Arquivo da categoria: Pinacoteca

Pinturas de diferentes gêneros e estilos de vários museus do mundo. Descrição sobre o autor e a tela.

Weyden – DEPOSIÇÃO DA CRUZ

Autoria de Lu Dias Carvalho

(Clique na gravura para ampliá-la.)

A intensidade das expressões em suas obras dá aos temas tradicionais uma nova realidade. (Margaret Whinney)

A composição intitulada Deposição da Cruz ou Descida da Cruz é um dos trabalhos mais famosos de Rogier van der Weyden, considerado uma obra-prima da pintura antiga dos Países Baixos. Por muito pouco o mundo não perdeu esta maravilha que, ao ser enviada à Espanha pela regente húngara Maria, quase pereceu num naufrágio. Esta obra — pintada para a capela de Crossbowmen de Louvin — mostra o auge da maturidade artística de Van der Weyden.

A Deposição da Cruz é a parte central de um tríptico, cujos painéis laterais, uma vez separados, acabaram se perdendo com o tempo. A obra foi encomendada pela Guilda dos Arqueiros de São Jorge em Louvain, na atual Bélgica. Nos cantos do quadro o pintor adicionou arcos (bestas) — estruturas decorativas em homenagem aos arqueiros que a encomendaram. Assim como as esculturas contemporâneas, ela é disposta teatralmente. Um exíguo espaço abriga dez figuras esculturais, comprimidas, sendo três no centro, quatro à esquerda e três à direita, impedindo o aprofundamento do cenário arquitetônico.

A obra possui forma retangular, sendo que no centro está um saliente (ressalto) na parte superior, onde se encontra o jovem na escada, responsável por ajudar a descer o corpo de Cristo. A composição com tema religioso tem um fundo liso de ouro — elemento típico da arte gótica — que simboliza a eternidade e o próprio divino. As figuras que pendem da esquerda para a direita parecem esculturas multicoloridas. As paredes são responsáveis por enclausurar o palco do acontecimento. O chão é de pedra e nele crescem algumas plantinhas floridas.

A cena pintada por Van der Weyden em que o corpo de Cristo é retirado da cruz é carregada de intensa emoção e realismo, com os personagens profundamente consternados, ocupando um reduzido espaço sem profundidade, o que ressalta mais ainda o sofrimento das nove figuras presentes à deposição de Cristo. Há em toda a pintura um perfeito equilíbrio advindo da simetria das figuras e da profunda expressão dos rostos dos personagens, como os olhos avermelhados e as lágrimas que escorrem pelo rosto de alguns deles.

Van der Weyden mostra diversas expressões de dor diante do corpo do Cristo crucificado. Elas  vão desde o desespero de Maria Madalena, com as mãos contorcidas, à extrema direita, ao sofrimento silencioso dos santos que ajudam a segurar o corpo de Jesus. Juntas no espaço e no sofrimento as personagens repassam a ideia de que vivem um momento dramático em razão de tão grande perda. A postura plácida dos anciãos contrasta com a dos demais personagens.

As cores apresentadas na composição são fortes, evidenciando a simbologia medieval que acentua o clima de tragicidade. São João Evangelista — segurando a Mãe de Cristo em seu desmaio — veste um manto rubro que simboliza a Paixão de Cristo. Por sua vez, o azul das vestes da Virgem simboliza a perseverança da Fé. O branco do tecido que envolve sua cabeça, representa a pureza e a inocência. Os trajes luxuosos de Nicodemos — segurando os pés de Jesus — simbolizam a fugacidade do luxo e da pompa dos dominadores da terra, diante da caveira e dos ossos dispersos — o fim de todo homem.

O corpo sem vida de Cristo — amparado por José de Arimateia — está postado bem à frente do observador. Ele é o centro da composição. Apesar das cinco chagas  e da coroa que lhe perfura a cabeça, o corpo de Jesus é formoso. José de Arimateia segura-lhe o tronco, enquanto Nicodemos segura-lhe os pés. As áreas vermelhas presentes nas roupas de alguns personagens, além de serem simbólicas dão destaque às chagas de Jesus. O branco do lençol de linho com que José de Arimateia e Nicodemos envolvem o corpo do Mestre contrasta com a sua pele marmórea.

São João Evangelista — a quem Jesus pediu para tomar conta de sua mãe — está inclinado para a frente na tentativa de amparar a Virgem em seu desmaio. De seu rosto escorrem lágrimas. Seu sofrimento é visível, embora contido, pois tem que repassar forças para Maria — a mãe do crucificado — que passa por uma extrema agonia emocional ao ver seu filho morto sob tamanha tortura. Sua pele tem a mesma cor pálida do filho. Ambos estão na mesma posição de abandono. Atrás de São João Evangelista está Maria, mulher de Cléofas — um dos discípulos de Jesus. A mulher de verde não é identificada, sendo provavelmente uma das seguidoras de Cristo. Embora a Bíblia não registre nada sobre isso, era comum adicionar três ou quatro Marias na Crucificação de Cristo.

O homem que se encontra atrás de Nicodemos é um dos seguidores de Cristo. Ele traz na mão direita um pote de unguento. Recostada nele se encontra Maria Madalena, dobrada numa grande contorção em razão da dor extremada que sente ao ver o Mestre morto. Ela usa um cinto que simboliza a virgindade e a pureza. O cinturão está alinhado com os pés de Cristo e a cabeça da Virgem. Sobre a escada que conduz à cruz espremida no centro da composição está o criado, cuja cabeça não é visível em sua totalidade. Ele traz na mão direita os pregos retirados das mãos de Cristo, enquanto com a esquerda segura seu braço inerte.

Van der Weyden fez diversas correspondências na pintura: o movimento do corpo de Cristo assemelha-se ao da Virgem, assim como sua mão esquerda corresponde à  direita de Maria e  sua mão direita corresponde à esquerda dela. Assim, Maria aparece na mesma posição de seu filho, significando que ela sofre  a mesma dor pela qual ele passou. Por sua vez, a posição de São João Evangelista numa ponta do quadro é similar à de Maria Madalena na outra. A presença de um crânio no lado inferior esquerdo da composição — entre Maria e São João — tem a finalidade de reforçar o objetivo pelo qual Cristo se imolou — remir o pecado original cometido por Adão e Eva que simbolizam toda a humanidade.

A Deposição da Cruz é uma obra que tem sido muito copiada ao longo dos tempos. Ela domina a pintura flamenga do século XV, sendo muito difundida na Espanha e objeto de inumeráveis cópias. Já na década de 1430 teve uma réplica feita por um pintor desconhecido para a capela de uma família de Lovaina, na igreja de São Pedro e que se encontra hoje no Museu Stedelijk de Lovaina. Vale a pena ampliar a figura acima (clicando nela) e observar os detalhes das roupas e adornos dos personagens, sobretudo o véu de Maria Madalena e seu cinto.

Ficha técnica:
Ano: c. 1435

Técnica: óleo sobre madeira
Dimensões: 220 x 262 cm
Localização: Museo del Prado, Madrid, Espanha

Fontes de pesquisa:
501 grandes artistas/ Sextante

Gênios da pintura/ Abril Cultural
A história da arte/ E.H. Gombrich
Enciclopédia dos Museus/ Mirador
Gótico/ Taschen
Tudo sobre arte/ Sextante
Arte em detalhes/ Publifolha

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Rafael – A TRANSFIGURAÇÃO

Autoria de Lu Dias Carvalho

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E enquanto Ele orava, a aparência do seu rosto tornou-se outra e a sua roupa, branca, refulgente. Ele transfigurou-se diante deles e o seu rosto resplandeceu como o sol; e as suas roupas, porém, tornaram-se resplandecentes, extremamente brancas, como a luz, como nenhum lavadeiro sobre a terra as pode tornar tão brancas.

Mestre, eu te trouxe meu filho que tem um espírito mudo. Quando ele o toma, atira-o pelo chão. E ele espuma, range os dentes e se contorce. Pedi aos teus discípulos que o expulsassem, mas não o conseguiram.

Nesta grande prancha de madeira o artista italiano Rafael Sanzio pintou dois episódios retirados dos Evangelhos de Mateus, Lucas e Marcos. O jovem pintor deixa a serenidade — tão presente em suas outras pinturas — para apresentar parte de um mundo terreno, extremamente conturbado e parte do mundo divino. Muitos veem na obra um caminho para o estilo Barroco.

O primeiro episódio — ocupa a parte mais alta da composição — retrata a transfiguração de Cristo no Monte Tabor, levitando entre a Terra e o Céu, acompanhado dos discípulos Pedro, Tiago Maior e João, para que O vissem com suas vestes brancas, banhado em luz, falando com Moisés e Elias, personagens do Antigo Testamento, revelando, assim, a sua essência divina. Os três apóstolos tapam os olhos diante da resplandecência da luz que emana do Cristo transfigurado.

O segundo episódio — ocupando a parte baixa da composição — retrata o milagre do menino possesso que foi levado à presença dos nove apóstolos por seus pais, para que esses o curassem. Mas eles nada puderam fazer sem a presença de Jesus Cristo que se encontrava no Monte Tabor, mas garantiram aos pais que, tão logo o Mestre descesse do monte, o garoto seria libertado do espírito opressor.  Dois dos apóstolos apontam os braços esquerdos para a cena da transfiguração, como se estivessem indicando o local onde o Mestre encontrava-se. Para alguns estudiosos o menino estava na verdade acometido por um ataque de epilepsia — doença que era vista como possessão demoníaca à época.

Na primeira cena, à direita e à esquerda do Cristo transfigurado, estão Elias e Moisés. Algumas fontes trazem como se fossem os santos Justos e Pastor — irmãos e protetores de Narbonne. No chão encontram-se três apóstolos que escondem o rosto — tamanho é o fulgor emanado de Cristo. Dois outros personagens que assistem à cena encontram-se ajoelhados em profundo êxtase.

Na apresentação do menino possesso que parece olhar diretamente para Jesus Cristo transfigurado, a cena divide-se em dois grupos, separados pela mulher de costas, trajando uma veste rosa e um manto azul, que indica o garoto aos apóstolos com as duas mãos e também direciona os olhos do observador para o menino e sua comitiva. À esquerda dela estão os apóstolos, gesticulando com um ar de grande preocupação.  À sua direita encontram-se o garoto, seus pais e as pessoas que os seguem.

A mãe do garoto traz um olhar de súplica, enquanto o pai mostra-se horrorizado com o que está acontecendo ao filho que tem os olhos revirados, a boca entreaberta, pernas e braços desgovernados e todo o corpo contorcido. O menino também representa o sofrimento da humanidade, enquanto espera pela misericórdia divina.

As duas cenas, embora distintas, são maravilhosamente combinadas na composição. O Monte Tabor é a separação entre o mundo divino e o terreno. Em meio à comitiva que acompanha o garoto e seus pais, um dos presentes estende os braços em direção ao Cristo transfigurado, como se fizesse, juntamente com o garoto e dois dos apóstolos, um elo entre os dois episódios da composição.

O pintor usa uma associação de luz e sombra. Rafael pinta a primeira cena com cores mais claras e resplandecentes, enquanto na segunda usa cores mais escuras e muita sombra. A Transfiguração é tida como uma das mais belas pinturas já criadas em todo o mundo. O cardeal Giulio de Médici foi quem encomendou esta obra ao pintor italiano Rafael Sanzio, com o objetivo de enviá-la para a Igreja de Narbonne, sua sede episcopal na França.

Quando Rafael morreu repentinamente, a Transfiguração ainda estava em seu estúdio. O quadro foi levado à frente do féretro para homenageá-lo. Foi o bastante para que a obra se transformasse num símbolo de imortalidade do grande gênio que morrera tão jovem. Em razão desse acontecimento o papa resolveu colocar a última pintura de Rafael — uma sinopse de toda a sua obra — na Igreja de San Pietro em Roma e encomendou aos dois melhores alunos de Rafael — Giulio Romano e Giovani Francesco Penni — uma cópia da obra.

Dados técnicos:
Artista: Rafael
Data: 1518 -1520
Tipo: óleo sobre madeira
Dimensões: 410 x 279 cm
Localização: Pinacoteca Vaticana, Roma/ Itália

Fontes de pesquisa:
A História da Arte/ E. H. Gombrich
Tudo sobre Arte/ Sextante
Grandes Mestres/ Abril Coleções
Os Pintores mais Influentes do Mundo/ Girassol

Views: 24

Rafael – MADONA DE FOLIGNO

Autoria de Lu Dias Carvalho

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O painel Madona de Foligno, obra do pintor italiano renascentista Rafael Sanzio, mostra o aparecimento da Virgem Maria com seu filho Jesus, sustentados por uma esplendorosa nuvem de anjos alados, aos santos São João Batista, São Francisco, São Jerônimo e ao conde Sigismundo Conti, um humanista.

Esta pintura havia sido encomendada pelo conde Conti para ser doada à Igreja de Santa Maria, de Aracoeli, e se destinava ao altar principal, onde permaneceu por muitos anos. Após a morte do conde, seus herdeiros pediram para que a obra fosse transferida para Foligno, cidade natal de Sigismundo Conti. Mas, após o Tratado de Toledo, o painel foi confiscado pelos franceses, levado para Paris e ali permaneceu até 1815. Depois de ficar certo período em restauração, foi devolvido, em 1816, aos Museus do Vaticano.

É sabido que houve a queda de um meteorito em Foligno, e, que esse deixou incólume a casa do conde. Por isso, existe a possibilidade de que a encomenda da composição tenha origem numa promessa feita, sendo a casa ao fundo da paisagem uma lembrança do acontecimento. Existe também a hipótese de que o meio círculo, que atinge a paisagem, na parte inferior da pintura, refira-se ao cometa da peste ou a um tiro de canhão desferido contra Júlio II, de quem o conde era secretário, que não sofreu nada.

A Virgem com seu Menino encontra-se em meio a uma revoada de querubins azuis. Atrás dela  vê-se um enorme disco solar. Imagina-se que esse se origina de uma passagem do Apocalipse de João (XII, I) ou da Lenda Dourada, de Jacopo da Voragine, em que Sibila narra a Augusto sua visão: “Um círculo de ouro apareceu ao redor do sol e, no meio dele, uma bela senhora com um bebê no colo.”.  Abaixo da Madona, no centro da obra, em meio a neblinas e colinas esverdeadas, a casa do conde encontra-se coroada por um arco-íris.

São Jerônimo, padroeiro dos estudiosos, encontra-se na parte inferior à direita, intercedendo junto à Virgem pelo conde Sigismundo Conti, que se encontra de joelhos e de perfil, com um enorme manto vermelho, em pose de oração, e já bem envelhecido. À esquerda da Virgem está São João Batista, vestido com peles de animais, indicando a Virgem e o Menino ao observador. Ajoelhado diante dele se encontra São Francisco. Abaixo, centralizado na composição, um anjo carrega nas mãos uma tábula sem nenhuma inscrição. Especula-se que a escrita não foi executada em razão da morte do conde.

A paisagem ao fundo é intensamente pictórica e poética. Próximo à rica edificação são vistas algumas figuras humanas, um cavalo e ovelhas pastando em meio à relva verde. A hábil composição, assim como a diferenciação entre os dois planos, celeste e terreno, transformou a obra num marco ocidental. A parte que representa o plano celeste apresenta uma cor mais brilhante e grande modulação.

Os pintores que trabalhavam com a arte figurativa tinham uma enorme preocupação em construir uma composição equilibrada. E Rafael foi perito no manejo de suas figuras. Os personagens da pintura Madona de Foligno encontram-se simetricamente dispostos em volta de um eixo central, conforme o esquema compositivo acima. A simetria era vista pelas artes antigas como uma das qualidades da beleza.

Ficha técnica
Ano: 1511
Tipo: Óleo sobre madeira transferido para tela
Dimensões: 320 cm × 194 cm (130 × 76 na na)
Localização: Pinacoteca Vaticana, Cidade do Vaticano/ Itália

Fontes de pesquisa:
O Livro da Arte/ Publifolha
A História da Arte/ E. H. Gombrich
Enciclopédia dos Museus/ Mirador
Tudo sobre Arte/ Sextante
Para Entender a Arte/ Maria Carla Prette
A Arte em Detalhe/ Publifolha
Grandes Mestres/ Abril Coleções
Os Pintores mais Influentes do Mundo/ Girassol

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Rafael – O CASAMENTO DA VIRGEM

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Esta pintura de Rafael é também conhecida como As Núpcias da Virgem. Trata-se de seu primeiro quadro datado e assinado (ver no topo do templo): Raphael Urbinas MDIIII), como se somente após a sua conclusão, ele passasse a reconhecer o seu talento como pintor. Rafael estava à época com 21 anos. É possível notar a influência de Pietro Perugino, mestre de Rafael.  No que se refere às composições arquitetônicas e as figuras, percebemos a influência de Piero della Francesca e Donato Bramante.

O templo, em segundo plano, que tem por base um polígono, leva ao estilo de Bramante. O edifício é responsável por dominar e estruturar a composição, como também pela organização do grupo  principal de figuras, em primeiro plano, e das demais.

A obra de Rafael Sanzio representa o casamento de Maria e José em seu momento mais importante: a entrega do anel que sela o compromisso da união. O Renascimento foi pródigo em retratar cenas cristãs, como forma de ensinamento, a um povo que não sabia ler e nem escrever. O sacerdote, que ministra o ofício religioso, encontra-se ladeado por dois grupos: as mulheres que acompanham a noiva (Maria), à sua direita, e os homens que acompanham o noivo (José), à sua esquerda. Ele se inclina levemente em direção ao noivo. Os convidados aparentam ser bem jovens e mostram-se expressivos em suas posições.

Todos os homens trazem consigo um bastão, mas um deles, em primeiro plano, quebra o seu com o joelho direito, como se estivesse descontente por não ter sido o escolhido. Observem que somente o bastão de José, apoiado em seu ombro, traz uma flor na ponta, ou seja, foi dele o único bastão a florescer. Esse foi o sinal indicativo de que fora José o escolhido para ser o pai do Salvador.

A Virgem Maria está trajando um vestido vermelho com um manto azul, cores que, segundo a tradição católica, possuem uma simbologia própria. O azul representa a pureza e a divindade, enquanto o vermelho representa o sangue que Jesus derramou para salvar a humanidade. O manto de José é dourado e representa a sua grandeza, ao ser escolhido como pai de Jesus. Alguns veem seis dedos em seu pé esquerdo (ver a gravura em tamanho maior). Estar descalço simboliza a sua humildade.

Atrás do grupo simétrico, que se encontra em primeiro plano, existe um amplo espaço com a predominância de uma imensa cúpula – trata-se de um imponente templo, com uma arquitetura esplêndida. Se medirmos o tamanho das figuras em primeiro plano, veremos que possuem o mesmo tamanho do templo. A perspectiva faz com que as figuras, entre o templo e o primeiro grupo, pareçam bem menores, diminuindo proporcionalmente à medida que se distanciam do primeiro plano, o que dá ao observador a impressão real de distância. Espaço e figuras integram-se harmoniosamente na composição, num equilíbrio perfeito.

O majestoso templo é o centro radial da composição. Há também uma preocupação com a simetria. O templo encontra-se no meio da composição, ao fundo, e as figuras próximas a ele estão distribuídas pelos dois lados. É constituído pelo pórtico, arcos e cúpula, degraus e por um  prolongado pavimento. O mesmo ritmo circular da composição repete-se em relação aos convidados. O anel, que o noivo José está a ponto de colocar no dedo de Maria, é o eixo central da composição, responsável por dividir a composição, incluindo o templo em duas frações simétricas. Predominam no colorido da composição o dourado-escuro, com toques de marfim, o azul-esverdeado, o castanho-escuro e o vermelho.

O quadro é bem parecido com “Esponsais da Virgem” (imagem menor) de seu mestre Perugino, que também traz uma praça lajeada e com fundo arquitetônico, e também com a obra “Cristo Dando as Chaves a São Pedro”, cerca de 20 anos antes. Fica evidente a influência do velho mestre na perspectiva e na relação proporcional entre as figuras líricas e a arquitetura. Contudo, é possível notar que a composição de Rafael é muito mais harmônica e suas figuras são mais delicadas e alegres. Giorgio Vesare assim se expressa, ao comparar o aluno com o mestre: “… se identifica expressamente o talento de Rafael para ir com fineza, tornando-se mais sutil e ultrapassando o estilo do mestre”.

Este painel foi encomendado para ornamentar a capela de São José, igreja de São Francisco das Minorias, em Città di Castello, pela família Alberini. Contudo, a cidade viu-se obrigada a doá-lo para o General Lichi, ofocial do exército de Napoleão, em 1798. Esse, por sua vez, vendeu-o ao milanês Sannazzari, que o doou ao principal hospital de Milão, em 1804. A Academia de Belas-Artes tomou posse dele dois anos mais tarde, expondo-o em Brera.

Dados técnicos:
Ano: 1504
Tipo: óleo sobre painel
Dimensões: 170 x 117 cm
Localização: Pinacoteca de Brera, Milão/ Itália

Fontes de Pesquisa:
O Livro da Arte/ Publifolha
A História da Arte/ E. H. Gombrich
Tudo sobre Arte/ Sextante
Para Entender a Arte/ Maria Carla Prette
A Arte em Detalhe/ Publifolha
Grandes Mestres/ Abril Coleções
Rafael/ Cosac e Naify
Enciclopédia dos Museus/ Mirador

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Rafael – A ESCOLA DE ATENAS

Autoria de Lu Dias Carvalho

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O grande afresco A Escola de Atenas situa-se entre as obras mais famosas do renascentista italiano Rafael Sanzio, e representa a Academia de Platão. Nele, o pintor demonstra um domínio absoluto do espaço na disposição das figuras. É impossível não observar a beleza dos gestos de cada um, como se fossem amigos numa discussão filosófica acalorada. No afresco estão reunidos filósofos, matemáticos, astrônomos, cientistas da Antiguidade e personagens contemporâneos do pintor, assim como humanistas e artistas. Segundo o estudioso Fowler, o título do afresco era Causarum Cognitio e que somente após o século XVII passou-se a ser conhecido como A Escola de Atenas.

Estudando a composição (tente encontrar cada personagem descrito):

  • Bem no centro da composição encontram-se os dois maiores filósofos do mundo clássico: Platão e Aristóteles.
  • Platão, filósofo e matemático grego, autor de diversos diálogos filosóficos e fundador da Academia de Atenas, a primeira instituição de educação superior do mundo ocidental, simboliza a filosofia natural e moral com as leis da harmonia cósmica. Traz debaixo do braço esquerdo o seu Timão, e aponta para o céu, simbolizando o mundo das ideias, o ideal, o mundo inteligível. Leonardo da Vinci serve de modelo para o filósofo Platão.
  • Aristóteles, filósofo grego, aluno de Platão e professor de Alexandre, o Grande, caminha ao lado do mestre, e carrega na mão esquerda a Ética (aí se encontram as leis da conduta moral), enquanto a mão direita encontra-se aberta, com a palma virada para o chão, representando o terrestre, o mundo sensível, a filosofia natural e empírica. Seus escritos abrangem diversos assuntos como a física, a metafísica, as leis da poesia e do drama, a música, a lógica, a retórica, o governo, a ética, a biologia e a zoologia.
  • Pitágoras, filósofo e matemático grego, encontra-se sentado no canto inferior esquerdo, onde demonstra um de seus enunciados. Um dos assistentes segura uma lousa, onde se encontram alguns símbolos musicais. Também representa a música. Pitágoras foi o fundador de uma escola de pensamento grega, denominada “pitagórica” em sua homenagem.
  • Zoroastro (ou Estrabão), profeta persa, tem as características de Pietro Bembo (gramático, escritor, humanista, historiador e cardeal veneziano),  ele ergue uma esfera celeste.
  • Epicuro, filósofo grego, que ensinava que a felicidade consiste em buscar os prazeres da mente, encontra-se no primeiro plano, na extrema esquerda, coroado com folhas de videira. Tem como modelo Fedra Inghiram, bibliotecário do papa.
  • Euclides (ou Arquimedes), matemático grego e aluno de Sócrates, expõe seus princípios geométricos usando um compasso. Encontra-se rodeado por um grupo de estudantes, possivelmente. Bramante, mestre arquiteto e amigo de Rafael, serve-lhe de modelo.
  • Heráclito, filósofo melancólico, que derramava lágrimas pela tolice humana, está sentado num degrau em primeiro plano, tem o braço esquerdo apoiado num bloco de mármore, numa atitude de extrema tristeza. Tem como modelo o genial Michelangelo. Esta figura foi acrescentada depois, pois não se encontrava no desenho preparatório. Após ver, secretamente, parte do trabalho do artista na Capela Sistina, Rafael ficou maravilhado e resolveu fazer uma homenagem ao pintor mais velho, usando-o como modelo para Heráclito.
  • Alexandre, o Grande (ou Alcebíades), o mais célebre conquistador do mundo antigo, ouve Sócrates com atenção. Traz um elmo sobre a cabeça, e tem a mão esquerda na espada. Alexandre foi o mais célebre conquistador do mundo antigo.
  • Sócrates, um dos mais importantes ícones da tradição filosófica ocidental, enumera pontos específicos com os dedos. Questionar e analisar são a essência da filosofia socrática.
  • Diógenes, filósofo cínico, que odiava as posses materiais e vivia num barril, encontra-se espalhado nos degraus da escada, na parte central da composição. Conta-se que Alexandre, o Grande, ao visitá-lo, perguntou-lhe o que poderia fazer por ele, que prontamente respondeu: “Não me tires o que não podes dar.”. Referia-se ao sol, que o conquistador tapava, fazendo-lhe sombra.
  • Apeles, considerado por muitos como o mais importante pintor da Antiguidade, tem como modelo o próprio Rafael, que se encontra olhando para o observador.
  • Zenão de Cítio (ou Zenão de Eleia), filósofo fundador da escola filosófica estoica, carrega uma criança nos braços, enquanto ouve atentamente Epicuro. Enfatizou a bondade e a paz de espírito, conquistadas através de uma vida plena de virtude, de acordo com as leis da natureza.
  • Ptolomeu, astrônomo e geógrafo, achava que a Terra era o centro do universo. Traz nas mãos o globo terrestre.
  • Frederico II, duque de Mântua, encontra-se abaixo de Epicuro e só seu rosto é visível.           
  • Anício Mânlio Torquato Severino Boécio (ou Anaximandro ou Empédocles), filósofo, estadista e teólogo romano, encontra-se à direita de Pitágoras.
  • Antístenes (ou Xenofonte), com seu manto marrom, encontra-se entre Alexandre e Sócrates.
  • Ésquines (ou Xenofonte) usa um manto azul, e encontra-se ao lado de Sócrates. Adotou e desenvolveu o lado ético dos ensinamentos de seu mestre Sócrates, advogando uma vida ascética, vivida de acordo com a virtude.
  • Parménides, fundador da escola eleática, tem o pé esquerdo sobre um bloco de mármore e faz anotações.
  • Averróis, um dos maiores conhecedores e comentaristas de Aristóteles, curva-se ligeiramente, para ver a demonstração de Pitágoras.
  • Protógenes, pintor da Grécia antiga, usa um manto branco, e encontra-se ao lado de Rafael. Tem como modelo Pietro Perugino, pintor italiano.
  • Plotino usa um manto vermelho e encontra-se atrás da esfera celeste de Zoroastro. Plotino legou-nos ensinamentos em seis livros, de nove capítulos cada, chamados de “As Enéadas”.
  • Apolo, o deus da razão, encontra-se no nicho da esquerda, segurando uma lira. Representa o esclarecimento filosófico e o poder da razão.
  • Minerva, a deusa da sabedoria, encontra-se no nicho à direita. É a protetora tradicional das instituições devotadas à busca do saber e das realizações artísticas.

Nota: Como o leitor pode notar, não se tem a certeza exata de quem são alguns personagens, daí a inclusão de dois nomes ou mais.

Ficha técnica:
Ano: 1506-1510
Tipo: Afresco
Dimensões: 500 cm × 700 cm
Localização: Palácio Apostólico, Vaticano – Itália

Fonte de pesquisa:
O Livro da Arte/ Publifolha
A História da Arte/ E. H. Gombrich
Tudo sobre Arte/ Sextante
Para Entender a Arte/ Maria Carla Prette
A Arte em Detalhe/ Publifolha
Grandes Mestres/ Abril Coleções
Os Pintores mais Influentes do Mundo/ Girassol

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Rafael – VIRGEM NO PRADO

Autoria de Lu Dias Carvalho
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O artista não obedece a regras fixas. Ele simplesmente intui o caminho a seguir (E. H. Gombrich)

Rafael pintou uma das mais belas imagens religiosas em toda a história da arte. A “Madona do Prado” é repleta de alusões devocionais, rica em teologia simbólica e representa o mais alto nível de genialidade estética e criativa a serviço da história cristã. (James M. Gordon)

Para pintar a maravilhosa Virgem no Prado, também conhecida como Madona do Prado, é possível perceber a preocupação de Rafael em obter um perfeito equilíbrio entre as figuras da composição, de modo a alcançar a maior harmonia possível. Para fazer a Virgem no Prado, o artista italiano fez várias folhas com esboços, em busca do equilíbrio perfeito entre as três figuras representadas. O que nos mostra o quão meticuloso era. A perfeição do equilíbrio acaba ressaltando toda a beleza da composição, tornando as figuras ainda mais encantadoras.

A Virgem com as duas crianças formam um esquema compositivo piramidal, harmoniosamente equilibrado, sem nenhuma austeridade. Atrás da Virgem e dos meninos, uma paisagem típica da Úmbria complementa a pintura. Para verificar o esquema compositivo, trace uma reta unindo a cabeça da Virgem ao pé direito de João Batista e do pé de João Batista ao pé direito da Virgem. Por sua vez, as duas crianças formam outra pirâmide menor.

O rosto de Maria apresenta-se melancólico, enquanto observa as crianças, como se pressentisse o futuro do Filho. O Menino Jesus, que tem a mãe como apoio, brinca com a cruz do pequeno João Batista, que se ajoelha diante dele, como se reconhecesse a sua divindade. A nudez das duas crianças é um dos traços comuns ao Renascentismo.

As cores da composição são suaves, o que dá mais destaque às vestes da Virgem que usa um vestido vermelho e um manto azul. Logo após o campo relvoso encontra-se um lago de águas tranquilas, montes, árvores e o que aparenta ser uma pequena cidade, contrastando com o céu azul e nuvens brancas. Apenas duas flores vermelhas fogem do padrão de cores vistas na natureza. Para alguns, são duas papoulas que se referem à morte, paixão e ressurreição de Cristo.

A Madona do Prado é uma das mais belas composições de Rafael sobre o tema que tanto amava: a Virgem e o Menino. Nela se integram personagens e natureza, exalando naturalidade, tranquilidade e beleza. A elegância e a doçura são duas características do genial pintor que explora aqui os efeitos das cores para criar a impressão de profundidade.

Esta pintura é uma das três versões da obra do artista sobre o mesmo tema, possivelmente a primeira. As outras duas são “Mandona do Pintassilgo” e “A Bela Jardineira”.  A data desta obra está inscrita na gola do vestido da Virgem (M.D. V. I.). É possível que o último número seja parte da ornamentação, sendo a data 1505.

Ficha técnica:
Ano: 1505/1506
Dimensões: 113 x 88 cm
Material: óleo sobre tela
Estilo: Renascimento italiano
Local: Museu Kunsthistorisches  – Viena/ Áustria

Fontes de pesquisa:
A história da Arte/ E. H. Gombrich
Grandes Mestres/ Abril Coleções
Enciclopédia dos Museus/ Mirador

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