Piero della Francesca – RETÁBULO DE BRERA

Autoria de Lu Dias Carvalho

A composição, cujo título original era “Conversa sagrada com Madona e criança, seis santos, quatro anjos e o doador Federico da Montefeltro”, mas conhecida hoje como Retábulo de Brera, ou Madona de Brera, ou  A Virgem e o Menino com Santos, e ainda o Retábulo Montefeltro, é uma pintura do Renascimento italiano, obra do pintor, matemático e pensador Piero della Francesca. Foi encomendado por Federico III da Montefeltro, Duque de Urbino, intelectual e humanista, para provavelmente, ornamentar a igreja de San Bernadino em homenagem ao nascimento de seu filho Guidobaldo. Inclusive imagina-se que esse tenha servido de modelo para pintar o Menino Jesus e que a Virgem tenha tido como modelo sua esposa Battista Sforza, Duquesa de Urbino que faleceu logo após o nascimento do filho.

A Virgem Mãe, com seu trono sobre um tapete estilizado, traz seu Menino nu, dormindo serenamente em seu colo. Ele usa um colar vermelho, feito de contas de coral que alude a seu sofrimento futuro, mas que também simboliza a redenção da humanidade. Um ovo de avestruz pende de uma concha no teto que se encontra exatamente acima da cabeça da Virgem. Sobre seu significado existem inúmeras suposições, como a de que simbolizaria a fecundidade de Maria, ou a promessa da regeneração e também o brasão dos Montefeltros. Especula-se que a concha, formando uma semi cúpula  refira-se a Maria como a nova Vênus. E ainda que o ovo seria uma pérola advinda da concha, aludindo ao milagre da concepção virginal.

Maria usa um vestido drapeado dourado e sobre ele um longo manto azul-escuro. Sua cabeça que ocupa o centro absoluto da composição possui um oval quase perfeito em sintonia com o ovo pendurado na concha na abside, perpendicular a ela. Tem próximos a si seis santos. À sua direita estão São João Batista (padroeiro da mulher do doador), São Bernardino de Siena e São Jerônimo (protetor dos humanistas), enquanto à sua esquerda postam-se São Francisco, São Pedro Mártir e Santo André. As quatro figuras femininas colocadas atrás da Virgem Mãe representam anjos. À direita, ajoelhado em frente ao trono, vestindo uma brilhante armadura de guerreiro, está Federico III da Montefeltro, o patrono da obra.

Através dos trechos da cornija no alto percebe-se que a obra foi cortada, possivelmente com o objetivo de adequar-se a um determinado espaço. É provável que isso tenha acontecido quando se encontrava na igreja de São Bernardino. Especula-se que originalmente o ovo tenha sido o ponto de cruzamento das duas diagonais da composição.  Ele é também o centro simbólico da obra. O ponto de fuga encontra-se, mais ou menos, na mesma altura das mãos das figuras. Ao reunir os santos e anjos em torno da Virgem, criando um semicírculo, Piero cria uma segunda abside, inovação que foi muito copiada por artistas posteriores a ele.

Chamam a atenção no trabalho de Piero a majestade e a complexidade do fundo arquitetônico contra o qual acontece a “sacra conversazione”. A abside é a de uma igreja em estilo clássico renascentista. Encantam também as suntuosas  vestimentas das figuras com seus ricos ornamentos: colares, alfinetes incrustados de pérolas e belíssimas cabeleiras das mulheres, cujos cachos em forma de caracóis assemelham-se a espirais metálicas e o domínio notável por parte de Piero de proporções. Um belíssimo lenço trabalhado  cinge a cabeça da Virgem.

Nota: Não se sabe o porquê de as mãos do duque terem sido repintadas, alguns anos depois, provavelmente por Pedro Beruguete.

Ficha técnica
Ano: c. 1473
Técnica: óleo sobre madeira
Dimensões: 248 x 170 cm
Localização: Museu de Brera, Milão, Itália

 Fontes de pesquisa
Enciclopédia dos Museus/ Mirador
1000 obras-primas da pintura europeia/ Edit. Könemann
https://translate.google.com.br/translate?hl=pt-BR&sl=en&u=http://www.wga.hu/html_m/p/piero/3/12monte1.html&prev=search
https://en.wikipedia.org/wiki/Brera_Madonna

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Reynolds – SENHORITA NELLY O’BRIEN

Autoria de Lu Dias Carvalho

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A composição Senhorita Nelly O’brien, obra do artista inglês Joshua Reynolds, é tida como uma de suas melhores pinturas, em razão de sua unidade estilística. Ao que parece, foi toda pintada pelo artista, sem a participação de seus colaboradores. A retratada era uma grande amiga do pintor, tendo sido modelo de outras obras suas.

A pintura mostra uma bela e jovem mulher, a famosa cortesã inglesa Nelly O’Bruen, suntuosamente vestida à moda do século XVIII, sentada no jardim, de frente para o observador, como se o desafiasse. Ela traz no colo um branco e peludo cãozinho maltês, que se aninha entre seus braços. Veste uma volumosa saia vermelha de tecido acolchoado, com imensas dobras, encimada por uma camada de renda transparente. Uma luz dourada ilumina várias partes da saia, deixando-a furta-cor. Usa um chapéu de palha de largas abas, enfeitado com tiras de cor turquesa. Um xale de renda preta cai sobre seu vestido de tecido amassado, listrado de azul e branco, com mangas terminando em cascatas de renda. Uma insinuante gola deixa à vista seu colo nu. Seu pescoço está cingido por um enorme colar de brilhantes.

É visível a diferença de planos entre os joelhos e o corpo da mulher, e também entre o vestido e a pele do colo, assim como entre a aba do chapéu e o rosto, o que dá profundidade à figura. Chama atenção nesta bela obra de Reynolds, que apresenta várias texturas, o jogo de luz e sombra executado por ele, principalmente na parte superior do corpo da cortesã, em que a grande aba de seu chapéu sobreia seu rosto oval e colo, como mostra uma pequena parte do seio, desprotegida, à direita. A figura, centralizada no quadro, tem a forma de uma pirâmide. Os trajes da retratada tocam a parte inferior da tela. A iluminação que a atinge vem da esquerda. Ao fundo desenrola-se uma paisagem com árvores e plantas rasteiras.

Ficha técnica
Ano: 1763
Dimensões: 127 x 100 cm
Técnica: óleo sobre tela
Localização: Coleção Wallace, Londres, Grã-Bretanha

Fontes de pesquisa
Reynolds/ Abril Cultural
1000 obras-primas da pintura europeia
http://www.wallacecollection.org/whatson/treasure/149
https://www.theguardian.com/culture/2002/jul/20/art

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OCITOCINA – HORMÔNIO DO AMOR E DA BONDADE

Danilo Vilela Prado

É um hormônio produzido principalmente pelo hipotálamo, região do cérebro do tamanho de uma amêndoa, e é liberada diretamente no sangue pela glândula pituitária. Inicialmente, pensava-se que sua produção era exclusiva das mulheres no momento do parto, ao auxiliar as contrações uterinas, diminuir o sangramento e estimular a liberação do leite materno, criando laços fortes entre a mãe e o bebê. Mas a ciência vem provando que esse espetacular hormônio não é exclusividade feminina. Homens também produzem ocitocina, quando possuem apego e empatia com outras pessoas e animais. Além disso, o hormônio estimula parte do prazer no orgasmo, é anti-inflamatório, protege o sistema cardiovascular de possíveis danos que podem ser causados pelo estresse, ao reduzir os níveis de cortisol (o chamado “hormônio do estresse”) e baixa a pressão sanguínea.

Recentemente, a revista Saúde é Vital, nº 390, publicou artigo no qual cita pesquisas que apontam que a ocitocina protege o coração de lesões, ao descongestionar artérias; estimula o bom funcionamento dos rins, porque elimina o excesso de sódio por meio da urina; auxilia na reversão da disfunção erétil; inibe o medo; abranda a fome; e atua positivamente durante e após a maternidade. Também reestrutura neurotransmissores no cérebro, com o efeito de criar mudanças positivas. Por isso, tem sido classificada como o “hormônio do amor”, pois toda vez que é produzida e liberada estimula os sentimentos de amor, atração, carinho, proteção e bondade. Ao proporcionar excitação entre as pessoas, cria boas relações entre amantes e amigos. Além dos magníficos efeitos do hormônio, secretar a ocitocina é muito mais fácil do que as pessoas podem imaginar. Bastam boas intenções e praticar o bem com pessoas e animais. Toda vez que praticamos a bondade, ajudando material e psicologicamente, ou dando conforto espiritual aos desafortunados, liberamos ocitocina. Por isso, é muito comum encontrar quem esteja “viciado” em fazer o bem. Existem centenas de milhares de pessoas que fazem espetacular trabalho de apoio aos carentes, enfermos e desvalidos.

A médica Zilda Arns e a Madre Tereza de Calcutá, por exemplo, certamente produziam ocitocina acima da média, porque a vida delas foi sempre dedicada a salvar seres humanos da miséria. Só com a disseminação do soro caseiro no Brasil e em outros países, Zilda Arns salvou da morte milhares de pessoas, na maioria crianças desamparadas e pobres. Mas se a ajuda for interesseira, na esperança de receber retribuição, certamente a ocitocina não será liberada e levará à frustração, porque o hormônio brota espontaneamente da alma, da intenção de aliviar o sofrimento que existe no mundo. Ajudar por ajudar, não traz benefício. É preciso envolvimento do coração, com o uso de toda a boa vontade, a fim de reverter as situações desfavoráveis dos infelizes. Só dessa forma a ocitocina jorrará abundantemente, criando um ciclo de afeto, amor, compaixão, solidariedade, amizade, amparo e felicidade mútuas entre os que ajudam e aqueles que são ajudados.

A ocitocina é a verdadeira substância das mudanças que causam benefícios. Existe somente no polo positivo da humanidade e é capaz de transformações gigantescas em momentos de sua. Assim aconteceu logo depois da Segunda Guerra Mundial, quando a solidariedade “explodiu” sob a forma de ajuda humanitária para milhões de vítimas. O pós-guerra foi transformador e fortaleceu o sentimento de que aquele capítulo infeliz da história não pode ser repetido. Felizmente, nós não temos hoje sofrimento da proporção da última Grande Guerra. As ações devem ser, portanto, individuais ou coletivas, mas sempre no sentido de ajudar. Liberar ocitocina significa a liberdade e a libertação dos que dedicam a praticar atos de bondade. Quem pratica o bem começa a se sentir cada vez melhor, com maior disposição física, bom-humor, leveza do corpo e da alma. A interação social fica mais intensa, cresce o nível de tolerância com o que chateia. A compreensão dos acontecimentos, sejam bons ou ruins, dá-se em nível cada vez mais maduro, amenizando a aspereza da vida.

A ocitocina é também considerada a principal responsável pelo amor e carinho que damos aos animais. Eles retribuem das mais variadas maneiras, seja manifestando alegria, brincando e nos acariciando ao demonstrar o quanto gostam de quem os acolhe. Os cães atualmente ocupam lugar de destaque na sociedade, porque é amigo, fiel, brincalhão e desempenha funções como aliviar o estresse e proporcionar felicidade. Por causa de seu comportamento amistoso desperta em crianças, homens e mulheres sentimentos de bondade, que têm como consequência a liberação de ocitocina. Já nas primeiras descargas da ocitocina forma-se uma relação natural de bem-estar entre os que ajudam e os que são ajudados, de bondade e agradecimento, de sensação de ser útil por acolher e ser acolhido. Assim se estabelece, por meio de um hormônio, uma engrenagem de solidariedade que costuma durar anos e até décadas. E que, ao longo dos séculos, amenizou instintos primitivos dos seres humanos, que tendiam sempre a dominar cada vez mais homens e animais.

Nota: imagem copiada de Procuromaissaude.com

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AÇÚCAR MATA MAIS QUE CIGARRO

Autoria de William Ecenbarger e Mary S. Aikins *

Há um setor que vende um produto que faz mal à saúde. Uma geração atrás era o setor fumageiro, e o produto era o cigarro. Hoje é o alimentício cujo produto é o açúcar. O Dr. Aseem Malhotra – cardiologista em Londres – é um dos líderes da campanha contra o açúcar na Europa. Afirma que a indústria de alimentos imitou o “roteiro corporativo” da fumageira para rejeitar a regulamentação. “A única diferença é que, enquanto o fumo era evitável, o açúcar atualmente é quase inevitável.”.

O açúcar adicionado – não o açúcar natural que existe em frutas e legumes – está em tudo. Uma das maiores fontes são bebidas como refrigerantes, energéticos e sucos. No supermercado há açúcar adicionado aos pães, iogurtes, manteiga de amendoim, sopas, vinhos, salsichas – em quase todos os alimentos industrializados. Uma única colher de sopa de Ketchup pode conter uma colher de chá de açúcar. Helen Bond, nutricionista da Associação Dietética Britânica diz: “É um marketing inteligente: palavras como ‘frutose’ fazem pensar que estamos reduzindo o açúcar adicionado, mas o fato é que estamos polvilhando açúcar branco sobre a comida.” Diz o Dr. Malhotra: “Esse açúcar a mais é completamente desnecessário. Ao contrário do que a indústria alimentícia quer que acreditemos, o organismo não precisa da energia de nenhum açúcar adicionado.” O Dr. Robert Lustig, endocrinologista pediátrico do campus de San Francisco da Universidade da Califórnia e líder mundial da campanha contra o açúcar, observa que o consumo mundial de açúcar per capta aumentou 50%.

No Brasil, segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde, o açúcar adicionado representa 19% da ingestão total de açúcar do brasileiro e o excesso de açúcar na dieta é fator de risco para o desenvolvimento da obesidade, além de doenças como o diabetes. Mais da metade da população brasileira (53,9%) está acima do peso. Entre as crianças de 5 a 9 anos, um terço delas está com sobrepeso.

“Hoje, nossa alimentação tem tanto açúcar adicionado, que o sistema metabólico (que processa a energia) simplesmente não aguenta. Nosso corpo faz coisas diferentes com tipos diferentes de calorias. Na quantidade ingerida hoje, a frutose (açúcar adicionado) é armazenada principalmente como gordura. Em geral, essa gordura vai para a barriga”, diz Lustig. O perigo para a saúde não é só a obesidade: há indícios que ligam o açúcar a doenças hepáticas, diabetes tipo 2, cardiopatias e cáries. O setor de bebidas e alimentos continua a promover o açúcar com muita publicidade de seus produtos açucarados.

No ano passado, a Organização Mundial de Saúde (OMS) reafirmou a recomendação anterior de que, num parâmetro ideal, a ingestão de açúcar, fora aquele que existe naturalmente em frutas e legumes, não deveria exceder 10% da ingestão total de energia (no Brasil, o consumo médio é de 16,3%). Na alimentação média, 10% da ingestão total de energia corresponderiam a umas 12 de colheres de chá de açúcar por dia. Uma única lata de 330 ml de refrigerante pode conter até 10 colheres de açúcar adicionado. “Temos provas de que manter no limite de 10% a ingestão de açúcar livre reduz o risco de sobrepeso, obesidade e cárie”, disse o Dr. Francesco Branca, diretor do Departamento de Nutrição para a Saúde e o desenvolvimento, da OMS, no comunicado em que apresentou o relatório à imprensa mundial.

O Conselho Internacional de Associações de Fabricantes de Bebidas, um grupo de pressão do setor, rejeitou o relatório da OMS e fez o seguinte comentário: “Quanto à obesidade, não há qualquer base científica para tratar o açúcar livre de forma diferente do açúcar intrínseco (não adicionado).” O Dr. Malhotra contesta: “Isso não é verdade. É preciso levar em conta a qualidade dessas calorias. O açúcar intrínseco ocorre em alimentos que trazem outros benefícios nutricionais.”

O sobrepeso e a obesidade em crianças e a quantidade de alimentos açucarados que consomem são uma preocupação dos profissionais da saúde. Uma medida que, segundo especialistas, pode fazer a diferença é a redução ou a suspensão da publicidade desses alimentos durante a programação infantil. A província canadense do Quebec restringe esses anúncios de junk food na TV desde 1978. Hoje tem taxas de obesidade bem mais baixas que o resto do Canadá. Outros países que restringiram os comerciais de bebidas e flocos de milhos açucarados e outros alimentos nocivos nos horários em que as crianças assistem à TV são Noruega, Suécia, Dinamarca, México e o Reino Unido. No entanto, uma análise constatou que, no Reino Unido, os fabricantes anunciam alimentos nocivos às crianças: na internet, em merchandising durante programas populares e em videogames.

Na Europa, uma iniciativa estimulante para limitar a publicidade para crianças é o EU Pledge. As principais fábricas de alimentos concordaram voluntariamente em limitar a publicidade de alimentos açucarados para crianças até 12 anos. Elas não fazem comerciais de TV nem anúncios na internet para essa faixa etária e não vendem seus produtos em escolas primárias, o que representa uma mudança significativa da maneira como esses alimentos são vendidos a crianças.

Marlene Schwartz é diretora do Centro Rudd para Políticas Alimentares e Obesidade, organização sem fins lucrativos, sediada nos EUA, e dedicada a encontrar soluções na pesquisa e na política para a obesidade, a má alimentação e o preconceito ligado ao peso durante a infância. Ela diz que as diretrizes do EU Pledge “não vão suficientemente longe. O ideal seria ampliá-las para crianças até 14 anos.”

Outra área da publicidade de alimentos e bebidas à qual o Dr. Malhotra se opõe é a associação entre produtos e atletas, tática usada pela indústria fumageira há apenas 50 anos, quando atletas e celebridade eram contratados para endossar os cigarros. Ele questiona a permissão à Coca-Cola para patrocinar as Olimpíadas. A parceria da empresa com as Olimpíadas começou em 1928 e foi estendida até 2020. “A Coca-Cola (…) associa seus produtos ao esporte, sugerindo que não há problema em consumir suas bebidas desde que se pratiquem exercícios”, escreveu o Dr. Malhotra recentemente na revista British Journal of Sports Medicine. “Mas não dá para vencer a má alimentação com corrida.”

Os defensores da saúde pública dizem que duas abordagens bem-sucedidas na redução do hábito de fumar – educação do consumidor e tributação – são necessárias no combate ao consumo excessivo de açúcar. O México criou um imposto de 10% sobre bebidas açucaradas e sua venda caiu 12% no primeiro ano. Na França um imposto sobre refrigerantes criado em 2012 resultou no declínio gradual do consumo. A Noruega tributa alimentos e bebidas açucarados e divulga informações há muitos anos, com bons resultados. Em março deste ano, o chanceler britânico George Osborne anunciou a criação de um imposto sobre bebidas açucaradas a ser cobrado de produtores e importadores de refrigerantes.

Embora tenha havido algum sucesso com a tributação, o setor de alimentos e bebidas continua a fazer pressão contra informar sobre o açúcar adicionado ao consumidor – exatamente como fizeram as empresas fumageiras ao combaterem as tentativas do governo de pôr nas embalagens de cigarros mensagens alertando para o perigo de fumar (medida adotada também no Brasil).

Uma abordagem proposta para solucionar a questão foi pôr nos rótulos “sinais de trânsito” – círculos vermelhos, amarelos e verdes – para indicar a “salubridade” dos produtos alimentícios. Esse esquema, atualmente um programa voluntário bem-sucedido no Reino Unido, foi rejeitado pela maioria dos membros do Parlamento Europeu. “As pessoas não fazem ideia de quanto açúcar ingerem”, diz Ilaria Passarani, chefe do Departamento de Alimentação e Saúde, uma entidade com sede em Bruxelas. Na esteira das preocupações em relação ao açúcar, a Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação (Abia) anunciaram recentemente que estudam um acordo para reduzir a quantidade de açúcar nos alimentos processados, semelhante ao que é feito com o sal. A primeira etapa deve começar em 2017, com análise das principais fontes de açúcar na dieta dos brasileiros.

Os indícios contra o açúcar e seus efeitos nocivos à saúde continuam a se acumular, conforme os estudos são publicados. A Dra. Kimber Stanhope, bióloga nutricional da Universidade da Califórnia, que completou em 2015 cinco anos de uma pesquisa que ligou o xarope de milho rico em frutose – comum nos Estados Unidos – ao aumento do risco de infarto e acidente vascular cerebral. “Todos deviam perceber que não há perigo nenhum em reduzir a ingestão de açúcar, mas há fatores de risco em continuar a comer grande quantidade, enquanto aguardam mais indícios”.

Os pais deveriam afastar-se e aos filhos do consumo diário de açúcar e considerá-lo um alimento para ocasiões especiais. Novas pesquisas também indicam que o açúcar, assim como o fumo, pode ser viciante. Eric Stice, neurocientista do Instituto de Pesquisas do Oregon, está usando ressonâncias magnéticas do cérebro de adolescentes para mostrar que “o açúcar ativa o cérebro de um modo que lembra drogas como a cocaína”. Ele acrescenta que as pessoas criam tolerância ao açúcar, como acontece com os fumantes e usuários de drogas: “Isso significa que, quanto mais açúcar se consome, menor a recompensa. O resultado: come-se mais do que nunca.”.

O que fazer para reduzir a ingestão de açúcar adicionado? “Há um jeito fácil de resolver esse problema em casa: chama-se comida de verdade”, diz o Dr. Lustig. Alimentos não industrializados que nós cozinhamos. Um pedaço de peixe é comida de verdade: nuggets de peixe comprados prontos, não. É assim que temos de alimentarmo-nos e alimentar nossos filhos”. E podemos provocar mudanças na indústria de alimentos e bebidas. “O ativismo de cidadãos comuns tirou o cigarro dos restaurantes, aviões, locais de trabalho e escolas. Temos de fazer o mesmo contra essa avalanche de açúcar em nossa alimentação”, continua o Dr. Lustig. “Se não pararmos de envenenar o nosso organismo com açúcar, nós e nossos filhos só ficaremos mais gordos e mais doentes. E o custo será astronômico.”

Nota: termos usados para o “açúcar adicionado”: néctar de agave – meladoaçúcar de beterraba – xarope de bordo – caldo de cana – sacarose, xarope de arroz – açúcar de confeiteiro – rapadura – xarope de milho – gomme – galactose – açúcar de tâmaras – dextrose – drimol – malte – xarope de arroz integral – dri sweet – adoçante de passas – lactose comestível – kona ame – sucrovert – flomalt – frutose – açúcar invertido – clintose – xarope de sorgo – xarope dourado – isoglicose – muzi amt.

Meu nome é Fernando Carvalho e sou autor de “O Livro Negro do Açúcar” de graça na internet há 15 anos. Gostaria de fazer alguns reparos ao artigo acima que é de 2016:

  • A recomendação da ONU para o consumo de açúcar que era de 10% das calorias totais ingeridas diariamente, caiu para 5%. Numa dieta de 2000 Kcal isso significa apenas 25 gramas de açúcar adicionado (de cana ou beterraba).
  • Uma Coca-Cola de 600 ml já contém 60 gramas de açúcar.
  • Uma notícia boa, o consumo de açúcar na Noruega caiu 40%.
  • Sal é um alimento nobre e seu consumo é estável.
  • O brasileiro consome 12 gramas por dia há décadas. Já o consumo do produto químico isolado da cana é crescente e hoje é de mais de 60 quilos por pessoa a cada ano no Brasil.
  • É mais do que o consumo de arroz e feijão somados. Tenho posts publicados no meu perfil no Facebook sobre o açúcar se a moderação quiser é só compartilhar aqui.

*Revista Seleções Reader’s Digest do mês de setembro/2016, páginas 124 a 131
ferdocarvalho@proton.me

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Mestres da Pintura – JOSHUA REYNOLDS

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Os princípios da arte, quer se trate de poesia ou de pintura, têm sua origem no intelecto. (Joshua Reynolds)

O pintor inglês Joshua Reynolds (1723-1740) era filho do reverendo Samuel Reynolds. Seu pai almejava que ele fosse médico, mas o garoto, já aos oito anos de idade, mostrava sua forte propensão pela arte, reproduzindo pinturas e gravuras. Ao tomar conhecimento do “Ensaio sobre a Teoria da Pintura”, anos depois, viu que ser pintor era o que desejava. Prometeu ao pai que seria um pintor de talento.

Reynolds foi para Londres aos 17 anos de idade, onde estudou com Thomas Hudson, um retratista conservador, ficando com o mestre por um período de dois anos e meio, trabalhando com técnica e composição, sem agregar novos conhecimentos a seus estudos. Ao voltar para a sua cidade natal, Devonshire, o artista passou a visitar Londres com frequência, onde tomou conhecimento dos retratos do escocês Ramsay, que se atinha à variação cromática das superfícies e gostava de mudar sempre a posição dos retratados. Reynolds sempre instruía seus colaboradores (a pintura inglesa do século XVIII trabalhava com ajudantes), que ficavam com as paisagens e panejamentos, enquanto ele fazia os desenhos, pintava rostos e mãos da figura e retocava o que fosse necessário.  E foi esse tipo de colaboração que permitiu a Reynolds pintar mais de uma centena e meia de retratos por ano, embora ele achasse que a superioridade da arte pictórica encontrava-se na pintura histórica, aguardando seu reaparecimento na Inglaterra. Enquanto isso, ele pintava retratos.

O artista, a convite do Comodoro Augustus Keppel, fez uma visita à Itália, sofrendo um acidente em Minorca, responsável por deixar uma cicatriz nos seus lábios. Ali ficou durante cinco meses, antes de chegar a Roma, onde estudou a obra de Michelangelo e Rafael. Em outras cidades italianas conheceu o trabalho de Guido Reni, Ticiano, Tintoretto e Veronese. Ele acreditava que os grandes mestres da Renascença italiana — Rafael, Michelangelo, Corregio e Ticiano — eram o que havia de melhor na verdadeira arte.

Ao voltar à Inglaterra, passou a morar definitivamente em Londres, produzindo quadros para a elite. Apesar de criá-los em séries, sua capacidade inventiva não permitia que fossem iguais. Eximidos de qualquer forma de sentimento, ele os criava totalmente impessoais. Sua equipe trabalhava tanto, que chegava a produzir nove décimos da feitura da obra. Para o artista, a criação era mais importante do que a execução. Cobrava por suas obras preços exorbitantes, e ainda ganhava muitos presentes caros. Achava que somente o suntuoso e impressivo merecia receber o nome de “grande” arte. Para alguns críticos, “ele eram melhor teórico do que realizador”, sendo que sua capacidade intelectual sobressaía mais do que seu talento criativo. Veio a tornar-se um grande admirador da obra de Peter Paul Rubens, tanto pela intensidade das cores quanto pela inspiração renascentista e soluções barrocas.

Joshua Reynolds tinha predileção pelos ambientes requintados. Era sempre frequente nos meios literários e culturais. Contudo, sua vida privada era impenetrável. Antes de completar 60 anos, passou a sentir o enfraquecimento de sua visão. E três anos depois teve que paralisar seu trabalho, estando também a audição a falhar. A quase cegueira levou-o a distanciar-se dos salões aristocráticos de que tanto gostava. Faleceu aos 69 anos, sendo enterrado na Catedral de São Paulo. Isso comprova a sua importância como pintor paparicado pelos nobres e poderosos. Deixou, pelo menos, 43 autorretratos. Tornou-se um dos mais renomados pintores da arte britânica.

Fontes de pesquisa
Reynolds/ Abril Cultural
1000 obras-primas da pintura europeia

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20ª MOSTRA DE CINEMA DE TIRADENTES

Autoria de Luiz Cruz

          

Tiradentes abrigou a 20ª Mostra de Cinema, com muito sucesso! A história do cinema na cidade vem de longe. O primeiro cinema existiu na casa do inconfidente padre Carlos Correia de Toledo e Melo, atual Museu Casa Padre Toledo, já em atividade na década de 1920. Segundo Antônio Faustino da Cruz, o cinema atraia muitas pessoas, e aos cinco anos de idade ele vendia pastel, antes das exibições. Um documento de 1944, no Arquivo Central do IPHAN/RJ, registra a demolição da cabine cinematográfica e do palco, quando o imóvel passou pela primeira obra de restauro.  Outro cinema funcionou na sede do Aimorés Futebol Clube, na década de 1960, uma iniciativa de José do Nascimento, o “Zé da Olinda”, com apoio de Eros Miguel Conceição. Fez sucesso, mas deixou de existir. No final da década de 1970, Yves Alves ofertou um projetor de cinema 16mm para o IHGT-Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes e, em sua antiga sede, foram exibidos alguns filmes. Com o apoio de Eros Conceição, houve várias apresentações cinematográficas na EEBG – Escola Estadual Basílio da Gama. Na década de 1980, quando foi criada a Semana do Meio Ambiente, muitos filmes foram exibidos no Largo das Forras e na EEBG. Através do contato com o crítico de arte Mark Bercowitz, conseguimos os filmes emprestados no ICBEU-Instituto Cultural Brasil Estados Unidos. Os carretéis com as películas eram colocados em sacos de tecido e trazidos para Tiradentes em ônibus da linha Rio de Janeiro/São João del-Rei. O Centro Cultural Yves Alves-SESI mantém uma programação semanal de cinema e com boa qualidade, desde 2010. Toda exibição é gratuita para os tiradentinos e visitantes.

A primeira Mostra de Cinema de Tiradentes ocorreu em 1998, com a inauguração do Centro Cultural Yves Alves e em uma tenda de circo, instalada no Lago das Mercês. A Mostra consolidou-se e  tornou-se um dos eventos mais importantes do cinema no país. Tecnicamente houve um avanço surpreendente. Era curioso apreciar o vai e vem dos homens carregando os carretéis com as películas, filmes em 16mm e em 35mm. Assistimos as apresentações dos chamados “vídeos”, introduzindo a era digital. Com o avanço da tecnologia, tivemos oportunidade de acompanhar o grande salto da quantidade e da qualidade dos filmes brasileiros, associado à expansão das escolas de cinema em vários estados. Foram criando as mostras dentro da Mostra e os temas.

Na 20ª edição, o tema central foi “Cinema em Reação, Cinema em Reinvenção”. As homenageadas foram a atriz Helena Ignez e a atriz e diretora Leandra Leal. Foram exibidos 108 filmes, entre longas, médias e curtas metragens, com produções de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Maranhão, Pernambuco, Paraná, Bahia, Ceará, Rio Grande do Sul, Goiás, Espírito Santo, Paraíba e Distrito Federal. “Reação” e “Reinvenção” foram correlacionadas às questões de gênero, identidade,  transgressão, transexualidade e poder. Essa edição tornou-se um marco ao homenagear duas atrizes e a iluminar o tema mulher, sexualidade e  transexualidade, em contexto nacional. As minorias do Brasil e a violência que assola esses grupos, como as comunidades indígenas, mulheres, negros, transexuais, religiosos e outros.  Abriram-se muitas janelas do Brasil para  vermos o quanto grupos autoritários maltratam as minorias – historicamente – desde que esta terra tornou-se “Vera Cruz”, o nosso Brasil.

É lamentável ver como o Brasil desrespeita suas comunidades indígenas, expulsas por grileiros, madereiros, garimpeiros e agronegócio. É inconcebível tantos investimentos em hidrelétricas que desmantelam comunidades e destroem a fauna e a flora.  Lá se foi o tempo em que hidrelétrica era considerada energia “limpa”; pois, para exisitir, muitas vidas são dizimadas e compromete o meio ambiente. Tudo feito através de acordos escusos, sob o manto da falsa legalidade. Pior, nós brasileiros assistimos e consentimos essas barbaridades. Existe o silêncio de uma ONU e de uma UNESCO, que também figem como nós mesmos, que não está acontecendo nada. E, com isso, a devastação das florestas caminha, cada vez mais veloz.

“Uma câmara na mão e uma ideia na cabeça” – a famosa frase do cineasta Glauber Rocha, foi importante para o Cinema Novo. Na contemporaneidade, perde consistência. Como exibido na 20ª Mostra de Tiradentes, houve avanço na qualidade dos filmes, os jovens aprenderam a fazer cinema. Porém, cinema não é só tecnologia, envolve muitos aspectos. Acima de tudo, cinema é emoção. Cinema é Arte. E, para que alcance bom resultado é preciso ser lapidado. Alguns filmes nos encantaram, devido ao conjunto de elementos constitutivos. Outros foram de doer a alma. Um dos mais aplaudidos foi “Entre os homens de bem” (SP) – dirigido por Caio Cavechini e Carlos Juliano Barros. Apresenta o embate de Jean Wyllys, defensor da causa LGBT, com a bancada conservadora do Congresso Nacional. Quem achava que já conhecia o Congresso com a transmissão ao vivo da votação do impeachment da presidente Dilma Rousseff, enganou-se. O filme “Entre os homens de bem” revela um Congresso conservador, corporativo, reacionário, fisiológico, sem ética e sobretudo desprovido de inteligência. As referências a um Congresso Nacional  bbb – “bala, bíblia e boi” – está longe de ser representação de uma nação com dimensões continentais e complexo como o Brasil. Esse filme foi um tiro certeiro e enriqueceu a proposta da Mostra.

À Mostra  desejamos longa vida. Os desafios ainda são muitos. O maior deles é o diálogo com a comunidade, pois inexiste. A Mostrinha deveria ter sessões diárias para que as crianças tenham mais participação e experiências cinematográficas. Os adultos locais só frequentam a Mostra quando há filmes produzidos na cidade. Portanto, investir na Mostrinha é investir num futuro apreciador do Cinema Brasileiro. A Mostra precisa se adequar às questões da acessibilidade, com vagas reservadas para cadeirantes e com os filmes legendados. Torna-se elementar trabalhar com as questões da segurança, principalmente no Cine-Tenda, que é de material inflamável. É necessário também que a Mostra se encontre com os outros eventos locais.

Fotos: Cine-Tenda e aspecto do filme “Entre homens de bem”, fotografias do autor.

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