Autoria de Lu Dias Carvalho
Não é preciso muito esforço para tomarmos conhecimento das boas ações que acontecem em torno de nós. O triste é que estamos nos acostumando demais em ver apenas o mal em tudo que nos rodeia, e perdemos a chance de nos depararmos com o bem. Existem pessoas que desenvolveram um medo excessivo no contato com o estranho, medo esse que tem virado uma desculpa para a omissão. Elas estão ficando neuróticas e entorpecidas e, por que não dizer “maléficas”, em seus julgamentos preconcebidos? São perigosas, pois, se tiverem uma arma à mão, puxarão com facilidade o gatilho, à vista de qualquer temor, ainda que infundado.
Hoje, eu tive o prazer de conversar com meu amiguinho Jadilson, que há muito tempo eu não via. Conversa vai, conversa vem, acabamos falando sobre o pavor que vem acometendo as pessoas, o que as torna cada vez menos compassivas. Daí pulamos para o fato de que, ao nos desfazermos de coisas que não mais usamos, estaremos ajudando muitas outras pessoas. Ele então me narrou um fato muito interessante, que ora repasso ao leitor, e espero que sirva de estímulo para que ele possa se desfazer de tudo aquilo que abarrota seu lar, e, que tem certeza de que nunca fará uso, pois é preciso abrir espaço para que energias novas entrem em nossa casa e em nossa vida.
Cerca de seis meses atrás, contou-me Jadilson, ele foi chamado por seu patrão, que lhe perguntou se queria a cama de solteiro de seu filho, que fora trocada por outra que ele ganhara de presente da madrinha. O porão estava cheio e ele não tinha onde guardar mais coisas.
Jadilson aceitou-a com um sorriso largo, pois uma cama melhor seria muito bem vinda em seu pequeno quarto. Após o serviço, foi até à casa do patrão, desmontou a dádiva e a levou para casa com sacrifício, já que não tinha carro, mas bem feliz da vida. É fato que teve que esperar que ficasse mais tarde, para que a acomodasse com facilidade no lotação, que viaja bem vazio após a meia-noite.
No final de semana, montou sua nova cama, até botou colcha nova, e se sentiu o homem mais abençoado do mundo. Olhou para sua caminha antiga, companheira de tantos momentos de cansaço, tristeza e alegria, e agradeceu. Ele lhe daria um novo destino. Não um porão, mas um lugarzinho bem aprazível, onde seria bem tratada.
Ofertou a Ivani, sua sobrinha, sua antiga cama, que se encontrava bem superior à dela. A adolescente deu pulos de alegria, pois não é todo dia que se ganha um presente tão necessário ao corpo. Como ela crescera, sua velha cama estava com um rangido que a incomodava à noite.
A mãe de Ivani, por sua vez, deu a cama usada pela filha para a faxineira de um prédio vizinho. Dois dias depois, a mulher apareceu no seu portão, e era pura satisfação, contando-lhe que o filho estava todo festivo com seu novo presente. Contou também que ela havia repassado a cama do filho para dois menininhos, filhos de sua vizinha, que não tinham cama e, por isso, dormiam no chão.
Mas o caso não termina por aqui, meu caro leitor… Alguns dias depois, o patrão de meu amiguinho Jadilson travou com ele o seguinte diálogo:
– Como é, já se acostumou com a nova cama ou passou-a para frente? – questionou o patrão
– O senhor nem imagina o milagre que aquela cama fez! Ela deu muitas crias. – respondeu Jadilson
– Como assim? – questionou o patrão.
– Eu fiquei com ela, dei a minha para uma sobrinha, que deu a sua para uma faxineira, que deu a do filho para dois meninos que dormiam no chão. Como vê, o senhor ajudou cinco pessoas. – explicou Jadilson.
Seu patrão encheu os olhos de água, e lhe disse que iria esvaziar o porão assim que tivesse um tempinho, pois ali havia coisas que a família jamais usaria, mas que poderiam estar fazendo falta para outras pessoas. E arrematou:
– Obrigado por me fazer menos egoísta!
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