Mantegna – PARNASO

Autoria de LuDiasBH

Parnaso
A composição Parnaso, obra de Andrea Mantegna, representa o Monte das Musas, e faz parte de uma série de pinturas mitológicas e humanistas criadas para ornar um dos aposentos da intelectual Isabel d`Este, condessa de Mântua, na corte à qual serviu o artista. Ela era uma das mais famosas colecionadoras de obras referentes ao Renascimento, tendo sido educada na corte de Carrara, onde recebeu uma educação clássica. Foi responsável pela escolha do tema, juntamente com seus amigos humanistas.

A composição possui três divisões: 1)Vulcano apontando para Vênus e Marte, abraçados; 2) as mulheres dançando, acompanhadas por Orfeu, que toca sua lira; 3) o deus Mercúrio, ao lado do cavalo Pégaso.

As nove musas das artes, filhas de Zeus, dançam, enquanto Apolo, considerado o deus da beleza, juventude e da luz na mitologia grega, assentado à esquerda, toca sua harpa. São elas:

• Calíope – musa da poesia e a eloquência
• Clio –  musa da história
• Erato – musa da poesia lírica
• Euterpe – musa da música
• Melpômene – musa do canto e do teatro
• Polímnia – musa da música cerimonial
• Terpsícore -musa da dança
• Talia – musa da comédia e da sátira
• Urânia – musa da astrologia e da astronomia

À esquerda está Vulcano, o deus romano do fogo, usando unicamente sua capa vermelha, brincando com Eros, o deus grego do Amor, que está a pregar-lhe uma peça. Perto dele está o fogo. À direita, Mercúrio, deus do comércio e da eloquência, está próximo a Pégaso, cavalo alado e figura da mitologia grega. Ambos estão de pé, virados um para o outro. À direita, atrás deles, vê-se uma fortificação.

Acima, no ponto central superior da tela, estão Marte, o deus romano bélico, vestido com sua armadura de guerra, e Vênus, a deusa do amor e da beleza na mitologia romana, que é conhecida como Afrodite na mitologia grega, presidindo a cena. Eles se encontram sob um monte que foi escavado como um túnel, que leva à cidade dos deuses, ao fundo. Atrás dos dois está um colorido divã.

Andrea Mantegna pintou a paisagem realisticamente, agregando a ela as figuras fantasiosas dos deuses. O céu está azul e o dia claro e iluminado.

Ficha técnica
Ano: 1497
Técnica: têmpera sobre tela
Dimensões: 60 x 192 cm
Localização: Museu do Louvre, Paris, França

Fonte de pesquisa
1000 obras-primas da pintura europeia/ Könemann
Enciclopédia dos Museus/ Mirador
Renascença/ Folio

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RAM MUNDA (2) – CHEGADA À ÍNDIA

Autoria de Lu Dias Carvalho

Ramun II

O escritor francês Marc Boulet chega à Índia na época das monções, quando o sol castiga e o ar úmido torna-se difícil de ser respirado, colando na pele. Sem dúvida, uma época não muito auspiciosa para um europeu. A estação das chuvas é a mais dramática para os indianos miseráveis. Epidemias alastram-se. A população das favelas e a de desabrigados são as mais afetadas pelas doenças provocadas pelos excrementos de animais,  pelo aumento de vírus da  malária, pneumonia e tuberculose.

Homens maltrapilhos misturam-se às vacas nas calçadas, numa inusitada comunhão de corpos. Excrementos desses animais estão por todo lado. É impossível evitá-los, a menos que se opte por pisar nas pessoas deitadas. Dois medos estranhos apavoram o visitante: levar uma chifrada ou ser assaltado. Condutores de riquixás insistem para levar o escritor Marc Bolet e sua mulher Gloire  ao destino. Mas os dois optam por caminhar.

À medida que o sol esquenta, enxames de moscas esparramam-se por todos os lados, à procura de lugares mais frescos, enquanto um fedor de latrina toma conta da atmosfera. É comum encontrar homens urinando, agachados ou de pé, geralmente perto de uma parede. Alguns fazem o serviço completo: urinam e evacuam. As fezes, misturadas ao líquido excrementício expelido pelos rins, fermentam-se deixando o ar irrespirável.

Em um modesto hotel, onde nada funciona, o casal aluga um quarto. Depois de descansar, parte para Benares (ou Varanasi), a mais sagrada das cidades do hinduísmo. Muitos a escolhem para morrer, pois ser cremado em Benares é garantia de ter acesso imediato ao paraíso, sem depender dos merecimentos acumulados em vida. Segundo o Bhagavad-Gita (um dos livros sagrados dos hindus):

“O que nasceu deve morrer e o que morreu deve renascer.”

O rio Ganges estende-se ao longo da cidade. Nele, é possível encontrar de tudo: desde resíduos de destilação de petróleo a cadáveres de humanos e animais. O escritor Mark Twain, ficou horrorizado ao ver o rio sagrado da mitologia hindu e personificação de uma deusa, Mãe Ganga, como um desaguadouro de esgotos, que corre a céu aberto, chegando a comentar:

“Acho que nenhum micróbio que se preze, viveria em uma água dessas.”

Marc Boulet e sua mulher escolhem morar em um bairro de Benares, onde alugam um apartamento calmo e íntimo, de modo a poder dar continuidade a sua metamorfose sem ser flagrado. Por perto, existem muitos casebres, colados uns nos outros, com telhados de plástico, segurados por pedras, onde as pessoas criam porcos e possuem muitos cães vira-latas.

Na Índia, o porco é visto como um animal impuro pelos hindus. Só os intocáveis comem de sua carne. Além de imundos, os dalits (ou intocáveis) também são vistos como beberrões. De modo que Marc Boulet foi advertido pelos vizinhos, para que não tivesse nenhum contato com “aquela gente”. Mas o francês não acata o conselho de passar o mais distante possível dos intocáveis (dalits). O contato com eles é o propósito maior das transformações pelas quais vem passando.

O escritor francês descobre que o bhang, espécie de haxixe, que se come, e a maconha são vendidos em lojas, publicamente. Ambos são produtos indígenas, extraídos do cânhamo indiano. Estão associados à religião hindu, assim como o vinho está para a Eucaristia, no catolicismo. Há clientes de todos os tipos: desde aqueles bem vestidos aos maltrapilhos. Não consideram como vício o consumo de tais drogas.

Aguardem o capítulo 3 a seguir…

Fonte de pesquisa:
Na Pele de um Dalit/ Marc Boulet/ Editora Bertrand Brasil

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RAM MUNDA (1) – MARC BOULET E A ÍNDIA

Autoria de Lu Dias Carvalho

Ramun I“Tenho medo. Doenças, fome, miséria.
Onde vou dormir?
Em que calçada?
O que vou comer?
Nunca fiquei com o estômago vazio. Para enchê-lo deverei fuçar as latas de lixo, os despejos de sujeiras que decoram as encruzilhadas das cidades indianas.” (Marc Boulet)

Marc Boulet é um escritor francês, que nos idos de 1980 simulou ser um chinês, para escrever o seu famoso livro “Na Pele de um Chinês”. Animado com o sucesso de seus escritos, optou por uma nova façanha, na década de 1990, que seria escrever um novo livro, dessa vez vivendo a experiência de um dalit (intocável). O escritor permaneceu irredutível com sua família e seu editor, que tentaram persuadi-lo a não viver aquele novo experimento, que trazia embutido em si riscos bem maiores, caso fosse descoberto, sem falar nos problemas sérios de saúde. Ainda assim, o escritor não abriu mão de viver tal experiência e denunciar ao mundo a vida miserável dos dalits (intocáveis). O livro “Na Pele de um Dalit” foi sucesso em todo o mundo.

Antes de se deslocar para a cidade de Benares (também conhecida como Varanasi, cidade do estado de Uttar Pradesh, na Índia, localizada nas margens do Rio Ganges, e uma das mais antigas cidades do mundo e a mais sagrada da religião hinduísta), onde se daria a sua experiência, teve que passar por algumas transformações. Como era muito branco, o seu dermatologista ajudou-o a escurecer a pele, através do uso de melanina, de modo a torná-lo um hindu original. Para tornar a mudança mais verossímil, aprendeu o híndi, língua típica da etnia dos “munda”, da qual passaria a fazer parte, como se fosse um deles. À sua aparência física acresceu enormes bigodes, tão peculiares àquela gente. Satisfeito com os resultados obtidos, falando fluentemente o híndi, tomou os caminhos da Índia, ao lado de sua esposa, que tinha a função de documentar a sua história. Não podemos dizer que Marc Boulet tenha sido um mero aventureiro, pois preocupações sérias povoaram a sua mente, antes mesmo de partir.

O resultado desse ato corajoso foi o comovente livro, Na Pele de um Dalit, onde conta todas as agruras pelas quais passou, sendo um deles. Ali, Ram Munda (nome indiano adotado por Boulet) conviveu com a miséria, a fome e o desprezo, situações que milhões de indianos pertencentes, principalmente ao hinduísmo, vivem na pele, diariamente. E, como já vimos em outros textos, eles aceitam tudo, como se houvesse um destino a lhes comandar a vida.

Ram Munda não conheceu a Índia cantada e decantada pelo seu glamour nas propagandas das agências de viagem e revistas turísticas, tampouco viu as mulheres deslumbrantes, exímias dançarinas, empencadas de joias, tão conhecidas das novelas e dos filmes de Bollywood. Durante o tempo em que viveu junto aos intocáveis (seis semanas), Marc Boulet experimentou de tudo que era comum à vida daquela gente: pediu esmolas pelas ruas de Benares, assediando turistas; foi humilhado, escarnecido e repelido por hindus de outras castas; dormiu nas calçadas; fez suas necessidades fisiológicas nas ruas; comeu sobras de comida; foi impedido de entrar nos templos; teve até a própria sombra escorraçada.

Este é apenas o preâmbulo da história que foi contada pelo livro. Iremos conhecer mais a fundo a história desse verdadeiro homem santo, que foi um dos responsáveis para desmascarar a falsa espiritualidade hindu, num país em que o dinheiro é o verdadeiro guru.

Fontes de Pesquisa:
O desafio de se tornar um dalit/ Reportagem de Carlos Herculano Lopes/ jornal Estado de Minas/ 13 de julho de 2009

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Mantegna – A FAMÍLIA GONZAGA

Autoria de Lu Dias Carvalho

A fago

Andrea Mantegna, um pintor criativo e inovador, foi escolhido pela família Gonzaga para fazer o retrato do clã e confidentes mais chegados, cujos membros foram pintados na sala de audiências do Palácio ducal de Mântua no vale da Lombardia. Um pequeno grupo, composto por homens, mulheres e crianças, encontra-se diante de uma parede de mármore, estando o casal sentado e os demais personagens de pé, suntuosamente vestidos com roupas douradas, à exceção de Ludovico III Gonzaga — marquês de Mântua — que usa um simples manto e confortáveis chinelos. A família mostra-se orgulhosa.

Dentre os presentes é possível reconhecer apenas os donos da casa: Ludovico Gonzaga, trazendo uma carta na mão, enquanto conversa com seu secretário à sua esquerda, e Barbara de Brandemburgo, com uma das filhas apoiada em seu colo. O papel na mão do chefe da família Gonzaga é uma recordação de algum acontecimento importante. Em volta do casal estão alguns de seus dez filhos. No grupo também se encontram uma dupla de cortesãos de fisionomia séria. São possivelmente bastardos ou mestres de cerimônias. Suas meias possuem uma perna vermelha e outra branca, próprias da dinastia dos Gonzaga. Presentes também estão o cão Rubino, debaixo da cadeira de Ludovico, e uma anã. Segundo fofocas da época, a anã era filha do casal. À esquerda do grupo uma bela cortina dourada de couro está semirrecolhida, deixando à vista um terraço com plantas.

Nota: O pintor Andrea Mantegna passou 46 seis anos vivendo na corte de Mântua.

Ficha técnica
Ano: entre 1465-1474
Dimensões: 600 x 807 cm
Técnica: afresco
Localização: Castelo San Giorgio, Palazzo Ducale, Mântua

Fontes de pesquisa
Los secretos de las obras de arte/ Taschen
1000 obras-primas da pintura europeia/ Könemann

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Mestres da Pintura – Andrea Mantegna

Autoria de Lu Dias Carvalho

                 anman        anman I

O pintor e gravador Andrea Mantegna (1431-1506), filho do carpinteiro Biagio, é tido como um dos artistas mais importantes do Pré-Renascimento no norte da Itália. A sua aprendizagem teve início quando estava com 10 anos de idade, sob a tutela de Francesco Squariciona que o levou a conhecer a arte da antiguidade clássica. Squariciona tinha uma turma enorme de alunos, mas Mantegna era o seu predileto, contudo, inconformado por não receber comissões nas obras das quais participava, seu aluno deixou-o quando tinha 17 anos. Ao travar contato com as esculturas de Donatello e com as pinturas de Andrea del Catagno e Jacopo Bellini, Andrea Mantegna sentiu uma grande admiração por esses artistas e seus trabalhos. Veio depois a casar-se com Nicolosia Bellini, tornando-se genro de Jacopo Bellini.

Andrea Mantegna foi convidado a trabalhar na corte da família Gonzaga em Mântua, sob a tutela do marquês Ludovico Gonzaga. Foi necessário muito empenho por parte dos Gonzaga para que o pintor, então com 26 anos, resolvesse deixar a cidade universitária de Pádua, tentativa que durou três anos. Ele sabia que a vida de um pintor de corte era cansativa e cheia de tarefas não originais, tais como a decoração de casas de campo, a organização de festas da corte, etc., sem falar que Mântua não tinha lá muitos atrativos. Somente o bom pagamento convenceu o ambicioso artista. Para recompensar o atraso dos pagamentos, os Gonzaga enchiam-no de honrarias sociais.

Em Pádua o artista pintou, para uma igreja, uma série de murais que tinha por finalidade ilustrar a lenda de São Tiago, mas, infelizmente, durante um ataque ao lugar, durante a Segunda Guerra Mundial, grande parte da série foi destruída, deixando o mundo de contemplar grandes obras de arte desse primoroso artista. Uma delas mostra São Tiago sendo levado para o local em que seria executado.

A obra de Mantegna tornou-se famosa pela exatidão anatômica das figuras, pela incorporação de detalhes importantes e pelo virtuosismo da perspectiva. Tais inovações influenciaram não apenas seus cunhados Giovanni e Gentile Bellini, mas também os artistas do norte dos Alpes em razão de suas famosas gravuras em cobre. Os afrescos produzidos por ele em Pádua, causavam grande admiração em seus conterrâneos, quer pelas perspectivas empregadas, quer pelo retorno que fazia à Antiguidade Clássica em suas obras, época essa que estava sendo redescoberta. Também lhe agradava a cultura artística da corte, o modo como tratavam os artistas e a aceitação das novidades advindas do Renascimento.

Andrea Mantegna, além de um fantástico pintor, era também um exímio gravador que fazia seu trabalho em folhas de cobre. Cerca de 50 placas são atribuídas a ele, sendo as principais: Deuses Marinhos, Judite com a Cabeça de Holofernes, Triunfos Romanos, Hércules e Antaeus, Deposição da Cruz, Madona da Gruta e Ressurreição. Faleceu aos 75 anos de idade. Mantegna marcou a pintura de sua época, influenciando vários pintores como Albrecht Durer e Leonardo da Vinci, dentre outros. Contudo, sua maior herança foram as pesquisas sobre perspectivas ilusionistas.

Fontes de pesquisa
Los secretos de las obras de arte/ Taschen
1000 obras-primas da pintura europeia/ Könemann

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A HISTÓRIA DO BANHO ATRAVÉS DOS TEMPOS

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Nos dias de hoje, a maioria de nós já volta do serviço pensando em tomar um gostoso banho. E quem fica em casa, não vê o momento de cair debaixo do chuveiro. Poucos são aqueles que se deitam sem terem lavado o corpo. Dormir sujo dá uma coceira danada, umas agulhadas aqui e acolá. Muitas vezes é preciso se levantar de madrugada para fazer o que deveria ter feito antes. Mas a história nem sempre foi assim. Podemos conhecer a história do banho, caso venhamos a dar um volteio pelo tempo. Apertem os cintos e vamos nessa!

No Oriente, o banho era visto como a purificação do corpo e também como fonte de aprazimento, enquanto no Ocidente acontecia em lugares públicos e coletivos, em harmoniosos encontros entre os interessados. Ali as pessoas tanto eliminavam a sujeira corpórea, como botava as fofocas em dia. Mas a Igreja, totalmente obcecada pelo pecado, embora esse se encontrasse mais sob suas ações, cismou que o ato de banhar-se era a mais vergonhosa luxúria, que não agradavam os olhos de Deus. Talvez tenha sido ela própria a espalhar que o banho abria os poros da pele, transformando-os numa porta aberta para a entrada de doenças. Assim, ignorância e superstição jogaram as pessoas nos braços da imundície, entrada real para inúmeras doenças, ficando os indivíduos a chafurdarem no desasseio e numa infinidade de moléstias, a maioria delas advindas da ascosidade. O negócio era tão sério, que na Europa, o gostoso banho passou a inexistir. Quando os portugueses chegaram ao Brasil, em 1500, ficaram perplexos, ao ver a quantidade de vezes que nossos índios banhavam-se, numa coesão perfeita com a água.

O banho através dos tempos:

• 3000 a.C. – no Egito: segundo pesquisas, aquele povo já era comprometido como asseio corporal, fazendo uso de sabonetes e óleos corporais. Usavam até uma ducha, feita de peneira ou cesta. Era também comum encontrar privada, chuveiro e toaletes nas residências abastadas. Sem falar que para o rio Nilo convergia um grande número de pessoas, que ali tomavam banho apesar dos perigosos crocodilos. A limpeza corporal estava ligada à purificação da alma.

• 1700 a.C. – Grécia: provavelmente nenhum outro lugar deva ter se preocupado tanto com a limpeza corporal do que esse país. Somente um corpo sadio poderia ser morada de uma mente sã. A preocupação do Estado era tamanha, que mantinha locais públicos de banho, com entrada gratuita para quem desejasse ali dar trato ao corpo. Algumas casas de banho detinham até banhos quentes e frios, com banheiras individualizadas. Mas, quanto aos acompanhamentos, os gregos estavam bem mais atrasados do que os egípcios, pois usavam cinzas de madeira e argila como sabonete. Com certeza, não ficava uma sujeirinha. Ainda é comum ver mães, no interior pobre de nosso país, lavar os pés encardidos dos filhos com cacos de telha de argila. Os molequinhos fogem desse tratamento como o diabo foge da cruz.

• 321 a.C. – Roma: sai na dianteira da História ao construir um conjunto de aquedutos, que levava água para as residências, certos espaços públicos e casas de banhos. Chegavam a durar de duas a três horas os banhos. Que delícia! Tinham por finalidade higienizar o corpo e também servir de tratamentos medicinais. Fico imaginando as conversas que ali eram mantidas, como se elas fossem um jornal oral, passado de boca a boca, pois nada como o ócio para carregar as fofocas de um lado para o outro.

• Séc. 4 e 5 – Europa: essa trouxe o malfadado uso do “paninho” que mais sujava do que limpava. Devia carregar um “cheiro dos diabos”. Cruz credo! Mas não pense o leitor que isso foi coisa do demo. Por favor, inocente-o! Foi coisa da Igreja, comandada por um papa de nome Gregório I, que deveria ter o rabo mais sujo do que o do diabo. Não é que o dito proibiu as gostosas casas de banho, sob a alegação estapafúrdia de que “o corpo era a abominável vestimenta da alma”, assim sendo, o pobre corpo, esse escravo da mente (ou alma) era a grande fonte do pecado. Eu queria ver a alma abrir mão do corpo e andar por aí, lutando pelo pão de cada dia… Ainda que algumas existem, num engodo de dar dor de barriga, na forma de membros de igrejas, das mais diferentes denominações. Essas almas vivem sempre no bem bom. Voltando à “sujeira”, ela era santificante. Quanto mais sujo, asqueroso, fedorento e cheio de inhaca fosse o cristão(ã), mais santificado era ele. Não sei como os narizes aguentavam tanto bodum. A água só podia ser usada em três momentos: batismo, benzimento e banho pré-nupcial. Penso que muita gente casava-se apenas para tomar um banho… risos.

• Séc. 6 – Alexandria: a coisa já começou a melhorar, pois ninguém é de ferro para aguentar aquela catinga por tantos séculos. Era a vez de o Império Bizantino entrar em foco, provavelmente com um nariz mais sensível. A terça parte do orçamento da cidade destinava-se ao aquecimento das casas de banho, que traziam vestiários, banho a vapor e massagens. E onde as pessoas podiam lavar as sujeiras do corpo, uma vez que as da alma exigiam desinfetantes com poderes profundos.

• Séc. 16 – Brasil: quando os portugueses aqui chegaram, os coitados ficaram encucados com a lavação de nossos índios. Para que gastar a pele tanto assim? A qualquer momento lá estavam eles, os silvícolas, como peixes nas águas dos rios e mesmo no mar, enquanto eles, os portugueses, trocavam de roupa uma vez por dia, digo, por mês. Esse hábito tão anti-higiênico trazia-lhes excelentes companhias: pulgas, carrapatos, piolhos… E, como o que é bom deve ser copiado, não demoraram os portugas a caírem na água e com ela se aprazerem feito patinhos. Ainda bem que herdamos tamanha riqueza de nossos amados indígenas. Benditos sejam eles!

• Séc. 18 – Europa: foi a chegada do Iluminismo para botar um pouco de luz na mente de muitos beatos que ainda proliferavam no meio da Igreja ou a seguiam. Foi a época em que ciência saiu a campo e desmontou a superstição de que o banho abria os poros para as doenças. Ao contrário. Eram fontes de saúde. Houve uma reviravolta. Doentes eram banhados à força. Camisolões eram usados para a compostura do banho. E os serviçais tiveram os seus trabalhos dobrados. Não era fácil aquecer água para uma família numerosa. A vida é sempre assim, uns têm que carregar o peso do progresso para outros.

• Séc. 19 – Inglaterra: os serviçais devem ter posto as mãos para o céu quando a Inglaterra inventou o chuveiro, em 1810. Devem ter canonizado o santo responsável por tamanha criatividade. Nada mais de ficar enchendo banheira. Nada mais de ficar aquecendo caldeirões de água. Nada mais de ficar queimando os dedos. Liberdade ainda que tardia! O mais engraçado é que a água vinha de um reservatório no solo e subia para o chuveiro. Vinte anos depois os Estados Unidos simplificaram mais ainda o ato de tomar banho, usando uma alavanca para bombear a água… Xuá! E mais mudanças vieram até nossos dias, até chegarmos às banheiras luxuosas de hidromassagem, mas que não chegam aos pés das cachoeiras das nossas Minas Gerais (não tive a intenção de rimar).

Amigos, depois dessa caminhada de 4.900 anos através da História da humanidade, só falando sobre banho, eu senti uma vontade danada de cair debaixo de um chuveiro, com a água bem quentinha, usar um sabonete bem cheiroso, depois um creme e, por último, uma colônia com cheiro de capim cidreira, em todo o corpo. Acho que Morfeu irá se comprazer com a ideia.

Nota: ilustração é um quadro de Renoir, Banhistas.

Fontes de pesquisa
Aventuras na História/ Abril
História da Vida Privada/ Companhia das Letras

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