IDADE MÉDIA – JUVENTUDE, VELHICE E SAÚDE

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Quanto mais voltamos no tempo, mais nós nos deparamos com as crendices. E ficamos pasmos ao tomar conhecimento de quanto o homem era influenciável. Curioso, não tendo uma explicação científica, o que fazia era se apegar ao disse me disse. Sem resposta é que não ficava. A mente fantasiosa dava o tom. E, em assim sendo, Deus levava a responsabilidade por tudo, quer pelo milagre, quer pelo castigo. Sem falar nas vezes em que o diabo entrava em campo para semear o mal. A religião era a dona da verdade e a Ciência engatinhava, a trancos e barrancos.

A Ciência médica era ainda muito débil na Idade Média e muito tempo depois dela. Consistia em fazer exames anatômicos em cadáveres. Vigorava a ideia de que os métodos de cura estavam ligados à doutrina do humoralismo, ou seja, a doença surgia em consequência do rompimento do equilíbrio existente entre os humores: sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra. O sangramento ajudava a equilibrá-los. A passar por tamanha tortura médica, o melhor mesmo seria colocar-se nas mãos do Criador.

Às fontes termais era imputada uma série de milagres, como a famosa lenda sobre A Fonte da Juventude lembra-nos. Ainda assim, os benefícios terapêuticos eram creditados à bondade divina, e não à água em si, com seus minerais. Para elas afluíam gentes com as mais diferentes doenças, aleijões, ferimentos por armas, etc. Se a pessoa recuperava a saúde, dizia-se que fora Deus o responsável, se nada acrescia, a bênção fora retirada por ele, como punição, principalmente quando se cobrava pelo banho, ou, quando as pessoas tinham um comportamento lascivo no local.

Havia uma grande diferença, entre o tratamento que se dava aos corpos jovens e aos velhos. Enquanto os primeiros deveriam ficar cobertos, por não corresponder ao ideal de beleza, os segundos podiam permanecer desnudos, sendo, inclusive, idealizados. Na Antiguidade Clássica e no Renascimento, quando representados, os corpos das anciãs eram vistos como a representação do mal. Fato que persiste até nossos dias, cuja cultura ainda está totalmente ligada à juventude, não vendo beleza na velhice. Os homens, se velhos, são representados com poses de dignitários, artistas, etc. O machismo ainda se faz presente. Só que, naquela época, a juventude estava ligada à progênie, pois os filhos assumiam a vida dos pais no trabalho, suprindo-os, uma vez que o Estado não exercia tal função. Isso também levava as mulheres a morrerem prematuramente, em razão do excesso de parição, além das epidemias, pois eram mais frágeis. Havia, portanto, uma proporção maior de homens.

Nota: detalhe do quadro A Fonte da Juventude, de Lucas Cranach, o Velho

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Cézanne – A TENTAÇÃO DE SANTO ANTÔNIO

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Assim como vários pintores em toda a história da pintura ocidental, Cézanne também se sentiu atraído pela lenda de Santo Antônio, ou Santo Antão, um eremita que se viu diversas vezes tentado pelo diabo. Essa atração pela lenda de Santo Antônio passou a acontecer, por parte dos artistas, a partir da metade do século XIX.

Em sua composição A Tentação de Santo Antônio (ou Antão), o artista pinta o asceta sendo envolvido por um gigantesco diabo, que deseja fazê-lo abrir mão de sua fé e conduta, como se quisesse obrigá-lo a olhar a mulher uma voluptuosa mulher, totalmente nua, segurando um véu aberto atrás de si. Ela se encontra rodeada por várias crianças, que se mostram indiferentes à sua presença. Ocupa a parte central do quadro.

O pintor contextualizou a cena num nível romântico, dando mais ênfase ao caráter sexual, ao contrário de outros artistas.

Ficha técnica
Ano: c. 1875
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 45 x 56 cm
Localização: Museu d´Orsay, Paris, França

Fontes de pesquisa
Cézanne/ Coleção Folha
Cézanne/ Abril Coleções
Cézanne/ Girassol
Cézanne/ Taschen

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JOHN PARSONS – UM INGLÊS BEM BRASILEIRO

Autoria de Luiz Cruz

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No início da década de 1970, o casal Anna Maria Noemia Lopes Parsons e John Francis Parsons (1930-2015) tinha projetos a serem desenvolvidos na Espanha. Após terem adquirido terreno nesse país, resolveu fazer uma viagem ao Brasil e chegaram até Tiradentes, onde fariam uma visita breve. Só que, quando John deparou-se com a imponente Serra de São José, decidiu que aqui seria o local em que viveria para sempre e executaria seus projetos, inicialmente idealizados para a Europa.

O casal adquiriu uma obra inacabada e, ao longo do tempo, foi construindo, adaptando e equipando a edificação, que veio a ser o Hotel Solar da Ponte. Anna Maria e John inovaram a maneira de hospedar e abriram diversas oportunidades de trabalho para os tiradentinos. A excelência dos serviços do Solar influenciou sobremaneira não somente Tiradentes, mas diversas localidades. O casal sempre esteve à frente da gestão do hotel, acompanhando tudo de perto, o que além de garantir a qualidade, tornou-se um diferencial significativo, reforçando a proposta de que receber bem pode se tornar uma arte.

John Parsons nasceu em Wolverhampton, na Inglaterra, e desde que chegou a Tiradentes, integrou-se para sempre à comunidade, tornando-se um tiradentino de coração. Acompanhou as celebrações religiosas, e a procissão que mais gostava era a de Ramos, a que abre a programação da Semana Santa. Sempre prestigiou a Sociedade Orquestra e Banda Ramalho de Tiradentes e as orquestras Ribeiro Bastos e Lira, de São João del Rei. Na região, conhecia todos os bons artesãos, moveleiros, santeiros, canteiros, marceneiros e ferreiros, com quem trocava ideias e com suas habilidades de engenheiro, contribuía para o aprimoramento das peças.

Em 1980, o casal Parsons juntamente com Angelo Oswaldo de Araujo Santos, José Luiz Alqueres, Alice Lima Barbosa e outros fundaram a SAT — Sociedade Amigos de Tiradentes, que obteve o apoio de inúmeros amigos que se hospedavam no Solar da Ponte. Muitos deles se associaram à SAT e colaboraram financeiramente com vários projetos pela defesa do patrimônio cultural e ambiental de Tiradentes, sendo o Projeto Obras Emergenciais o mais amplo e importante.

John presidiu a SAT por alguns mandatos e apoiou as manifestações populares como os grupos de Folias de Reis e São Sebastião, Congados e as Pastorinhas. A SAT foi a primeira instituição a apoiar os brigadistas, equipando-os para o combate aos incêndios florestais na Serra de São José. Os brigadistas fortaleceram-se e tornaram-se o Corpo de Bombeiros Voluntários de Tiradentes, atualmente com quase vinte e cinco anos de atuação. John sempre acompanhou as questões ambientais locais. Em 1987, ele e Anna Maria subiram a Serra de São José, integrando a Procissão Ecológica em defesa da serra. Participou da Semana do Meio Ambiente de Tiradentes e na primeira edição, também realizada em 1987, na Escola Estadual Basílio da Gama, fez palestra sobre a “Sustentabilidade do Planeta”. Acompanhou todo processo de criação das Unidades de Conservação da Serra de São José, que infelizmente não viu devidamente tombada, pois o processo se arrasta no IPHAN, desde 1979. Liderou a campanha para aquisição do Terreno Maria Joanna, pela SAT, no alto da serra, onde se encontram as cachoeiras do Mangue.

Como bom inglês, John adorava cavalgar e tinha orgulho em participar da Cavalgada da Inconfidência Mineira. Foi sócio fundador do CCYA — Centro Cultural Yves Alves e acompanhou praticamente todas as reuniões, desde sua criação. Contribuiu financeiramente para a manutenção do centro durante certo período. Levou ao Conselho do CCYA suas experiências de engenheiro, ambientalista, empresário e acima de tudo humanista. Pode ver aprovado o Plano Diretor Participativo de Tiradentes, o qual sempre defendeu, e acreditava que seria a solução para conter o crescimento desordenado da cidade. Teve a felicidade de participar e encaminhar diversas sugestões nas oficinas para a elaboração do plano, que foi magistralmente coordenado pela Fundação João Pinheiro e apoiado financeiramente pelo BNDES. Como homem da área das ciências exatas, buscava nos filósofos a compreensão sobre as questões ambientais. Apreciador da obra de James Lovelock, acreditava que a sustentabilidade poderia amenizar e resolver os problemas locais e até mesmo os globais. Nos encontros ou reuniões compartilhava os ensinamentos. O Meio Ambiente era um de seus temas favoritos e sobre ele podia discorrer longas horas.

John viveu intensamente, sempre ao lado de Anna Maria. Com certeza tornou-se um dos maiores defensores de Tiradentes e seu patrimônio cultural e ambiental. Em nosso último encontro — já hospitalizado e na presença de Anna Maria — recomendou-me a leitura de seu último ensaio O planeta azul: promessas para o futuro, onde desenvolveu seus pensamentos inspirados em Idades de Gaia (Lovelock, 1988) perpassando por Charles Dickens, Francis Bacon, Issac Newton, Nicolau Copernicus, Lynn Margulis e outros. “O Planeta Azul é sustentado pela sua própria teia de vida, na qual todos os seres vivos dependem de todos os demais, inclusive a própria humanidade”. E terminou o texto com o desejo de que as escolas participem mais, pois o comprometimento dos jovens pode fazer muita diferença em nossos ecossistemas, exatamente como ele proferiu em 1987, ao abrir a primeira Semana do Meio Ambiente de Tiradentes.

John Francis Parsons faleceu no dia 28 de junho de 2015 e foi sepultado no Cemitério das Mercês. A Capela de Nossa Senhora das Mercês, templo rococó, decorado pelo artista Manoel Victor de Jesus, era a que ele mais apreciava em Tiradentes.

Nota (fotografias)

1 – O casal Parsons, no alto da Serra de São José (1987) / Fotografia: Eros Conceição.
2. Abertura da Semana do Meio Ambiente, em 1987, na E.E. Basílio da Gama/Fotografia: Luiz Cruz

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Cézanne – A CASA DO ENFORCADO

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Trabalho muito lentamente. A natureza apresenta-se a mim de forma complexa. Os progressos a serem feitos são incessantes. (Cézanne)

A composição de Paul Cézanne, A Casa dos Enforcados, mostra a influência do impressionismo sobre o pintor. Trata-se de uma paisagem, pintada ao ar livre, com cores claras e pinceladas curtas, cuja superfície sublima a bidimensionalidade.

Uma casa encontra-se em primeiro plano, à esquerda. No centro existem outras casas com seus telhados geométricos. Ao fundo encontra-se uma verde pradaria e, mais distante, uma cordilheira. As árvores parecem movimentar seus galhos nus.

Com a pintura A Casa dos Enforcados, Cézanne fez sua estreia no grupo impressionista. Nem todos os pintores impressionistas aceitaram a sua participação, sendo Manet um deles, tendo feito algumas críticas a seu trabalho, temendo que suas obras ousadas prejudicassem os demais. Foi seu amigo Pissarro quem garantiu sua presença na primeira exposição coletiva do grupo denominado “impressionistas”. E, para sua alegria, a tela foi adquirida, durante a exposição, por um certo conde Doria.

A respeito dele, Manet criticou: “Cézanne é um pedreiro que pinta com a colher.”.

Ficha técnica
Ano: c. 1872-1873
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 55 x 66 cm
Localização: Museu d´Orsay, Paris, França

Fontes de pesquisa
Cézanne/ Coleção Folha
Cézanne/ Abril Coleções
Cézanne/ Girassol
Cézanne/ Taschen

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A SAGA DE DOIS FRANCESES NA AMAZÔNIA

Autoria de Lu Dias Carvalho

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A Amazônia recebe pessoas das mais diferentes partes do mundo, que ao Brasil chegam para conhecer a exuberância de nossas fauna e flora. Portanto, não seria nenhuma surpresa saber que nessas terras aportaram dois franceses. Só que Claude Founier e Michel Alascoux são especiais, ainda mais ao juntarem-se a uma dupla brasileira para lá de amalucada: Robervaldo Glutão (engenheiro florestal) e Mestrino Sabença (veterinário e fotógrafo). O grupo perambulava de um igarapé-açu a outro, entre folhas e bichos, fazendo um documentário sobre as coisas da selva.

Claude e Michel são tão parecidos quanto uma arara e um tucano. O primeiro é de altura mediana, magro e comedido, aquilo que chamamos de indivíduo de fino trato, enquanto o segundo é um varapau, fumante inveterado, desorganizado e mão-de-vaca. Mas algo liga os dois amigos: o organismo fraco para as comilanças da região Norte deste nosso Brasil querido, onde nada o pato ao tucupi, a peixada de Tucanaré, a pescada paraense, o pirarucu de casca e a gurijuba, acompanhados de maniçoba e caruru. A infusão disso tudo no estômago “raffiné” dos “garçons français” só poderia incorrer numa coisa: caganeira. Desando que resultou em carreirinhas e corredeiras. Haja correntes e cachoeiras de piriri, numa soltura de ventre danada, a perfumar as matas amazônicas. Mas o relato desse episódio ficará mais para frente.

Robervaldo Glutão, brasileirinho da gema, ou melhor, da floresta, carrega, para onde quer que vá, um tanque à frente, conhecido como pança avantajada. Parece ter nascido antes da esculência. Detona quilos de chocolate, litros de cerveja e refrigerante. Ele e o francês Michel são um perigo ambulante, pois correm o risco de atear fogo na floresta Amazônica, com seus cigarros pestilentos. Na falta do pito, Glutão vira frieira. Come o que encontra pela frente, a ponto de comprometer o estoque dos “jeunes” franceses, já de olho grande na gastança, uma vez que custeiam a viagem. Mas o conhecimento do esgalamido, em relação à vida na floresta, compensa todo o quinhão gasto, sem falar nas muitas risadas que proporciona ao grupo de aventureiros.

Outro personagem inusitado é Mestrino Sabença, o sabe-tudo, que, na falta de um médico, raizeiro, curandeiro ou pajé, tomou sob sua custódia os três animais humanos. Nada há entre o céu e a terra que não passe sobre sua jurisdição. Queria, inclusive, mudar o roteiro da filmagem em andamento. Os cineastas tiveram que ameaçar jogá-lo no meio de um bando de jacarés, a fim de que contivesse sua sapiência. Mas é esperto no quesito alimentação. Levou para a viagem 20 quilos de castanha-do-pará e 10 de ameixa, com receio de ficarem perdidos na selva. Também esperava encontrar algumas espécies de animais, como a surucucu-pico-de-jaca, venenosíssima. Sua maior preocupação, contudo, era a pintura do cabelo, que começava a desbotar. Queria saber do mateiro que planta era boa para pintar seus cachos, ainda que fossem apenas os mosquitos a usá-los como campo de pouso, naquele local tão distante da dita civilização.

As entrevistas eram motivo para uma briga de foice entre Glutão e Sabença, sempre disputando os holofotes. A equipe de filmagem ficava embasbacada sem saber a quem ouvir. E o tempo escorrendo euros pelos igarapés-açus e mirins, com os franceses a arrancar os cabelos de preocupação. Mas, como o primeiro não falava francês, Mestrino foi servir de intérprete, para o deslumbramento de seu ego inflado, porém, ao descobrir que não aparecia na filmagem, virou uma arara. Ficou tão abespinhado, que, ao atravessar um igarapé com areia movediça, deixou seus óculos caírem nas águas. Queria mergulhar atrás, mas foi detido por Claude Founier, uma boa alma. Sem enxergar um palmo à frente,  fotografava a esmo, pedindo ajuda para os detalhes, e atrapalhando ainda mais a filmagem, deixando os gringos emputecidos. O grupo de abilolados seguia avante pela floresta, quando Sabença fez um colar com o cipó “titica”, para colocar no pescoço, sendo avisado por Glutão, que conhece a selva como a palma da mão, que seria degolado na primeira passagem de uma “cacaia” (amontoado de galhos e cipós de uma árvore caída no caminho).

Vamos à caganeira:

Os cineastas franceses, Claude e Michel, eram aguardados para concluir um documentário, cuja história deveria acontecer no coração da floresta Amazônica. Os dois, embora marinheiros de primeira viagem, estavam ansiosos por aventuras, coisa que não falta nas bandas de cá. Após uma longa viagem de navio, saindo de Belém/PA, o grupo chegou à cidadezinha de Portel, e foi pernoitar numa hospedagem sem gerente, sem toalha e outras coisinhas mais. No quarto só havia um beliche de duas camas e uma cama de casal. Aperreados pela fome, guardaram os apetrechos e foram comer. Tudo teria terminado bem, se os girolas não tivessem enfiado a cara na peixada amarela com camarão, feita com óleo de dendê e pimenta-do-pará, para desventura dos incautos franceses.

Diante do primeiro sinal de dor de barriga de uma das “victimes”, Glutão, para fugir da anunciada “cagança”, que estava a caminho, justificou que não falava francês, portanto, iria para outro quarto, a fim de deixar o trio à vontade, enquanto Mestrino parolava em “français”, sob a fragrância das ventosidades Chanel nº 2, embora até aquele momento a diarreia dos dois estranjas estivesse contida por seus remédios. Mas os intestinos de “primeiro mundo” não aguentaram por muito tempo. Rugiram e entraram em ebulição. O piriri veio com força total, mais estrondoso do que a pororoca e mais caudaloso do que o rio Amazonas. E haja sulfas, hidratantes, reconstituintes de flora intestinal e controle dietético. Até a possibilidade de usar carvão de churrasco e de chamar um pajé foi aventada. Mas Glutão prometeu curar o canudo-de-pito dos franceses, assim que chegassem à selva, usando a farmacopeia local de um amigo mateiro.

O cineasta Claude Founier teve um pouco de alívio, mas, ainda febril, resolveu, a despeito da orientação veterinária, filmar a apresentação de Robervaldo. Posicionou-se no centro da sala e ficou aguardando o dito, que, por ironia do destino, era o último a apresentar-se. Enquanto isso, o calor foi aumentando, aumentando, e o francês amarelando, esbranquiçando e fraquejando. Mestrino correu para prestar socorro à vítima já desfalecida, levando-a para fora da sala, oportunidade em que lhe meteu três tapas na cara para recuperar a consciência, ou quiçá vingar-se, ao saber que ficaria de fora da filmagem, naquela etapa.

Michel foi chamado para ocupar o lugar do entibiado, já que repousava no hotel e sentia-se um pouco melhor. A seguir, foi pedida uma ambulância para socorrer o francês do destempero diarreico, o que abaixou a autoestima do veterinário, com seus suprimentos médicos, e do engenheiro, com suas raízes. O fato é que com o soro recebido e a incansável dedicação de Sabença, que queria provar que gente é igual a bicho, os gringos melhoraram e a partida para o coração da floresta Amazônica ocorreu na tarde seguinte.

Desde o início da viagem, Michel falava sobre a compra de um guarda-chuva para proteger o seu valioso equipamento de filmagem. Mas disso só se lembrou ao chegar a Portel, onde comprou uma sobrinha coreana. Pasmem! Já na trilha, após uma hora de caminhada na floresta, o atrapalhado lembrou-se da guardiã dos equipamentos. Contrariando a todos os pedidos, voltaram os franceses para apanhar a preciosidade. Passaram a mantê-la sempre aberta. Mas em conversa com João Mateiro, morador da floresta, esse informou sobre a presença de muitas onças por ali. Sabença, por sua vez, disse aos coitados visitantes que na presença de onça nunca deveriam correr, e, que a sobrinha aberta seria a arma mais eficaz, pois os felídeos daquelas paragens nunca viram uma, e assustar-se-iam com a mesma. Daí em diante os franceses não largavam a “parapluie”, disputando-a como proteção, até que a esqueceram em um local, onde pararam para descansar. Para amedrontar os coitados, Robervaldo Glutão e Mestrino Sabença passaram o resto da viagem gritando:

– Olhem a onça!

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Cézanne – O SÃO JOÃO DA CRUZ DA PINTURA

Autoria de Lu Dias Carvalho

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A obra de Cézanne foi a maior revolução na arte desde que o impressionismo greco-romano transformou-se no formalismo bizantino. (Roger Fry – crítico e historiador)

A pintura de Cézanne representa um afastamento da arte puramente visual e sensorial para uma arte mais cerebral e intelectual. As lições e o legado de sua arte são fundamentais para se compreender o desenvolvimento da pintura moderna.(David Gariff)

O desenho e a cor não são distintos, porque tudo na natureza é colorido. À medida que se pinta, desenha-se; quanto mais a cor harmoniza, mais o desenho se torna preciso. Quando a cor atinge a riqueza, a forma encontra sua plenitude. (Cézanne)

Paul Cézanne era um homem apaixonado por sua pintura, a ponto de colocar tudo em sua vida num patamar abaixo dela, até mesmo a família. Estava sempre em busca da perfeição, trilhando uma viagem essencialmente mental, movido pela vontade de ter uma obra sua exposta em museus, ladeada pelos grandes mestres do passado, como Delacroix, por quem tinha fascinação. Em um de seus desabafos a um jovem pintor, ao se sentir incompreendido em sua arte, afirmou que pensava ter nascido cedo demais. Com toda a razão, assim como o pintor holandês Van Gogh e o francês Gauguin, Cézanne também não foi compreendido em seu tempo, mas teve uma grande importância para a pintura do século XX, servindo de inspiração para importantes artistas, dentre os quais se encontravam os cubistas.

O pintor passou por momentos difíceis, ao ver suas telas recusadas pelo Salão de Paris, onde a pintura deveria percorrer os caminhos de Ingres, para quem o desenho predominava sobre a cor, pois essa, segundo ele, tinha como finalidade apenas a coloração. Além disso, quando apresentou trabalhos em Marselha, esses foram alvo de grande execração por parte do público. Um deles teve que ser retirado, para que não fosse destruído. Sua obra estava além do tempo em que vivia. Quando esteve em L`Estaque, na baía de Marselha, durante a guerra franco-prussiana, pintou inúmeros quadros, que já mostravam a sua passagem do estilo romântico, ou expressionista, para uma nova maneira de pintar.

Sob a influência do grande amigo e pintor Camille Pissaro, homem extremamente calmo e tolerante, responsável por direcionar sua pintura para o impressionismo, estilo que dava à cor mais ênfase do que ao desenho, Cézanne produziu uma série de quadros, dentre esses, alguns foram apresentados na primeira exposição feita pelo grupo de impressionistas. E mais uma vez, seu trabalho foi abertamente criticado, e tido como motivo de escárnio pelo público, principalmente a obra Uma Olímpia Moderna, através da qual ele fazia uma homenagem a Manet. Pissarro teve muita influência na pintura de Cézanne, ajudando o artista a acalmar seu mundo interior. Sua paleta também foi se tornando mais clara e suas pinceladas mais curtas e calmas. Cézanne, ao mesmo tempo tímido e irritadiço, dizia que Pissarro fora um pai para ele.

Ao participar de uma nova exposição do impressionismo, onde expôs 16 telas, e dentre elas se encontrava a primeira parte das telas sobre as banhistas, foi novamente alvo de cerradas críticas, zombarias e insultos. Esse novo fracasso levou-o a se afastar do mundo artístico de Paris, dali levando apenas a amizade de Zola e Pissarro, pois mesmo entre os impressionistas sentia-se como um corpo estranho. Estava enojado daquele mundo, que lhe oferecia um acolhimento tão hostil. Ele foi aos poucos se afastando do impressionismo, adquirindo uma nova linguagem pictórica. Nos anos de 1990, depois de ter sido durante muitos anos considerado um impressionista, passou a ser visto como um modelo para os simbolistas, ingressando formalmente no modernismo.

Em L´Estaque, Cézanne foi visitado por Renoir, quando ambos pintaram paisagens da região, em estilos e ritmos diferentes. Enquanto o primeiro era lento, o segundo mostrava-se extremamente rápido com os pinceis. O ritmo lento de Cézanne era uma constante, levando muitas telas vários anos para serem terminadas, pois ele fazia experimentações em busca de muitas respostas na pintura. Para surpresa de Cézanne, em 1882, uma de suas telas – um retrato – foi admitida pelo Salão de Paris, pela primeira e única vez. O pintor esteve presente na inauguração da Torre Eiffel, com o apoio do amigo Victor Chocquet, quando foi um dos participantes da Exposição Universal de Paris, com o seu quadro A Casa do Enforcado. No ano seguinte, participou da importante exposição Les XX, em Bruxelas.

Mesmo com o sucesso, o artista tornava-se a cada dia mais retraído, distanciando-se dos outros pintores, sendo também vitimado pela diabetes. Apesar de tudo, cada vez mais se embrenhava na sua arte, caminhando em encontro à arte moderna. Queria transmitir com intensidade, através de sua pintura, objetos, paisagens e pessoas, captando delas a essência. Lutava para que seu trabalho fosse capaz de ser expresso por si mesmo. E quanto mais envelhecia mais difícil ficava seu contato com o mundo. Havia se transformado numa pessoa amarga e extremada, que logo depois se mostrava cheia de uma ingenuidade comovente, emocionando-se com fatos simples.

O que importava de fato ao pintor era sua arte. Era ela que sustentava seu espírito. E quanto mais contato tinha com ela, mais prazer sentia. Não tinha pressa em acabar um quadro. Era um perfeccionista. Nunca achava que um quadro estava pronto. Retocava-o inúmeras vezes, até se cansar dele. Tudo era muito pensado e analisado milimetricamente. Como os pintores do passado, ele buscava encontrar na simplicidade o perfeito equilíbrio. Tinha paixão pelas cores fortes e intensas. Adorava pintar os bosques dos arredores, a pedreira de Bibémus, a bela Montagne Sainte-Victoire, compondo quadros geniais. Também dedicou uma série aos banhistas.

Em 1906, quando estava pintando ao ar livre, Cézanne foi encontrado inconsciente, depois de uma tempestade. Embora voltasse a pintar no jardim de sua casa, morreu uma semana depois, aos 67 anos, junto a tudo aquilo que tanto amava: seus quadros, tintas e pinceis. E tão só como vivera. Cézanne jamais poderia imaginar o quanto sua pintura seria importante para a arte pictórica, sendo responsável por mudanças artísticas importantíssimas no decorrer no século XX. Ele se tornou reconhecido como o principal ator da pintura contemporânea. É tido como mestre por diversas tendências, responsável por avanços que as ajudaram florescer. O pintor espanhol Pablo Picasso encontra-se entre os artistas que beberam na fonte deixada por ele. Para ver a influência do pintor francês em sua arte, basta comparar As Senhoritas de Avignon com a série de banhistas.

Cézanne foi influenciado por Nicolas Poussin, Jean-Baptiste-Siméon Chardin, Gustave Coubert, Camille Pissarro, etc. Influenciou: Henri Matisse, Hans Hofman, Pablo Picasso, Lucian Freud, Jasper Jonhs, entre outros. Sua obra está calculada em mais de 800 óleos, sendo: 332 paisagens, 178 naturezas-mortas, 150 retratos e 111 composições diversas. Relativas a aquarela, acompanhada por lápis, são mais de 500 exemplares.

Fontes de pesquisa
Cézanne/ Coleção Folha
Cézanne/ Abril Coleções
Cézanne/ Girassol
Cézanne/ Taschen
A história da arte/ E.H. Gombrich

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