Rembrandt – SAGRADA FAMÍLIA COM ANJOS

Autoria de Lu Dias Carvalho

baleia123456789123Este é mais um dos quadros de Rembrandt sobre a Sagrada Família, que recebe o nome de A Sagrada Família com Anjos. É também uma de suas poucas obras em que a presença de anjos comprovam a religiosidade da cena.

Maria paralisa a leitura dos textos sagrados, e se reclina para tirar o manto que cobre a parte superior do berço de vime, a fim de olhar seu filhinho que dorme profundamente. Ela usa vestes vermelha e verde, com a gola branca. Traz um lenço enrolado na cabeça, ficando visível pequena parte dos cabelos partidos ao meio. Ela parece ter os pés enfiados num escalda-pés, tão comum à época do pintor ou, talvez, trate apenas de um caixote.

No lado esquerdo superior da composição, anjos adentram-se no ambiente, para mostrar a divindade do Menino. O primeiro querubim, visto de corpo inteiro, não possui a mesma luminosidade dos que o seguem, o que significa que os outros ainda estão recebendo a claridade de fora.

Atrás de Maria, José, o carpinteiro, trabalha. Traz na mão direita um machado e na esquerda um pedaço de madeira firmado numa pequena banca. Na parede, é possível reconhecer um arco de pua, dependurado.

Mãe e Menino estão envoltos numa grande luminosidade. Parte do Livro Sagrado recebe a sombra da cabeça de Maria.

Ficha técnica
Ano: 1645
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 117 x 91 cm
Localização: Museu Hermitaje, São Petersburgo, Rússia

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Munch – O GRITO

Autoria de Lu Dias Carvalho

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                                    (Clique nas imagens para ampliá-las.)

Eu caminhava pela estrada com dois amigos. O sol estava se pondo. De repente, o céu ficou vermelho-sangue. Exaurido, eu me recostei na balaustrada e fiquei ali parado, tremendo de medo, enquanto meus amigos seguiam caminhando. Eu senti um grito agudo e interminável atravessar a paisagem. (E. Munch)

Ele se impressionava ao ver os animais sendo abatidos e o lamento dos pacientes do hospintal. (Sue Priedeaux)

A composição expressionista O Grito, obra do norueguês Edvard Munch, foi inspirada num ataque de pânico sofrido pelo artista, enquanto caminhava com dois amigos. Nela estão explícitos os tormentos psicológicos do pintor. Munch tinha o costume de fazer várias versões de seus quadros. E com O Grito não foi diferente. Existem quatro versões da composição que apresentam mínimas mudanças, mas em todas está presente este sentimento universal, que tanto abala a humanidade – a angústia. É por isso que o personagem principal não apresenta sexo, idade ou identidade. A figura maior, aqui exposta, é a mais conhecida de todas as versões.

O Grito traz-nos a impressão de que produz som através das ondas de choque à direita. E o som é tão agudo que o personagem tapa os ouvidos, fica com o corpo desvirtuado e grita. Atrás dele caminham calmamente outros dois personagens que não apresentam nenhuma mudança física ou comportamental, totalmente alheios aos acontecimentos vivenciados pela figura principal. Conclui-se, portanto, que o grito agudo e assustador do personagem central é ocasionado apenas por sua mente, sem nenhuma correlação com o espaço físico. O pavor vivenciado por ele é tão grande que seu copo físico sofre uma repentina mudança: torna-se alongado e o rosto toma a forma de uma caveira, com os olhos saltados e a boca aberta. Seus olhos encaram o observador que também é envolvido pelo terror.

A cena ocorre num golfo estreito e profundo de Oslo, na Noruega, entre montanhas altas. Próximo dali estava um matadouro e um hospício onde estava internada a irmã do pintor. As linhas onduladas do golfo e do céu contrastam com a diagonal com forte declive da estrada e com um pôr do sol perturbador em cores quentes, contrastando com o azul do rio, cor fria, que ultrapassa a linha do horizonte. Tudo resulta num efeito vertiginoso, torto, excetuando a ponte e as duas personagens ao fundo, o que leva muitos críticos a sugerir que Munch tenha tido um ataque de agorafobia. Ele criou outras obras semelhantes, nas quais ficam visíveis a representação simbólica da morte e da solidão, temas sempre presentes em sua vida. Ao longe na baía veem-se pequenos barcos à vela. É como se a natureza se condoesse com o grito do personagem central e com ele interagisse.

O Grito demonstra o medo e a solidão do Homem, mesmo em meio a um cenário natural que não representa nenhum perigo para ele. E esse grito, ainda que mudo, ecoa desde a baía até o céu, numa violência dinâmica de linhas. Munch acabou por pintar quatro versões de seu quadro, para substituir as cópias que ia vendendo. Ele o pintou quando a psicanálise começava a ficar no auge e, por isso, a pintura logo passou a simbolizar as agruras da alma e, com os desacertos da vida moderna passou também a representar desde o estresss do cotidiano às fobias ecológicas, passando a traduzir qualquer forma de aflição. Para alguns críticos, O Grito é a mais forte representação visual da sensação de receio e apreensão, sem motivo aparente, na história da arte. Encontra-se entre as pinturas mais conhecidas em todo o mundo.

Curiosidades sobre a obra

• A composição O Grito tornou-se tão forte na história da arte, que ganhou espaço na cultura pop. Pode ser vista no cartaz do filme Esqueceram de Mim e na máscara do assassino da série de terror denominada Pânico.

• Em 2012, segundo noticiário em todo o mundo, a quarta versão original dessa obra, que se encontrava em mãos de certo proprietário particular, chegou num leilão à cifra estupenda de 119,9 milhões de dólares, tornando-se O Grito o maior recordista de preço num leilão de arte.

• A obra de Munch, O Grito, em versões diferentes, foi roubada duas vezes de museus da Noruega em 1944 e 2004, trazendo comoção e mais fama ao trabalho do artista norueguês.

• O sucesso desta obra, enquanto ícone cultural, teve início após a Segunda Guerra Mundial. Com sua popularização O Grito tornou-se um dos quadros mais reproduzidos tanto em pôsteres como em objetos.

• Foi capa da revista Time em 1961, ilustrando os temas sobre culpa e ansiedade.

• O artista pop Andy Warhol em 1980 também usou a obra, ao dedicar-lhe uma série de trabalhos.

• O personagem Hortelino no filme Looney Tunes de Volta à Ação, faz uma expressão semelhante à do quadro numa cena.

• A série de desenho Os Simpsons mostra o quadro duas vezes: em 1993 e 2005.

• O quadro aparece na série Os Feiticeiros de Waverly Place, do Disney Channel, etc.

Ficha técnica
Ano:1893
Técnica: óleo, têmpera e pastel em cartão
Dimensões: 91 x 73,5
Localização: Nasjonalgalleriet, Oslo, Noruega

Fontes de pesquisa
Os pintores mais influentes…/ Editora Girassol
Munch/ Editora Paisagem
Revista Veja/ 9-05-2012
http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Grito_%28pintura%29

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A FOTO MAIS FAMOSA DE CHE GUEVARA

Autoria de Lu Dias Carvalho

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O retrato de Guevara é a mais famosa fotografia do mundo e um símbolo do século XX. (Instituto de Arte de Maryland)

Trata-se da imagem mais reproduzida da história da fotografia. (Victoria e Albert Museum)

A imagem de Korda transformou-se num idioma ao redor do mundo. Transformou-se num símbolo alfa-numérico, num hieróglifo, um símbolo instantâneo. Ela reaparece misteriosamente sempre que há um conflito. Não há nada na história que funcione desse jeito. (Jonathan Green, diretor do Museu de Fotografia da Universidade da Califórnia)

Como defensor dos ideais pelos quais Che Guevara morreu não me oponho à sua reprodução por aqueles que desejam difundir a sua memória e a causa da justiça social por todo o mundo. (Alberto Díaz Gutiérrez)

Alberto Díaz Gutiérrez (1928-2001), fotógrafo cubano, também conhecido por Alberto Korda é responsável por uma das fotos mais conhecidas de Che Guevara, Guerrilheiro Heroico, que viria a se transformar num ícone e que, por sua vez, tornou o fotógrafo mundialmente conhecido.

Korda fotografava os palestrantes por ocasião de um funeral coletivo em Cuba, 75 vítimas de um bombardeio no porto de Havana, quando avistou Che, rapidamente, em meio às autoridades numa tribuna, mas tempo suficiente para que tirasse duas fotos, em 5 de março de 1960. O guerrilheiro tinha 31 anos na ocasião.

Che Guevara não percebeu que estava sendo fotografado. Seu olhar vagava para longe, cheio de dor e raiva. Korda fez uma versão recortada da foto tirada, que foi pendurada em seu estúdio. Tempos depois, deu duas cópias da fotografia a um editor italiano, Giangiacomo Feltrinelli que, ao retornar à Itália, espalhou milhares de pôsteres para alertar as pessoas sobre os perigos que Che corria na Bolívia.

A imagem capturada por Alberto Díaz Gutierréz voltou à cena quando Guevara foi executado nas selvas da Bolívia, em 1967. Ao anunciar ao mundo a execução do médico Che Guevara, Fidel Castro tinha como pano de fundo um cartaz com a mesma imagem.

Pôsteres com a imagem de Che tomaram as ruas das cidades de Cuba. A partir daí, a foto transformou-se num ícone de sua rebeldia contra o status quo, sendo reproduzida em camisetas, capas de disco, anúncios publicitários, etc.  Alguns acreditam que se trata da imagem fotográfica mais reproduzida em toda a história.

A foto de Che Guevara foi reproduzida nas mais diferentes partes do mundo, mas Korda nunca exigiu nenhum pagamento por ela, pois imaginava que só faria expandir os ideais do ídolo. Só se opôs à comercialização da imagem num anúncio de vodca.

Em 2007, Aleida, filha de Guevara, concedeu entrevista ao New York Times, protestando contra o uso abusivo da imagem do pai:

Não estamos atrás de dinheiro. Só queremos o fim do abuso. Ele pode ser uma pessoa universal, mas respeitem a sua imagem.

O artista irlandês, Jim Fitzpatrick, reproduziu a imagem de Che Guevara em inúmeras variações: vermelho e preto, preto e branco, preto e branco com uma estrela vermelha, etc.

Fontes de pesquisa:
Tudo sobre fotografia/ Editora Sextante

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Van Eyck – A VIRGEM DO CHANCELER ROLIN

Autoria de Lu Dias Carvalho

Rolin

Nicolas Rolin nasceu de origem humilde, mas sua inteligência, habilidade, crueldade e ganância fizeram com que chegasse ao cargo de chanceler do Grão-Ducado da Borgonha, que ele transformou numa grande potência europeia, ali permanecendo por quase 40 anos. Mas ciente da carga de maldades que levava às costas, tratou de garantir a salvação de sua alma, revelando-se um fidelíssimo devoto da Virgem Maria, aliando a isso a dedicação às obras de caridade, numa luta inglória entre a humildade e o orgulho.

Na composição A Virgem do Chanceler Rolin, Jan van Eyck pintou o chanceler como um homem de meia-idade, ajoelhado sobre um genuflexório diante da Virgem Maria e seu Menino, com as mãos em atitude de preces. Um livro de horas encontra-se aberto sobre o genuflexório. É possível ver que o texto inicia-se com a letra D.

A cena acontece numa imponente sala de um palácio, ao alto, cuja janela descerra-se para uma bela paisagem montanhosa, sendo possível ver um rio dividindo a cidade com suas imponentes construções e incontáveis torres. Estão presentes na paisagem mais de 2000 figuras. É possível ver desde as planícies da Holanda até os Alpes nevados. No jardim encontram-se rosas, lírios e pavões reais. Possivelmente, os dois personagens encostados ao muro, são Van Eyck e seu irmão Hubert.

A Virgem Maria está modestamente assentada numa almofada, diante do chanceler, com o seu Menino no colo, coberta por um manto de púrpura vermelho. Acima de sua cabeça, um anjo segura uma coroa de ouro e pedras preciosas, como se fosse cingi-la. Ela não fixa o pecador, numa atitude de piedosa modéstia. Seus cabelos, repartidos ao meio, são dourados e longos, espalhando-se por suas costas e ombros, com uma fina fita a cingi-los.

O Menino Jesus, nu, está seguro apenas pelas mãos de Maria, cujo corpo serve-lhe de trono. Na mãozinha esquerda, ele traz uma esfera de vidro imperial com uma cruz, que simboliza seu poder, e com a direita abençoa o chanceler, ajoelhado à sua frente. A cena é iluminada pela luz do sol.

Esta obra, encomendada para a catedral de Autun, foge à regra dos quadros de doadores medievais, que traziam um santo ao lado, como intermediário. Ainda que quisesse parecer humilde, está presente na pintura toda a arrogância do chanceler, que se encontra sozinho, sendo do mesmo tamanho da Virgem. Também está ajoelhado no mesmo nível de Maria. Ele toma conta de toda a metade esquerda da pintura, e usa um manto de brocado de ouro, enfeitado com vison, bem mais ostensivo do que o da Virgem. Fica claro que o mundo terreno era muito mais importante para ele do que o espiritual.

Ficha técnica
Ano: 1435/37
Técnica: óleo sobre madeira
Dimensões: 66 x 62 cm
Localização: Museu do Louvre, Paris, França

Fonte de pesquisa
Los secretos de las obras de arte/ Taschen
100 obras-primas da pintura europeia/ Könemann

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Filme – CONTOS DA LUA VAGA

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Se não sonhar alto, como um homem pode crescer na vida? A ambição deve ser ilimitada como o oceano. Juro pelo deus da guerra que estou cansado de ser pobre. (Tobei)

Dinheiro é tudo. Sem ele a vida é dura e toda a esperança perece. Ganharei cada vez mais. Vou tentar fazer cada vez mais cerâmicas. O máximo que puder. (Genjuro)

Eles são ambiciosos demais. Lucro fácil ganho em tempos caóticos nunca dura. Um pouco de dinheiro inflama a cobiça dos homens. (Líder da aldeia)

Não é o quimono. É a sua generosidade que me faz feliz. Desde que você esteja comigo, não quero nada mais da vida. (Miyagi)

O cineasta japonês Kenji Mizoguchi (1898-1956) brinda-nos, em Contos da Lua Vaga (1953), com uma de suas obras-primas, numa linguagem simples e poética e uma mistura de realidade e sobrenatural. O filme foi também considerado pelo mago da crítica cinematográfica, Roger Ebert, já falecido, como “um dos melhores filmes de todos os tempos”, sendo responsável, ao lado de Rashomon, de Kurosawa, por encantar as plateias ocidentais, despertando nelas o gosto pelos filmes japoneses. Mizoguchi foca sempre a angústia e a resignação do universo feminino, ao mostrar o Japão feudal.

O filme narra a história de dois irmãos que, repentinamente, veem-se consumidos por uma sôfrega ambição: ficar ricos, mesmo tendo suas terras assoladas pelos guerreiros sem lei, que vagam estuprando mulheres, recrutando homens à força para as guerras travadas entre os poderosos chefes, e saqueando tudo, os dois põem em risco a família, para atingir seus objetivos.

Mizoguchi inicia Contos da Lua Vaga mostrando uma aldeia, bem primitiva, com casas toscas, cujos telhados são seguros com pedras e paus, que impedem que sejam levados pelo vento. Aí vivem os irmãos Genjuro (Masayuki Mori) com sua esposa e Genichi, o filho pequeno do casal, e o irmão Tobei (Eitaro Ozawa), com a mulher. Enquanto o primeiro é ceramista, o segundo é um camponês que lida com plantações. A vida poderia ser pacata na aldeia, se não houvesse se espalhado a notícia de que soldados estão próximos do lugar, cometendo barbaridades com as pessoas que encontram.

A maior preocupação de Genjuro são suas peças de barro. Ao ouvir tiros, apressado, ele embala tudo com palha, joga numa carroça e já está prestes a partir, quando seu irmão se oferece para ajudá-lo, puxando ele próprio a carroça, mesmo a contragosto de sua mulher Ohama (Mitsuko Mito). Ainda que sua esposa, Miyagi (Kinuyo Tanaka), suplique-lhe para não colocar sua vida em perigo, ao viajar em tempos tão conflituosos, alegando que ele deveria ficar para protegê-la, juntamente com o filho, Genjuro não ouve seus rogos, só pensando no montante que irá ganhar com a venda das peças.

Genjuro retorna à aldeia, prazeroso com o resultado das vendas na cidade. Coloca as moedas nas mãos da esposa para que ela avalie o peso. Também a presenteia com um belo tecido, mas ela deixa claro que o amor dele é muito mais valioso do que qualquer presente. Transtornado pela ambição, ele parece não entender suas palavras, só reforçando que quer ficar rico, e retoma o trabalho de oleiro com sofreguidão.

Tobei, por seu lado, está seduzido pelo desejo de ser um vassalo de samurai e, quando vê um deles, tenta se alistar em seu exército, mas é humilhado e preterido sob a alegação de que é um mendigo incapaz de ter sua própria armadura e lança. Volta para casa envergonhado, sendo repreendido pela esposa já desesperada com sua ausência. Une-se ao irmão para, juntos, fazerem muitas peças de cerâmica, de modo a vendê-las na cidade. Fica acertado que um terço da venda será dele. Quando se preparam para queimá-las, um grupo de guerreiros invade a vila e eles são obrigados a fugir com a família. Genjuro desespera-se com a possibilidade de perder seu trabalho, caso o fogo do forno venha a se apagar. Antes mesmo de os soldados deixarem o terreno, ele retorna, seguido de Miyagi amedrontada, para ver que suas peças, por milagre, estão salvas. O casal quase é surpreendido pelos guerreiros retardatários.

Genjuro e Tobei, agora mais cuidadosos, resolvem viajar de barco para a cidade, levando as esposas e a criança. A viagem pelo lago é uma das cenas mais belas do filme, quando o barco adentra numa camada de nevoeiro e neblina. Enquanto os demais descansam, Ohama rema, cantando uma bela canção. Mas um barco solitário vem em direção ao deles, com seu barqueiro já quase morto. Esse pede água, avisa para terem cuidado, pois há piratas no lago e cai dentro do barco. Os irmãos ficam amedrontados e Genjuro resolve voltar, e deixar a esposa e o filho na margem do rio, para que voltem para casa, sob o protesto dela.

A viagem foi tranquila para os irmãos e Ohama, pois na cena seguinte já se encontram na feira, vendendo as peças de cerâmicas. Ali, Genjuro recebe a visita de uma nobre, Lady Wakasa (Machiko Kyo), uma mulher muito bela, e de sua dama de companhia, que compra algumas peças e pede para que ele as leve até sua morada. Ao se dirigir ao local, ele observa alguns tecidos numa loja, imaginando a alegria de sua mulher ao recebê-los. Mas Lady Wakasa aparece acompanhada de sua dama e o conduz até seu castelo. Genjuro encanta-se com a beleza da mulher, e se sente lisonjeado pelos elogios que ela faz à sua arte. Enquanto canta para ele, a voz do pai morto da nobre é ouvida no aposento. A dama de companhia encoraja Genjuro a se casar com a patroa e “não enterrar seus talentos em uma pequena aldeia.”.

Tobei, por sua vez, pega sua parte na venda e foge para comprar uma armadura e uma lança, deixando para trás a esposa e o irmão, ainda com a ideia fixa de ser um vassalo de samurai. Ao ver um deles decepando a cabeça de um inimigo, mata-o depois, e pega a cabeça do morto, que entrega como troféu ao samurai chefe, como se fosse o autor da façanha. Como recompensa, ele ganha um cavalo, uma casa e homens para servi-lo. Mas surpreende-se ao levar seus acompanhantes para os prazeres de uma casa de gueixa, e lá encontrar Ohama, abandonada por ele e violentada pelos soldados que invadiram sua aldeia. Os dois acabam voltando para a vila.

Caído pelos encantos da nova mulher, Genjuro vai à cidade comprar-lhe um presente. Como o dinheiro não desse, pede ao comerciante que vá até a casa de Lady Wakasa. Visivelmente amedrontado ao ouvir tal nome, o homem entrega-lhe tudo e pede-lhe para não mais voltar. No caminho, ele se encontra com um sacerdote que lhe fala: “Eu vi a morte em seu rosto! Tu te encontraste com um fantasma?”, e o adverte para não se deixar “iludir por uma forma proibida de amor”. O sacerdote cobre-o com símbolos de exorcismos, que impedem o contato de Lady Wakasa com ele. Fica então patente que ela é um fantasma. Depois de muitas reviravoltas, Genjuro consegue voltar para a aldeia, em busca de sua mulher e do filho.

Miyagi recebe o marido com muita alegria. Ela o trata carinhosamente e cuida dele, que se encontra muito cansado. Somente no dia seguinte, quando é procurado pelo líder da aldeia, que estava cuidando do pequeno Genichi, é que Genjuro descobre que sua esposa havia morrido na mão de soldados famintos, ao tentar conservar o alimento do filho e protegê-lo. Ele havia se encontrado, portanto, com o fantasma dela.

O filme Contos da Lua Vaga mais se parece com uma fábula, com personagens extremamente humanos, dois deles movidos pela ambição extremada, e duas mulheres corajosas e realistas, que tentam mostrar aos maridos que a riqueza não é tudo, ainda que lutem para ajudá-los a conseguir o que buscam. Os fantasmas, por sua vez, são mostrados com respeito e reverência. Não há também qualquer cena erótica. Mesmo Lady Wakasa não se mostra sensual. Traz o corpo coberto, e quase sempre, oculta o rosto com véus.

O mais interessante nas cenas do humanista Kenji Mizoguchi é que cada uma, com poucas exceções, equivale a um corte. Ou seja, o cineasta filma uma cena longa e já a dá por terminada, pulando para outra bem diferente, num outro contexto. Essa característica do cineasta fica bem clara na cena em que Lady Wakasa e Genjuro banham-se num tanque ao ar livre. Quando o espectador imagina que haverá um contato amoroso entre os dois, a cena seguinte já mostra o casal fazendo um piquenique. Os detalhes alusivos à época feudal, em que a história é passada, são perfeitos: o vilarejo, o mercado da cidade, o quartel do samurai, a loja de armaduras e espadas, etc.

Como o Japão era um mercado muito fechado, os filmes do genial Mizoguchi só aportaram no Ocidente em meados da década de 50, para delírio dos cinéfilos, embora ele já trabalhasse com cinema desde a década de 20. Contos da Lua Vaga mostrou uma nova maneira de se fazer cinema.

Outras obras-primas do autor:
Elegia de Osaka, Oharu: AVida de uma Cortesã, As Irmãs de Gion, Os Amantes Crucificados, Conto dos Crisântemos Tardios, O Intendente Sansho, A Rua da Vergonha e Senhoria Oyu, etc.

Obs.: A coletânea de Mizoguchi pode ser encontrada, em promoção, na Livraria da Folha, pela internet.

Fonte de pesquisa
Grandes filmes/ Roger Ebert

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A BENETTON MOSTROU O ROSTO DA AIDS

Autoria de Lu Dias Carvalho Moj1

Nunca tivemos nenhum receio em permitir que a Benetton usasse a foto de Therese em seu anúncio. Nós sentimos que era a hora de as pessoas verem a verdade sobre a AIDS. (Mãe de Kirby)

Eu perguntei ao David se ele se incomodava em ser fotografado, e ele me respondeu: ‘Isso é bom, desde que não seja para lucro pessoal.’ Até hoje eu não cobro ou recebo nenhum centavo pela imagem. David era um ativista, e queria passar a informação para o mundo de como a AIDS estava devastando as famílias e as comunidades. (Therese Frare)

Escute, Therese, o pessoal da Benetton não se aproveitou de nós ou nos explorou. Nós é que nos aproveitamos. Por causa deles, a foto foi vista em todo o mundo, e isso é exatamente o que o David queria. (Pai de Kirby)

O fotógrafo Therese Frare fotografou David Kirby, 32 anos, um ativista gay nos anos 1980, vitimado pela AIDS, prestes a exalar o último suspiro, em novembro de 1990. Assim que descobriu que estava contaminado pelo vírus da AIDS, David relatou o fato à sua família, da qual se encontrava afastado, dizendo que desejava morrer perto dela.

A foto retratando David Kirby em seus momentos finais recebeu o título de Os Últimos Momentos de David Kirby, sendo publicada na extinta revista Life, em preto e branco. Participou do concurso World Press Photo e de 1991, levando o prêmio Budapeste.

Ao ser usada numa versão colorizada, o que a tornava ainda mais chocante, para uma campanha da marca italiana Benetton, em 1992, a foto Os Últimos Momentos de David Kirby gerou um grande conflito, dividindo a crítica. Para alguns, alertava as pessoas em relação aos perigos da AIDS. Outros, entretanto, viam nela um incentivo à homofobia.

Foi questionada a ética da Benetton por usar imagens com o objetivo de chocar o observador. E, mesmo tendo comprado os direitos da foto, contribuindo com uma fundação de combate à AIDS, uma famosa instituição de caridade de ajuda aos aidéticos foi dura com a Benetton, alegando que, ao usar a foto naquele contexto, estava afrontando as vítimas da doença. A Benetton defendeu-se alegando que sua intenção era levar as pessoas a refletirem sobre a epidemia da AIDS que se alastrava pelo mundo.

O mais intrigante na campanha da Benetton é que ela não apresentava qualquer produto, além de associar à marca uma imagem negativa, ou melhor, a única referência à marca italiana estava no seu logotipo. Muitas pessoas viam no rosto cadavérico de David Kirby uma grande semelhança com o rosto de Cristo crucificado.

Na imagem, muitas mãos tentam confortar o corpo dorido de Kirby, com seu olhar perdido. Mãos fortes e cheias de vida circundam suas mãos débeis, num contraste doloroso. À esquerda do enfermo está Peta, um cuidador do asilo para pacientes com AIDS, também acometido pela doença. O pai de David abraça sua cabeça e toca sua face escavada com o rosto. Sua irmã abraça sua filha, protegendo-a de tão sofrida visão.  Na parede, atrás da cama do doente, um quadro mostra Jesus Cristo com suas mãos estendidas.Mãos que sofrem. Mãos que afagam. Mãos que protegem. Mãos que amparam.

Há um grande contraste entre o corpo esquelético de Kirby e os corpos rechonchudos de seus familiares. O relógio no braço do enfermo, extremamente pesado para a fragilidade de seu punho, parece apenas marcar o pouco tempo que ainda lhe resta para respirar.

Nota:
Quem quiser conhecer com mais profundidade a história de David Kirby acesse:
http://colunas.revistaepocanegocios.globo.com/lospantones/2010/12/06/a-historia-da-foto-que-mostrou-a-aids-para-o-mundo/

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