COVID-19 E O JEITO DE SER MINEIRO

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Autoria de Dr. Carlos Starling*

Onde estamos na epidemia? Esta é a pergunta que amigos, familiares e jornalistas me fazem todos os dias. Num misto de exaustão pelo isolamento social e esperança pela volta da “normalidade”, todos sem exceção, se sentem gratos pelos resultados até aqui alcançados. Nossos indicadores mostram estabilidade em níveis que ainda não pressionam os limites dos serviços públicos e privados. O número de mortes está abaixo do inicialmente projetado pelos cenários mais otimistas. Entretanto, vivemos um frágil equilíbrio entre a racionalidade e o desespero.

O sucesso das medidas em curso coloca em xeque as próprias medidas. Se temos tudo controlado, por que não liberamos geral e voltamos para nossas vidas como se nada tivesse acontecido? Como se tivéssemos vivido um grande equívoco, mas valeram as férias forçadas. Não é bem assim!

A epidemia de COVID-19 terá ondas recorrentes em nosso país. Não somos a França, Itália ou Alemanha. Somos quase um continente. A epidemia por aqui, como dissemos em colunas anteriores, ocorrerá em distintas fases com ondas de idas e vindas em classes sociais e regiões. Se não tivermos uma vacina eficaz, segundo estudos de pesquisadores da Universidade de Harvard, a epidemia persistirá em surtos até 2024.

Se hoje temos sucesso, não podemos contar vitória antes da hora. O vírus circula em níveis contidos pela disciplina e pelo jeito mineiro de ser. Nós, mineiros, temos em nosso gene mineral a sabedoria de quem sabe esperar. Escutar mais e falar menos. Como dizia Benedito Valadares “estou rouco de tanto ouvir”. Assim somos, prudentes e amantes da nossa essência que preserva o que há de mais valioso: nossas vidas e as de quem amamos. Minas é saborosamente mágica, como catalogou Frei Betto, em suas inúmeras definições do que é ser mineiro.

Na epidemia de 1918 não foi diferente. A nossa disciplina e prudência impediu que a doença por aqui tivesse os catastróficos números do Rio e São Paulo. O cumprimento das medidas de isolamento social foram a chave naquela época e no presente. Porém, a pressão para que haja uma liberação a qualquer custo das medidas que preservaram a vida de milhares aumenta dia após dia. Por vezes, querem saber quando será o pico! Mas, quem disse que teremos que ter um pico além do Itacolomi?!

Percebo que há uma angústia por chegarmos ao pico da epidemia, como se, assim, a normalidade estivesse logo ali na esquina. Lembra-me a dor de tirar um esparadrapo, pois quanto mais rápido o puxamos menor o tempo do sofrimento. O pico de uma epidemia é também o momento de muita dor para milhares de famílias.

Somos gente que não nasceu destinada à tristeza e ao sofrimento. Nossa obrigação é buscar a felicidade e a alegria. Desta forma, nosso desafio é não termos pico algum. Lutaremos para que a curva se mantenha a mais achatada possível. Assim, estaremos cada vez mais próximos de um tratamento efetivo, de uma vacina e da circulação de vírus menos agressivo. Isso porque a sábia natureza configurou os parasitas com a sabedoria de não destruir todos os seus hospedeiros. Se assim ocorresse, seria a morte do próprio parasita e sua extinção.

Na epidemia atual existem coronas vírus distintos em circulação. Os mais agressivos, felizmente, são a minoria. Com o tempo, circularão as cepas menos agressivas, que permanecerão por tempo indefinido. Não queremos picos e nem encher covas, apesar de as termos aberto por prudência mineira. Como diz o ditado, “o bom mineiro não laça boi com embira, não dá rasteira em pé de vento, não pisa no escuro, não anda no molhado, só acredita em fumaça quando vê fogo, não estica conversas com estranhos, só arrisca quando tem certeza, e não troca um pássaro na mão por dois voando”.

Assim, vamos seguindo vivos e com a esperança de que vai passar. Porque vai passar, mas enquanto isto, fiquemos em casa com a paciência e prudência que Deus nos deu.

*médico infectologista, coordenador do combate ao Covid-19 no estado mineiro e colunista do Jornal Estado de Minas.

Fonte da matéria: Jornal Estado de Minas
Ilustração: Interior de Pobres II, autoria de Laser Segall

5 pensou em “COVID-19 E O JEITO DE SER MINEIRO

  1. Hernando Martins

    Lu

    Belo texto do dr. Carlos Starling!

    É verdade que o jeito mineiro de ser é uma característica ímpar deste povo simples, acolhedor, prudente, honesto em sua maioria, que é o mineiro. O fato de ser considerado um povo desconfiado torna-o mais preventivo e cuidadoso. E o momento que vivemos, diante de uma pandemia, é crucial a tomada de atitudes rápidas e conscientes no sentido de evitar um mal maior.

    Temos que aplaudir o nosso prefeito Elias kalil que, na vanguarda da política, foi rápido no gatilho e tomou decisões assertivas, promovendo o isolamento social e estabelecendo o uso de máscaras para as pessoas que precisam sair de casa para resolver algo essencial, pois diante de uma situação de pandemia, onde não existe vacina e o tratamento é sintomático, as decisões conscientes, baseadas nos médicos e na ciência podem salvar vidas e fazer toda a diferença.

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Hernando

      O prefeito Alexandre Kalil realmente fez toda a diferença para os mineiros. Os demais prefeitos tomaram-no como referência. Resulta daí, aliado ao respeito da maioria da população às orientações de prevenção oferecidas pela Ciência.

      Abraços,

      Lu

      Responder
  2. LuDiasBH Autor do post

    Não resta dúvida de que nós, mineiros, em sua imensa maioria, vimos comportando com maior responsabilidade em relação ao Covid-19.

    Agradecemos, sobretudo, ao prefeito Elias Kalil que, diferentemente do servil governador Zema ao statu quo, tomou a frente na capital, fazendo cumprir todo o protocolo sugerido pela Organização Mundial da Saúde, colocando em primeiro lugar a vida humana e em segundo o vil metal. Inúmeros prefeitos em todo o Estado acompanharam-no, cientes da periculosidade da pandemia.

    Portanto, parabéns ao Kalil por sua postura de cidadão comprometido com seu povo.

    Responder
  3. Maria da Conceição Carvalho

    Ficar em Casa pode ajudar e muito, mas quando isso passar, não poderemos ser mais os mesmos, precisaremos repensar muita coisa.

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Maria da Conceição

      Você tem toda a razão. Depois que passar a pandemia, muita coisa precisará ser mudada. Penso que nós, humanos, que vivemos nestes tempos, jamais voltaremos a ser os mesmos, excetuando as crianças que, com o tempo e para o bem delas, esquecerão de muita coisa.

      Beijos,

      Lu

      Responder

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