Lucas Cranach, o Velho – A FONTE DA JUVENTUDE

Autoria de Lu Dias Carvalho

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A Fonte da Juventude é uma das composições de Lucas Cranach, o Velho, baseada numa lenda que rezava que havia uma fonte cujas águas eram capazes de rejuvenescer as pessoas que as bebessem. E não foram poucos os exploradores que procuraram por tais fontes, seguindo histórias ouvidas.

A obra de Lucas Cranack, o Velho, não apenas põe em evidência a mística de que a água possui efeitos rejuvenescedores e purificadores, como harmoniza o tema da imortalidade com o da eterna juventude. Enquanto as mulheres buscam a juventude de seus corpos, os homens aguardam os prazeres que esses lhe darão. Ao contrário delas, não há nenhum homem dentro da água, ou sendo trazido para nela se banhar. Ainda que idosos, eles apenas conduzem suas mulheres (à esquerda). À direita, todos os homens são jovens, sem terem passado pela água, aguardando as rejuvenescidas damas, para os folguedos. O machismo concedia ao homem a eterna juventude, como fica assegurado na pintura.

No quadro, somente as mulheres idosas têm permissão para tomarem banho na fonte, gerenciada por Vênus e seu filho Cupido, e, consequentemente, passarão pela tão desejada transformação. Após o banho do rejuvenescimento, elas são convidadas a se divertirem, participando de um banquete, dançando, galanteando e sendo galanteadas. Como que por osmose, os homens que interagissem com elas, segundo a lenda, também ficavam jovens.

À esquerda, uma anciã, impossibilitada de caminhar, é carregada por duas mulheres jovens, numa espécie de padiola. Ela faz suas preces, confiante na sua transformação, ao passar pela fonte. À sua direita, um homem idoso carrega uma mulher às costas, enquanto outro, jovem, leva outra numa carroça de madeira.

Um homem vestindo uma túnica vermelha, à esquerda, abaixa-se para focar os olhos no corpo flácido e rugoso de uma anciã, totalmente nua. Ele traz na mão esquerda um grosso livro de capa preta, enquanto ajeita os óculos com a direita, o que se supõe tratar-se de um médico ou de um anotador dos milagres. Atrás dele, encontram-se uma jovem desnuda e outra idosa. À sua direita, duas carroças puxadas por cavalos, e cheias de mulheres idosas, aproximam-se da fonte. Uma mulher velha está curvada sobre um cavalo, que é puxado. Outra é carregada às costas de um homem de veste vermelha, sendo segura pelos pés por outro. Mais à frente, uma jovem desveste uma anciã.

O chafariz divide a fonte ao meio. À sua direita estão as mulheres idosas, dentro da água, e à esquerda estão aquelas que já passaram pela transformação. As jovens, com suas barrigas curvas, seios pequenos, rígidos e altos, corpo curvilíneos, sem a presença visível de ossos, e cabelos longos, representam o ideal da beleza feminina à época.

A composição é uma ode à juventude. Do lado esquerdo estão a impossibilidade de locomoção própria, a deterioração do corpo e toda sorte de sofrimento. Do lado direito estão as benesses da vida: juventude, música, danças, mesa farta, etc. Um homem aponta às que saem da água, o lugar onde devem se vestir. Uma tenda vermelha recebe as recém-transformadas, que ali se vestem para participarem dos folguedos.

Lucas Cranack baseou sua obra, A Fonte da Juventude, nas piscinas da cidade alemã de Baden, onde existiam fontes termais, que podiam ser usufruídas gratuitamente por todos os moradores locais e visitantes, sendo homens e mulheres muitas vezes separados por uma divisória. Embora o artista apresente alguns personagens usando espadas, à esquerda, proibia-se o uso de armas no local. O artista também foge à tradição da época, ao apresentar as mulheres nuas, possivelmente para mostrar as transformações pelas quais passava o corpo, após o banho. Naqueles tempos, as mulheres usavam camisolas amarradas ao peito, cobrindo-lhes a parte posterior do corpo. A presença de músicos, dançarinos e festividades, na parte direita do quadro retrata fielmente a época.

Uma observação deve ser feita: nem todos os críticos de arte atribuem, com certeza, a autoria desta obra a Lucas Cranach, o Velho, com 74 anos à época. Alguns acham que pode ter sido obra de seu filho, Lucas Cranach, o Jovem.

Ficha técnica
Ano: 1546
Técnica: óleo sobre madeira
Dimensões: 122,5 x 186,5 cm
Localização: Gemäldegalerie, SMPK, Berlim, Alemanha

Fontes de pesquisa
Los secretos de las obras de arte/ Taschen
1000 obras-primas da pintura europeia/ Könemann

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Mit. – A BELEZA DA MITOLOGIA (I)

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Desde a Antiguidade, os seres humanos buscaram explicar aquilo que não compreendiam. Na falta de métodos comprobatórios, lançaram mão de histórias fabulosas de deuses, semideuses, heróis e outras criaturas mitológicas, para explanarem a origem do universo e a vida desses seres fantasiosos, como nos mostra a mitologia da Grécia e da Roma antigas, vistas à época como uma religião politeísta, mas que hoje se encontram agregadas aos mais diferentes tipos de arte, e não mais vistas com o mesmo sentido de então. Vamos conhecer um pouco da mitologia greco-romana sob o prisma da Antiguidade, sem nos esquecermos de que, aquilo que chamamos hoje de “mito”, era tido como real para as gentes daqueles tempos.

Os gregos foram responsáveis, por difundir para os romanos e outras nações, a visão que possuíam sobre a ciência e a religião. Para eles, a Terra era achatada e redonda, ocupando a Grécia (Hélade) seu centro, e tendo na sua parte central o Monte Olimpo, onde viviam os deuses e seus séquitos. Essa esfera terrestre era dividida ao meio, de leste a oeste, pelo Mar e o Ponto Euxino (continuação do Mar). A Terra era envolta pelo rio Oceano, que na sua parte ocidental corria do sul para o norte e na oriental dava-se o contrário, ou seja, de norte para o sul. Esse rio Oceano era responsável por suprir todos os rios da Terra com suas águas.

Os gregos acreditavam que a aurora, o sol e a lua emergiam-se do Oceano, no lado oriental, para levar luz tanto para os deuses quanto para os homens. O mesmo faziam as estrelas, excetuando as que compunham as constelações da Ursa Maior e da Ursa Menor e outras próximas a elas. Emergiam e imergiam no Oceano, depois de completada a missão diária. Ao deitar-se, o deus-sol tomava um barco alado, que o levava até o lugar onde emergiria no dia seguinte.

Os deuses moravam no píncaro do Monte Olimpo. Ali, as deusas, denominadas Estações, eram responsáveis por uma porta de nuvens, a qual abriam para a saída dos seres imortais em direção à Terra e para o regresso desses. Embora tivessem moradas separadas, quando convocados, todos os deuses deveriam comparecer ao palácio de Júpiter (ou Zeus), o rei do Olimpo, até mesmo aquelas divindades que tinham moradia na terra, águas ou embaixo do mundo. Nas reuniões eram servidos ambrosia, responsável por dar e conservar a imortalidade, e néctar. Esse serviço cabia à deusa Hebe. Discutiam assuntos relacionados com a terra e o céu. A Apolo, deus da música, cabia alegrar os convidados, tocando sua lira, enquanto as musas cantavam. As assembleias terminavam ao pôr do sol, quando todos buscavam suas respectivas moradas.

Além dos deuses e deusas gregos havia também:
• as Musas, responsáveis, cada uma em separado, por uma divisão da literatura, da ciência e das artes. Eram nove ao todo;
• as Três Graças eram as deusas do banquete, da dança, das diversões sociais e das belas-artes;
• as Parcas tinham como função tecer o fio do destino humano, usando a tesoura para cortá-lo, quando quisessem. Elas eram três.
• as Erínias (ou Fúrias) eram responsáveis por punir aqueles que escapuliam da justiça pública ou dela escarneciam;
• os Sátiros eram divindades responsáveis pelos bosques e campos.

No quadro que ilustra o texto (Parnaso, de Andrea Mantegna) podemos ver:
• ao centro, as nove musas das artes, filhas de Zeus, que dançam, enquanto Apolo, considerado o deus da beleza, juventude e da luz na mitologia grega, toca sua harpa. São elas:

• Calíope – musa da poesia e a eloquência
• Clio – musa da história
• Erato – musa da poesia lírica
• Euterpe – musa da música
• Melpômene – musa do canto e do teatro
• Polímnia – musa da música cerimonial
• Terpsícore -musa da dança
• Talia – musa da comédia e da sátira
• Urânia – musa da astrologia e da astronomia

• à esquerda está Vulcano, o deus romano do fogo, usando unicamente sua capa vermelha, brincando com Eros, o deus grego do Amor. À direita, Mercúrio, deus do comércio e da eloquência, está próximo a Pégaso, cavalo alado e figura da mitologia grega.

• Acima, no ponto central superior da tela, estão Marte, o deus romano bélico, vestido com sua armadura de guerra, e Afrodite (Vênus), a deusa do amor e da beleza, presidindo a cena. Eles se encontram sob um monte que foi escavado como um túnel, que leva à cidade dos deuses, ao fundo.

Nota: Parnaso, obra de Andrea Mantegna (ver estudo da obra no blog)

Fontes de pesquisa
1000 obras-primas da pintura europeia/ Könemann
Renascença/ Folio
Mitologia/ Thomas Bulfinch

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RAM MUNDA (7) – O NOVO DALIT CHORA

Autoria de Lu Dias Carvalho

Ramun VII

Na pele de Ram Munda, Marc Boulet adormece entre os dalits. O frio do amanhecer penetra-lhe fundo no corpo. Seus vizinhos acendem uma fogueira com madeira, plástico, papelão e tudo o mais que possa pegar fogo. O plástico queimado enche o ar de um cheiro ruim e queima os olhos com a sua fumaça. Ao lado do fogo, seus companheiros de sina tentam se aquecer. Alguns fumam biri. Outros parecem perdidos no tempo, num outro mundo.

Ao levantar-se, Ram Munda olha seu rosto de relance, no pequeno espelho que carrega, e se espanta com a sua aparência suja e triste, bem parecida com a dos intocáveis. Vai até um mictório (em híndi significa casa da urina) público, que fica perto do estacionamento dos trens. É feito de três paredes finas, sem teto e é aberto para a calçada. O chão encontra-se coberto de cocô. E deve haver uns 10 centímetros de altura de urina represada. A fossa está entupida e o lugar é terrivelmente fedorento. É preciso muito esforço para usar aquele lugar.

Como todo mundo, Ram Munda urina da parte externa para dentro. O jato de urina mistura ao pó e excrementos do chão e volta para seus pés, enlameando-os, unindo-se à poeira que neles se encontra. Sabe que não os pode lavar, para não tirar a cor da pele. Precisa manter o seu disfarce, continuando como se encontra. Ele tem vontade de vomitar. É-lhe impossível defecar naquele ambiente. Sai à procura de um lugar menos imundo, pois ali seria necessário usar botas para entrar. Maior humilhação não pode haver para um ser humano sujeito àquela imundície.

A estação ferroviária começa a ganhar vida com a chegada dos vendedores ambulantes. Na Índia, os trens possuem grades de ferro nas janelas, que permanecem abertas e possibilitam aos mendigos pedirem esmolas através dessas. E Ram Munda opta por pedir esmola dessa mesma maneira. Sente vergonha, mas é preciso seguir em frente. Dirige-se a vários viajantes, um de cada vez, e implora:

Babu (senhor), me dá dinheiro!

Nenhuma ajuda lhe é dada. Todos o ignoram, ou lhe fazem um sinal para que se afaste. Sabe que são tantos os mendigos, que não mais despertam a piedade das pessoas. Eles fazem parte do cotidiano, e ele é apenas um elemento a mais no cenário. Mandam-no trabalhar. Depois de muito mendigar, ganha vinte centavos de rúpia de um senhor. Leva o dinheiro até à testa, em sinal de respeito, como se tivesse recebido uma doação dos deuses. Sente-se imensamente feliz. E assim, continua esmolando em vários trens, que se preparam para deixar a estação, dirigindo-se para os mais diferentes destinos.

Agora, já cansado, vai para a passarela, onde tira o prato do saco, bota duas moedas dentro e o coloca a seus pés, esperando que lhe joguem moedas. Mas as pessoas ignoram-no, quando não o fuzilam com um olhar de nojo, frieza ou indiferença. O limpador da passarela desaloja-o. Primeiro com a poeira que lhe joga no corpo, ao varrer. E depois com dois baldes de água, para lavar o local. Grita como se estivesse a enxotar um cão sarnento:

Sai daí!

Sem falar nada, ele obedece com a cabeça baixa. Ainda traz o medo de ser escorraçado, pois mesmo entre os mendigos, há uma máfia que delimita o território para pedir esmolas. Sente sede. Dirige-se a uma torneira, cuja água não é tratada ou fervida. Sabe que está cheia de germes. Mas, como um dalit, não pode comprar água mineral no botequim da estação. Mesmo sabendo que está correndo o risco de pegar ameba, hepatite ou tifo, doenças endêmicas no país, bebe cerca de um litro daquela água, com suas mãos sujas.

Sua esposa vem para vigiá-lo de longe. Passa inúmeras vezes por ele, sem o notar. Sabe que é difícil ser reconhecido em meio a tantos mendigos. São todos seres anônimos e insignificantes. De modo que a solidão é infinitamente maior do que a miséria em si. Ele sente vontade de chorar… e chora copiosamente.

A seguir o capítulo 8…

Nota: Imagem copiada de http://interata.squarespace.com

Fonte de pesquisa:
Memórias de um Dalit/ Marc Boulet

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Lucas Cranach, O VELHO – O MARTÍRIO DE S. CATARINA

Autoria de Lu Dias Carvalho

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A composição O Martírio de Santa Catarina é obra do pintor Lucas Cranach, o Velho, tema que tem sido, através dos tempos, pintada por vários outros artistas. Na composição de Cranach, contudo, não aparece a tradicional roda guarnecida com facas pontiagudas, símbolo do martírio da santa, mas a roda aos pedaços. O quadro apresenta inúmeros personagens, alguns ricamente vestidos, outros com armaduras, pessoas comuns e três cavalos.

O pintor apresenta dois momentos em sua obra, embora esses se encontrem separados pelo tempo:

• Num deles, ele mostra a destruição da roda usada no martírio de Santa Catarina, assim como o castigo recebido pelos responsáveis pela construção e uso dos instrumentos torturantes. Dos céus escuros, cheios de densas e revoltas nuvens, descem rajadas de raios de fogo, matando cavaleiros e até mesmo seus inocentes cavalos. São inúmeras as figuras.
• No outro momento, em primeiro plano, o pintor apresenta a princesa, ajoelhada, erguendo seus olhos para os céus, confiante em sua fé, à espera da execução, e seu carrasco a postos.

A figura de Santa Catarina não demonstra nenhum medo diante da morte. Ela se encontra ricamente vestida, de acordo com sua posição de princesa. Usa um vestido com saia de cor vermelho-escuro, sendo o corpete e magas de cor branca, bordados com fios de ouro e pérolas. Suas vestes estão espalhadas elegantemente pelo chão. Na personagem retratada, chama a atenção seu enorme decote, que a deixa com os ombros nus, sendo possível ver parte dos seios, cobertos por um tecido transparente. Embora ela tenha sido retratada como santa, o pintor não se preocupou com seu recato, em relação aos seios. Cranach, provavelmente, tinha como objetivo mostrar que, mesmo dotada de grande beleza corporal, a jovem foi capaz de vencer os desejos da carne, triunfando sobre o mundo material, cheio de tentações.

O pintor também retrata com grande visibilidade os órgãos genitais do carrasco, de pé atrás de Santa Catarina, e os do cavaleiro com uma armadura dourada, deitado de costas, à direita, abatido pelos raios de fogo. À época, a moda dos jovens exigia que se embelezasse a genitália, tornando-a grande. Provavelmente na sua obra, o pintor tinha a finalidade de demonstrar o ambiente pagão em que vivia a jovem. Ou talvez o artista atendesse o comprador da tela.

Embora o carrasco tenha na lenda o papel comum a tantos outros da época, Lucas Cranach reservou-lhe um lugar especial na composição, em pé de igualdade com Santa Catarina, colocando-o em primeiro plano, em tamanho grande, e vestindo-o com roupas de gala, em cores chamativas. Ele usa enormes botas de couro, em cor branca. As fendas no joelho direito, assim como o fato de se enfeitar só de um alado, dizem respeito à moda da época. Ele usa a mão esquerda para endireitar o rosto da vítima, de modo a executá-la, acertando-a entre o pescoço e os ombros, de modo a decapitá-la com um único golpe de espada. O artista pintou o rosto do carrasco com muita ênfase, pondo às claras sua violência. Na face direita, traz uma imensa cicatriz vermelha.

À esquerda, são vistos castelos no cume da montanha que parece tocar as nuvens. Eles ornamentam o fundo do quadro. Também simbolizam o poder que vem de cima. Mais abaixo estão algumas casas.

Segundo a lenda, Catarina era uma princesa intelectual, nascida em Chipre, que foi decapitada em Alexandria, por ter abraçado a religião cristã. Ela havia tomado Jesus Cristo como seu marido espiritual. À época, a cidade de Alexandria, com sua vasta biblioteca, era tida como o centro cultural mais importante do Império Romano.

Ficha técnica
Ano: 1508
Dimensões: 112 x 95 cm
Técnica:
Localização: Igreja de Ráday, Budapeste, Hungria

Fontes de pesquisa
Los secretos de las obras de arte/ Taschen
1000 obras-primas da pintura europeia/ Könemann

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RAM MUNDA (6) – CONTATO COM UM DALIT

Autoria de Lu Dias Carvalho

Ramun VI

Embora tenha chegado à Índia em julho, o escritor francês Marc Boulet decide aguardar o fim de outubro para iniciar sua experiência como um dalit. Preferiu deixar passar o tempo das monções, quando a vida dos miseráveis torna-se insuportável, em razão do excesso de chuva. Decide entrar em contato com um intocável, Raj Ram, limpador de latrinas. No primeiro encontro, explica-lhe que estuda a civilização indiana e que gostaria de ouvir sobre os seus costumes. Ele o aborda como um um estudioso.

Raja Ram, pertencente à casta dos dom, conta-lhe que ganha meio salário, fazendo faxina em um hotel e num escritório. Além disso, ainda faz trabalhos por fora, limpando fossas, encanamentos e privadas. O pagamento fica a critério das pessoas, que lhe pagam a quantia que querem pelo serviço. Possui duas filhas vivas. Mas já tivera quatro filhos. Uma menina morreu de tétano e o menino de disenteria. Sua mulher Lakshmi (nome da deusa da riqueza) espera outro bebê. Fala sobre o desprezo que as outras castas sentem por eles. Pelas leis indianas eles são iguais, mas as pessoas continuam a considerá-los intocáveis, de modo que um recipiente que ele usar, pertencente a alguém de outra casta, não pode ser lavado, tem de ser jogado fora.

Conta Raja Ram que antigamente, um brâmane que bebesse água no copo de um dalit, teria que beber urina de vaca, por um longo tempo, para se purificar. Relata que ao comprar pan (tabaco misturado a outros produtos e enrolado numa folha de bétele), se o vendedor souber qual é a sua casta, não lhe dará o objeto na mão, mas o jogará sobre o balcão. O mesmo é feito com o pagamento e o troco. Os de sua casta são sempre atendidos por último e devem ficar longe do balcão. Muitas vezes, o produto é jogado no chão.

Para que o leitor entenda melhor, os intocáveis dividem-se em várias subcastas de acordo com a profissão exercida. Por exemplo, aqueles pertencentes à casta dos dom (exercem a função de coveiros), são tidos como os mais impuros dos intocáveis. Ficam abaixo da casta dos mehtar (varredores de rua). Desprezados por esses. O mais paradoxal nessa mixórdia é que, mesmo pertencendo à casta considerada mais “impura” e abjeta, Raja Ram ainda carrega consigo muitos tabus e considera muitas coisas indignas e impuras. A verdade, segundo MB, é que os intocáveis sofrem com o sistema de castas, mas, mesmo assim, ainda se discriminam entre si, como fazem os seus opressores das castas ricas, dentro de um sistema extremamente complexo.

Raja Ram acredita na reencarnação de uma pessoa numa determinada casta, de acordo com suas boas ou más ações. Por isso, acha que todos os brâmanes são impolutos, donos de uma conduta exemplar em existências anteriores. Em contrapartida, aqueles que cometeram erros graves reencarnam como intocáveis. E que, se vive naquela situação é porque merece, pois foi uma má pessoa na vida passada. Por isso, aceita a sua posição e o que fazem com ele.

O novo amigo de Marc Boulet é um hindu fervoroso. Diz que frequenta um templo na sua comunidade, mas que o sacerdote não é um brâmane, mas um de sua casta. O culto de Shiva é celebrado duas vezes ao dia: ao nascer e ao pôr do sol. Sua esposa Lakshmi, mesmo grávida, levou uma surra por ter batido no cachorro do vizinho. Ninguém fez nada. Na favela há muito tumulto e roubos. Ela alugou o serviço de uma parteira, pois o hospital é muito caro. A parteira que fará o parto diz que sente o sexo do bebê, apenas apalpando o ventre da mãe. Diz que será um menino.

Raja Ram diz que, se for um filho, sua esposa será esterilizada, mas se for menina, não, pois precisa de um filho, para acender a sua pira, quando morrer. Desde já se preocupa com os dotes que deverá pagar pelo casamento das duas filhas. E, como as filhas vão morar na casa dos maridos, ele e a esposa precisam de um filho para não envelhecerem sozinhos. Ao lhe ser perguntado sobre o porquê de se firmar uma união de duas crianças com antecedência, já que a noiva só deitará com o noivo após os 18 anos de idade, responde:

– Por dois motivos. Primeiro, é dever dos pais hindus deixarem os filhos casados, antes de morrer. Segundo, o pai do menino recebe o dote mais cedo, de modo que o montante pago pelo pai da menina é menor na atualidade, em função da galopante inflação indiana.

O dote varia em função da casta e do meio social. É a maior causa de endividamento das famílias que casam as filhas, assim como de divórcios e morte de pais que não cumprem o prometido. Em função do dote, estudos comprovam que a taxa de mortalidade das meninas é bem maior. Os pais alimentam melhor os meninos, de olho no dote. Essa é uma das causas responsáveis por haver mais homens na Índia do que mulheres. A mulher é muito desvalorizada.

A seguir o capítulo 7…

Nota: Imagem copiada de http://www.pime.org.br/mundoemissao

Fonte de pesquisa:
Na Pele de um Dalit/ Marc Boulet/ Editora Bertrand Brasil.

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Mestres da Pintura – LUCAS CRANACH, O VELHO

Autoria de Lu Dias Carvalho

Lucraove
O pintor renascentista alemão Lucas Cranach, o Velho, (1472- 1553), que também trabalhou com xilografias e gravuras, nasceu em Kronach, tendo adotado o nome de sua cidade natal como sobrenome. Possivelmente teve o pai como professor. Entre 1500 e 1504, trabalhou em Viena, onde participou dos círculos humanistas. E a partir de 1505, trabalhou como pintor na corte de Wittenberg, com Frederico, o Sábio. Ali comandou uma grande oficina. Sua posição tinha tanto destaque na cidade, que alguns anos depois, ele se tornou conselheiro e, posteriormente, seu presidente, tornando-se um dos homens mais ricos do lugar.

Lucas Cranach recebeu grande influência da pintura da região alpina e das obras de Albrecht Dürer, criando um estilo especial para sua obra, em que unia paisagens e cenas narrativas, resultando num todo romântico. Contribuiu enormemente para o desenvolvimento da pintura no sul da Alemanha, sendo considerado fundador da Escola do Danúbio. Durante uma das viagens do pintor à Holanda, em 1508, recebeu inspiração das pinturas italianas e holandesas.

O artista foi tido como o pintor da Reforma Protestante, sendo o responsável por muitas ilustrações nos escritos de Lutero, seu amigo, que por sua vez patrocinou um de seus filhos. Embora fosse amigo do reformista, também executou trabalhos para seus adversários. Executou inúmeras obras para decoração da igreja e residência de Alberto, em Halle, feitas de acordo com a tradição católica, pois, indiferentemente do que pensava, tinha que manter a sua oficina. Portanto, além de propagandista da Reforma, ele fez inúmeras obras com temas católicos, como O Martírio de Santa Catarina.

As obras de Lucas Cranach, o Velho, na sua maioria, em razão da grande procura, eram executadas em sua oficina, onde contava com a ajuda de seus filhos assistentes. Inicialmente, ele punha suas iniciais em seus trabalhos, passando mais tarde a exibir apenas o emblema de sua oficina. Seus nus eram, ao mesmo tempo, apoiados na mitologia e na religião. Seu filho, Lucas Cranach, o Jovem, seguiu os mesmos passos do pai.

Nota: autorretrato do pintor

Fontes de pesquisa:
Los secretos de las obras de arte/ Taschen
1000 obras-primas da pintura europeia/ Könemann

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