização.

Essa exigência, em tempo normal, era cumprida sem muita dificuldade. Esta expressão “tempo normal” toma, na época à qual eu me refiro, uma conotação um pouco singular.
Em “tempo normal”, sob a ditadura dos Duvalier, as cadeias eram repletas de prisioneiros políticos. Poucos deles sobreviviam muito tempo às torturas e às condições desumanas às quais eram submetidos. Depois do falecimento do infeliz, o seu corpo mutilado, que ninguém reclamava, ficava a disposição dos estudantes da faculdade de medicina. Dessa situação absurda para o leitor (pelo menos, eu espero que seja), mas normal nos meus tempos de estudante, resultava uma abundância de corpos, que podiam ser “aproveitados” nas aulas e provas práticas de anatomia e técnica cirúrgica. Entretanto, nesse final de ano, contrariando a “norma1idade”, não havia um único cadáver disponível para minha prova. A explicação dessa estranha escassez residia na inc1usão de um conceito inusitado na política nacional: o dos direitos humanos.

Essa mudança inesperada na nossa vida tinha o seu ponto de partida na politica dos Estados Unidos, com a vitória, nas eleições presidenciais, do candidato do partido democrata – Mr. Jimmy Carter. Até então, a confiança em Deus, expressa abertamente por nossos poderosos vizinhos, sob o lema “In GOD, we trust” (dizem as más línguas que eles teriam se esquecido de colocar um “L” no “GOD”), nunca havia-1hes impedido de apoiar as sanguinárias ditaduras latino-americanas, em nome da luta implacável do capitalismo contra a ameaça do comunismo, sem a menor consideração pelos direitos humanos, considerados desprezíveis na época.

De repente, a nova politica internacional americana, estabelecida pelo presidente Carter, impunha aos regimes ditatoriais latino-americanos um mínimo de respeito aos direitos de seres humanos, até então acostumados a se submeter, calados, ao poder absoluto de uma só família. Por isso, as cadeias haitianas não ficavam mais tão cheias como antigamente. As execuções sumárias eram bem mais discretas. Os prisioneiros políticos desapareciam secretamente sem deixar traços comprometedores; isso em detrimento do ensino da medicina na universidade, que não teve o tempo hábil de adaptar o seu currículo aos novos rumos da política nacional e internacional.

Se de um lado eu estava comemorando este embrião de democracia que eu experimentava pela primeira vez em minha vida, do outro, estava impaciente para concluir o curso e entrar de férias. Durante essa espera interminável, eu tinha que repassar, todos os dias, a extensa matéria, a fim de não esquecer qualquer detalhe sobre o qual poderia ser questionado durante o exame.

Uma noite, eu estava estudando na casa de um colega, quando um barulho estrondoso rompeu o silêncio vesperal. Era, sem a menor sombra de dúvida, um tiro disparado na proximidade, por alguma arma de fogo. Soubemos, alguns instantes depois, que um ladrão havia sido baleado na casa de um vizinho. Fomos vê-lo. Era um rapaz jovem, vestido apenas com uma calça preta, apresentando um buraco no meio da testa.

No dia seguinte fui à faculdade, como eu fazia todos os dias, durante quase um mês, na esperança de realizar a prova. Desta vez, fui informado de que tinha um cadáver disponível e, que eu ia ser submetido à prova, na mesma hora. Um pouco apreensivo, entrei na sala de exames onde avistei um corpo estirado sobre uma mesa, Aproximei-me dele lentamente. Pude constatar que era o corpo de um rapaz jovem, com um buraco no meio da testa – o 1adrão morto na véspera. Fiquei olhando para esse desconhecido, cujo terrível desfecho da vida abria para mim as perspectivas de uma vida nova. Duas vidas bem diferentes uma da outra; a minha centrada nos meus preparativos para a prova, a dele toda dedicada aos seus preparativos para uma tentativa de roubo.

Nos dias em que eu ia regularmente à faculdade e nas noites que passava mergulhado nos meus livros, aquele jovem ficava observando detalhadamente a casa que pretendia visitar, estudando cuidadosamente os hábitos dos seus moradores. Enquanto eu precisaria demonstrar o meu conhecimento de anatomia e minhas habilidades de futuro cirurgião, ele teria que provar a sua esperteza em arrombar uma porta, sua agilidade em escalar muro, sua coragem em arriscar a própria vida. Vidas tão diferentes uma da outra, mas ambas convergindo inexoravelmente para uma prova!

4 comentários sobre “UM CORPO PARA A PROVA DE CIRURGIA

  1. Julmar Moreira

    Tive o prazer de conviver com um senhor chamado Sebastião Rosa que, juntamente com sua esposa e filhos, dedicou-se durante grande parte de sua vida às causas humanitárias. Quando ele morreu, a família atendeu ao seu desejo e doou o corpo para uma faculdade de medicina, pois ele queria que seu corpo tivesse uma última utilidade para a humanidade. Ato nobre dele e da família.

    Considero que, após o falecimento, um cadáver é sempre um cadáver seja de um ladrão, assassino ou de alguém que se dedicou à causas humanitárias. É apenas minha modesta opinião.

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    1. LuDiasBH Autor do post

      Ju

      Você tem toda a razão. Com a morte do cérebro, nosso corpo não passa de uma “coisa”. O exemplo do senhor Sebastião Rosa e de sua família é deveras comovente. Fico vendo aqueles mausoléus nos cemitérios e acho um gasto totalmente desnecessário.

      Um grande abraço,

      Lu

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  2. Pierre Santos

    Meu prezado Doutor,
    a vida é assim mesmo: alegria de um, tristeza de outro; desgraça de um, ascensão de outro. A morte do rapaz morto, por ser um marginal, normalmente não costuma inspirar piedade. Mas o fato é que seu corpo serviu a uma causa nobre, pois graças à sua morte hoje temos um Cirurgião competente para servir aos seres humanos que dele necessitem. Parabéns pelo artigo.
    Pierre Santos

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