ITÁLIA – FAMÍLIAS GOVERNANTES (Aula nº 34)

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Autoria de LuDiasBH

   

Importantes famílias partilhavam o domínio das terras italianas, uma vez que a Itália do Renascimento era composta por um grupo de cidades-estados independentes e belicosos entre si, dominados por ricas e poderosas famílias como os Mentefeltro em Urbino, os Gonzaga em Mântua, os Sforza (em substituição aos Visconti) em Milão e os Medici em Florença (onde havia uma grande fonte de mecenato, inclusive os mercadores financeiros que, para garantir sua salvação, investiam em obras devocionais).  A corte papal governava Roma e diversas famílias principescas reinavam sobre territórios controlados pelo sacro imperador romano e pelo papa. A Itália, portanto, no limiar do Renascimento era uma colcha de retalhos, composta por pequenas cidades/estados independentes.

Muitas dessas famílias granjearam riquezas e ascendência política através do comércio e do sistema bancário, da indústria, do aluguel de seus exércitos e por ter um papa como patriarca (caso dos Bórgias ou Borjas em Roma). Os chefes dessas famílias buscavam alianças estratégicas, usando dois artifícios: o compartilhamento dos exércitos e os casamentos arranjados. Não espanta, portanto, que no final do século XV grande parte dessas prestigiosas famílias estivessem unidas por parentescos e dependências políticas e econômicas, pois é assim que funcionava o mundo da riqueza, do poder e da política. Vejamos algumas dessas famílias:

Frederico de Montefeltro — duque de Urbino — recebeu uma educação clássica, tendo desenvolvido um grande amor pelas artes. Tinha fama de justo e diplomático. Fez uso de seu próprio dinheiro para baixar impostos, socorrer os pobres, criar escolas e hospitais e armazenar reservas de trigo para os tempos difíceis. Possuía grande paixão pelos livros, tendo criado a biblioteca mais completa conhecida até então. Empregou copistas e miniaturistas. Possuía obras clássicas em grego, latim e hebraico, uma belíssima edição da “Divina Comédia” e uma Bíblia encadernada em brocado de ouro. Seu legado cultural foi assumido por seu filho Guidobaldo de Montefeltro e sua esposa Elisabetta Gonzaga — pertencente à família Gonzaga de Mântua. O casal reuniu em tornou de si um grande círculo de intelectuais e artistas.

Os Bórgia (ou Borja) foram uma família nobre hispano-italiana que gozava das graças do papa. Rodrigo Bórgia era tido como “um homem com uma inteligência capaz de tudo”. Era sobrinho do papa Calisto III que fez com que ele se ordenasse aos 25 anos, sendo eleito papa aos 36 anos. Era um exímio homem de Estado, mas sem levar em conta os princípios cristãos que lhe serviram apenas de trampolim para a fama. Durante seu papado reconstruiu a Universidade de Roma. Chegou a nomear mais de 30 parentes para cargos públicos no Vaticano. De uma feita colocou sua filha Lucrécia Bórgia no seu lugar, quando de uma visita a Roma. Ao fazer uso dos engenhos militares projetados por Leonardo da Vinci, acabou apoderando-se de uma parte significativa da Itália central.  Seu filho César Bórgia, líder impiedoso, colocou-se à frente das tropas do pai, tendo executado aqueles que resistiam a ele, muitas vezes recorrendo à traição. Foi capaz de ocupar Urbino, depois de Guidobaldo de Montefeltro — duque da cidade — ter lhe emprestado a artilharia. Foi uma pessoa insensata e odiada. Serviu inclusive de inspiração para a obra de Nicolau Maquiavel intitulada “O Príncipe”. 

A família Este ou Casa d’Este era o ramo italiano de uma importante dinastia europeia de príncipes. Governava a cidade-estado de Ferrara, sendo uma das cortes mais agradáveis e prósperas do Renascimento. Nicolau III foi responsável por seu maior crescimento. Ele abaixou os impostos, facilitou o comércio e fundou uma escola respeitadíssima. Em 1438 (século XV) foi o anfitrião de um concílio de eruditos e prelados que tinha por finalidade aproximar as alas oriental e ocidental da Igreja Católica. Teve 30 filhos, sendo que desses, três sucederam-no no trono. Leonello era o mais velho e o mais culto. Dominava o grego, o latim, a filosofia e o direito e era intensamente dedicado ao humanismo e às artes. Criou bibliotecas públicas e designou fundos à universidade que era visitada por estudiosos de toda a Europa. Desprezava a riqueza em si mesma e amava a cultura.

Leonello foi sucedido por seu irmão Borso que era totalmente o oposto dele. Prezava a fama e a vulgaridade. Ercole I de Ferrara foi o último dos filhos de Nicolau III a subir no trono. Tratava-se de um homem devoto, amante da música sacra. Foi um mecenas das artes. Triplicou o tamanho da cidade de Ferrara, transformando-a na cidade mais moderna da Europa. Foi casado com Leonora Aragão, uma mulher bem preparada e admirada por seus súditos, tendo sido considerada por muitos como uma administradora mais talentosa do que o marido.

A família Gonzaga governou Mântua durante 400 anos. Possuía uma corte harmoniosa e grande astúcia militar. Tornou-se famosa por possuir um relicário que se acreditava conter gotas do sangue de Jesus Cristo. Fundou uma escola que foi dirigida por Vittorino de Feltre (um humanista, religioso, pedagogo e professor da Universidade de Pádua). O currículo dessa escola estava voltado para as famílias nobres, ali constando desde a educação artística e artes militares até matemática, passando pela pintura, música e religião. A chamada “escola dos príncipes” recebia inúmeros pedidos para o ingresso de jovens de outras cidades e de outras partes da Europa.

Ludovico Gonzaga — filho mais velho do marquês de Mântua — foi um grande mecenas. Encomendou ao arquiteto Léon Battista Alberti o projeto e construção das igrejas de San Sebastiano e Sant’Andrea. Foi responsável por trazer para Mântua o famoso pintor Andrea Mantegna. A esposa de seu neto Francisco II Gonzaga — Isabel do Leste — também compartilhava grande paixão pelas artes, tendo colecionado livros raros. Ela se inclui entre os primeiros mecenas das artes que compraram obras levando em conta o autor e não a obra em si. Embora não fosse da linhagem dos Gonzaga, ela talvez tenha sido a mais importante figura dessa família no século XV, usando sua inteligência na defesa de seu lar adotivo.

O duque Filippo Maria Visconti — governante de Milão — morreu sem deixar herdeiro, extinguindo, portanto, sua linhagem. O jovem general mercenário Francisco Sforza, casado com uma filha ilegítima do duque, tomou o poder e passou a governar Milão. Tratava-se de um homem muito inteligente. Além de ampliar a atividade industrial e comercial, escavou uma rede de canais com o objetivo de aguar extensas zonas de terras cultiváveis. Foi responsável pela construção do Grande Hospital e por acabar as obras da Catedral de Milão. Fez com que a cidade se transformasse na primeira potência militar do norte da Itália.

O filho mais velho de Francisco Sforza — Galeazzo Sforza — sucedeu-o, mas em razão de sua crueldade e tirania acabou sendo assassinado. Como o herdeiro era ainda muito criança, Ludovico Sforza, o outro filho, assumiu o poder. Foi apelidado de “o Mouro” em razão de sua pele escura. Ele deu mais prosperidade a Milão. Casou-se aos 39 anos com Beatriz do Leste e teve inúmeras amantes. Sua esposa era extremamente vaidosa e perdulária. Encomendou, após casar-se, 84 vestidos de cetim bordados a ouro e incrustações de pedras preciosas. Também encomendou a Leonardo da Vinci a construção de brinquedos mecânicos e quebra-cabeças matemáticos para divertir a corte. Aos 22 anos de idade deu à luz um menino que nasceu morto e ela faleceu logo depois. Ludovico, sentindo-se corroído pela culpa e responsável pela fatalidade, caiu em depressão, jamais se recuperando. A França, pouco tempo depois, invadiu a Itália e apossou-se de Milão. O Mouro morreu numa masmorra francesa em 1508.

A pintura que ilustra o texto mostra Ludovico Sforza e sua esposa Beatriz — ajoelhados um de frente para o outro — apresentando seus dois filhos jovens diante do altar da Virgem e seu Menino. A mulher na ilustração à direita, com um arminho, é Cecília Galeranni — poeta, mecenas das artes e uma das amantes do duque (ver link abaixo).

Exercício:
Para o enriquecimento deste texto/aula os participantes deverão responder as duas questões abaixo e acessar o link:

1. Cite o nome de famílias que governaram cidades italianas durante o Renascimento.
2. Qual dessas famílias você considera a mais importante e por quê?
3. Da Vinci – DAMA COM ARMINHO

Ilustração: 1. Sforzesca, obra de Master of Pala Sforzesca, Itália (ativo em 1490-1520 in Lombardy) /  2. A Dama com Arminho, obra de Da Vinci.

Fonte de pesquisa
A História da Arte / Prof. E. H. Gombrich
Arte e vida na Itália Renascentista / Coleção Folio

7 comentários em “ITÁLIA – FAMÍLIAS GOVERNANTES (Aula nº 34)

  1. Antônio Costa

    Lu
    A despeito de tantas lutas, interesses pela busca de poder e hegemonia das diferentes famílias, parece que o “religioso” era imperativo, ou seja: a bênção divina devia estar presente, junto à busca pelo poder. Será interessante quando houver o momento da quebra desse link, para que possamos sentir a liberdade criativa de um uma nova arte pictórica, ainda que permeada com motivações passadas, como o estilo clássico.

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Antônio

      Agora no Renascimento já começamos a ver os artistas alçarem voo próprio, ainda que não totalmente, pois a Igreja era o principal empregador, mas, ao trabalharem para a nobreza, eles põem em prática a criatividade temática. Logo começaremos a ver isso nas maravilhosas pinturas que iremos estudar sobre o Renascimento.

      Abraços,

      Lu

      Responder
  2. Marinalva Dias Autor do post

    Lu
    Como vimos nessa fase do Renascimento, a Itália era uma “colcha de retalhos”, governada por famílias ricas, poderosas e influentes. Os casamentos arranjados rendiam muitas alianças, fortalecendo o poder dessas famílias. O arsenal bélico dessas famílias era forte, pois havia muitas rivalidades entre elas.Muitas delas impulsionaram o comércio, escolas e hospitais, sendo a arte muito encomendada.

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  3. Hernando Martins

    Lu

    Após o feudalismo e surgimento do mercantilismo, apareceu uma nova classe social na Itália, dotada de grande poder econômico que foi a burguesia. Além dos novos ricos – os burgueses – já existiam famílias tradicionais de nobres, detentores de riquezas e poder político. Todo esse contexto foi muito importante para o desenvolvimento da Itália em vários setores, especialmente no campo das artes. Os templos e castelos utilizaram muitas obras de artes para decoração de seus ambientes, o que foi um incentivo enorme para estimular os artistas a produzirem obras para suprir as encomendas dos mecenas. Muitas dessas famílias italianas tiveram papel fundamental na construção de escolas e universidades e no incentivo às artes, o que foi de grande valia para o desenvolvimento da região norte da Itália. Seria importante, se as famílias bilionárias brasileiras se inspirassem nas italianas do período renascentista e contribuíssem de alguma forma para ajudar os necessitados, como forma de desprendimento e solidariedade.

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    1. LuDiasBH Autor do post

      Hernando

      É notável ver o desprendimento de algumas dessas famílias italianas durante seus governos, mostrando uma preocupação genuína com a melhoria de sua cidade-estado, a exemplo do Duque de Urbino. Dá para ver como aquelas de notório saber eram as mais generosas, mais comprometidas com seu povo e com a arte. Foi a partir desse período que os artistas começaram a ser valorizados, como veremos nos próximos textos/aulas. Quanta às famílias bilionárias brasileiras, essas estão a bilhões de anos de tal visão, pois o que lhes interessa unicamente é o “eu” e seu pequeno núcleo familiar.

      Abraços,

      Lu

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  4. Mário Mendonça

    Lu Dias

    “Tuti bona gente”, né?

    Tu assististe a Série “Os Borgias”? O papa mais sinistro que já existiu?
    Cada vez mais Eu acredito que Deus é uma nota de 100.

    Abração

    Mário Mendonça

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    1. LuDiasBH Autor do post

      Mário

      Eu tenho essa série. Naquela época Igreja e política eram uma coisa só, como vemos nos países islâmicos.

      O pior é que estamos caminhando para isso a passos largos aqui no Brasil, querendo impedir que sejamos laicos. A junção de Igreja com religião dá um angu de caroço da pior espécie.

      Abraços,

      Lu

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