É incrível como o ser humano foi sempre afeito a crendices e superstições, não importando a sua etnia ou cultura. O homo sapiens, na verdade, não é tão sábio assim. Mas ainda que isso pareça arraigado na cultura humana, já há mostras de que as novas gerações tendem a ser menos tolas. Prova disso foi o papo que tive com meu netinho de seis anos, dois anos atrás, quando lhe pedi que me falasse sobre o que mais o amedrontava. Ele pensou, pensou, vagou de um lado para outro, como se estivesse em busca de uma solução para salvar o planeta do aquecimento global, e disparou: “Dindinha, o meu maior medo é ir para um lugar onde não há internet”. Como a resposta não me agradasse, pois iria escrever sobre medos e mitos infantis, tentei direcionar o assunto, dando-lhe outro viés: “Não, meu amor, estou falando de mula-sem-cabeça, lobisomem, saci-pererê…”. Ele me olhou nos olhos, estupefato, e disse-me: “O que é isso, dindinha, isto é folclore, crença popular, sem um pingo de verdade. Poxa! Você está precisando de se informar mais”. Se é verdade que fiquei feliz com a sua resposta, também me entristeceu o fato de um garotinho de seis anos já ser dependente da internet. Qual dos males seria o pior? Confesso que ainda não sei!
A verdade é que a tecnologia avança em todos os lares, para o bem ou para o mal da humanidade, dependo do modo como é usada. O homem, cada vez mais, vem se transformando num ciborgue (ser que possui partes orgânicas e partes artificiais). O celular virou uma parte de seu corpo. No caso do ciborgue, por enquanto, tais acréscimos têm por finalidade reativar uma função perdida ou ampliar a capacidade humana, mas no futuro poderemos ter super-humanos a dominar os mais fracos. Falei tudo isto para contar a minha surpresa com a minha netinha de seis anos, à época, na sua interação com a tão conhecida “Alexa”. Ela e o irmão estavam curiosos para conhecer a nova moradora da casa de seus avós. Ali chegaram cheio de curiosidades, ávidos por terem suas perguntas respondidas. Foi preciso colocar um tempo para que um não atropelasse o outro. Contudo, a dona Alexa só respondia ao garoto. A menininha perguntava e perguntava, mas sempre sem resposta. Indignada, ela deu o grito: “Alexa, você só responde as perguntas do meu irmão. Isto é muito feio. Você é mulher e mulher é amiga de outra mulher. Não estou gostando nada de você, sua tolinha” e saiu fazendo muxoxos. Só um tempo depois é que descobrimos que a sua janelinha, formada pela falta de dois dentes, não lhe permitia falar corretamente o nome da exigente IA.
Como escrevo para crianças, estou sempre de olho nos meus netinhos. A passagem mais recente foi o debate travado entre eles e o Gemini (IA). A garotinha, ao ver o seu dindinho fazendo perguntas ao Gemini, esperou um momento propício para lançar mão do celular (é proibido o seu uso). “Conversavam” como se fossem duas boas amigas. Tudo ia bem, até a hora em que ela começou a falar dos defeitos do irmão, com a anuência da IA que repetia tudo e dava conselhos. Quando ela pediu para chamar o maninho de “Zé Ruela” e a IA o fez, o caldo entornou. Ele gritava para a IA chamá-la de “Maria Ruela” e ela obedecia prontamente. Num determinado momento só se ouvia “Zé Ruela”, “Maria Ruela”… Antes que o sistema entrasse em pane, imagino eu, a mãe apareceu e catou o celular, deixando os dois tecnológicos brigões no boca a boca que perdurou por um bom tempo, até que foram chamados para o lanche da tarde, quando tudo voltou ao normal, embalado por um suquinho de maracujá e pão de queijo. E a dindinha vendo tudo, sem interferir, pois ali estava a sua fonte de pesquisa, embora ouvisse a reprimenda: “Minha mãe vê os dois com o celular e não faz nada!”. E eu sou louca de botar fim na minha diversão? Claro que não!
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