RAM MUNDA (5) – NO MEIO DOS DALITS

Autoria de Lu Dias Carvalho

Ramun V

Ram Munda sai de seu apartamento para se juntar aos dalits, deixando sua esposa para trás. Percebe que se tornara invisível para as pessoas. Ninguém lhe dá atenção, ninguém se volta para ele, agora que se transformou num dalit (intocável). Qualquer objeto, por mais insignificante que fosse, chamaria muito mais atenção do que ele. Não passa de um anônimo, um homem sem rosto, sem história, que se confunde com o cenário miserável onde se insere.

É recusado por um condutor de riquixá, enquanto outro o aceita levar para perto do rio Ganges, por uma quantia bem mais alta do que a cobrada normalmente. Ao deixá-lo no ponto pedido, o homem é xingado de “bicha” e golpeado nos rins com um cassetete, por um policial, por ter demorado a estacionar na calçada.

À medida que Ram Munda começa a se sentir um indiano de verdade, o medo vai desaparecendo, assim como o nó no estômago. No ghat Dashashvamedh (escadarias de pedra que conduzem até o Ganges), ele não é mais importunado pelos leprosos, mendigos, barqueiros e barbeiros, como antes, quando era um ocidental. Mesmo os estrangeiros evitam-no. Sente saudades da mulher Gloire. Os sacerdotes brâmanes abençoam os banhistas em troca de algumas rúpias, enquanto vacas e cachorros sarnentos também se encontram espalhados pelas escadarias, em busca de algo que se possa comer.

Ram Munda evita falar, mas observa atentamente o comportamento dos indianos de sua casta. Ao deixar o ghat, por volta das 22 horas, depara no caminho com uma vaca agonizante. Dois indianos tentam colocar-lhe água e pedaços de pão na boca. Diante da inutilidade do gesto, acabam por deixá-la só. Chama-lhe a atenção a solidão em que vivem os seus iguais, sentados uns ao lado dos outros, calados, com os olhos no movimento da rua, mas sem nada ver.

O novo dalit (intocável) retorna na noite seguinte para casa, pois ainda não tem confiança na cor que carrega na pele. Tem medo de ser reconhecido durante o dia. Volta mais uma noite, dessa vez com a esposa Gloire, acompanhando-o de longe, para comparar a sua aparência com a dos demais dalits (intocáveis) e para filmá-lo. Ela agirá como se fosse uma turista, em meio à multidão. Em hipótese alguma poderá concentrar sua atenção apenas no marido.

No meio de seus novos irmãos, Ram Munda acha os estrangeiros seres bizarros, chamados de “macacos vermelhos”. São feios e esquisitos com seus olhos verdes ou azuis e cabelos com as mais variadas cores. Ao deixar o ghat, depara com uma procissão religiosa, levando uma estátua de Kali (outra representação da deusa Durga, esposa de Shiva). Essas ocasiões são propícias para mostrar a animosidade entre hindus e muçulmanos. Uma pedra lançada por um fanático é capaz de provocar um tumulto inimaginável. Há muitas pessoas na procissão, pois ver uma estátua de Kali traz a bênção da deusa. Passar no setor muçulmano é muito perigoso, por isso, policiais ocupam as calçadas.

Após esses dois primeiros dias, em que manteve os contatos iniciais com os dalits (intocáveis), mas voltando sempre para casa, Ram Munda sai de seu lar para ficar tempo integral (dia e noite) nas ruas, levando seu saco, o material para dormir, o prato para pedir esmola, um espelho pequeno, uma lâmina para barbear, lápis e papel para anotar informações especiais. Assumirá, doravante, a vida de mendigo. E andar é o esporte dos pobres, por isso não pega condução. Cruza com cães magros latindo, vacas esquálidas que remexem no lixo com o focinho, ruminando papéis velhos e sacos plásticos rasgados, enquanto se dirige para a estação ferroviária de Benares. Como sempre, não desperta compaixão ou interesse de ninguém.

Ram Munda chega à estação por volta da meia noite, e dirige-se para o local, onde se encontram os miseráveis com suas tigelas de alumínio amassadas, seus montes de papelões velhos e pedaços de madeira. Placas de sujeira cobrem seus rostos, mãos e pés, causando uma repugnância indizível. Folhas de mahua, mais largas que uma mão, são utilizadas como pratos descartáveis ou para enrolar o pan.

Na rua, os indianos dormem com os joelhos dobrados, raramente de bruços, como forma de permanecerem vigilantes. É preciso se acostumar a essa nova posição, tão diferente da sua. Ram Munda é tirado de suas indagações por um leitão fungando em seu ombro esquerdo. Agora, ele só interessa a um porco!

A seguir o capítulo 6…

Fonte de pesquisa:
Na Pele de um Dalit/ Marc Boulet/ Editora Bertrand Brasil

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Mantegna – SÃO TIAGO A CAMINHO DA EXECUÇÃO

Autoria de Lu Dias Carvalho

Saticae

A composição denominada São Tiago a Caminho de sua Execução, obra do artista italiano Andrea Mantegna, faz parte de uma série sobre São Tiago pintada para uma igreja de Pádua, mas tendo a sua maior parte destruída durante a Segunda Guerra Mundial, inclusive esta, deixando o mundo de contemplar grandes obras de arte desse importante artista. A composição acima mostra São Tiago sendo levado para o local em que seria executado.

O pintor preocupava-se com a realidade da cena pintada. Para isso,  ele estudava a vida do representado. Tinha conhecimento, nesse caso, de que São Tiago vivera na época dos imperadores romanos, sendo, portanto, necessário criar a cena como ela deveria ter acontecido naquela época. Começou estudando os monumentos clássicos daqueles tempos, como podemos notar através da porta da cidade, executada como um arco triunfal romano. Os soldados que o escoltam vestem roupas e usam armaduras de legionários romanos.

São Tiago é conduzido por uma forte escolta que para por um momento, porque um dos perseguidores do santo arrepende-se e joga-se a seus pés, pedindo a sua bênção. O santo vira-se para ele e abençoa-o, enquanto um dos soldados, atrás do arrependido, mostra-se surpreso, fazendo um gesto com a mão. A curvatura do arco enquadra esta cena, colocando-a em destaque e separando-a da multidão que a assiste e que é empurrada por um dos soldados.

 O pintor busca retratar com detalhes a escultura antiga, apresentando a arte romana em sua grandeza e simplicidade. As figuras são esculturais. A nova arte da perspectiva é aqui utilizada na criação do palco, onde as figuras de sua composição mostram-se como indivíduos sólidos, como se pudéssemos tocá-los. Repassam-nos a ilusão de que estão a movimentar-se.

Mantegna é um narrador tão talentoso que permite ao observador entender o que ali está se passando: a) um dos perseguidores do santo, arrependido, joga-se a seus pés, fazendo com que a escolta pare; b) São Tiago volta-se para ele e o abençoa; c) os soldados romanos acompanham a cena e um deles se mostra surpreso; d) a curvatura do arco separa a escolta armada do povo que a tudo acompanha, sendo inclusive empurrado por um soldado.

Ficha técnica
Ano: c. 1455
Técnica: afresco (destruído)
Localização: antiga igreja dos Ermitãos, Pádua, Itália

Fontes de pesquisa
A história da arte/ E.H. Gombrich

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RAM MUNDA (4) – ÚLTIMOS DETALHES

Autoria de Lu Dias Carvalho

Ramun IV

O escritor francês Marc Boulet chega a sua etapa final de preparação para viver um dalit (intocável) na Índia. Compra um pano de algodão cru sobre o qual vai se deitar, uma manta de lã áspera, um prato de alumínio para pedir esmolas e um saco de cânhamo grosso, marrom, onde irá guardar suas coisas, como fazem os mendigos espalhados por todos os cantos.

Assumir a identidade de um dalit, numa grande cidade, será bem menos preocupante, uma vez que a mistura da população, ocasionada pelo êxodo rural, pode ser confundido com a massa das mais variadas etnias. Viver numa aldeia seria quase que impossível, pois essas são divididas geograficamente por castas, segundo a tradição do hinduísmo, para evitar a mistura e a “poluição”, e o atraso e a ignorância leva-as a seguirem os preceitos ao pé da letra. A sua vestimenta será a roupa comum de um hindu pobre, composta por:

• sandálias de dedo;
• um lungi xadrez azul e marrom – pano de dois metros de comprimento, enrolado em torno da bacia, um tipo de saia, que indica a casta, a profissão e a classe social;
• uma camisa de material sintético, com listras marrons;
• uma camiseta branca (bem encardida e suja);
• um fular vermelho – mede um metro e meio de comprimento e serve para proteger a cabeça contra o sol, a poeira ou o frio;

Ele não pode se esquecer de que o bigode deve ser grande, assim como é o da maioria dos indianos. É tido como um sinal de virilidade na Índia.

Marc Boulet, como dalit, adota o nome indiano de Ram Munda (será este o nome usado daqui para a frente). Dirá que é originário de uma aldeia distante de nome Bandgav. Para que obtenha sucesso na sua transformação física sabe, também, que é preciso agir de acordo com o comportamento de um indiano, de maneira geral, e com o de um dalit, especificamente. É preciso estar atento a alguns detalhes:

• não pronunciar as expressões: Desculpe!/ Obrigado!/ Por favor!;
• não ser capaz de perceber a própria incivilidade;
• ser descortês
• comer com a mão direita e jamais se esquecer de que a esquerda é usada para lavar as partes íntimas;
• ter destreza para acocorar-se com o lungi, na hora de urinar e defecar, de modo que traseiro e coxas não sejam mostrados;
• acocorar, sempre, com a planta dos pés no chão e não com os dedos dos pés, como fazem os ocidentais;
• andar com os pés abertos, como patos;
• balançar a cabeça da esquerda para a direita, para dizer “sim” (jamais de cima para baixo);
• assoar o nariz com os dedos, apertando uma narina de cada vez, com o polegar e o indicador, jogando o muco longe;
• tirar o que sobrar do muco com as pontas dos dedos, que depois são sacudidos no ar ou limpos numa parede;
• arrotar, escarrar e limpar o nariz em público, sem constrangimento algum;
• coçar os testículos publicamente e ajeitá-los na calça, sempre, em qualquer lugar. (MB vê isso como uma forma de afirmação do macho, numa sociedade falocêntrica).

MB acaba de alcançar uma fronteira sem volta. Sabe que, nem se quisesse, seria capaz de retroceder. Lembra-se do provérbio indiano que diz: “Não se engole de novo o que se escarra”. Sente medo de se tornar um deles definitivamente, perdendo seus gestos, sua aparência física e sua personalidade. Não faz ideia de qual será o novo homem que ressurgirá após esta experiência, pois se transformou num desconhecido total para si. Sabe que na Índia a brancura da pele está ligada à primeira regra de beleza e, que, por isso, passará por todo tipo de humilhação, como acontece com os dalits (intocáveis).,

Hoje, terminou a sua última metamorfose ao pintar o cabelo, as sobrancelhas e o bigode na cor preta. Trabalho que já fora feito nos braços, pernas e rosto. Unta os cabelos e põe as roupas de mendigo, preparadas para parecerem velhas e sujas. Aos 32 anos, Marc Boulet acaba de renascer no corpo de Ram Munda.

O capítulo 5 a seguir…

Nota: Imagem copiada de http://www.instablogs.com

Fonte de pesquisa:
Na Pele de um Dalit/ Marc Boulet/ Bertrand Brasil

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Mantegna – TRIUNFO DA VIRTUDE

Autoria de Lu Dias Carvalho

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A composição Triunfo da Verdade, obra de Andrea Mantegna, faz parte de uma série de pinturas mitológicas, criadas para ornar um dos aposentos da intelectual Isabel d`Este, condessa de Mântua, corte à qual serviu o artista. Trata-se de uma obra de inspiração humanística. O artista reproduz em sua obra a história de Minerva, deusa romana da guerra e da inteligência.

Segundo o mito, Minerva era a deusa romana da guerra e da inteligência, filha de Júpiter (Zeus), mas não tivera mãe. Ela nasceu da cabeça do deus dos deuses, já completamente equipada para a guerra. Tinha na coruja a sua ave preferida, sendo a oliveira a planta a ela dedicada.

Minerva, à esquerda, usa um elmo e traz na mão direita uma lança e na esquerda um escudo. Ela está a expulsar os vícios que tomaram conta do Jardim das Virtudes. Duas musas e um grupo de seres alados ajudam-na. Mulheres e sátiros estão se acasalando, como mostram as crianças carregadas por esses. Uma mulher puxa um ser disforme, sem braços. Um sátiro leva uma mulher às costas. Dois homens nus carregam uma mulher também nua. Um ser com armadura olha em direção a Minerva, amedrontado.

O Jardim das Virtudes está fechado por uma enorme muralha, ornamentada com plantas e flores. Quatro das seis aberturas da arcada permitem ver a paisagem, que se apresenta fora dela. No alto, numa nuvem, três divindades do Monte Olimpo acompanham a expulsão.

Ficha técnica
Ano: 1502
Técnica: têmpera sobre tela
Dimensões: 160 x 192 cm
Localização: Museu do Louvre, Paris, França

Fonte de pesquisa
1000 obras-primas da pintura europeia/ Könemann
Renascença/ Folio
Mitologia/ Thomas Bulfinch

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IDADE MÉDIA – AS TRÊS FASES DA VIDA

Autoria de Lu Dias Carvalho

vida

Os números sempre tiveram uma grande importância na história da humanidade. Pitágoras, já na Antiguidade, trabalhava com a mística desses, que permaneceu em toda a Idade Média, quando, no seu final, a velhice entrou em pauta. A partir daí, muitos pintores fizeram composições apresentado as três fases da vida. O número três era visto como o mais importante. Na Antiguidade, ele representava o todo (princípio, meio e fim). Para Aristóteles, o três fazia-se representar na ética, pois um mau resultado acontecia quando não se levava em conta o limite, quer fosse pelo excesso ou pela falta, uma vez que o meio representava a medida exata. Foi ele quem atribuiu o número três às fases da vida: a juventude possui tudo em excesso (força, raiva, valor e instintos), enquanto a velhice sofre com todos eles, e somente no meio da vida é que se tem tais qualidades apenas fracamente. O três foi importante na Idade Média, pois levava em conta a Santíssima Trindade: Deus-Pai, Filho e Espírito Santo.

As fases da vida não foram representadas na Antiguidade, talvez por serem vistas como passageiras e desnecessárias, embora se tenha refletido sobre elas. O tema só entrou em voga após 1500, quando clientes seculares passaram a fazer encomendas com tal temática.

Naqueles tempos, a criança não gozava dos privilégios que possui hoje. Não eram fortes os elos entre pais e filhos, porque nascimento e morte eram uma constante na vida das pessoas, principalmente na das crianças. Poucos recém-nascidos conseguiam sobreviver em meio a um mundo tão doentio e hostil. Procurar aceitar tais condições funcionava como autodefesa para os pais, portanto, dificilmente os pequeninos ganhavam espaço na pintura, que era um privilégio dedicado aos adultos. As crianças também eram vistas como adultos imperfeitos, em razão do pecado de Adão e Eva. Quando apareciam na arte, elas eram sempre vistas como anjos, querubins ou Cupidos.

Numa de suas fábulas, Esopo atribui três animais às três fases da vida:

• O cão representa a velhice, porque é mal-humorado e simpático apenas com quem o alimenta.
• O boi equivale ao meio da vida, porque trabalha regularmente e assegura a vida dos jovens e dos velhos.
• O cavalo, no entanto, simboliza a infância, porque é uma idade insolente e descontrolada.

As fases da vida e a morte eram representadas tanto pelos autores gregos quanto romanos, tomando como relação o homem (o adolescente e o velho), como se fora ele o representante da humanidade, conduta que perdura até os dias de hoje. Contudo, na pintura dava-se o contrário, talvez pelo fato de o corpo da mulher apresentar mudanças mais visíveis durante as fases da vida, sem falar que sua beleza chamava muito mais a atenção. Artistas, como Hans Baldung, usavam a mulher na representação de tais fases. Em algumas delas agregava-se a presença da morte, ora com uma simbologia religiosa ora apenas para mostrar a fugacidade da vida. Ainda hoje a mulher é usada como tal, como nos mostra a composição As Três idades da Mulher (1905) de Gustav Klimt, ilustrando este texto.

Fonte de pesquisa
Los secretos de las obras de arte/ Taschen

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RAM MUNDA (3) – A METAMORFOSE

Autoria de Lu Dias Carvalho Ramun III

Prometi a meus leitores que lhes faria um resumo das partes mais importantes do livro de Marc Boulet, Na Pele de um Dalit. No entanto, é bom lembrá-los de que os fatos, aqui narrados, aconteceram entre 7 de fevereiro de 1992 e 6 de janeiro de 1993. Mudanças podem ter acontecido de lá para cá. E é muito auspicioso que assim seja. Mas é bom investigar, pois tudo pode continuar como dantes no quartel de Abrantes. E dando continuidade aos fatos…

O escritor francês MB resolve se metamorfosear na figura de um dalit (intocável), indivíduo pertencente ao mais baixo patamar da escala social indiana, isso porque, enquanto o sistema de classes recompensa o mérito na vida atual, o sistema de castas aprisiona a pessoa, impedindo-a de alcançar qualquer tipo de ascensão social. É exatamente para vivenciar os horrores da intocabilidade que o autor adentra no cerne dessa monstruosidade, para vivenciar, na pele, o que se passa na vida daquela gente.

A família de MB, ao tomar conhecimento das imagens dos leprosos, mortos e crianças esqueléticas nas calçadas de Calcutá, tenta convencê-lo a mudar de ideia. Preocupa-se com a sua saúde e com suas condições psicológicas, ao final de seu  trabalho. Mas não consegue demovê-lo de seu intento. Ele está disposto a ir até o fim.

O escritor começa a preparar sua viagem com o aprendizado do híndi, a mais falada dentre as línguas indianas. Permanecerá 6 meses na França e mais 3 na Índia, a fim de dominar a linguagem coloquial e as gírias, antes de vestir a pele de um dalit. Apesar da certeza de que irá partir em direção à meta preestabelecida, sente que é preciso domar o medo da doença, da fome e da miséria que o incomoda. Não tem a mínima ideia de como reagirá a tantas limitações, sendo um habitante de um país rico, onde o conforto é visto como necessidade. Sabe que não será fácil viver em meio à indigência extrema, onde ser um intocável significa apenas possuir o próprio corpo. O que lhe dá forças é a certeza de que sairá enriquecido da experiência, além de tornar conhecida a vida dos dalits em todo o mundo e, assim, ajudá-los.

Um amigo dermatologista encarrega-se de escurecer sua pele. As soluções encontradas para atingir o seu objetivo são limitadas. Receita-lhe uma medicação que aumenta a quantidade de melanina na pele, usada para tratar portadores de vitiligo. Mas é preciso ter cuidado, visto que o seu uso prolongado pode levar ao câncer. Para adquirir a cor de chocolate, comum à pele indiana, sua pele deverá ser untada com nitrato de prata. Mas não deve perder de vista o fato de que a epiderme renova a cada três semanas. Com tudo pronto, sua esposa Gloire prepara as malas para acompanhá-lo na viagem. Sua função será fotografá-lo e filmá-lo durante todo o processo de suas transformações.

Seu voo é com destino a Nova Delhi. Como vizinho de poltrona, do seu lado direito, está um indiano de nome Basi, que é um kshatriya do Punjab, pertencente a uma das castas mais ricas da hierarquia hindu, a casta dos guerreiros. Mora na Inglaterra, mas há 17 anos que não retorna a seu país de origem. MB conversa com o vizinho de poltrona em híndi, na tentativa de testar a nova língua. Fala devagar, cometendo muitos erros linguísticos, mas se faz entender pelo senhor Basi. Fato que o deixa mais confiante. A aeromoça serve-lhe uma dose de bebida alcoólica. O vizinho recusa e opta por um refrigerante. Os indianos religiosos não tomam álcool, por considerá-lo uma bebida impura, mas podem fumar…

A seguir o capítulo 4…

Fonte de pesquisa:
Na Pele de um Dalit/ Marc Boulet/ Editora Bertrand Brasil

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