Dürer – JESUS ENTRE OS DOUTORES

Autoria de Lu Dias Carvalho

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O pintor alemão Albrecht Dürer era um homem muito religioso, tendo feito obras maravilhosas sobre o tema. A composição Jesus entre os Doutores apresenta uma passagem bíblica, que narra a presença de Jesus Cristo, aos 12 anos, entre os sábios do templo de Jerusalém, quando ele se perde de seus pais, Maria e José. Passagem essa que já foi retratada por vários outros pintores, como Giotto e William Holfman.

Na composição, Jesus encontra-se no meio de seis sábios, que se apresentam com feições agressivas, como se estivessem irritados com a presença daquele menino tão inteligente e questionador. O pintor enche, em grande parte, a superfície da pintura com as cabeças, quase caricaturais, das sete figuras. As mãos de Jesus, gesticulando, são o ponto central do quadro.

A figura à esquerda, com as duas mãos apoiadas num grosso livro, traz um texto colado na boina. Trata-se de um fariseu. O livro que carrega está marcado por um papel branco, onde se encontra a assinatura de Albrecht Dürer e o ano em que a obra foi feita. O sábio de barba longa, à direita, é uma menção ao pintor Bellini. O que está à direita de Jesus, com uma touca branca, foi inspirado numa personagem dos desenhos de Leonardo da Vinci. Três das figuras estão com os livros sagrados abertos, como se confirmassem aquilo que é dito por Jesus.

Dürer, em sua composição, inspira-se na arte italiana e na sua própria leitura das formas. Esta obra repassa eloquência, expressividade e movimento.

Ficha técnica
Ano: 1506
Técnica: óleo sobre madeira
Dimensões: 64,3 x 80,3 cm
Localização: Museu Thissen- Bornemisza, Madri, Espanha

Fonte de pesquisa
1000 obras-primas da pintura europeia/ Könemann

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O CORPO ATRAVÉS DOS TEMPOS

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Na Pré-História, o corpo era arma de sobrevivência, a fim de caçar e correr dos predadores, mas nas primeiras civilizações, os treinos e as atividades sempre estiveram voltados a necessidades coletivas, como guerrear. (Denize Bernuzzi de Sant`Anna)

Como o corpo era considerado sagrado, a Igreja proibia dissecações e estudos de cadáveres. (Luiz Ferla)

Nem sempre o corpo físico gozou do status que possui hoje, ou seja, pertenceu exclusivamente à pessoa, capaz de modelá-lo segundo os seus desejos. A sua história, através dos tempos, mostra-nos como serviu aos mais díspares interesses, que eram mutáveis de acordo com a visão de cada época. Em suma, era escravo da cultura dominante. Durante milênios serviu a diferentes determinações sociais, religiosas ou militares, sem nenhum compromisso com a beleza, tão arduamente buscada atualmente, e também responsável por muitos atalhos perigosos, muitos vezes levando-o à morte.

Na pré-história, nossos antepassados, moradores das cavernas, preocupavam-se apenas em sobreviver, sendo o corpo a arma de melhor embate, tanto na busca por comida (a caça) quanto para lhes possibilitar mais um dia de vida, ao obter forças suficientes para correr dos incontáveis predadores. E se modelo de beleza houvesse naquela época, estaria mais para as gorduchas, vistas como boas procriadoras, como nos mostra a pequena escultura da Vênus de Willendor (ver ÍNDICE), encontrada por arqueólogos, que estipulam sua idade em 28 mil anos.

A Grécia de 1200 a. C., era famosa por seus “gymnasiums”, onde se dava a formação masculina, desde criança. O corpo tinha que ser forte para ser um bom soldado e participar das competições dos jogos públicos. Ali também havia a preocupação com a mente, sendo estudadas as matérias: literatura, música e filosofia. O corpo era visto com normalidade, sendo que os atletas faziam os exercícios desprovidos de roupa. Também o Império Romano tinha preocupação com a formação física de seus soldados, importante para garantir-lhe grandes vitórias bélicas. Ao comparar a vida dos gregos naquela época, vemos como houve um retrocesso na vida dos homens e mulheres. Hoje existe uma busca exacerbada pela malhação, enquanto a formação intelectual evaporou-se. Literatura? Filosofia? Música? O que é isso?

A Idade Média foi um tempo de reclusão e castigo para o corpo físico. A religião amordaçou-o, ao elegê-lo como sagrado, determinando que o casal devesse usá-lo apenas com o fim de procriação. Até mesmo as posições sexuais estavam sujeitas ao julgamento da Igreja. Toda aquela que não se limitasse ao conhecido “papai e mamãe” era tida como bestial e, consequentemente, pecaminosa. Até as preliminares do ato sexual estavam sob o jugo da religião. No gozo, o homem deveria depositar o sêmen dentro do cálice vaginal. Evitar filhos era pecado. E à mulher era vedado ficar por cima do homem, uma vez que ele era o chefe da família. Tal posição depunha contra o macho. As mãos não tinham função durante o ato sexual, pois era pecado provocar a ejaculação, com “toques indecorosos”. Também não se podia negar o sexo, o que constituía um pecado, a não ser que a mulher se encontrasse visivelmente doente.

A Igreja também emperrou o andar da Ciência, ao proibir que cadáveres fossem dissecados e estudados. Constituía pecado grave abrir o corpo, onde se encontrava a casa do divino. Em suma, todas as maravilhas herdadas dos gregos foram jogadas por terra, inclusive os hábitos de higiene e os cuidados relativos à saúde. A morada de Deus não poderia ser conspurcada com cuidados e ações julgados como pecaminosos. Deveria continuar “in natura”, sem nenhum laivo de “conservantes”. Tudo era visto com o intuito de macular a morada do divino. A casa corpórea não poderia ser arrumada. Os corpos fediam. Penosos tempos aqueles!

A chegada do Renascimento, que corajosamente passou a beber nas fontes da Antiguidade Clássica, traz perfume e beleza ao corpo, cujos poros, entupidos de sujeira, começam a respirar com o retorno aos valores humanistas e artísticos. Passa a deixar o cativeiro religioso e ser fonte de beleza e vida, sendo representado, por deusas, ninfas e outros elementos da mitologia grega. Botticelli imortaliza a sua obra com O Nascimento de Vênus (ver ÍNDICE). E assim o fazem muitos outros artistas da renascença. Os grilhões da escravidão religiosa do corpo vão sendo quebrados. Leonardo da Vinci transforma-se num dos maiores anatomistas do período. A Ciência começa a libertar-se. Cadáveres são dissecados, órgãos, ossos e músculos estudados. Grandes descobertas são feitas.

O Renascimento muda o curso da história do corpo, que ganha até proporções, através de O Homem Vitruviano (ver no Índice). Seus pintores e escultores despem anjos, santos, deuses, heróis gregos e bíblicos. E até Jesus Cristo só tem, muitas vezes, o corpo coberto por um ínfimo véu. Os músculos na arte são trazidos à vista. A região púbica não mais escandaliza. Michelangelo expõe aos olhos do mundo o seu escultural Davi (ver no Índice).

Daí para frente, o corpo sofre inúmeras mudanças em seus padrões, sendo muitas vezes judiado. A musculação agiganta os músculos, ou os deforma, segundo alguns. Vem também a fase da busca pela magreza doentia, com risco de morte para o indefeso corpo, sujeito à anorexia e à bulimia. Os “fast foods” entram na competição, com o avultamento e aviltamento do corpo. Por ora, são os últimos na dianteira da parada, pois em todo o mundo as pessoas engordam abusivamente (não me refiro à gordura por problemas de saúde), seviciadas pela gula. As indústrias de alimentos deitam e rolam, muitas delas colocando componentes viciantes nesses. É preciso vender mais e mais! O corpo? Que exploda!

NotaO Nascimento de Vênus, pintura de Sandro Boticcelli

Fontes de pesquisa
Corpos de Passagem/ Denize Bernuzzi de Sant`Anna
Políticas do Corpo/ Denize Bernuzzi de Sant`Anna
Aventuras na História/ Editora Abril
História da Vida Privada/ Companhia das Letras

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RAM MUNDA (8) – QUARTO DIA COMO DALIT

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Ram Munda tem a impressão de estar naquela vida há muito tempo. Já aprendeu todas as manhas do ofício, inclusive acostumou-se a fazer suas necessidades em locais sujos e à vista das pessoas, sem ao menos se sentir constrangido. Sabe que ninguém o olha. Ele não existe aos olhos do mundo. Não passa de uma coisa insignificante aos olhos do mundo.

Cães, ratos e vacas vagam pelas plataformas da estação ferroviária ao lado dos mendigos. É comum ver homens, mulheres e crianças enxotarem com o pé esses animais, disputando o lixo com eles. Ali nada se perde. Os mendicantes estão cobertos por placas de sujeiras, têm os cabelos embaraçados, viscosos e cerdosos. Alguns possuem apenas um pano cobrindo o sexo e um trapo jogado nas costas. Falam sozinhos, possuem o olhar parado, comem restos e dormem no chão duro. Chafurdam em montes de lixo com os animais. São selvagens e solitários. Parecem tomados pela loucura.

Ram Munda, como os demais pedintes, não sente prazer em nada. Basta apenas ir levando a vida, sem nenhum tipo de esperança, à espera do último suspiro. Não há contato entre os mendigos, a menos que façam parte da mesma família. Cada um está apenas voltado para si mesmo, preocupado com a própria sobrevivência, se é que ainda não se transformou em um autômato.

A via-sacra dos mendigos repete-se em todas as paradas dos trens, de modo que os passageiros já se tornaram indiferentes à miséria que se apresenta diante de seus olhos: mendigos esfarrapados, leprosos e monstros humanos com membros disformes (os homens elefantes). A rotina acaba com qualquer forma de compaixão. Os passageiros podem ser divididos nas seguintes categorias:

• os de olhar impassível, e, que ficam mudos ao serem abordados;
• aqueles que levam a mão direita à testa, como se abençoasse o mendigo;
• os que, em tom hipócrita ou agressivo, mandam que o mendigo vá pedir esmola em outro lugar, deixando-os em paz;
• os avarentos que pregam lição de moral.

As populações tribais (aborígenes) formam a classe social mais miserável e mais desprezada da Índia. É desumano ver pessoas que as mandam trabalhar, pois sabem que não têm possibilidade alguma de acesso a qualquer tipo de trabalho. Não lhes é facultada nem a possibilidade de chegarem perto de alguém para pedir emprego.

Nos trens, uma ínfima minoria de milionários esconde-se em compartimentos refrigerados, com janelas de vidro fumê, sempre fechados. A eles nenhum acesso é possível, pois os inspetores não permitem que os miseráveis subam nos vagões.

Ram Munda sente-se aviltado, envergonhado e desgostoso, quando as pessoas nos trens jogam-lhe restos de alimento no prato. Espera que o trem parta, para jogar fora. Sente-se como um legítimo mendigo indiano, imundo e desdenhado pela sociedade. Sabe que essa o odeia tanto, quanto ele tem aversão por ela. A sociedade enxota-o como um cão sarnento e faminto, sem que nunca possa reagir. Sabe que não é um cidadão, mas um farrapo humano ou bicho.

São cruéis e hipócritas aqueles que abençoam os mendigos com as mãos e os aconselham a pedir esmolas em outros lugares. Eles, os miseráveis, não precisam de bênçãos, mas de alimentos para continuarem existindo. A alma não pode ser alimentada, quando o estômago está vazio como um poço seco. É comum encontrar pessoas agressivas entre os viajantes. Levantam a mão e ameaçam o pedinte, fazendo chacota como hienas:

Vai cair fora, ou terei de bater em você?

Não restando alternativa ao miserável, senão ir embora, pois sabe que não possui direitos.

Ram Munda volta à pele de Marc Boulet, no pensamento, e lamenta por ter sido tão indiferente, quando se encontrava com os dalits. Pois hoje tem raiva dos que o rejeitam. Raiva não, ele tem ódio. Gostaria de ter poderes para fazê-los engolir o desprezo que lhe dispensam. Sabe que, apesar de sujo e inútil, continua sendo homem, semelhante a todos os outros humanos, embora nada possa mudar a sua vida. Não se importaria se apenas recusassem a lhe dar esmola. Mas não suporta o olhar de nojo e agressividade, acompanhado de palavras desagradáveis.

Ram Munda apenas se preocupa em comer pão, beber água, fumar biri e dormir o máximo que puder, de modo a perder a consciência, esquecendo-se de que existe. Quando contar a sua metamorfose para os amigos, muitos irão julgá-la divertida, como se fora um baile de máscaras. Não sentirão o principal: seu sofrimento moral. Jamais poderia ter imaginado que ser sujo, rebaixar-se a mendigar, tornando-se um objeto de desprezo, e tornar-se um intocável, fosse tão doloroso. Ninguém poderá imaginar a sua aflição, sua solidão e vergonha.

Na Índia, dentro da sociedade hierarquizada, quem “pede” ao outro é considerado inferior. Ao mendigo só resta a submissão, e calar-se em toda e qualquer circunstância, pois ele não possui o mais elementar dos direitos.

A seguir o capítulo 9…

Fonte de pesquisa:
Na Pele de um Dalit/ Marc Boulet/ Editora Bertrand Brasil

Nota: Imagem retirada de http://toligadonesse.blogspot.com.br

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Mit. – A CRIAÇÃO DO MUNDO (II)

Recontado por Lu Dias Carvalho

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Segundo conta a mitologia grega, no princípio do mundo não havia coisíssima alguma, mas tão somente uma mistura de todas as coisas, que resultava numa massa disforme e maldistinta, à qual era dado o nome de “Caos”. Mas cansados daquela bagunça, os deuses resolveram botar tudo nos seus devidos lugares, em outras palavras, arrumarem a casa, pois nem os deuses aguentam muito desarranjo.

Primeiramente, eles apartaram a terra do mar e depois desuniram o céu desses dois. Era preciso criar um firmamento para colocar no meio. E esse foi criado a partir das matérias mais leves que existiam na mistura, que aos poucos ia desaparecendo. Para preencher o firmamento, os deuses usaram o ar. Acontece, porém, que as matérias tinham pesos diferentes, sendo a terra a mais pesada de todas. Em razão disso, ela ficou mais embaixo, mas a água, ao concentrar-se num ponto inferior, fê-la subir.

O certo é que ainda havia muito serviço para ser feito. Ufa! Faltava-lhes arrumar a terra, botando as coisas nos seus lugares específicos, pois os deuses queriam deixar tudo nos trinques. E assim foi feito com os rios e lagos. A seguir, ergueram belas montanhas, escavaram esplendorosos vales e espalharam campos, bosques, florestas e uma infinidade de maravilhas por toda parte. Aos irmãos titãs Prometeu e Epitemeu foi dada a incumbência de criar os bichos. E assim, depois de tudo pronto, foi feita a distribuição daquelas riquezas. Aos peixes foi dado o mar; as aves foram presenteadas com o ar, e a terra foi obsequiada aos quadrúpedes.

Nota:  imagem ilustrativa: A Criação do Mundo, de Hyeronimus Bosch

Fontes de Pesquisa
Mitologia/ Thomas Bulfinch
Mitologia/ LM

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Mit. – A CRIAÇÃO DO HOMEM (III)

Recontado por Lu Dias Carvalho

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Uma vez que os deuses deixaram a Terra nos trinques, com cada coisa em seu devido lugar, inclusive os bichos das mais diferentes espécies, acharam que, para usufruir de tanta beleza, e depois de tanto trabalho, teriam que criar um animal mais célebre, que se regozijasse com tudo aquilo. E assim foi criado o homem. Como pode concluir o leitor, até os deuses erram. Mas vamos deixar isso para lá, pois o que está feito não mais está por fazer. Vejamos o processo usado pelas divindades.

É fato que no resto daquele caldo chamado “Caos”, ainda existiam algumas sementes celestiais, com certeza já passando do prazo de validade, e foi delas, juntamente com terra e água que foi feito o homem. Aos dois irmãos titãs Epitemeu e Prometeu os deuses deram a tarefa de criá-lo. Ao primeiro coube a execução da obra e ao segundo a supervisão. Para dar um porte mais altivo a esse novo ser, ele foi criado diferente dos outros animais, à semelhança dos deuses. Por isso, ao contrário dos bichos, cujo rosto é voltado para baixo, como se agradecessem pelo chão em que pisam, o novo animal anda olhando para frente, e pode contemplar o céu e as estrelas sempre que quiser. Mas alguns levam tal postura tão a sério, que se tornam vitimados pelo torcicolo da vaidade.

Epitemeu, portanto, foi incumbido de meter a mão na massa, enquanto cabia a Prometeu apenas a tarefa de examinar o produto final. Espertinho, não? Contudo, houve um probleminha, que acabou refletindo nos dias de hoje, pois ao trabalhador Epitemeu também coube a tarefa de distribuir a todos os animais seus devidos dons (ligeireza, coragem, força, audição aguçada, etc.). E nesse toma aqui e dá ali, já cansado, o titã nem percebeu que não deixara nem um poucochinho de faculdades necessárias ao animal nobilíssimo, chamado homem, para a sua vivência na Terra. Pelos deuses, o que fazer? O pobre titã estava em meio a um angu de caroço. Ou seria num mato sem cachorro?

Prometeu, que havia trabalhado menos, é bom que se saiba, foi chamado para socorrer seu irmão Epitemeu. Era o mínimo que poderia fazer, por não ter supervisionado a obra como deveria. Pediu ajuda à deusa Minerva (Palas), a mandachuva da sabedoria. Ambos foram até o céu, e ali, ocultamente, acenderam um archote no carro do sol, dando ao homem o fogo. E foi ao apoderar-se do uso dessa energia, que ele, o animal nobre, conseguiu comandar o mundo. Com ele construiu as mais perversas armas, sobrepujando os outros animais, e depois a espécie pôs-se a brigar entre si, numa ferocidade desmedida. Deve ser por isso que dizem por aí que a espécie humana é “fogo” nas ardilezas. Lamentavelmente o homem é o único animal capaz de conceber o mal e colocá-lo em prática.

Nota: pormenor da obra de Michelangelo, A Criação de Adão

Fontes de Pesquisa
Mitologia/ Thomas Bulfinch
Mitologia/ LM

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Mit. – A CRIAÇÃO DA MULHER (IV)

Recontado por Lu Dias Carvalho

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Os deuses criaram a Terra com toda a sua belezura, e deram aos irmãos Prometeu e Epimeteu a ordem para criar os bichos e o homem. Todos os animais ganharam uma companheira, excetuando o homem, que andava meio borocoxô, como se lhe faltasse alguma coisa. Por isso ou por aquilo, o fato é que ela acabou sendo criada. Mas será que a presença da fêmea seria um castigo para o macho ou um presente? É exatamente isso que iremos descobrir neste mito.

Segundo as más línguas da Antiguidade, Júpiter (Zeus) o pai de todos os deuses, trocando em miúdos, o figurão do Monte Olimpo, ficou abespinhadiço quando soube que o titã Prometeu, com a ajuda da deusa Minerva (Palas), para ajudar seu irmão Epitemeu, roubou o fogo do carro do sol, para dá-lo ao homem. O primeiro e o segundo seriam castigados pelo roubo, e o terceiro por aceitar a oferta. Ou seja, quem recebesse de ladrão também não tinha escapatória naqueles tempos. Isso que era justiça! Mas a poderosa Minerva ficou de fora da escaldadura, o que me cheira a imparcialidade, pois a punição maior deveria ser a dela. O que fez Júpiter? Criou a mulher e mandou-a para a Terra com o intuito de castigar os infratores. Conheçamos como se deu a sua criação.

Pandora foi o nome dado à primeira mulher. Cada um dos deuses que passavam por ela, ainda no céu, e já em fase de acabamento, acrescentava-lhe mais um predicado. Só para efeito de citação: Vênus (Afrodite) deu-lhe a formosura, Mercúrio (Hermes) a habilidade da argumentação e Apolo (Febo) a música. Depois de maravilhosamente acabada, possuidora de todos os dons, ela foi enviada como presente a Epitemeu, que, deslumbrado com tanta inteligência e beleza, não deu a mínima para os conselhos do irmão Prometeu, que já sabia que os presentes de Júpiter não eram flor que se cheire,  e tomou-a como esposa.

Quem leu os mitos anteriores, sabe que Epitemeu foi responsável por distribuir os atributos dos bichos e do homem, tendo recusado dar ao último os distintivos maléficos (embora isso não tenha adiantado nada, bastando olhar os dias de hoje), guardando-os numa caixa, mas, como a “esperança” é uma coisa boa, suponho que ele não a tenha visto, acabando por misturá-la às coisas ruins. Melhor seria se o titã tivesse jogado aquela caixa nos quintos do Inferno, pois curiosidade e mulher sempre formaram uma dupla perigosa.

Pandora encheu-se de vontade de saber o que continha aquela caixa, sempre quietinha no mesmo lugar, sem ser jamais ser bulida. O que conteria? Chegou um dia em que ela lhe tirou a tampa, a fim de dar uma rápida olhadela. Mas o conteúdo foi mais rápido do que as mãos da diva, dispersando-se mundo afora. E o homem ferrou-se! Todas as dores e as pragas imagináveis e inimagináveis desabaram-se sobre ele, transformando sua vida num flagelo. Voltemos à caixa! Nem tudo conseguiu fugir de dentro dela. Lá no fundo, bem tímida, ficou a “esperança”. E é justamente a esperança, adquirida pelo homem, de que tudo pode mudar para melhor, é que o fez ter momentos de alegria em sua breve existência.

Contudo, as boas línguas da Antiguidade dizem, não sei se para reabilitar Júpiter, que Pandora não foi enviada como castigo. O pai dos deuses enviou-a com a amável intenção de agradar o homem, ali na Terra, tão sozinho, coitado. E de presente de casório, deram-lhe os deuses uma caixa cheia de coisas boas. Mas que, num descuido da noiva, a tampa da caixa foi pelos ares, fugindo todos os bens, e ficando apenas a “esperança”. Deve ser por isso que há tanta maldade no mundo, ficando a esperança cada vez mais amedrontada, lá no seu cantinho, no fundo da caixa.

Curiosidade
Prometeu é tido como aquele que se pôs em defesa da humanidade, quando Júpiter ficou indignado com ela. É responsável por ter lhe ensinado a civilização e as artes. Como castigo, o pai dos deuses amarrou-o a uma rocha do Cáucaso, para que um abutre arrancasse-lhe o fígado. Sua tortura não tinha fim, pois à medida que seu fígado era consumido pela ave, ele voltava a regenerar-se. O titã seria poupado se se submetesse ao poder de Júpiter, contando-lhe qual era o segredo que lhe garantiria o trono eternamente. Porém, não o fez, tornando-se o símbolo da resistência à opressão.

Nota: O Pintor e a Modelo, obra de Pablo Picasso.

Fontes de Pesquisa
Mitologia/ Thomas Bulfinch
Mitologia/ LM

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