NEOPLATONISMO E CRISTIANISMO (Aula nº 49)
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Autoria de LuDiasBH

O acentuado interesse dos humanistas italianos pela literatura clássica grega deu-se em razão da interação com os eruditos gregos, quando Constantinopla — capital do Império Bizantino — foi tomada pelos turcos otomanos, fazendo com que muitos letrados gregos bizantinos buscassem asilo nas cidades italianas. Esse foi o primeiro passo para que o filósofo grego Platão se tornasse cada vez mais conhecido. Contudo, os textos levados para a Itália não eram totalmente puros, pois diziam respeito a comentários feitos durante os primeiros séculos da era cristã. Não se tratava da filosofia pura de Platão, mas da interpretação dela, daí o título de “neoplatonismo” (neo = novo), podendo conter muitas distorções.

Os neoplatônicos do século XV defendiam que a arte (arquitetura, literatura e a música) devia chegar o mais próximo possível da perfeição e da harmonia que orientavam o trabalho de criação de Deus. Os filósofos neoplatônicos anunciavam que era de fundamental importância que o mundo material e o espiritual formassem uma só unidade. Eles acreditavam que o homem (erudito ou adepto), ao estudar o movimento das estrelas e ao recitar as súplicas e os hinos, seria capaz de ocupar um lugar mais elevado dentro da hierarquia do Universo e, assim, alcançar a perfeição espiritual. Essa visão do neoplatonismo foi muito importante para o mundo da alquimia e da astrologia e, ainda que indiretamente, abriu caminho para a revolução científica do século XVII.

A história tem nos mostrado que quanto mais inculto for o grupo que professa uma crença — qualquer que seja ela —, maior é a possibilidade de acontecer exageros, inadequações e temeridades. O início do cristianismo não foi diferente. O acolhimento daquilo que era pregado nos sermões era tomado ao pé da letra, tido como uma verdade divina absoluta, sem que as pessoas esboçassem qualquer capacidade crítica, — fato que ainda acontece nos dias de hoje nos mais diferentes credos. Deus há muito deixou de operar de acordo com a sua esperada grandeza, para se tornar um garoto propaganda da pecúnia e do poder dessa ou daquela religião ou seita.

Agindo os fiéis de pleno século 21, exatamente como se comportavam os fiéis da Idade Média, não nos causa surpresa que essa mesma visão religiosa medieval continuasse tão conturbada durante o Renascimento. Só para se ter uma ideia, com o crescimento das cidades, mercadores e financistas — amedrontados com a possibilidade de perderem a salvação eterna — compactuavam com o “divino”, empregando somas fabulosas em obras de arte devocional ou deixavam seus bens para a Igreja. Ainda que seguindo uma via questionável, isso foi importante para a arte, pois a Igreja era extremamente generosa como mecenas.

A peste negra abateu-se sobre a Europa em meados do século XIV, aniquilando um número considerável de vidas, levando muitos a crerem no suposto “fim do mundo”. Na Itália ela foi responsável — dentre outros fatos — pelo atraso da construção da catedral de Florença. O mais paradoxal nesse acontecimento medonho que assolou a humanidade é que ele acabou por impulsionar a arte, uma vez que homens e mulheres ricos vitimados pela peste, depositavam dinheiro nos santuários, esperando encontrar a salvação. Esse dinheiro era empregado nas obras envolvendo a arquitetura, a escultura, a pintura, contribuindo para empregar os artistas, etc. A Igreja era vista como o único guia religioso, responsável pela salvação eterna do indivíduo. E era a ela que as pessoas recorriam em suas prementes necessidades.

Naquela época, a ganância não era menor do que a vista nos dias de hoje, tanto é que o dinheiro emprestado a juros configurava um grande pecado. Contudo, o pecador tinha sua culpa perdoada desde que fizesse doações à Igreja e aos pobres. Dois grandes banqueiros europeus — os Bradi e os Peruzzi — deram muito serviço a Giotto, permitindo que o artista a criasse inúmeros afrescos de vida de santos. A intenção desses endinheirados era a de livrarem-se da culpa da usura e da avareza. Imaginemos nós o quanto os banqueiros de nossos dias —  com os lucros exorbitantes que acumulam nestes tempos — teriam que destinar às artes, para se livrarem do pecado do apego extremado ao dinheiro e da falta de generosidade para com os pequenos…

Muitos palácios foram construídos no século XV na Itália para mostrar a grandiosidade das famílias ou das instituições. As atitudes filosóficas relativas ao excesso de riqueza começaram a mudar nos últimos tempos daquela época. Se antes a pobreza era vista como um estado superior — conforme preconizava São Francisco de Assis — tal conceito foi ficando démodé. Não mais se condenava o excesso de riqueza de uns poucos e a miséria da imensa maioria da população, desde que os ricos mostrassem as virtudes da generosidade para com os pobres — sabe-se lá como. Como tudo se ajeita para os ricos neste mundo, não é mesmo?

Exercício

1. O que levou o filósofo grego Platão a tornar-se conhecido na Itália?
2. O que defendiam os neoplatônicos do século XV?
3. Qual era a visão religiosa dos fiéis do Renascimento?

Ilustração: A Escola de Atenas (detalhe), 1509, obra de Rafael Sanzio.

Fontes de pesquisa
A História da Arte / Prof. E. H. Gombrich
Renascimento/ Nicholas Mann

8 pensou em “NEOPLATONISMO E CRISTIANISMO (Aula nº 49)

  1. Marinalva Autor do post

    Lu
    Sabemos que a humanidade sempre passou por inúmeras mudanças. Boas ou más, é sempre um aprendizado que muda a vida de cada ser humano. Vimos o quanto as lições foram duras. Os mais fortes e poderosos sempre no domínio dos mais fracos. Surgem correntes como o Humanismo, o Neoplatonismo, corrente filosófica inspirada na filosofia de Platão que possuía várias doutrinas e pensamentos diferentes. Entre a maneira de ver as coisas estão a fé e a razão. O homem passa a se valorizar mais e a buscar solução na ciência. Passa a pensar e a diminuir o poder centralizador da Igreja. Há uma revolução científica. O nome de Deus continua sendo usado. Rico continua sendo rico e pobre sendo pobre. E assim caminha a humanidade.

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Marinalva

      O surgimento do humanismo foi um grande passo na história da humanidade. O Neoplatonismo provocou uma nova maneira de ver o mundo que até então era somente visto pela ótica da Igreja vigente. A busca por uma visão científica abre espaço para o progresso que surge nos mais distintos campos. Como à época, Deus continua sendo usado como garoto propaganda para atrair bens materiais e o rico continua cada vez mais rico e pobre cada vez mais pobre. É isso mesmo!

      Abraços,

      Lu

      Responder
  2. Adevaldo R. Souza

    Lu,

    Realmente a Igreja foi importante para o desenvolvimento artístico e cultural, entretanto ela talhou a criatividade de muitos artistas à época. Até a obra de Michelangelo – O Juiz Final – foi censurada, sendo “as vergonhas” dos nus cobertas após a conclusão do afresco.

    Quanto à atuação dos Visigodos – conforme comentário acima – constata-se que seus saques não foram tão diferentes dos praticados pelos romanos e eles não influenciaram na manutenção das artes, pois a invasão dos visigodos à Europa aconteceu 410 anos a.C., quando a Itália ainda não era o berço das artes. Os visigodos não tinham objetivo de ser uma horda saqueadora, mas de conquistas. Hoje os saques são da elite sobre os pobres e são feitos através da corrupção. Certas Igrejas, também, já foram e continuam saqueadoras, a exemplo do que foi visto em Angola.

    A invasão dos visigodos foi importante para a queda do todo poderoso Império Romano que dominava o mundo. O problema religioso também imperava: os visigodos eram alienistas, os romanos eram cristãos. Os visigodos foram expulsos da Europa pelos muçulmanos.

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    1. LuDiasBH Autor do post

      Devas

      Muito bem feita a sua colocação. Você anda com a história da humanidade na ponta da língua. É nisso que dá ser um leitor voraz, além de assistir a inúmeros documentários históricos. É realmente um preciso historiador, como se mostra em seus livros. Parabéns!

      Grande abraço,

      Lu

      Responder
  3. Antônio Costa

    Lu,

    De fato, a Igreja de diferentes modos teve um papel fundamental na criação artística e cultural. Certamente sem ela as artes teriam sido estagnadas ou perdidas. Sem ela os povos viveriam como horda saqueadoras, a exemplo dos visigodos, invadindo a Europa, com prevalência dos mais fortes. O progresso humano seria mais lento e duvidoso. Quanto à riqueza e à pobreza, é uma eterna equação comum na natureza humana pois não somos iguais. Vale assegurar os pilares básicos de vida digna: saúde, educação, segurança e oportunidades. Cada um crescerá segundo o trabalho, força de vontade e capacidade.

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Antônio

      Não comungo com a sua ideia de que “Cada um crescerá segundo o seu trabalho, força de vontade e capacidade”. Você, como uma pessoa dotada de pensamento crítico sabe muito bem que aqueles que mais trabalham no Brasil são os menos valorizados. Só para dar um pequeno exemplo, cito os professores e enfermeiros. Sabia que um enfermeiro ganha menos que o salário mínimo (mil e cem reais), após os descontos? E alguém trabalha mais do que um gari? E que força de vontade possui, para levar a cabo tão árduo ofício. E que capacidade física carrega ao usar seu corpo num vai e vem de vassouradas e pulos nos caminhões de lixo, ficando em contato com coisas insalubres, doentias. A seguir seu raciocínio, estaremos implementando no Brasil as doentias e insensatas”castas indianas”. A Bíblia, livro sagrado dos cristãos, e a Constituição do Brasil dizem que todos os homens são iguais. Ou seja, tanto no plano divino quanto no terreno “todo homem é igual”. Como vê, com religião ou sem religião os mais fortes continuam prevalecendo em detrimento dos pobres.

      Abraços,

      Lu

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  4. Hernando Martins

    Lu

    A civilização greco-romana teve uma influência hercúlea no pensamento dos artistas do Renascimento. Especificamente em relação ao o texto, a filosofia de Platão foi fundamental para a cultura humanista. Através da visão antropocêntrica – o homem no centro do universo – ao contrário do cristianismo, em que predominou o teocentrismo – Deus no centro do mundo. Mesmo havendo a existência do cristianismo no Renascimento, os humanistas conseguiram romper alguns muros da obscuridade e criar pontes de conhecimento, capazes de transformar culturas e promover grandes descobertas para a humanidade.

    A reflexão que faço é que o negacionismo, o fanatismo religioso e o obscurantismo, estão mais vivos do que nunca em várias partes do mundo – um verdadeiro retrocesso para a humanidade.É preciso haver um renascimento de valores humanistas para resgatar essas almas perdidas no tempo e no espaço da ignorância.

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Hernando

      Como sempre digo, a história da humanidade é cíclica, ou seja, ela é feita por um vai e vem de avanços e retrocessos. Basta observarmos a sabedoria de Platão, por exemplo, vivendo lá na Grécia antiga e compará-la com os retrocessos de nossos tempos. Chegou-se ao absurdo de dizer que a Terra é plana, desdizendo todas as experiências científicas, incluindo a ida do homem ao espaço. Se os filósofos de então erraram em alguns pontos, isso se deve à falta de instrumentos capazes de retificar suas pesquisas, dando-lhes outra direção. O mesmo não se pode dizer a respeito de hoje, quando a Ciência entrega praticamente tudo de mão beijada, aberto à busca de quem assim o desejar.

      O que temos que levar em conta é que nos dias atuais a busca pelo poder e riquezas tomou um caminho absurdo e covarde, a ponto de negar a Ciência por mera conveniência. Tais pessoas acreditam no que lhes convêm, naquilo que lhes traz ganhos junto aos desprovidos de conhecimento científico. Tudo não passa de armação para ocupar espaço na mídia e angariar adeptos. Trata-se de um abjeto jogo de poder. A negação da Ciência por parte dos “esclarecidos” é para mim o maior contrassenso dos dias atuais. É como você diz:

      “É preciso haver um renascimento de valores humanistas para resgatar essas almas perdidas no tempo e no espaço da ignorância.”

      Abraços,

      Lu

      Responder

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