Autoria de Luiz Cruz

Lá fora os lundus dos escravos/Acordam a lua do sono./A escultura bem que pede/Uma força bem maior./- Homem se me acabas/Eu acabo te abraçando. – (Murilo Mendes)
Aos dezoito dias de novembro de mil oitocentos e quatorze, faleceu Antônio Francisco Lisboa, pardo, solteiro, de setenta e seis anos, com todos os sacramentos, encomendado e sepultado em cova da Boa Morte e para clareza fiz este assento em que assino. (O coadjutor José Carneiro de Morais)
Antônio Francisco Lisboa nasceu em Vila Rica, era filho natural da forra Isabel e do mestre carpinteiro português Manuel Francisco Lisboa. O sobrenome é designativo de origem, ou seja, de Lisboa, Portugal. Segundo o pesquisador Marcos Paulo de Souza Miranda, o pai de Aleijadinho chegou ao Brasil por volta de 1720, acompanhado de seus pais irmãos.
Aleijadinho cresceu no seio de uma família de talentosos mestres carpinteiros e desde muito cedo esteve em contato com a arte e a arquitetura. O meio ambiente em que foi criado era bastante propício para que pudesse desenvolver suas habilidades. É provável que tenha estudado com o português abridor de cunhos João Gomes Batista, e a arte heráldica será, posteriormente, reestruturada e executada em sua obra. Seu ambiente familiar foi muito significativo para a formação do mestre mulato, mas também as condições culturais, econômicas e sociais foram propícias para o desenvolvimento das artes de maneira geral. Minas Gerais setecentista tornou-se grande celeiro das artes e expressiva formadora de artistas, que circulavam por diversas vilas e arraiais, criando suas obras e embelezando as localidades.
Aleijadinho foi escultor, entalhador, desenhista e arquiteto da melhor qualidade. Constituiu sua oficina. Deixou várias obras primas escultóricas e arquitetônicas. Seu apelido está associado a sua condição física, que até hoje não se sabe exatamente o que lhe acontecera. Com vasta obra, sendo mulato – numa sociedade estratificada, foi um dos artistas mais valorizados de sua época, inovador nas áreas em que atuou e associando tudo isso ao seu problema físico, o personagem, desde cedo, tinha todos os elementos para transformar-se em um “mito”. E como todo mito, já foi muito estudado, mas sua obra, sua vida e seu meio ambiente sócio-econômico-cultural ainda nos propiciam vasto e complexo campo a ser investigado.
Alguns viajantes estrangeiros, ao longo do século XIX, deixaram registros sobre o artista; seu primeiro biógrafo Rodrigo José Ferreira Bretas teve oportunidade de coletar relatos de pessoas que ainda tinham convivido com o mestre. Mas o primeiro a estudar a obra de Aleijadinho foi o modernista Mário de Andrade, que visitou Minas em 1924, na caravana modernista. Seu ensaio sobre o artista foi publicado em 1928. O poeta franco-suiço Blaise Cendrars, que participou da caravana, ficou encantado com a obra de Aleijadinho e iniciou um estudo, que infelizmente não teve prosseguimento. Ainda da caravana, Oswald de Andrade e Mário de Andrade criariam seus belos poemas e Tarsila do Amaral registraria em desenhos as diversas localidades que visitaram. O arquiteto e pesquisador Lucio Costa foi o primeiro a conectar a obra do artista de Minas Gerais com o rococó da Baviera. Viajou com o historiador Ivo Porto de Menezes pelo interior da Alemanha, identificando e analisando obras, que foram edificadas lá com estética próxima e inspirada na tratadística arquitetônica, exatamente como ocorrera com as obras mineiras realizadas por nosso mestre. Seria impossível relacionar os pesquisadores envolvidos com as obras desse ouro-pretano e artista magistral.
Se a origem familiar e o clima propícios à criação artística foram significativos para a formação e produção do mulato, não foram apenas esses fatos, mas especialmente sua própria erudição. Aleijadinho foi, com certeza, um homem culto e sensível, que sabia ler e interpretar a Bíblia, conhecia o latim e teve acesso aos tratados arquitetônicos que circularam pelo Brasil colônia. Com seu talento, soube como ninguém se apropriar das informações e conhecimentos, e transformá-los em obras-primas. Em Ouro Preto, encontra-se seu principal projeto arquitetônico: a capela de São Francisco de Assis; em Congonhas está seu maior conjunto de esculturas: os Passos da Paixão e em Tiradentes o seu último risco: o frontispício da Matriz de Santo Antônio. Podemos apreciar obras de Aleijadinho em diversas igrejas mineiras e, em cada uma, o artista imprimiu seu estilo inconfundível. Com a associação de um estilema a outro, torna-se mais fácil identificar a escultura de nosso artista maior. Podemos considerar o conjunto de caracteres a sua marca, ou sua própria assinatura nas obras de arte:
• o domínio da estrutura anatômica; • os olhos expressivos, com o globo ocular protuberante, com as pupilas planas, achinesados, tendo as lacrimais bem definidas, o olhar é penetrante; • hipertelorismo – a distância acentuada entre as órbitas oculares; • os cabelos organizados em mechas, estriados e formando volutas, em alguns exemplares o cabelo está em vírgulas invertidas sobre a testa; • as sobrancelhas arqueadas em V conectando-se com o desenho do nariz; • o nariz afilado, com terminação em esfera diluída, tendo as aletas bem definidas e profundas; • a arquitetura labial é muito pessoal e está intimamente conectada ao nariz pela formação do septo nasal, que cria campo para destaque das colunas do filtrum; o sulco do filtrum é profundo e convexo; o arco de cupido é em forma de V; o tubérculo da porção mucosa do lábio superior destaca-se em montículo; tanto o lábio superior quanto o inferior possuem desenhos bem definidos e marcantes em cada escultura; • a boca é entreaberta, salientando ainda mais os lábios carnudos; ligeiramente aparecem os dentes, em alguns casos; • o queixo é delineado em montículos; • os bigodes nascem das narinas, afastados dos lábios e formam a barba bipartida que desenvolve-se em duas aspirais bem definidas, deixando o queixo exposto; • a barba não é conectada às costeletas, desce de junto aos lóbulos das orelhas; • o semblante facial é sempre expressivo e pode-se perceber a estrutura óssea; • o pescoço é bem colocado e robusto; • o movimento de pernas e braços é sempre original a cada escultura, a posição dos pés forma ângulo próximo do reto; os braços são ligeiramente curtos; • a mão tem proporção quadrangular, com a formação do polegar mais afastado e alongado; o desenho das unhas é bem destacado e retangular; os dedos mínimo e indicador são mais afastados, contrastando com os dois dedos médios unidos e de comprimento muito próximo; é possível observar a estrutura óssea e as veias; • os artelhos ou pododáctilos são longos e sempre expostos; • o joelho é ligeiramente elevado, para acentuar o movimento do planejamento, que é anguloso, em dobras marcantes, esvoaçante; • a veste em gola cônica ou gola em V, sinuosa e ressaltada, em cabuchão; • as esculturas são de tamanhos diversos, a maioria policromada, mas há belos exemplares sem policromia.
Fotos de Luiz Cruz: Cristo com a cruz às costas – Passos da Paixão do Santuário de Congonhas/MG; Santo Antônio, capela de São Francisco de Assis de São João del Rei/MG.
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