Autoria de Lu Dias Carvalho

Em tempos idos, uma das boas qualidades a serem ditas sobre alguém é que a pessoa era “gentil”. Esta palavrinha tão modesta no número de letras e de apenas duas sílabas encerrava um mundaréu de preciosidades: nobreza, afabilidade, generosidade, cavalheirismo, delicadeza, graciosidade, cortesia, amabilidade, boa educação, civilidade, atenção, cortesia, sensibilidade, deferência, discrição, polidez, sociabilidade, e por aí vai. Mas longe estão os tempos em que se primava por ser “gentil”. Os tempos de hoje são outros, de modo que “gentileza” passou a significar também “ingenuidade”.
O leitor deve estar achando que eu me levantei de ovo virado e que briguei com o mundo. Nada disso. Sou uma pessoa otimista por natureza, mas sempre movida pela razão. Não há mais como negar que uma parte da humanidade tornou-se tão astuta, ardilosa e dissimulada que obrigou a outra a botar a “gentileza” em fuga, de modo que, mais uma vez na história humana, o mal faz um grande estrago, impedindo a evolução espiritual de nossa espécie. O meu desabafo tem razão de ser. Vou expô-lo.
Nós, brasileiros, somos vistos em todo o mundo como um povo hospitaleiro, alegre e “gentil”. Alegram-me muito tais qualidades, pois isso significa que prezamos a vida e dividimos com os outros a nossa sede por um mundo melhor, centrado na comunhão com todos os povos, uma vez que somos parte de um todo. E dentro de nosso país, nós, mineiros, carregamos com grande honra o elogio de sermos um povo “gentil”. Sem nenhum apego ao bairrismo, digo que é verdade. Se nos pedem uma orientação para um determinado endereço, por pouco não levamos a pessoa ao local de destino. Só para ilustrar o que digo, num dia chuvoso, um meu amigo de outro Estado ficou encabulado ao dar sinal para um táxi, esse parar, e o motorista explicar que não poderia levá-lo, pois já fora chamado pelo telefone. O taxista perguntou-lhe então qual era o seu destino e lhe deu uma carona até onde os caminhos de ambos divergiam. Mesmo o meu amigo querendo dar ao cavalheiro taxista uma gorjeta, pois o cronômetro estava parado, esse não aceitou. Mas, por que não podemos continuar sendo assim, generosos?
Hoje, recebi de uma amiga o alerta sobre um novo golpe no país. Espertalhões estão colocando uma criança chorando, na rua, carregando um papel com um endereço, como se estivesse perdida, pedindo que a leve ao endereço indicado. Estão também usando idosos como isca. No endereço mostrado estão eles, os bandidos, à espera da alma que fez aquela boa ação. E, como “prêmio” ela é roubada ou sequestrada. Adverte-me a minha boa amiga Esther: “Não ofereça ajuda à criança ou ao idoso, ainda que seja até à esquina seguinte, mas chame a polícia (190), que irá ao encontro dos meliantes.”.
Notícias dão conta de que tal modalidade de assalto tem sua origem na cidade de São Paulo ou na do Rio de Janeiro, e, que vem se espalhando como praga por todo o país. Mas isso não vem ao caso, pois malfeitores estão espalhados por todos os cantos do país e do mundo. O melhor mesmo é se prevenir. Mas, por que fazem isso com a generosidade que há em nós? Por que coagem crianças e idosos, seres tão indefesos? Até quando?
Obrigada, Ester, pelo alerta!
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