Dürer – MELANCOLIA

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Segundo Vasari, esta obra causou perplexidade no mundo inteiro e, no início do século XX, Heinrich Wölfflin afirmou que ao longo dos séculos a obra teria sido ‘um campo de batalha das interpretações’ ou, no dizer de Philip Sohn, um ‘pântano de interpretações’. (Lages, op. cit., p. 210).

(…) aliança entre geometria e melancolia tem uma longa tradição: aqueles dotados para a geometria são predispostos à melancolia, porque a consciência de uma esfera situada fora de seu alcance faz sofrer àqueles que têm o sentimento da limitação e insuficiência no plano do espírito.” (Matos, 1989, pág. 152)

Esta obra é não só um marco na história da gravura e na história da arte em geral, como também na história específica da representação da melancolia nas artes plástica e na história da melancolia tout court. (Lages, 2004, p. 209).

Melancolia, clássico do Renascimento alemão, é uma das obras simbólicas do artista alemão Albrecht Dürer, toda feita em cobre. Ao observamos os elementos contidos na composição, notamos que, separadamente, cada um tem uma simbologia específica, mas reunidos denotam uma tristeza indefinida, um estado depressivo, um vazio existencial, como se tudo houvesse perdido o sentido. A obra, riquíssima em detalhes, é um complexo objeto de estudo desde aqueles tempos aos dias de hoje.

Nesta composição nós podemos observar como o artista fez uso da geometria, ao misturar imagens religiosas com outras do cotidiano. A pintura apresenta-nos um local em ruínas, tendo como personagem central uma figura alada, provavelmente um anjo, com o rosto apoiado na mão esquerda e o cotovelo na perna. Traz o olhar enraivecido, perdido no nada, e o semblante moldado por visível descontentamento, como só os melancólicos sabem ter. Tem na cabeça uma coroa de louros. Os cabelos em desalinho despencam-se por suas costas e ombros. Na cintura de suas vestes desarrumadas estão penduradas chaves e uma bolsa de dinheiro. Na mão esquerda segura um compasso sobre um livro aberto, como se pretendesse desenhar algo.

Em torno do anjo vários objetos encontram-se espelhados desordenadamente pelo chão: uma esfera, uma pedra multifacetada, pregos, torquês, régua, plaina, serrote, madeira e frascos, entre outros não identificáveis. Dependurados num minarete, atrás do anjo, estão: uma balança, uma ampulheta com a areia pela metade, uma escada, um sino e uma tabuleta com números (quadrado mágico). À direita do anjo grande encontra-se um triste anjinho sentado sobre uma roda de moinho, com um livro no colo, perdido em seus devaneios, e um cão enrodilhado. Até o rosto do animalzinho é triste.

À direita do anjo, ao fundo, um semicírculo, representando o arco-íris, tem dentro o sol que emite fachos de luz nas diversas direções. Abaixo, nota-se o oceano e uma vila. Pelos reflexos vistos nas vestes do lado esquerdo do anjo e em outros elementos presentes na composição presume-se que outra fonte de luz entra pela esquerda da cena. Dentro do semicírculo, um cartaz é segurado por um animal não identificado, onde está escrita a palavra que dá nome à composição: Melancolia I.

Esta obra de Albrcht Dürer vem sendo elemento de muitas interpretações ao longo dos anos. Dentre essas, a mais aceita é a de Walter Benjamin que a considera um ícone de nossos tempos, pois vivemos sob a ditadura do número, do peso e da medida, desprovidos do encantamento de um mundo divinizado que foi desaparecendo após o Renascimento.

“No deserto da evidência técnica e da grandeza, ela torna visível a angústia do homem privado da evidência do divino, prisioneiro do real que ele domina pela ‘geometresse’ da natureza por meio de uma ciência abstrata. A tragédia da perda da harmonia com o cosmo, a tragédia do afastamento e da distância divina – aprofundada e acentuada pela opacidade da matéria corpórea – deixa na melancolia uma marca ineludível; encontra na ‘patologia’ atrabiliar um resíduo ameaçador e resistente” (BENJAMIN, apud Matos, 1993, p. 84)

Curiosidades:

• O numeral romano “I”, após o título gravado, sugere que Dürer tinha em mente projetar e executar uma série de quatro gravuras de cobre, ilustrando os quatro temperamentos: melancólico, fleumático, colérico, e otimista, pensam alguns.

• Sugestões de que uma série de gravuras sobre o assunto foi planejado geralmente não são aceitos por outros. Parece-lhes mais provável que o “I” refere-se ao primeiro dos três tipos de melancolia definidos pelo escritor humanista alemão Cornelius Agrippa. Neste tipo — Melencholia Imaginativa — os artistas ficam sujeitos à “imaginação”, predominante sobre a “mente” ou “razão”.

• Os “Quatro Temperamentos” foram conectados imediatamente com os quatro humores do corpo (bile negra, fleuma, bile amarela, sangue). Um pouco mais remotamente eles estavam conectados com os quatro cores marcantes que indicavam os estágios da alquimia (preto, branco, citrino, vermelho).

• A escada de sete degraus é outra característica comum do simbolismo alquímico. Os degraus representam os sete metais, as operações da alquimia e os organismos associados celestes.

• Na Renascença o cão deitado aos pés do dono era considerado um símbolo de resistência e de coragem, mas também um símbolo de perseverança e dedicação.

• No passado, a melancolia era associada à inteligência. Michelangelo, o artista da capela Sistina, escreveu: “a minha alegria é a melancolia”. Escultor, naturalmente largo de corpo por via do ofício, trabalhador compulsivo, o florentino era dado a estados de alma.

• A data de 1514 é exibida na linha inferior do quadro mágico assim como acima do monograma de Dürer na parte inferior direita.

• Observem que a tabuleta traz o famoso Quadrado Mágico de Dürer. Clique no link para entendê-lo: Dürer – O QUADRADO MÁGICO

Dados técnicos:
Ano: 1514
Tipo: gravura
Dimensões: 24 x 18,8
Localização: Kunsthalle Staatliche, Karlsruhe, Alemanh

Fontes de pesquisa
http://www.recantodasletras.com.br/ensaios/441119
http://www.revistasusp.sibi.usp.br/scielo.php?pid=S1518-95542009000200013&script=sci_arttext

Albrecht Durer’s Melencolia


http://linha-dos-nodos.blogspot.com.br/2005/10/melancolia-ou-alegoria-do-gnio-eprimid.html

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Mestres da Pintura – ALBRECHT DÜRER

Autoria deLu Dias Carvalho

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Albrecht Dürer foi o artista alemão mais significativo do Renascimento. Sua arte foi influente por toda a Europa, durante e após a sua existência. Dürer foi um pintor renomado e um dos maiores gravadores da arte ocidental. Ele elevou a xilografia e a gravura a novos patamares de expressão artística, e foi o primeiro artista importante a fazer experimentos com água-forte. Suas imagens pintadas ou gravadas inspiram os artistas europeus há séculos. (David Gariff)

O pintor é o senhor de todos os tipos de pessoas e de todas as coisas. Se ele quer vales, se ele quer de montanhas altas para desdobrar uma grande planície estendendo-se ao longo do horizonte do mar, ele é o senhor para fazê-lo. Na verdade, o que existe no universo, em essência, na aparência, na imaginação, o pintor tem primeiro em sua mente e depois na mão. (Albrecht Dürer)

O vasto interesse de Dürer por perspectiva, medida e proporção, ampliado por seu desejo de compreender todos os aspectos do mundo natural, outorgou-lhe uma reputação equivalente à de Leonardo na Itália. (David Gariff)

 Albrecht Dürer (1471 – 1528) foi o primeiro artista alemão a se preocupar com o real, ou seja, com o homem e a natureza, usando o método científico que tinha por base a observação e a pesquisa. Foi gravador, ilustrador, cientista, desenhista e pintor. Foi responsável por trazer o Renascimento para a Alemanha.

O pintor alemão, embora fosse um homem muito religioso, que pendia para o misticismo, era dono de uma curiosidade ilimitada. Procurava compreender a aparência de todas as coisas perceptíveis através dos sentidos. Estava sempre em busca do novo. Era filho de um renomado mestre ourives que veio da Hungria, instalando-se na cidade alemã de Nuremberg. A profissão do pai foi muito importante para que Dürer se enveredasse pelo caminho da arte, pois, naquela época, os ourives encontravam-se entre os mais importantes artesãos. Seus estúdios serviam de encontro para intelectuais e endinheirados.

Ainda menino, o artista já mostrava um grande talento pelo desenho, de modo que, aos 13 anos, fez o seu primeiro autorretrato e, dois anos depois, foi trabalhar como aprendiz do pintor Michael Wolgemut que possuía a maior oficina de altares e ilustrações xilográficas, ficando com ele durante quatro anos. Com o mestre aprendeu a trabalhar nos painéis dos grandes altares e a dominar com esmero as técnicas da pintura. A ilustração de livros e gravuras em geral foi outro campo das atividades de Dürer.

Depois de concluir seu aprendizado, o artista passou a viajar para ampliar seus horizontes. Esteve em Basileia, Suíça, grande centro humanista e produtor livreiro, onde executou xilogravuras para livros. A seguir, rumou para o norte da Itália, onde fez muitas aquarelas e estudou as obras de Andrea Mantegna e manteve contato com Giovanni Bellini. Ao regressar a Nuremberg, abriu a sua própria oficina, sendo que sua fama já se espalhava para além das fronteiras alemãs. Aos 50 anos visitou os Países Baixos, onde foi recebido como um fidalgo.

Albrecht Dürer casou-se aos 23 anos com a rica burguesa Agnes Frey, sendo o casório arranjado pela família do artista, sem ter antes o seu assentimento. Relatos indicam que o casal não teve filhos e que Dürer foi infeliz pelo fato de sua esposa ignorar o seu gênio artístico, chateada com a atenção que as pessoas dedicavam-lhe.

Entre as primeiras grandes obras de Dürer encontra-se uma série de xilogravuras para ilustrar o Apocalipse de São João, que mostra visões aterradoras do Juízo Final. Tais gravuras fizeram muito sucesso à época. O artista, como seu público, acreditava piamente nos eventos apocalípticos narrados pelo evangelista, achando que esses aconteceriam ainda durante a sua vida.

A fama de Dürer permitiu que ele se tornasse o artista oficial da corte dos imperadores Maximiniano I e Carlos V, do Sacro Império Romano, trazendo-lhe mais reconhecimento e dinheiro.

Albrecht Dürer dedicou seus últimos anos de vida a escrever sobre suas teorias e práticas, como um legado aos artistas que vieram depois dele, o que contribuiu ainda mais para elevar o seu prestígio. Ele foi um reformador e um inovador da arte alemã. Dürer acreditava que as obras mais simples de um pintor podem ser tão valorizadas quanto suas criações mais ambiciosas. Dizia que “um artista inteligente, habilidoso pode mostrar seus poderes e sua arte de forma mais clara em uma coisa pequena do que muitos homens em um trabalho grande.” Morreu aos 57 anos.

São considerados os quatro melhores trabalhos de Dürer: Adão e Eva (1507), Virgem com Íris (1508), A Ascensão da Virgem (1509) e Adoração da Trindade por todos os Santos (1511).

Observação:
Xilogravura é a técnica de gravura na qual se utiliza madeira como matriz e possibilita a reprodução da imagem gravada sobre papel ou outro suporte adequado. É um processo muito parecido com um carimbo.

Nota: Autorretrato, o artista é retratado aos 26 anos.

Ficha técnica:
Data: 1498
Técnica: Óleo sobre madeira
Dimensões: 52 x 41 cm
Localização: Museo del Prado, Madrid

Fontes de pesquisa:
A história da arte/ E.H. Gombrich
Os pintores mais influentes do mundo/ Editora Girassol
Tudo sobre a Arte/ Editora Sextante

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A ARTE CRISTÃ MEDIEVAL (1ª Parte)

Autoria do Prof. Pierre Santos

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Estamos iniciando as postagens sobre o medievalismo cristão e, para esta primeira investida, nada mais justo do que delimitarmos no tempo, período a período, o desenvolvimento das contribuições dadas ao mundo pelo Cristianismo, em seus cinco períodos bem específicos, concretizados nas artes: Catacumbária, de Libertação do culto, Bizantina, Românica e Gótica.

Arte Paleocristã ou Cristã Antiga (primeiro período) — que se deu do séc. I ao V, em duas fases distintas:

• a Catacumbária, do séc. I ao III, enquanto ainda perdurou a perseguição do Cristianismo pelo Estado Romano, a qual, seu nome já o diz, foi de manifestação subterrânea e não apresenta nenhum desenvolvimento arquitetônico, embora haja criado lindos e comoventes cubículos e arcossólios no mais profundo das catacumbas, nos quais pequenos grupos de pessoas se reuniam para fazer suas preces;

• a de Libertação, que, por falta de tradição arquitetônica ainda, sem ter algum estilo próprio em que se apoiar, buscou seu modelo na Basílica Civil Romana e, como esta, sua solução arquitetônica baseia-se na neutralização de peso e sustentação, adaptando suas feições às necessidades do novo culto. Adotou a planta em cruz latina, de três e às vezes de cinco naves, cobertura plana de madeiramento e decoração em afresco (mais usada) e mosaico.

Arte Bizantina (segundo período) – séculos IV ao XV, tirou seu nome de batismo do nome da cidade onde se instalou, Bizâncio, à qual o Imperador Constantino, logo que se transferiu para lá, deu à cidade o nome de Constantinopla. Esta arte se desenvolveu ao longo de cinco fases:

Período Pré-Bizantino (primeira fase) – de 330, com a mudança da Capital de Roma para lá, até 527, quando teve início o reinado de Justiniano.
Primeira Idade de Ouro (segunda fase) – do séc. VI ao VIII, teve início no reinado de Justiniano, o modernizador de Constantinopla.
• A Fase Iconoclasta (terceira fase) – durante os séc. VIII e IX, quando se deu a proibição do uso de imagens.
• A Segunda Idade de Ouro (quarta fase) – ocupou os séc. IX ao XII, quando se deu a liberação do uso de imagens.
• O Período de Decadência (quinta fase) – que vem do séc. XIII ao XV, ao longo dos quais o estilo paulatinamente perdeu o seu elã, até que, no ano de 1453, os turcos tomam Constantinopla, onde se instalam e dão-lhe o nome de Istambul, deste modo determinando o fim do Império Bizantino.

Características arquitetônicas da Arte Bizantina:
planta em cruz grega, ou seja, de braços equilaterais, cúpula sobre perchinas ou pendentes, com articulação entre o quadrado e o círculo e decoração quase sempre em mosaico, muito raramente em afresco. Não estranhem os nossos leitores em face da especificidade desses nomes todos, pois tudo isto se explicará quando se tratar de cada uma dessas artes.

Arte Românica (terceiro período) – estendeu-se do séc. IX ao XII, ao longo de três fases:

• a de Formação (primeira fase) – acontecida nos séc. IX e X, quando o contexto europeu se viu sujeito a múltiplas influências estilísticas advindas de inúmeras invasões bárbaras acontecidas nas mais variadas regiões;
• a de Expansão (segunda fase) – no séc. XI, quando se definiu o estilo e a Europa cobriu-se de igrejas românicas.
• a de Superação (terceira fase) – que se estendeu até a metade do séc. XII, quando ao Românico foram sendo acrescentados tantos recursos novos, que modificaram a feição do templo e o estilo, assim, evoluiu para o seguinte, que é o Gótico.

A arquitetura Românica retomou a planta em cruz latina, que melhor se presta à articulação do templo, principalmente no período das peregrinações, quando as unidades arquitetônicas da igreja e dos mosteiros tinham que ser o necessariamente amplas, para abrigar os fiéis. Adotou a abóbada de plena Cintra (meia circunferência) cobrindo toda a nave e aumentando a altura do templo. Criou ainda o retábulo, o transepto em plano mais alto para melhor localização e comodidade das irmandades religiosas durante os cultos, a torre lanterna no cruzamento do transepto com a nave, em substituição à cúpula bizantina, para melhor iluminação, e o deambulatório para instalação de várias capelas radiais em torno da abside e atrás do retábulo, cada uma delas dedicada a um determinado santo, onde os peregrinos em suas deslocações constantes podiam encontrar os santos de sua devoção. A decoração das igrejas românicas era feita, grosso modo, em afresco.

Arte Gótica (quarto e último período, com o qual se esgota o medievalismo) – desenvolveu-se do século XII ao XVI, a saber que, quando o Renascimento já ia a pleno vapor em alguns países, o goticismo ainda se arrastava retardatariamente em muitos outros, e também teve cinco fases:

1ª – Gótico Primitivo, ou seja, a de transição entre os estilos, porquanto o Gótico foi a evolução e aperfeiçoamento do estilo anterior, acontecendo ao longo do séc. XII. Definido o estilo, seus arquitetos se deram ao objeto de aperfeiçoá-lo e enriquecê-lo em sua decoração.
2ª – Gótico Lanceolado, no séc. XIII, nome tirado desse elemento decorativo.
3ª – Gótico Irradiante, no séc. XIV.
4ª- Gótico Flamejante ou então Flamboyant, como também é chamado, tendo se desenvolvido no séc. XV.
5ª – Gótico Manuelino, no séc. XVI.

O Gótico manteve a planta de cruz latina, com abóbada quadripartite ou sixpartite com cruzamento de ogivas e arestas, manutenção do transepto e, algumas vezes, da torre lanterna, verticalismo, emprego do arco ogival ou quebrado, criação do arcobotante, gárgulas terminais para escoamento pluvial e decoração em vitral, pois as paredes perderam a função de sustentação, sendo apenas de vedação e puderam ser substituídas pelo vitral.

Ilustração
1. Cubículo da Fractio Panis, séc. II, Catacumba de Santa Priscila
2.Nave e abside da Basílica de Santa Sabina de Aventino, séc. V, Roma
3.Nave e abside da Igreja de Santa Sofia, séc. VI, Constantinopla
4. Ruínas do Mosteiro de Sant Pere de Rodes, séc. XI, Port de la Selva
5. Nave lateral da Catedral de Bourges, séc. XVI, França

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COMO ANALISO MONET

Autoria do Prof. Pierre Santos

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Ao mirar a pintura, O Terraço em Sainte-Adresse, como de resto os demais quadros de Monet, tenho a impressão de estar vendo a própria vida fluir ante meus olhos. Ora, a vida flui em qualquer lugar e este é tão somente mero anteparo para que ela flua. Assim, não é a realidade que importa, e sim, os patentes sinais da vida a qual ali tem seu lugar, ou seja, que ali acontece. A realidade é sempre passiva, enquanto a vida é a energia que lhe dá sentido e substância. Para o academicismo, é a realidade que importa e somente ela, o mais fotográfico que se possa ser, sem nenhuma interpretação, sem emoção – praga esta, sufocada em equívocos, que continua a grassar no mundo hodierno…

A fotografia é uma espécie de natureza morta, enquanto a energia vital é a natureza viva – e foi esta que o nosso pintor captou. Eis porque seu quadro nunca é uma fotografia, coisa tão pobre, que tanto encantava e ainda encanta acadêmicos. A pintura fotográfica é pintura acadêmica, e o que Monet mais queria era fugir do academicismo. O que ele queria – e, para consegui-lo, teve até que desenvolver uma técnica para tanto própria – era captar a luz da maneira a mais natural que lhe fosse possível. Se a cor é tão somente uma ilusão de ótica derivada da junção da luz solar com a superfície de cada coisa existente, que é feita de pigmentos sensíveis a esta ou àquela tonalidade, e se os raios solares têm em si as três cores puras ou primárias, de cuja mistura as cores secundárias ou binárias derivam, Monet queria, justapondo aquelas, que as cores se fizessem no quadro da mesma forma como se fazem na realidade. Só que os olhos privilegiados de Monet e sua fantástica destreza manual no manuseio dos pincéis foram além desde objetivo, captando a luz em sua integridade e, mais longe ainda, captando a vida.

Nesta ânsia de assim apreender as cores, acabou descobrindo que tudo quanto recebe em si a luz solar, vai mudando, da manhã à noite, de cor, de conformidade com a posição assumida pelos raios solares, na sua transição celeste e na transição natural da vida. Foi essa mudança que ele quis transmitir, quando pintou as suas famosas catedrais.

Há tanta vida nesse pedaço de mundo captado por Monet, que é impossível para esse seu Terraço aí ter um espectador, porque qualquer pessoa que o olhe, de repente é envolvida e se torna participante. Na verdade, porque Monet pegou esse pedaço de realidade e o fixou aí nesse quadro, a energia daquele momento continua aí a funcionar ante nossos olhos atônitos e de tudo que está naquele átimo de tempo, absolutamente atual e espontâneo, sentimo-nos partícipes, muito embora a pintura já seja centenária. E é precisamente nesse jogo de tempo, no transcorrer do qual os acontecimentos se enlaçam, que vamos descobrir o sortilégio dos impressionistas numa paleta que brinca com a realidade e a emoção. Monet era um mágico.

Como, afinal, conseguiu Monet todos esses efeitos em O Terraço em Sainte-Adresse? Simplesmente, levando todos os elementos composicionais, que aí aparecem, a conglomerar-se na dinâmica de sua distribuição, na qual nada deve pesar mais do que deve, sob pena de comprometer o equilíbrio. Nesta matéria, o artista era um mestre consumado. Os recursos aí presentes são óbvios e repletos de naturalidade.

• Para começar, os três tufos à esquerda, com seus pendões e as duas cadeiras da esquerda, compõem com as duas cadeiras e o galho de flores vermelhas em forma de V da direita um arco bem visível, que parece avançar, tal se quisesse abraçar o infinito.

• Por outro lado, é muito importante nesta dinâmica o espaço continente do velho de chapéu panamá, que sói ser o próprio pai do pintor, com a cadeira onde está sentado, pois põe em destaque a base do pé traseiro esquerdo dessa cadeira, que é o ponto rotatório das linhas de força, que formam um leque aberto para a profundidade, como se quisesse envolvê-la na sua expectativa de moção.

• É fácil descobrir aí os elementos componentes desse leque: os tufos com as cadeiras da esquerda formam a parte inicial do leque; o vermelho da bandeira de duas cores, o parquinho de dominância preta, a sombrinha da jovem e a da velha formam o segundo elemento; o velho, o portão acima dele e a bandeira francesa formam o terceiro elemento.

• E, finalmente, as duas cadeiras da direita com as flores em V completam o leque. Estes dados são tão claros e óbvios, que não posso crer não tenha Monet disposto tais formas de propósito e o leque fosse apenas coincidência ou então fruto dos inconscientes ritmos internos do artista…

• Finalmente, se estamos participando do quadro, com presença mesmo, de uma posição logo abaixo do ponto rotatório, chegamos a ter vontade de olhar para trás e cumprimentar Claude Monet, que, virtualmente, deve continuar ali por toda a eternidade (como ante todos os quadros que fez, enquanto viveu), pintando com dedicação e entrega este belíssimo quadro. Isso é pura magia!

Regata em Argenteuil incomoda-me um pouco, porque o lado esquerdo, onde estão os barcos, ao contracenar com o outro lado, onde estão a margem e as construções, perde força, porque o lado direito em vermelho alaranjado nas casas, anormalmente muito aquecido, tem um peso muito maior, em decorrência do que os barcos amarelos, cuja cor, embora seja também quente, é menos do que a outra, alijam-se neste contraste e, perdendo lastro, parece que vão levitar como os pássaros – cuja sensação, está claro, é antinatural. Apesar disso, que coisa encantadora e hipnotizante é esse tremeluzir das ondas, que parece embalar-nos! Assim é Monet: mesmo num dia em que não está lá com essa inspiração e paciência, consegue encantar-nos.

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Filme – DISQUE M PARA MATAR

Autoria de Lu Dias Carvalho

disqu   disqua

Você acredita que existe o crime perfeito?
Disque M Para Matar traz um crime quase que perfeito, se…

Disque M para Matar (1954) é o 39º longa-metragem do grande mestre Alfred Hithcock, criador do gênero suspense, com seus elementos sombrios e sua atmosfera de mistério. O texto é do autor inglês Frederick Knott, que já fora encenado nos palcos londrinos e depois em Nova York. O mesmo autor adaptou a peça para o cinema. O filme foi rodado utilizando uma tecnologia desenvolvida pela Polaroid, que criava a ilusão de tridimensionalidade, o chamado 3D (são usadas duas câmaras, uma ao lado da outra). Quase toda a ação se passa em um único local, que é a sala de jantar da casa de Tony Wendice (Ray Milland) e Margot (Grace Kelly), sendo a troca de chaves o ponto x para o inspetor Hubbard (John Williams).

No filme, um ex-tenista profissional chantageia um antigo colega para que esse mate sua mulher rica e infiel, para que ele possa ficar com a herança. A trama envolve o espectador do princípio ao fim.

Alfred Hithcock, diretor de Disque M Para Matar, possui uma filmografia de filmes instigantes que ao mesmo tempo nos deixa com os nervos à flor da pele, mas não permite que nos desgrudemos da tela. Carregava um hábito que punha todos à sua procura: fazer aparições relâmpagos em seus filmes, deixando as pessoas curiosas para descobrir a sua figura roliça muito famosa. Dizem que esse hábito de fazer pontas nos próprios filmes começou com O Inquilino. Em Disque M para Matar ele aparece na foto que Tony Wendice (Ray Milland) mostra a Swan (Anthony Dawson), o homem contratado para matar Margot (Grace Kelly). Ele está sentado à mesa, com os outros participantes do jantar, olhando para a câmara.

Hithcock não admitia que os magnatas dos estúdios de Hollywood dessem palpites em suas obras, por isso fechava contratos com cláusulas que lhe davam a inteira liberdade de rodar seus filmes como quisesse. O que contava para ele era a reação do público.

Durante muito tempo, a crítica dos Estados Unidos não levou o diretor inglês a sério, considerando-o um diretor menor, autor de filmes ligeiros e vazios, dizendo que ele não iria muito longe. A sua genialidade foi mostrada pelos críticos e futuros cineastas da revista francesa Cahiers Du Cinéma, que o elogiavam, dizendo que o diretor tinha atingido a meta de alcançar o cinema puro:

“Hithcock é um dos maiores inventores de forma de toda a história do cinema. No caso dele, a forma não enfeita o conteúdo: ela o cria.”

Com o prestígio alcançado pelo grande mestre do suspense na França, os críticos estadunidenses reavaliaram os seus conceitos quanto ao grande cineasta. Contudo, ele jamais recebeu um Oscar em toda a sua carreira, embora tenha sido laureado com muitos outros prêmios e indicado para o Oscar de melhor diretor pelos filmes: Psicose, Janela Indiscreta, Quando Fala o Coração, Um Barco e Nove Destinos e Rebecca, a Mulher Inesquecível. Este último ganhou o Oscar de Melhor Filme do ano (1941), mas o prêmio foi apenas para os produtores, ficando Hith (apelido) apenas com a indicação de melhor diretor.

“O único modo de me livrar de meus medos é fazer filmes sobre eles.” (A. Hithcock)

“Hollywood é uma cidade sem piedade. Não conheço nenhum outro lugar no mundo com tantos alcoólatras, neuróticos e tanta infelicidade.” (Grace Kelly)

Curiosidades:

  • As filmagens de Disque M Para Matar foram completadas em 36 dias.
  • Quando o filme ficou pronto, a técnica tridimensional já tinha caído em desuso, de modo que ele foi exibido em quase toda parte da forma tradicional.
  • Hithcock dizia que rodaria “de bom grado” um filme inteiro numa cabine telefônica. Muitos de seus filmes têm a ação concentrada num só ambiente.
  • Grace Kelly era a atriz preferida do mestre do suspense, atuando, também, em Janela Indiscreta e Ladrões de Casaca.
  • Foi o terceiro filme a cores do Hitchcock e o primeiro filme do diretor estrelado por Grace Kelly, sua eterna musa.
  • Vários diretores tentaram imitar o mestre do suspense: François Truffaut, Mel Brooks, Roman Polanski, etc.
  • Ele se naturalizou americano em 1956. Morreu em 1980.
  • Seu diretor favorito era Luis Buñuel e seu filme preferido era A Morte Cansada do diretor Fritz Lang.
  • Dial M for Murder teve duas refilmagens, uma com o mesmo título para a televisão, em 1981, e outra em 1998, intitulada Um crime perfeito, dirigido por Andrew Davis e com Michael Douglas, Gwyneth Paltrow e Viggo Mortensen nos principais papéis.

Cenas imperdíveis:

• Na abertura do filme, é possível ver um disco de telefone e um dedo. Foi produzido um telefone e um dedo gigantescos, para fazer a cena do toque do telefone.

• A exposição da história acontece em menos de um minuto: o diretor mostra o casal em seu apartamento, Margot lê a notícia da chegada do amante a Londres. Ele desembarca, chega ao apartamento e a beija.

• Margot veste branco em sua primeira aparição, mas usa vermelho ao se encontrar com o amante.

• As roupas de Margot vão perdendo as cores, conforme o filme avança, chegando ao final em tons cinza-escuro, aumentando a dramaticidade.

• A cena em que Tony dá a tesoura a Margot antes de sair com Mark.

• A mão de Margot estendida pedida socorro.

• Na cena em que luta pela própria vida, Margot estica a mão em direção à câmara e agarra a tesoura. Hithcock fez isso para aproveitar o efeito de profundidade permitido pelo 3D. Tal cena levou quase uma semana para ser filmada.

• A transformação de Margot ao longo do filme: no início mostra-se altiva e feliz até chegar a uma mulher infeliz e totalmente arrasada.

• Aos 54 minutos de filme, há um pequeno intervalo – consequência da filmagem em 3D, pois quando um rolo de filme acabava, era preciso parar a projeção para a troca dos rolos.

• A chave encontrada pelo inspetor é mostrada de maneira a acentuar o efeito 3D.

• Na época (1954) eram comuns os filmes adaptados para serem vistos em cinemas 3D, é por isso que existem no filme cenas ressaltando objetos.

• O personagem do inspetor é um dos raros policiais simpáticos dos filmes de Hithcock que, assumidamente, tinha medo de polícia.

Sinopse

Em Londres vivem Margot (Grace Kelly) e seu marido, o ex-jogador de tênis Tony Wendice (Ray Milland). Tudo está transcorrendo bem, até que ela lê no jornal a notícia da chegada do escritor americano de novelas policiais, Mark Halliday (Robert Cummings). Ela e Mark tiveram um caso um ano antes.

Após a chegada do escritor, ele visita Margot em seu apartamento, porque ela quer apresentá-lo ao marido. Na oportunidade, aproveita para colocar um ponto final na relação, alegando que no período em que ficaram ausentes um do outro, o marido sofrera uma grande mudança comportamental. Além de ter desistido do tênis, ainda se tornara um companheiro gentil e amoroso. Gostaria de apresentá-lo a Tony como um velho amigo.

Margot conta a Mark que dera um final a todas as cartas que recebera dele, com exceção de uma, que deixara guardada dentro de sua bolsa. Mas sua bolsa havia sumido e, ao encontrá-la, já não continha mais a carta. E, mais tarde, alguém lhe escreveu dizendo que estava com a carta que comprometia seu casamento. A pessoa exigiu 50 libras para devolvê-la, mas acabou não lhe entregando a correspondência comprometedora.

Após apresentar o ex-amante ao marido, o segundo fez tudo para que os dois saíssem sozinhos para jantar. Nesse ínterim, Tony contrata um ex-colega para matar a sua mulher, rolando uma trama complicadíssima, pois as coisas não acontecem conforme o combinado. Margot acaba matando o homem encarregado de assassiná-la e Tony tenta, disfarçadamente, criar todas as condições possíveis para que ela seja acusada de assassinato, optando por um plano B. Na verdade, ele tem conhecimento do relacionamento de Margot com Mark, mas finge ignorância e mantém a relação apenas pelo dinheiro. Se a mulher for condenada por assassinato ele será duplamente recompensado: terá a fortuna e vingará a traição. É aí que entra o sábio inspetor Hubbard (John Williams) e o intricado teste das chaves.

Fontes de Pesquisa:
Cinemateca Veja
Wikipédia

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Filme – COMO ROUBAR UM MILHÃO DE DÓLARES

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Um filme é 80% roteiro e 20% grandes atores. Mais nada. (William Wyler)

A história de Como Roubar um Milhão de Dólares (1966) acontece na artística Paris, quando uma tela atribuída ao pintor impressionista francês Paul Cézanne, e pertencente à coleção do milionário Charles Bonnet (Hugh Griffith), atinge um altíssimo preço em um leilão, deixando seu dono radiante com a venda. Contudo, sua filha Nicole (Audrey Hepburn) ao ouvir a notícia através do rádio de seu carro, fica visivelmente preocupada, pois conhece o pai melhor do que ninguém.

Ao chegar à sua casa, Nicole procura pelo pai em seu ateliê, depois de atravessar uma porta que fica no fundo de um guarda-roupa. É ali, naquele lugar secreto e bem guardado no alto de sua bela mansão que o vaidoso e excêntrico Sr. Bonnet faz imitações de quadros de pintores famosos e antigos. No momento em que a filha entra, o espertalhão está colocando a assinatura de Vincent van Gogh num tela pintada por ele. E não apenas ignora as advertências da filhota, como se gaba de sua arte e de suas vendas milionárias.

Filha e pai conversam sobre a “arte” e o perigo da falsificação, quando um cortejo de carros chega à mansão. Nicole apavora-se com a possibilidade de que o pai tenha sido descoberto em sua farsa e que a polícia esteja ali para buscá-lo. Mas o velho Bonnet logo lhe esclarece que se trata de uma escolta que veio buscar a sua Vênus, esculpida pelo grande mestre renascentista Benvenuto Cellini, e levá-la para o Museu Kléber-Lafayette, onde figurará como a principal peça da exposição da mostra Obras-Primas de Coleções Francesas, sendo a peça mais valiosa da exposição.

Na noite da abertura do evento, Nicole opta por ficar em casa, até porque não compactua com a ambição e exposição desmedia do pai. Encontra-se deitada, lendo um exemplar de Alfred Hitchcock`s Magazine, quando ouve um barulho vindo da sala. Ao perceber que se trata de um ladrão, tira uma das armas antigas da coleção do pai e flagra Simon Dermott (Peter O`toole) mexendo no Van Gogh de seu pai. Depois de um breve diálogo com o tal sujeito e da tentativa de chamar a polícia, a arma acaba disparando acidentalmente e ferindo o moço. Aturdida, Nicole cuida de seu ferimento e é convencida a levá-lo ao hotel, onde ele se encontra, já que não consegue dirigir. Ela coloca um casaco sobre a camisola e o leva no carro dele até o local pedido que, para sua surpresa, trata-se do hotel mais sofisticado da cidade. Para voltar, ele chama um táxi para ela, paga e lhe dá um beijo de despedida.

O fato é que Nicole com toda a sua meiguice e graciosidade é desejada não só pelo ladrão esbelto e atraente, como pelo milionário norte-americano Davis Leland (Eli Wallach) que, num primeiro momento, aproxima-se dela, apenas para ficar perto da cobiçada e venerada Vênus de Cellini, mas depois, acaba se encantando com a garota, a ponto de lhe dar um espalhafatoso anel de noivado, sem que ela o deseje.

Mas, como tudo na vida flui e nunca se sabe que rumo as coisas tomam, Bonnet acaba assinando uma apólice de seguro de sua Vênus emprestada ao museu, sem saber que uma das formalidades da seguradora é fazer um exame da obra, para confirmar a sua autenticidade. Quando descobre o fato, a casa cai. O pai falsificador aceita o dissabor e as consequências que virão, mas Nicole entra em desespero, até que um insight traz-lhe a solução: roubar a superprotegida Vênus de Cellini, que na verdade fora feita por seu avô, tendo sua avó como modelo. A estatueta encontra-se extremamente vigiada, mas não existe alternativa. Então, só lhe resta pedir ajuda ao único ladrão tarimbado que conhece: Simon Dermott. Quem vir o filme rirá muito e verá como os dois se sairão. Além de conhecer uma Paris tranquila e linda daquela época.

O diretor alemão, William Wyler, foi um dos grandes nomes do cinema, sendo indicado 12 vezes ao Oscar, um recorde na história do cinema, e levado três pelos filmes: Rosa de Esperança, Os Melhores Anos de Nossas Vidas e Ben-Hur. O último chegou a conquistar 11 prêmios, sendo um dos filmes mais premiados da história. Coincidentemente, os filmes acima também ganharam o Oscar de melhor filme. O diretor trabalhou desde o cinema mudo até os anos de 1970. Era um perfeccionista. Repetia uma cena incontáveis vezes, até ficar plenamente satisfeito com o resultado. Morreu aos 74 anos.

Audrey Hepburn

Nasci com uma enorme necessidade de receber e dar afeto. (A. Hepburn)

Normalmente não falo sobre o elenco dos filmes que comento, mas não poderia deixar de falar sobre essa gracinha chamada Audrey Hepburn, que ainda continua encantando uma legião de fãs, apesar de ter morrido aos 63 anos de câncer abdominal (1992). Ela disse certa vez: Nunca pensei que me tornaria modelo fotográfico com um rosto como o meu. E nós nos espantamos com o seu espanto.

Audrey nasceu em Bruxelas, na Bélgica. Estudou num colégio interno na Inglaterra após o divórcio dos pais. Mudou depois com a mãe e os irmãos para a Holanda, com medo da guerra. Mesmo sendo neutra, a Holanda foi invadida pela Alemanha e a família começou a passar dificuldades. Edda, nome usado para despistar os nazistas, em razão de seu nome inglês, pois havia perdido muitos parentes na Resistência, apresentava-se como bailarina em eventos secretos, que tinham por finalidade angariar fundos para resistir à ocupação. Ela também trabalhou como voluntária num hospital, tratando dos feridos da guerra. Sem comida, sua mãe, como muitas outras, chegou a usar bulbos de papoula para fazer farinha.

Quando a guerra acabou, a família voltou para Londres e Audrey continuou com suas aulas de balé e começou a fazer interpretação. Depois foi ser modelo fotográfica, mas almejava ser atriz, e ganhar melhor para ajudar a família. A seguir começou a fazer peças no teatro e pontas no cinema. Premiada por sua interpretação de Gigi, no teatro, foi convidada para fazer um teste para A Princesa e o Plebeu. O diretor William Wyler (o mesmo do filme comentado acima) ficou encantado com ela e confessou: Ela tinha tudo o que eu procurava: charme, inocência e talento. E era muito engraçada também. Além de absolutamente encantadora. E Gregory Pack, astro do filme, exigiu que seu nome tivesse o mesmo tamanho do dele, tamanho foi seu encanto por ela. Ganhou o Oscar de melhor atriz por sua atuação no mesmo filme.

Audrey casou-se com o ator Mel Ferrer, seu par em Ondine. A seguir fez Sabrina. Em pouco tempo tornou-se uma das atrizes mais queridas de Hollywood e uma referência no mundo da moda por sua extrema elegância. Foi indicada ao Oscar quatro vezes. E, com Bonequinha de Luxo transformou-se num ícone do cinema. Outro grande sucesso foi Um Clarão nas Trevas. Teve um filho com Ferrer e se divorciou, casando-se depois com um psiquiatra italiano, quando teve o segundo filho. Seu último filme foi Além da Eternidade (Spielberg) onde, como participação especial, faz um anjo.

Audrey foi indicada como Embaixadora da Boa Vontade da Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), além de já ter trabalhado para a instituição da ONU. Sua dedicação era absoluta, tendo as viagens facilitadas com a fluência que tinha em línguas (francês, espanhol, italiano, inglês e holandês). Foi premiada com a Medalha Presidencial da Liberdade por seu trabalho na Unicef e, também, recebeu um prêmio humanitário da Academy of Motion Picture, Arts and Sciences. Em 2003 o Serviço Postal norte-americano estampou a sua efígie num selo. Em 2006, um dos seus pretinhos básicos, usados em Bonequinha de Luxo foi arrematado num leilão por 900 mil dólares, quantia que foi doada a uma instituição de caridade na Índia.

A encantadora atriz fez Como Roubar um Milhão de Dólares aos 37 anos, vivendo o papel de uma garota inocente. A idade poderia ter sido um problema, mas a sua interpretação foi tão boa, assim como o entrosamento com o Peter O`Toole, de modo que a idade não teve argumentos, para alegria dos fãs.

Fonte de pesquisa:
Cinemateca Veja

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