Filme – CIDADÃO KANE

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Eu poderia ter sido um grande homem, se não tivesse enriquecido. (Kane)

Fiquei a noite inteira sem dormir depois que vi Cidadão Kane pela primeira vez. (Martin Scorsese)

O filme, Cidadão Kane, rodado em 1941, é um dos milagres do cinema. O que o torna mais surpreendente é que foi feito por um diretor de primeira viagem de apenas 25 anos de idade – Orson Welles, que cresceu com a fama de garoto prodígio, e assim foi no rádio e no teatro que manejava como ninguém. No rádio foi responsável pela inesquecível apresentação de A Guerra dos Mundos, quando pôs os ouvintes em pânico. Welles não fez apenas um filme, mas uma obra-prima, considerada por vários críticos de cinema, como uma das melhores já realizadas em todos os tempos. Uma criação que se situava além de seu tempo, com imensa riqueza de narrativa, originalidade técnica e beleza visual. A ponto de influenciar vários cineastas até os dias de hoje. Ele trouxe para a tela recursos dramáticos e narrativos até então só aplicados ao teatro e ao rádio. Como alguém com apenas 25 anos poderia criar uma obra com essa magnitude

Para fazer Cidadão Kane, Orson Welles inspirou-se na vida do todo poderoso americano William Randolph Hearst, que criou um império de jornais, estações de rádio, agências de notícias, e chegou ao ponto de construir para sua amante um teatro lírico e para si um castelo mobiliado com relíquias das mais variadas partes do planeta, comparado por Welles a Xanadu de Kubla Khan. Seu poder era tamanho, ao manipular tantos meios de comunicação, aliado ao seu personalismo, que chegou a se intrometer nos destinos do país, sem ser presidente, cargo a que aspirava. Varria para longe todo aquele que ousava se colocar em seu caminho. O filme encontrou forte oposição por parte de William Randolph Hearst, pois ele julgava que a obra denegria sua imagem. Provavelmente o garoto diretor não sabia em que casa de marimbondo estava se metendo. Só o tempo diria.

As óbvias comparações entre o personagem principal do filme e sua pessoa, fez com que Hearst movesse meio mundo para impedir que o filme fosse levado a cabo. Não alcançando o seu intento, tentou comprar todas as cópias para queimá-las. Não conseguindo, passou para o ataque sórdido da difamação. O mais interessante nessa briga acirrada é que Orson Welles também possuía traços em comum com o personagem central do filme, pois assim como Hearst, ele se transformou em cidadão do mundo, e conheceu o sabor do poder e da decadência.

Os atores de Cidadão Kane foram tirados do teatro e do rádio, e não possuíam nenhum conhecimento de cinema. O próprio Welles interpreta Kane, o personagem principal, desde os 25 anos até a sua morte. E, como o elenco não era conhecido e não tinha experiência cinematográfica, ele abriu mão dos closes em favor de tomadas longas, favorecendo o jogo teatral dos atores. Recurso que trouxe beleza e fluidez ao filme.

Cidadão Kane foi o filme mais elogiado pela imprensa americana até os dias de hoje. Embora tenha recebido nove indicações para o Oscar, levou apenas uma estatueta, a de melhor roteiro original. Mas, para a maioria dos críticos de cinema em todo o mundo, esta é a melhor obra cinematográfica de todos os tempos, marcando o início do cinema moderno.

O filme começa com um cinejornal falando sobre a morte do cidadão Charles Foster Kane. Faz uma retrospectiva de sua vida: seus pais, negócios, relacionamentos amorosos, suas pretensões políticas, seu império… até chegar ao momento de sua morte, na solidão de seu quarto. Sendo “Rosebud” a última palavra dita pelo magnata, como se ela fosse a senha de algum mistério. Curioso com a última palavra dita por Kane, o editor do cinejornal põe seu repórter Thompson (de quem não se vê o rosto durante todo o filme) em campo, para descobrir o que ela significa. O repórter passa a buscar as pessoas que conviveram com Kane, para desvendar o significado de “Rosebud”. E, ao mesmo tempo, vai levantando passagens da vida do magnata, através do que as pessoas lhe contam. Cada uma delas conhece o personagem sob um prisma diferente. As cenas vão e vêm, de acordo com os fatos contados, sem obedecer a uma ordem cronológica.

O significado de “Rosebud” é encontrado nas últimas cenas, quando estão sendo queimadas as coisas sem valor do magnata morto. Junto com elas se encontra um trenó, igualzinho ao de sua infância, em que se vê a marca “Rosebud”. É como se o homem todo poderosos quisesse voltar aos dias simples e ingênuos de sua infância. Ao sair de sua casa, ainda criança, seu trenó ficou enterrado na neve, numa simbologia de que a melhor parte de si ficara para trás, como se tudo o que veio a ter não tivesse nenhum significado.

Kane nasce pobre, mas sua mãe, dona de uma pensão, recebeu de um hóspede que estava atrasado com o pagamento de suas contas, uma escritura de uma mina de ouro abandonada, que viria a ser a terceira maior do mundo. E daí origina toda a sua riqueza. Ergue um império jornalístico e radiofônico e se casa com a sobrinha de um presidente americano. Concorre a governador, mas não é eleito. Com as frustrações vai se tornando violento, principalmente com as mulheres de sua vida: primeiro com sua esposa e depois com sua amante e, posteriormente, esposa. Morre praticamente sozinho em seu castelo. Há uma parte no filme em que o magnata reconhece que o excesso de dinheiro e poder o destruíra e diz: “Eu poderia ter sido um grande homem se não tivesse enriquecido.”.

O filme Cidadão Kane traz como reflexão a corrupção do poder, a imprensa sensacionalista, a velhice, a solidão e a plutocracia. O mais intrigante é que, 90 anos depois de sua realização, este filme continua tão atual como na época em que foi feito. A mídia continua manipulando as massas, submetidas à força de uma minoria poderosa, que só traz à tona aquilo que a beneficia, mesmo em detrimento da verdade.

A fotografia do filme é sensacional. Foi desenvolvida uma técnica de profundidade de campo, em que o primeiro plano, o plano central e o último ficam todos em foco ao mesmo tempo, permitindo que o olho do espectador se fixe na imagem que escolher. O efeito é fantástico. Os enquadramentos fotográficos são verdadeiras pérolas.

Cenas que devem ser observadas, com atenção, pela sua beleza:

• No peso de papel que Kane tem nas mãos, ele vê reproduzida uma paisagem dos invernos de sua infância.

• As torres de Xanadu.

• Kane discursando num comício.

• O vão da porta de entrada da casa de sua amante fundindo-se com a foto de primeira página no jornal concorrente.

• Os muitos Kanes refletindo em espelhos paralelos.

• O menino brincando na neve, em segundo plano.

Vemos no filme:

• O Kane que manipulava nos bastidores.

• O Kane que escolheu a amante acima do casamento e da carreira política.

• O Kane que divertiu milhões.

• O Kane que morreu na SOLIDÃO.

Em resumo, desde 1962, a mais famosa lista de filmes de todos os tempos, feitos pelos críticos da revista Sight and Sound, coloca Cidadão Kane em primeiro lugar. E em 1998, o American Film Institute o considerou o melhor filme já produzido.

Fontes de pesquisa:
1001 filmes para se …
A Magia do Cinema/ Roger Ebert
Folha conta 100 anos de Cinema
Wikipédia

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Filme – BUTCH CASSIDY

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Acho Butch Cassidy um bom filme. Deu muito trabalho para fazer e foi de fato muito divertido. Se o público não tivesse gostado, simplesmente ficaria louco. (George Roy Gill)

Butch Cassidy me colocou em outro patamar artístico. Era conhecido, tinha feito Descalços no Parque. Mas esse foi o filme que mudou a minha vida. (Robert Redford)

Gostaria de ser lembrado como um cara que tentou ser parte do seu tempo, tentou encontrar alguma decência em sua própria vida, tentou se superar como ser humano (Paul Newman)

Buch Cassidy (1969), filme do diretor norte-americano George Roy Gill é, sem dúvida, um dos filmes mais empolgantes da história do cinema. O roteiro premiado de William Goldman baseia-se na história verdadeira dos fora da lei Butch Cassidy e Sundance Kid que, juntos, fizeram misérias no Velho Oeste americano, assaltando bancos e trens com o seu bando. Embora o filme mostre a dupla como não violenta, existem relatos de muitas mortes que ocorreram durante os assaltos do bando. Contudo, o mais violento da gangue era Harvey “Kid Curry” Logan que, no filme, tem a ousadia de querer roubar a chefia de Butch.

Embora não tenha uma filmografia extensa, o cineasta George Roy Gill é responsável por dois grandes filmes, Butch Cassidy e Golpe de Mestre, que se encontram entre os 40 filmes de maior bilheteria nos EUA em toda a história do cinema. Ele iniciou a sua carreira de diretor aos 40 anos e aos 67 optou por lecionar na Universidade de Yale. Faleceu em 2002 com o agravamento da doença de Parkinson, aos 81 anos.

Para viver os dois principais personagens de Butch Cassidy, George Roy Gill escolheu dois grandes atores, Paul Newman e Robert Redford, que até então não se conheciam, mas que se deram maravilhosamente bem no filme. E, como em time que está ganhando não se mexe, a mesma dupla de atores trabalhou no fenomenal Golpe de Mestre.

O filme Butch Cassidy é divertido e romântico. E, onde se combina talento, roteiro inteligente e original, ação, cenários maravilhosos, música fantástica e trilha sonora de cair o queixo, não se pode esperar outro resultado, que não seja o reconhecimento de quem ama a sétima arte.

A história se passa por volta de 1900 em Wyoming, EUA, quando dois bandidos simpáticos e bonitões, Butch Cassidy (Paul Newman) e Sundance Kid (Robert Redford), que fazem do roubo uma profissão, comandam o grupo marginal apelidado de Buraco na Parede. Embora sejam muito amigos, os dois chefões possuem personalidades bem diversas. Enquanto Butch é falante, amigável, cheio de ideias, brincalhão e nunca matou ninguém, Sundance Kid é taciturno, extremamente concentrado, hábil no manejo do revólver e se encontra permanentemente em alerta.

Ao se dirigirem para o esconderijo do bando, Butch confessa a Sundance que deseja ir para a Bolívia, um país que ele não sabe ao certo, se fica na América do Sul ou na América Central. Assim que chega ao local onde se encontra o restante do grupo, encontra um motim, comandado por Kid Curry (Ted Cassidy), que põe em cheque a sua chefia. Logo ele corta a empáfia dos rebeldes e ainda se apropria da ideia de Kid Curry, que era assaltar o trem na ida e na volta, pois a segurança da ferrovia não esperaria que o trem fosse assaltado na volta.

O bando põe-se à espera do trem. Tudo sai de acordo com o plano. Butch comemora num prostíbulo, enquanto Sundance passa a noite com a professora Etta Place (Katharine Ross), sua amante, aguardando o retorno do trem para um novo assalto. Contudo, não sabem que estão assaltando um comboio de alguém muito importante, que irá contratar um grupo de homens destemidos, sob a liderança de um xerife incorruptível, que tem como objetivo acabar com o bando ou, pelo menos, com a sua chefia, a qualquer preço.

O segundo ataque ao trem é um fiasco. Butch coloca dinamite em demasia e manda o dinheiro pelos ares. Enquanto o bando preocupa-se em recolher a dinheirama que foi espalhada, aproxima-se uma locomotiva. Assim que ela pára, suas portas são abertas e descem vários cavaleiros armados. Os bandidos são perseguidos. Alguns são mortos. Sundance e Butch conseguem escapar, mas são perseguidos implacavelmente. Atravessam cidades, montanhas, desertos, rochedos… Mas os cavaleiros estão sempre ao encalço da dupla. Nenhum tipo de disfarce ou artifício surte efeito. Os perseguidores não arredam pé. Os dois foragidos passam a desconfiar de que um índio, perito em reconhecer pegadas, dirige o grupo. Quando, quase mortos de cansaço, conseguem despistar os perseguidores, resolvem fugir para a Bolívia, onde a história da dupla, agora com mais um membro, a professora, continua.

Como sempre, a crítica posiciona-se na contramão da história. Assim que foi lançado, Butch Cassidy recebeu muitas críticas negativas, mas o sucesso de bilheteria foi estrondoso. O filme está colocado entre as 100 maiores bilheterias de todos os tempos. Foi indicado a sete Oscar, vencendo quatro: melhor fotografia, melhor trilha sonora, melhor música e melhor roteiro adaptado. Também recebeu muitos prêmios da BAFTA e o Globo de Ouro pela melhor trilha sonora.

Butch Cassidy deixa o tradicionalismo dos filmes de faroeste, com heróis durões e imbatíveis que lutam até a morte, para apresentar heróis alegres, piadistas e, muitas vezes, indecisos e amedrontados, que fogem quando sentem que o mar não está bom para peixe. Mas o que fica evidente no filme é a grande amizade e confiança que unem Butch Cassidy e Sundance Kid em todos os momentos, quer sejam bons ou ruins. E é exatamente essa amizade que torna o filme extremamente humano e tocante, a ponto de levar o espectador a torcer pelos bandidos.

Não nasci com nenhum dom natural para fazer qualquer coisa. Não era um atleta, não era um escritor, um diretor, nem sequer um pintor de varandas. Nada veio fácil para mim. Precisei trabalhar duro. (Paul Newman)

Curiosidade:

• O personagem “Sundance Kid” foi primeiramente oferecido (e aceito) ao ator Steve McQueen. Porém, como tanto McQueen quanto Newman estavam no auge de suas carreiras, surgiu o problema de qual nome apareceria primeiro nos créditos do filme, tendo sido proposto que os nomes dos dois aparecessem antes do título do filme, o que daria uma idéia de igualdade. Newman concordou com a idéia, mas McQueen desconfiou que a proposta fosse na verdade um truque, e resolveu desistir do filme e o personagem acabou com Robert Redford.

• Paul Newman só usou dublê na famosa cena da bicicleta, na hora em que o personagem cai contra a cerca.

• A canção do filme, Raindrops Keep Fallin`on My Head, levou o Oscar de melhor música, e a trilha sonora do famoso Burt Bacharach ganhou outro Oscar.

• A produção queria que Bob Dylan cantasse a famosa canção de Burt Bacharach, mas ele não aceitou o convite.

• Ao ver a cena em que Newman experimenta uma bicicleta, Redford não teria gostado, sugerindo que a mesma fosse cortada do filme. A cena, com a música de Burt Bacharach, acabou se tornando uma das mais famosas do cinema.

• As cenas da Bolívia tiveram como cenário o México.

• A irmã do verdadeiro Butch Cassidy acompanhou grande parte da filmagem.

• O bando de Butch, no filme, é chamado de Hole in The Wall (Buraco na Parede), mas o nome verdadeiro era Wild Bunch. A mudança ocorreu em razão de um filme com esse nome (Meu Ódio Será Tua Herança, no Brasil).

• O trio verdadeiro foi para Buenos Aires/ Argentina. Não se sabe ao certo como morreram os dois marginais, mas se tem certeza de que Etta voltou aos EUA.

• A Juventude de Butch Cassidy (1979) é um filme que conta os acontecimentos da vida do protagonista, antes do filme original. Foi indicado ao Oscar de melhor figurino.

Cenas imperdíveis:

• A demonstração que Sundance faz para mostrar como maneja bem a arma, depois de ser chamado de ladrão, num jogo de cartas.

• O modo como Butch desarma Kid Curry, quando esse tenta ganhar a chefia do grupo.

• O passeio de bicicleta feito por Etta e Butch – a cena mais famosa do filme- ao som de Raindrops Keep Fallin`on My Head.

• A cena em que Sundance Kid exige que a professora Etta tire a roupa sob a mira de um revólver. Só depois o espectador descobre que eles já se conheciam.

• A chuva de dinheiro, após a explosão do cofre.

• O pulo e a descida pela cachoeira dos dois protagonistas em fuga.

• A tentativa de assaltar falando espanhol.

• A cena em que os perseguidores descem da locomotiva, até então escondidos, com cavalo e tudo.

• O cenário mostrado no filme.

• A imagem congelada da dupla, no final do filme, correndo para enfrentar o exército boliviano, num tiroteio.

Fontes de Pesquisa:
1001 Filmes para…
Cinemateca Veja
Wikipédia

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Filme – BONNIE E CLYDE – UMA RAJADA DE BALAS

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Eles eram jovens… eles se amavam… e assassinavam cidadãos.

E mais do que tudo, o filme é uma obra-prima de harmonização, na qual os atores e o cineasta estão todos sincronizados, transitando seguramente entre a comédia e a tragédia. Foi a primeira obra-prima que tive a oportunidade de assistir na minha profissão. (Roger Ebert)

O filme policial Bonnie e Clyde – Uma Rajada de Balas (1967) conta de maneira romanceada a história real de Bonnie Parker e Clyde Barrow, um jovem casal de assaltantes de banco e assassinos que aterrorizaram os estados centrais dos Estados Unidos durante a Grande Depressão. Foi idealizado e produzido pelo ator Warren Beatty, sob a competente direção do cineasta Arthur Penn. O filme possui o mesmo tom e a independência de Jules e Jim – Uma mulher para dois de François Truffaut sobre amantes também condenados, sendo influenciado pela nouvelle vague francesa.

Na sua pré-estréia no Montreal Film Festival, Bonnie e Clyde – Uma Rajada de Balas foi execrado pela crítica que via nele, além da violência, a glorificação de uma dupla de ladrões e assassinos. O chefão da Warner Bros odiou-o tanto, a ponto de relegá-lo a uma cadeia texana de drive-ins. Foi lançado em 1967 e, no outono do mesmo ano, retirado de circulação, arrasado pelos críticos, tendo tido apenas a crítica favorável de Roger Ebert (hoje reconhecidamente o maior crítico de cinema) que à época estava na profissão havia apenas seis meses. Ele comentou sabiamente:

O filme é um marco na história do cinema dos EUA, um trabalho honesto e fulgurante e, daqui a alguns anos, Bonnie & Clayde – Uma Rajada de Balas será, sem dúvida, reconhecido como o melhor filme da década de 1960.

Bonnie e Clyde – Uma Rajada de Balas acabou sendo relançado e se transformou num dos maiores sucessos da Warner Bros, para surpresa de seu aturdido manda-chuva Jack Warner, recebendo dez indicações para o Oscar. Levou a estatueta de atriz coadjuvante (Estelle Parsons) e a de fotografia (Burnett Guffey). A vivacidade juvenil dos marginais agradou imensamente o público, que se deliciou com sua mensagem antissistema. Os críticos, que torceram o nariz para o filme, tiveram que mudar radicalmente de postura, tendo muito deles se desculpado publicamente. O filme, inclusive, ajudou a tirar os cinemas americanos do vermelho, tamanha foi a sua popularidade.

A história se passa no início dos anos 30, numa pequena cidade do interior do Texas. Começa com a garçonete Bonnie Parker (Faye Dunaway) visivelmente aborrecida ao ter que se preparar para mais um dia de trabalho. Ao chegar à janela de seu quarto, depara-se com um homem estranho que observa o carro de sua mãe de uma maneira duvidosa. Logo conclui que o moço está com a intenção de roubá-lo. Ao travar conversa com o desconhecido Clyde Barrow (Warren Beatty), esse lhe diz que acabara de sair da prisão por assalto. Bonnie então o desafia a provar que realmente era capaz de fazer um roubo. Imediatamente Clyde assalta uma mercearia, tendo os dois que saírem correndo do local. Na fuga, eles roubam um carro e dão vida ao casal de gângsteres Bonnie e Clyde. Tornam-se uma famosa dupla de fora-da-lei, consagrada pela imprensa como populares assaltantes de banco, quando os Estados Unidos eram atingidos pela Depressão. Mas, apesar da vida marginal do casal, fica visível o desejo de Bonnie de se casar com Clyde e viver perto de sua mãe já idosa, apesar das disfunções sexuais apresentadas por ele.

O diretor Arthur Penn além de apresentar um ritmo ágil e cenas sensacionais de ação, mistura no filme cenas que, de certo modo, traduzem um olhar cômico sobre os filmes de gângsteres, como as de tiroteios, com outras violentas nunca antes vistas no cinema, como quando Clyde alveja um homem dependurado no estribe do carro em que a gangue se encontrava. No filme também foram usados os squibs, novidade na época, que eram pequenas cargas explosivas, algumas vezes cheias de sacos de sangue artificial, camufladas sob a roupa dos atores, que demonstram o impacto dos tiros. O filme é famoso tanto por sua montagem acelerada quanto por suas rápidas mudanças do tom da narrativa, passando rapidamente do humor para a violência mais exacerbada.

O roteiro não segue com fidelidade a história real do casal de assassinos (à época foram celebrados como heróis populares), pois muitas passagens da vida deles ficaram fora da película, mas o impacto causado sobre a indústria norte-americana do cinema foi muito grande. Dele descendem Terra de Ninguém, Cinzas no Paraíso, Thelma & Louise, Drugstore Cowboy, Assassinos por Natureza, entre outros. Bonnie e Clyde – Uma Rajada de Balas abriu caminho para o “renascimento de Hollywood” nos anos 70, abrindo caminho para obras-primas como O Poderoso Chefão e tantas outras. É considerado um dos mais importantes filmes da época, responsável pela mudança na linguagem cinematográfica de Hollywood na década seguinte.

Cenas imperdíveis:

• A fuga de um frentista de um posto de gasolina com a gangue que o assaltara.

• Bonnie atravessa uma plantação de trigo, tentando fugir de Clyde que corre atrás dela. No mesmo instante uma nuvem obscurece o céu, cobrindo-os de sombras.

• Clyde empresta a sua arma a um espoliado meeiro negro, para que esse possa furar a placa do banco que o despojara de suas terras.

• Bonnie envia para o jornal “A Balada de Bonnie e Clyde”.

• As cenas que em Bonnie pousa para fotografias.

• O comportamento de Blanche (Estelle Parsons) antes de entender o que se passava com o grupo.

• O comportamento desvairado de Blanche, quando os agentes cercam um dos esconderijos do grupo e ela corre pelo quintal aos berros.

• O acampamento Okie, onde fazendeiros desalojados, que tiveram suas terras tomadas pelos bancos, estão sendo aquecidos por fogueiras.

• O assalto ao banco em que tudo dá errado, em razão da estupidez de C.W. ao estacionar o carro.

• A surpresa de Clyde ao ser atacado, durante um assalto, pelo cutelo de um açougueiro e por um saco de farinha.

• A briga com um oficial da polícia montada, obrigado a tirar fotos com o casal.

• A revolta do pai de C.W, porque o filho havia feito uma tatuagem.

• O balé em câmara lenta mostrando a execução do casal.

Curiosidades:

• Os carros usados pela gangue foram alugados de um colecionador de veículos antigos, que pediu que os mesmos não fossem perfurados a tiros.

• Quando Clyde mostra seu revólver a Bonnie, ela o toca numa clara insinuação sexual.

• O volume das músicas aumenta durante os tiroteios.

• C.W. diz que sua estrela de cinema favorita é Myrna Loy que, na verdade, era a atriz favorita do fora-da-lei John Dellinger. Ele foi baleado na porta de um cinema em Chicago, depois de ter assistido a Vencido pela Lei, estrelado pela atriz.

• Na vida real, Blanche Barrow não saiu correndo do apartamento, gritando com uma espátula na mão. Ela ajudou Clyde a tirar uma das viaturas da polícia do caminho e entrou no carro de fuga na frente ao prédio.

• Durante um dos assaltos a banco, Buck Barrow pula por cima do caixa. Esse era um dos truques de John Dillinger, que teria se inspirado em Douglas Fairbanks em seus papéis de Zorro.

• A mãe de Bonnie foi escolhida entre o público que assistia à filmagem.

• Na vida real, Bonnie já era casada, mas se encontrava separada, ainda não legalmente.

• Na cena final, em que Bonnie é morta, a perna direita de Faye Dunaway foi amarrada ao câmbio do automóvel, para impedir que ela caísse do veículo.

Fontes de Pesquisa:
A Magia do Cinema/ Roger Ebert
Cinemateca Veja
1001 Filmes para…
Wikipédia

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Filme – AVATAR

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Avatar é uma metáfora sobre como a humanidade trata o lugar onde vive. (J.Cameron)

Há cerca de doze anos, James Cameron maravilhou o mundo com o seu filme Titanic, acumulando a maior bilheteria e, consequentemente, a maior arrecadação da história do cinema. Sem falar nas cobiçadas estatuetas (11) que levou, também liderando o ranking dos filmes mais premiados de Hollywood.

No período de doze anos, espaço entre Titanic e Avatar, não houve grandes reboliços no mundo cinematográfico, a não ser pelo filme O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei (2003), dirigido pelo cineasta Peter Jackson. O filme é a parte final da trilogia épica, dirigida pelo mesmo diretor, que também abocanhou 11 Oscars, igualando ao Titanic, mas ficando abaixo na bilheteria. O cineasta JC volta, doze anos depois, surpreendo com o seu novo filme Avatar (2009).

Segundo o hinduísmo, “avatar” é uma manifestação corporal de um ser imortal, a reencarnação de um deus. A palavra deriva do sâncrito “avatãra” que significa “descida”. Vishnu, o deus hindu, possuía 10 avatares, dentre eles Krishna, Buda e Rama.

Avatar acabou por superar Titanic. É o maior filme da história das bilheterias, em todo o mundo. E, não resta a menor dúvida, de que levará muitas estatuetas na premiação do próximo Oscar.

Muita gente está curiosa para saber o que leva Avatar a ganhar tantos créditos. Não resta dúvida, de que o nome do diretor de Titanic, James Cameron, pesa. Mas, em hipótese alguma, poderia ser só isso. Estamos cansados de ver diretores com obras brilhantes afundarem-se em outras.

Avatar é um filme de guerra e ação, que se passa no planeta Pandora, no futuro (2154), onde os humanos vão meter a sua colher, em busca de riquezas minerais. Até aí, não existe nada de diferente de outros filmes já vistos. As semelhanças acabam, quando se tem que buscar uma maneira de fazer os humanos viverem ali, uma vez que a atmosfera de Pandora é mortal para eles, e se apossarem das riquezas do planeta estranho.

Para vencer tal barreira, os terráqueos são programados pra se transformar em avataris, ou seja, cópias dos seres, que vivem no planeta, conhecidos como Na`vi. E, é na convivência entre avataris e os habitantes de Pandora, na luta pelas riquezas do planeta, que se desenvolve toda a trama.

Avatar não é um filme especial por sua trama, que não apresenta grandes novidades, mas pelo esmero de sua produção (efeitos especiais, design, criatividade, etc). Quem for ao cinema, em busca de um enredo especial, perde o seu tempo. Mas, quem se amarra em tecnologia de última geração, tem em Avatar um prato feito. É uma revolução de efeitos especiais jamais vista na história do cinema. A história contada em terceira dimensão é imperdível.

Os personagens de JC são de um azul brilhante, falam uma língua estranha (criada pelo próprio cineasta) e moram numa árvore gigante. Possuem crenças e costumes bem diferentes dos nossos. São criaturas belíssimas, indescritíveis.

A criação do planeta Pandora é fantástica. É um cenário impossível de ser imaginado. Tudo ali é diferente, sem qualquer ligação com aquilo que conhecemos: monstros estranhos, plantas que brilham durante a noite, árvores com sementes voadoras, montanhas que flutuam (vivendo numa perfeita simbiose com os humanóides). Sem falar que, ao ver o filme em 3D, o telespectador passa a fazer parte desse mundo inconcebível. É preciso muito cuidado, para não tentar interagir com o cenário, na tentativa de trazer umas sementinhas para casa (risos).

E fala sobre sua possível sequência se obtiver sucesso nas bilheterias:

“O roteiro do próximo filme deve falar sobre a riqueza do planeta que mostraremos, e como ela pode se esgotar de uma hora para a outra…” .

Algumas informações sobre o filme:

• Inicialmente, chamava-se ‘Project 880’.

• O avanço tecnológico visto na trilogia de O Senhor dos Anéis deu incentivo para que JC pusesse seu projeto em prática.

• É o primeiro filme a ser exibido com tecnologia 3D legendado.

• Possui 40% de suas cenas gravadas com atores reais e 60% criadas em Computação Gráfica.

• Cerca de 60% do filme é feito em computador, usando as modernas técnicas de captura de movimentos, animação gráfica, etc.

• Nem todo cinema passa possui tela 3 D. Alguns cinemas passarão o filme em tela 2D.

• Não pode ser visto em casa, na terceira dimensão.

• Possui cerca de 2 horas e 40 minutos de projeção.

• O filme está disponível em cópias legendadas e dubladas.

• Música tema do filme: http://www.cinepop.com.br/noticias2/avatar_134.htm

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Filme – ASAS DO DESEJO

Autoria de Lu Dias Carvalho

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É ótimo ser espírito e testemunhar por toda a eternidade apenas o lado espiritual das pessoas. Mas, às vezes, me canso dessa existência espiritual. Não quero pairar para sempre. Quero sentir certo peso que ponha fim à falta de limite e me prenda ao chão. Eu gostaria de poder dizer “agora” a cada passo, a cada rajada de vento. “Agora” e “agora” e não mais “para sempre” e “eternamente”. […] Quero conquistar a minha própria história. O que aprendi olhando para baixo esse tempo todo, quero transformar num olhar profundo, num grito breve, num odor penetrante. Afinal, estive fora por tempo demais. Ausente o suficiente do mundo. Quero entrar na história do mundo, ao menos para segurar uma maçã. […] Eu agora sei o que nenhum anjo sabe. (Anjo Damiel)

O mundo está mergulhado na penumbra. Mas eu narro como no início, cantarolando, o que me leva a prosseguir na narração dos problemas atuais e me preserva para o futuro. Não fico mais, como antes, transitando entre os séculos. Agora só penso num dia após o outro. […] Mas até hoje ninguém conseguiu cantar uma epopeia sobre a paz. Que aconteceu com a paz que sua inspiração não dura e que quase não se deixa narrar? Devo desistir agora? Se eu desistir, a humanidade perderá seu contador de histórias. E, se ela perder seu contador de histórias perderá também seu lado criança. (O Contador de Histórias)

Asas do Desejo é o mais puro exemplo de um filme que oferece uma experiência cinematográfica incomparável em originalidade e beleza. Ele exige bastante do espectador e requer um grau de atenção constante ao qual, em geral, estamos desacostumados. Nenhum outro filme provoca tanto encantamento, e nós que sentimos isso, consideramos Asas do Desejo um marco em nossa vida. (Richard Raskin)

O cineasta alemão Wim Wenders (1945) é tido como um dos mais influentes diretores em todo o mundo. É uma das mais importantes figuras no Novo Cinema Alemão, e um dos grandes responsáveis pela renovação da sétima arte nos últimos 30 anos. Paris Texas (1984) e Asas do Desejo (1987) são duas obras representativas do grande talento de Wim e de sua maturidade artística.

O filme Asas do Desejo, filmado em Berlim, é sem dúvida a obra-prima de Wim Wenders. O roteiro de Peter Handke (1942) é uma adaptação de um texto do grande poeta alemão, Rainer Maria Rilke (1875 – 1926). Aliada à poética dos diálogos que se passam entre os anjos, estão a deslumbrante fotografia de Henri Alekan (1909 – 2001) e a música fantástica de E Jürgen Knieper (1941).

A tradição cristã ensina que os anjos são enviados à Terra para zelar pela humanidade, mas esta não é a missão dos anjos de Asas do Desejo. Eles testemunham o que se passa no planeta desde o nascimento das geleiras, antes que a água estagnada começasse a fluir e o primeiro rio encontrasse o seu leito. Assim, falam sobre o surgimento do homem:

Você se lembra da manhã em que surgiu o bípede da savana? Com capim grudado na testa, nossa tão esperada imagem. Sua primeira palavra foi um grito. Foi “ah”, “oh” ou somente um gemido? Pela primeira vez fomos capazes de rir. Rir desse homem. E, através do grito desse homem e seus seguidores, aprendemos a falar. Uma longa história.

Berlim é o palco por onde os anjos vagam com seus longos sobretudos pretos, mãos nos bolsos e cabelos amarrados para trás, só podendo ser vistos pelas crianças. Eles observam, ouvem, comparam anotações. Normalmente escolhem os pontos mais altos para ficar, mas também descem até o chão para dar consolo a uma vítima de um acidente ou tocar em um rapaz que pensa em tirar a própria vida. Contudo, nada podem fazer para dar um novo rumo aos acontecimentos. São testemunhas passivas e não agentes da história. Talvez apenas se condoam com a impotência humana e com a solidão que cerca os homens. O filme transcorre lentamente, levando o espectador para um estado de devaneio, pois tudo é mostrado sem pressa, pacientemente. Não será a paciência a maior virtude dos anjos?

Damiel (Bruno Ganz) e Cassiel (Otto Sander) são os dois anjos em destaque. Eles ouvem os pensamentos dos humanos, como se captassem diversas faixas de uma rádio: uma idosa vítima do Holocausto, pais preocupados com o filho, passageiros de um bonde, pessoas viajando de avião ou andando pela rua… Eles também fazem anotações sobre uma prostituta e sobre uma acrobata que morre de medo de cair do trapézio. A ronda não para, acompanham os pensamentos humanos com seus queixumes e emoções, através de frações de suas histórias individuais.

Quando Damiel escolhe se transformar num humano para vivenciar certas sensações, é que o ritmo do filme muda. Ele se apaixona pela trapezista, sendo tocado pelas dúvidas que ela carrega e por sua extrema sensibilidade. Ele quer se tornar humano para poder tocar, cheirar e ser parte da vida à sua volta. Quer vivenciar a alegria, a dor, o medo e a morte. Para ele, a perda da imortalidade vale o prazer de se arriscar. Mas precisa aprender tudo como uma criança, pois presenciar não é a mesma coisa que sentir.

Henri Alekan, ao mostrar o ponto de vista dos anjos, fotografa as imagens em branco-e-preto, mas quando retrata aquilo que os humanos veem, as imagens são coloridas. Sua câmara, assim como os anjos, apenas observa tudo delicadamente, sem nenhuma pressa. Muitas vezes ela parece apenas flutuar, sendo levada para onde o vento sopra.

O filme Cidade dos Anjos (1998) é uma remontagem de Asas do Desejo. Trata-se de uma comédia romântica interessantíssima, mas que fica para trás assim que o filme termina, pois engloba apenas o aspecto do amor entre um anjo e uma mortal, enquanto Asas do Desejo faz muito mais do que isso, pois não é apenas o amor que suscita em Damiel a vontade de ser humano, mas também o querer experimentar e sentir as coisas mais simples da vida. O filme acompanha o espectador, mesmo após seu término, levando-o a refletir sobre as questões existenciais. Asas do Desejo é um dos filmes mais poéticos da década de 80.

Quando a criança era criança, andava balançando os braços. Desejava que o riacho fosse rio, que o rio fosse torrentes, e essa poça, o mar. Quando a criança era criança não sabia que era criança. Tudo era cheio de vida, e a vida era uma só. Quando a criança não tinha opinião, não tinha hábitos, sentava-se de pernas cruzadas, saía correndo, tinha um redemoinho no cabelo e não fazia pose para tirar retrato. (Poema recitado no filme)

Fontes de Pesquisa:
A Magia do Cinema/ Roger Ebert
Cine Europeu/ Folha de S. Paulo

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Filme – APOCALYPSE NOW (PARTE II)

Autoria de Lu Dias Carvalho

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A merda era tanta no Vietnã, que você precisava de asas para ficar fora dela. (Kurtz )

O capitão Willard, num quarto em Saigon, é acordado com o barulho de um ventilador, que reproduz o mesmo som de um helicóptero. Aguarda o chamado para uma missão há uma semana. Quer voltar logo para a selva. O filme segue em tom narrativo:

Quando eu estava aqui, queria estar lá. Quando eu estava lá, só pensava em voltar para a selva. Cada minuto que fico neste quarto, fico mais fraco. E cada minuto que um vietcongue  escond-se na moita, ele fica mais forte.

Todo mundo consegue o que quer. E eu queria uma missão, e pelos meus pecados, eles me deram uma. Trouxeram-na para mim como um serviço de quarto. Era uma missão de primeira classe. E depois dela ter terminado, eu nunca mais iria querer outra.

Willard recebe ordens para se apresentar à base Aérea de Nha Trang. Dentro do helicóptero, volta ao tom narrativo:

Eu estava indo para o pior lugar do mundo, e eu nem sequer sabia disso. Há algumas semanas antes e centenas de milhas rio acima, que rasteja através da guerra, como o cabo principal de um circuito, conectado direto a Kurtz.

Não era por acaso que eu seria quem cuidaria da memória do coronel Walter E. Kurtz, assim como estar de volta a Saigon também não o era. Não tem como contar a sua história, sem contar a minha própria. E, se a história dele for mesmo uma confissão, então também a minha o é.

Willard é levado até o general e o capitão Luke, que lhe falam sobre o coronel Kurtz. Mostram-lhe algumas gravações capturadas com a voz do rebelado, falando sobre os vietcongues:

Eu vi uma lesma andar ao longo de um fio de uma navalha. Este é o meu sonho e o meu pesadelo. Andando, rastejando ao longo do fio de uma navalha, e sobreviver. Mas precisamos matá-los. Precisamos incinerá-los. Porco por porco, vaca por vaca, vilarejo por vilarejo, exército por exército. Eles me chamam de assassino. O que você diz, quando assassinos acusam o assassino? Eles mentem e temos que ser misericordiosos com esses mentirosos. Eu os odeio. Realmente eu os odeio.

Os dois oficiais falam a Willard sobre Kurtz:

Walter Kurtz era um dos oficiais mais exemplares que este país já produziu. Ele era brilhante, era exemplar em todas as formas. Era um bom homem. Um homem humanitário. Um homem com esperteza e amor. Ele entrou para as Forças Especiais. E depois disso, suas ideias e métodos tornaram-se irracionais. Agora ele foi para o Camboja com o seu exército Montagnard, que o venera como um deus, e cumpre qualquer ordem, mesmo que seja ridícula.

Tenho outras informações chocantes para lhe dar: o coronel Kurtz estava a ponto de ser preso por assassinato. Ele ordenou a execução de alguns agentes da inteligência vietnamita. Homens que ele acreditava serem agentes duplos. Então tentou resolver o problema por conta própria. Está operando sem nenhuma restrição decente, totalmente além de qualquer padrão de conduta humana aceitável, mas continua no comando das tropas.

É o seguinte, Willard, nesta guerra as coisas se confundem lá fora. Poder, ideias, a velha moralidade e a necessidade militar prática. Mas lá fora com aqueles nativos, deve ser uma tentação ser Deus. Porque existe um conflito em cada coração humano, entre o racional e o irracional, entre o bem e o mal. E o bem nem sempre triunfa. Às vezes, o lado escuro supera o que Lincoln chamou de “os melhores anjos de nossa natureza”. Todos os homens têm um ponto fraco. Você e eu temos o nosso. Walter Kurtz alcançou o dele e, obviamente, ele enlouqueceu.

A sua missão é subir o rio Nug, num barco patrulha da marinha, encontrar a trilha de Kurtz. Deve segui-la e aprender tudo o que puder no caminho. E, quando encontrar Kurtz, infiltrar-se entre seus homens, de qualquer forma possível, e acabar com o comando dele. Entenda capitão que esta missão não existe, nem nunca existirá.

Willard ao ler o dossiê de Kurtz, enquanto ia a seu encalço:

No início achei que me tinham dado um dossiê errado. Não podia acreditar que queriam matar esse cara. Ele tinha quase mil condecorações. Escutei a voz dele na fita e ele realmente me cativou. Mas não conseguia ligar aquela voz a esse homem. Como eles disseram, ele tinha uma carreira impressionante. Talvez impressionante demais.

Willard no barco, subindo o rio Nug:

Nunca saia de barco. Pode ter certeza disso. A menos que você fá fundo. O Kurtz saiu do barco. Ele largou tudo. Por que fez isso? O que viu na sua primeira missão? Aos 38 anos de idade, Kurtz sabia do que estava abdicando. Quanto mais eu o lia (dossiê) e mais começava a entender, mais o admirava. Sua família e amigos não conseguiram entender, e não conseguiram dissuadi-lo. Um filho da mãe durão. Poderia ter sido general, mas decidiu ser ele mesmo.

Parte de mim estava com medo do que encontraria e do que eu faria ao chegar lá. Eu conhecia os riscos, ou imaginava que os conhecia. Mas a coisa que eu mais sentia, mais forte do que o medo, era o desejo de confrontá-lo.

Willard depois de encontrar Kurtz:

Tudo o que vi indicava que Kurtz havia enlouquecido. O lugar estava cheio de corpos de vietnamitas do Norte, vietcongues e cambojanos. Se eu continuava vivo é porque ele me queria vivo.

No rio, pensei que assim que o visse saberia o que fazer. Mas não foi assim. Eu estava lá com ele, por dias, não vigiado. Eu estava livre. Mas ele sabia que eu não ia a lugar algum. Ele sabia mais sobre o que eu ia fazer do que eu mesmo. Se os generais em Nha Trang vissem o que vi, iam querer que eu o matasse, mais que nunca. E o que o pessoal de casa ia querer se soubesse o quanto se desviou? Ele se afastou deles e depois se afastou de si mesmo. Nunca vi um homem tão dividido e tão destroçado.

Coronel Kurtz falando com o capitão Willard:

Já vi horrores, horrores que você viu. Mas você não tem o direito de me chamar de assassino. Você tem o direito de me matar. Tem o direito de fazer isso. Mas não tem o direito de me julgar. É impossível achar palavras para descrever o que é necessário para aqueles que não sabem o que é o horror. O horror tem um rosto. E você deve ficar amigo do horror. Horror e terror moral são seus amigos. Se não forem, são inimigos a temer.

Eu me lembro, quando estava nas Forças Especiais. Parece que foi há séculos. Entramos numa base para vacinar umas crianças. Saindo da base, após termos vacinado as crianças contra a poliomielite, um velho veio correndo atrás de nós, e estava chorando. Não conseguia explicar. Voltamos lá. Eles tinham cortado todos os braços inoculados. Estavam numa pilha, uma pilha de bracinhos. Eu chorei. Berrei como uma avó. Eu queria arrancar meus dentes. Não sabia o que queria fazer. E eu quero me lembrar disso. Não quero me esquecer.

Aí percebi como se tivesse levado um tiro de diamante bem na minha testa. E pensei: “Meu Deus! Que genialidade” A força para fazer isso. Perfeito, autêntico, completo, cristalino, puro. Percebi que eram mais fortes que nós, porque aguentavam isso. Não eram monstros. Eram homens, soldados treinados. Homens que lutavam com o coração, que têm família, que têm crianças, cheios de amor, mas tinham força para fazer isso.

Se tivesse dez divisões desses homens, nossos problemas aqui acabariam rapidamente. Você tem que ter homens morais e, ao mesmo tempo, que podem utilizar seus instintos primordiais para matar, sem paixão. Sem julgar. É o julgar que nos derrota.

Preocupa-me que meu filho talvez não entenda o que tentei ser. E, se eu fosse morto, Willard, gostaria que alguém fosse até a minha casa contar tudo ao meu filho. Tudo o que eu fiz, tudo o que você viu. Porque não há nada que detesto mais que o fedor de mentiras. E, se você me entender, Willard, fará isso por mim.

Willard depois de matar Kurtz:

Todos queriam que eu o fizesse. Especialmente ele. Senti que ele estava lá, esperando-me para acabar com a sua dor. Ele queria acabar como um soldado em pé. Não como um coitado rebelde. Até a selva queria vê-lo morto, e era dela que ele recebia as ordens.

Curiosidades:

• O sacrifício a que se oferece Kurtz é simultâneo ao sacrifício de um touro. Ambos são mortos no mesmo momento. Que horror!
• Ele deixa escrito, com tinta vermelha, em suas anotações: Largue a bomba. Acabe com todos.
• Há uma referência ao Brasil feita pelos franceses: “Nós trouxemos seringueiras do Brasil e plantamos aqui…”.

Fonte de pesquisa:
O próprio filme

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