NA BAIXA DO SAPATEIRO – Waldir Azevedo

Autoria de Edward Chaddadbaiana

Muito se fala sobre Waldir Azevedo como compositor. No entanto, é importante deixar claro que foi também um dos maiores instrumentistas que tivemos. O mundo se maravilhava, por onde ele passava, exibindo seu cavaquinho, com apenas quatro cordas, tirando sons inimagináveis, inacreditáveis, que mexiam com o entusiasmo de todos. Estupefatos e surpresos, este músico fantástico precisava explicar o que era aquele instrumento tão estranho, o cavaquinho.

Um dos momentos mais lindos, como instrumentista, porém, foi sua interpretação, gravada em disco de vinil, pela Continental, da maravilhosa Na Baixa do Sapateiro, de autoria de Ary Barroso. Nela, ele fez uso de um assobiador, no lugar do refrão “Ai, Bahia, ai, ai! Bahia que não me sai do pensamento, ai, ai!” e, na sua maior parte, deu grande rapidez à execução da melodia, destacando bastante, em clímax, o dedilhar de acordes no seu incrível cavaquinho, para, quase no final, alterná-la em ritmo mais lento, como um samba canção e, de repente, retornar ao ritmo quente, em cadência sublime, usando mais uma vez seu cavaquinho, transformando-o em sons divinos. Um show de interpretação!

A gravação de Waldir Azevedo foi o ingrediente que faltava para Na Baixa do Sapateiro tornar-se a coqueluche dos regionais, fazendo o cavaquinho sambar como nunca, pois sua execução – que pode ser ouvida no site do Instituto Moreira Salles – é extraordinariamente bonita, dando uma roupagem linda demais para essa música, que é uma homenagem à Bahia e também uma das mais bonitas daquele grande acervo musical do Brasil.

Por isso, impropriamente, há quem até afirme que a música Na Baixa do Sapateiro tenha sido de autoria de Waldir Azevedo, o que é uma inverdade, embora ele tenha sido um dos melhores intérpretes desta música. Todavia, uma coisa é certa: Waldir fez inovações extraordinárias na música, arranjou-a de tal forma que lhe deu um pouco de seu talento. Fez seguidores. Nossos músicos aprenderam e muito com a sua genialidade, seja como compositor, seja como instrumentista.

É uma pena que no Youtube não haja nenhuma gravação dessa música pelo Waldir Azevedo; porém, depois de muito pesquisar, consegui deparar-me com uma interpretação de Na Baixa do Sapateiro, onde o destaque é o cavaquinho e nela há certamente muita influência de Waldir.

Foi um show na Conservatória, onde se estava fazendo um tributo a Waldir Azevedo. Ronaldinho do Cavaquinho, muito inspirado, fez uma execução desta música bem semelhante àquela gravada por Waldir. Aí vi que não só o compositor Waldir era lembrado, mas certamente, o notável instrumentista também.

Vamos ouvir Ronaldinho do Cavaquinho e poderemos ter ideia do que foi a extraordinária interpretação de Waldir Azevedo. No início, Ronaldinho discorre sobre uma apresentação ao público jovem, dizendo que gosta muito do Funk, mas que a boa música – oriundas das nossas raízes, acabou por reencontrá-lo (então, é recomendável um pouco de paciência), mas depois… sai debaixo, é um show imperdível. Maravilhoso.

http://youtu.be/00OHOTxkhcQ

Também adorei o show do Sembatuta, no lançamento do seu CD Sembatuta Com Tempero, no Teatro Rival BR, Rio de Janeiro, em 17 de março de 2005. É certeza que Waldir também os influenciou muito e mesmo sem perceber, ele estava, ali, presente, no espírito e no coração de todos os componentes deste maravilhoso conjunto. Vale a pena ouvir.

http://youtu.be/8_n79TQTVZ8

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O ATAQUE DE NAPALM E AS CRIANÇAS VIETNAMITAS

Autoria de Lu Dias Carvalho  Mojica12345

Eu realmente quis escapar daquela menina. Eu queria escapar dessa imagem, mas parece que a foto não me deixou escapar. A maioria das pessoas conhece minha foto, mas sabe pouco sobre minha história. Fico agradecida por poder aceitar essa foto como um presente. Com ela, eu posso usá-la para a paz. (Khim Phuc)

Eu chorei quando a vi correndo. Se eu não a ajudasse e alguma coisa acontecesse que a levasse à morte, acho que me mataria depois. (Huynh Cong Ut)

O fotógrafo vietnamita Huynh Cong Ut é responsável por uma das fotos mais comoventes da história das guerras: Crianças Fugindo de um Ataque de Napalm. Em junho de 1972, Ut estava cobrindo a Guerra do Vietnã, quando o acaso fez com que ele testemunhasse aeronaves sul-vietnamitas fazendo um bombardeio de napalm. Crianças em pânico corriam pela estrada fugindo do local da atrocidade.

A imagem da garotinha de 9 anos, Kim Phuc, nua e com queimaduras espalhadas pelo corpinho, com os abraços abertos para não tocar o corpo, e uma máscara de dor no rosto, gritando “muito quente, muito quente”, transformou a fotografia num símbolo de horror à guerra, onde os inocentes tornam-se as principais vítimas. As crianças corriam em direção aos jornalistas estrangeiros, gritando. Ao chegar perto deles Kim desmaiou.  O jornalista Ut tomou-a nos braços, levando-a para um pequeno hospital, onde ouviu a garantia dos médicos de que tomariam conta dela. Kim foi depois transferida para uma unidade americana. Ficou no hospital durante 13 meses.

Um garotinho chorando no primeiro plano da imagem, irmão de Khim Phuc, é também outra imagem chocante da cena. Ao fundo, uma nuvem negra de fumaça torna a cena ainda mais impactante. Seis soldados sul-vietnamitas aparecem atrás das crianças e outro ao lado, aparentemente indiferentes à cena, possivelmente já entorpecidos pelos horrores da guerra.

O fotojornalismo foi responsável por algumas das fotos mais chocantes da história da humanidade, pois tinha como obrigação moral testemunhar e relatar os fatos, com a maior veracidade possível. Os fotógrafos punham-se na linha de frente, arriscando a própria vida.

O que se sabe hoje sobre a garotinha da foto? Kim Phuc é uma mulher de 50 anos, que administra uma fundação para ajudar crianças vitimadas pela guerra, e vive com o filho e o marido no Canadá. Vejamos o que ela diz:

 Eu fui queimada e me tornei uma vítima da guerra, mas crescendo, tornei-me outro tipo de vítima. Ouvi fortes explosões e o chão tremeu, minha mão e braços estavam queimados. Pensei: eu vou ficar feia, não serei mais normal. As pessoas vão me ver de um jeito diferente.

Eu não tinha ideia do que tinha acontecido comigo. Acordei no hospital com muita dor e com enfermeiras ao meu redor. Acordei com um medo terrível.

Toda manhã, às 8 horas, as enfermeiras me colocavam em uma banheira com água quente para cortar toda a minha pele morta. Eu só chorava e quando eu não aguentava mais, desmaiava.

O fotógrafo Huynh Cong Ut ganhou o Prêmio Pulitzer, mas ainda não tinha noção do poder e do alcance daquela imagem que captara.

Fontes de pesquisa:
Tudo sobre fotografia/ Editora Sextante
Portal Uol

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Mestres da Pintura – PAOLO UCCELLO

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Paolo di Dono (c.1397 – 1475) nasceu em Florença, Itália. O pintor tinha um grande amor pelos animais e adorava pintá-los, mantendo em sua casa um grande número de pinturas de todas as espécies de bichos, principalmente de aves. Por isso, foi apelidado de Paolo Uccelli (Paulo dos Pássaros).

Desde criança Uccello mostrou a sua inclinação para a pintura, começando sua carreira como aluno do escultor florentino Lorenzo Ghiberti, responsável por projetar as portas de bronze do Batistério da Catedral de Florença. A oficina de Ghiberti era o centro principal para a arte florentina da época.

Muito pouco se conhece sobre o início da carreira de Uccello. Trabalhou como mosaicista em Veneza e produziu em Florença os afrescos da Criação para a igreja de Santa Maria Novella. Foi um dos responsáveis pelo Pré-Renascimento italiano.

Uccello tornou-se fascinado pela perspectiva, influenciado pela obra do escultor Donatello, com quem travou grande amizade, sendo reconhecido como um dos pioneiros nessa técnica que cria a ilusão de profundidade e que contribuiu para transformar a arte. Chegou a ser criticado por dedicar excessivamente às teorias da perspectiva em detrimento da arte, pois passava noites em claro, tentando compreender o ponto de fuga. Ele não se preocupava com a história temática de sua obra, o que buscava nela era a sensação de profundidade.

Embora tenha morrido  pobre e quase desconhecido, nos dias de hoje Paolo Uccello é visto como o maior mestre da perspectiva de sua geração e pela impressão de relevo que deu à pintura, sendo um dos mais importantes precursores do Renascimento florentino, fazendo parte da fase do Quattrocento do Renascimento. A perspectiva aplicada em suas pinturas influenciou pintores famosos, como Piero della Francesca, Albrecht Dürer e Leonardo da Vinci, dentre outros. Seus trabalhos mais conhecidos são as três pinturas representando a batalha de San Romano.

Curiosidade:
Ponto de fuga (cuja abreviatura é PF) em geometria, é o ponto de convergência das linhas que descrevem a profundidade dos objetos; é a direção para onde o objeto segue; se aprofunda.

Nota: Autorretrato do pintor

Fontes de pesquisa:
A história da arte/ E.H. Gombrich
501 grandes artistas/ Sextante
1000 e uma obras-primas…/ Konemann

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Vidas Secas – EU SOU UM BICHO! (6)

Autoria Lu Dias Carvalho

cap baleia (*)

Eu sou um velho bicho da caatinga,
esquecido pelo resto deste mundaréu.
Sou bicho tentando vencer dificuldades,
enquanto da seca me faço réu.

A vida nunca me ofereceu algo a mais.
Entoquei-me na vivência como um bicho.
Labuto distanciado dos outros homens,
e só me dou bem com os animais.

Meus pés feios só esmigalham espinhos,
não sentem mais o abrasamento da terra.
São patas de bichos da caatinga, nesta
agonia em que meu espírito erra.

Montado, agarro-me com o meu cavalo,
grudando-me nele como um carrapato.
Somos dois bichos enfrentando a seca,
sem rumo, sem dengo ou afeto.

Meu linguajar é monossilábico e gutural,
mas meu cavalo o entende muito bem.
Na conversa coas gentes sou um bruto,
uso o mesmo falar com os animais.

Sou de pouca conversa, mas aprecio as
palavras dificultosas dos grandes, meu,
Até copio algumas delas, em vão; elas
são inúteis pra um tabaréu como eu.

Dou-me muito bem com a ignorância.
Se aprendesse algo, queria saber mais.
Nunca ficaria jubiloso com pouco. Mas
nasci bicho, homem sem sabença.

O atilamento suscita respeito, mas, se
a desgraça  faz montaria nas costas,
todos se estrepam no mal. E aí não há
um lugar pra fugir, pois tudo é igual.

Eu sou matuto, um bicho de verdade.
Vivo escondido no mato como um tatu.
Sou como os bichos daquela caatinga,
não sairei da toca, eu sei, jamais.

Nunca andarei de cabeça levantada.
Sou como uma rês na fazenda alheia.
Serei sempre mandado pelos graúdos;
serei bicho, como foram meus pais.

(*) Capa de Floriano Teixeira, para edição brasileira, sem data, Ed. Record

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Raízes da MPB – CARTOLA

Autoria de Lu Dias Carvalho cartola

Dentre as dezenas de sambistas com obra de qualidade superior, Cartola ocupa uma posição singular. Suas músicas e letras têm uma “marca d’água” que as torna facilmente identificáveis mesmo por quem desconhece sua autoria. (Sérgio de Oliveira, jornalista, diretor de uma editora de revistas de negócios)

Cartola não tem sucessor, ele que me perdoe lá em cima. Seu trabalho é único. (Paulinho da Viola, tido como sucessor de Cartola)

A fama chegou até sua porta sem ser procurada. O discreto Cartola recebeu-a com cortesia. (Carlos Drummond)

O compositor e cantor Agenor de Oliveira nasceu em 1908, na cidade do Rio de Janeiro/RJ. Castro Alves, Gonçalves Dias, Olavo Bilac e Guerra Junqueira supriram a sua pouca educação formal. Só havia feito o primário.

Até os 11 anos de idade, o garoto Cartola levava uma vida normal, sempre protegido pelo avô, até a morte dele. Sua família grande, composta pelo pai, mãe e seis filhos, foi obrigada a se mudar para a favela do Morro da Mangueira, onde existiam cerca de 50 barracos que davam início a uma nova favela. Com a vinda de mais três irmãos, foi obrigado pelo pai a trabalhar, uma vez que era o filho mais velho. Tudo que ganhava era entregue ao genitor, o que o revoltava. Cartola não ficava por muito tempo num mesmo trabalho. Passou também a se enturmar com as bocas e os malandros do morro, levado por Carlos Cachaça, seis anos mais velho do que ele, e que se tornou o seu primeiro amigo no morro e, posteriormente, parceiro de sua vida inteira.

O apelido de Cartola veio com o seu trabalho de servente de pedreiro, quando passou a usar um chapéu coco, para proteger sua cabeça do pó de cimento. O fato é que o novo pedreiro passou a usar o chapéu também fora do serviço, nascendo daí o apelido que o acompanhou pelo resto da vida.

Quando tinha 17 anos, Cartola perdeu sua mãe em consequência de um parto. Eclampsia. O médico chamado queria primeiro saber se a família tinha dinheiro para pagar a consulta. Quando chegou com a assistência, a mulher já estava morta. Mesmo assim, o tal médico ainda tentou receber o pagamento. À tragédia vivida pela morte da mãe ajuntou-se a expulsão de casa pelo pai, que não aceitava sua malandragem e a falta de empenho para permanecer nos empregos que arranjava. Assim, Cartola viu-se sem casa e sem família.

O garoto vagava pelo morro, sem paradeiro certo, e passava muitas noites nos trens de subúrbio, indo e voltando, aproveitando para dormir. Acabou encontrando a zona de meretrício, onde fazia e ganhava favores. Ali, também foi acometido por inúmeras doenças venéreas. Sua condição era tão sofrida que, vivendo faminto e doente num barraco emprestado pela Mangueira, ganhou a atenção de uma vizinha. Deolinda, 25 anos, teve pena do rapaz e passou a tratá-lo como se fosse um filho. Mas a coisa não ficou só nisso. Garoto e mulher passaram a ter uma relação mais íntima. O marido abandonou Deolinda, a filha e o sogro. De modo que, aos 18 anos, Cartola já chefiava uma família. E, para ampliar a família, vieram mais tarde morar com eles: uma tia de Deolinda, um primo, um irmão, um amigo de Cartola e uma moça que não tinha onde viver. Deolinda sustentava a casa lavando roupa, pois, seu atual companheiro preferia tomar umas biritas, tocar violão e fazer sambas, embora trabalhasse esporadicamente como pedreiro. E, como o mundo dá voltas, Cartola ainda acolheu o ex-marido de Deolinda, Astolfo, tuberculoso e sem ninguém.

Cartola e seus amigos planejaram criar um “bloco” para alegrar o Morro da Mangueira e os morros vizinhos. O Bloco dos Arengueiros tinha samba no pé. A partir daí, ele e sete amigos fundaram uma escola de samba, a fantástica Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, com o objetivo de reunir todos os blocos do morro. Cartola era o diretor de harmonia e, com diversos parceiros, criava os sambas cantados pela Mangueira nos desfiles. Seu samba passou a ser olhado com simpatia por cantores famosos como Mário Reis que comprou um deles: Infeliz Sorte. Sendo que, entre 1932 e 1933, teve sete sambas gravados pelos cantores mais importantes da época.

Cartola tornou-se amigo do compositor Noel Rosa que almoçava na sua casa, jantava e dormia, muitas vezes. Também se tornou admirado por Heitor Villa Lobos que o ajudou a participar de shows e de um filme. Mas em 1946, foi vitimado pela meningite que quase o levou. A penicilina e os cuidados de Deolinda ergueram-no. Ao se recuperar compôs um de seus clássicos: Grande Deus

Deus, grande Deus/ Meu destino, bem sei, foi traçado pelos dedos teus/ Grande Deus, de joelhos eu aqui voltei para ti implorar/ Perdoai-me, sei que errei um dia(…)/ Julguei, Senhor, daquele sonho jamais despertaria/ Se errei, perdoai-me pelo amor de Maria.

Depois de sua mãe, Deolinda foi a sua grande perda. Morreu em casa, vítima de uma doença cardíaca, deixando Cartola sozinho, rejeitado pela escola de samba que ajudara a criar. Magoado, ele deixou o morro, parou de tocar e compor por um período de seis anos. Muitos supunham que ele estivesse morto. Quando Carlos Cachaça, seu velho amigo, encontrou-o, estava embelecado com certa Donária, vivendo como lavador de carros e vigia de prédios, mas o amigo tirou-o da encrenca. À época, Cartola estava sem dentes, magérrimo, consumindo 2 litros de cachaça por dia e fumando muito. E foi desse jeito que Zita, irmã de Menina, mulher do amigo Carlos Cachaça, aceitou-o, fazendo-o retornar à vida.

Cartola voltou a morar no morro da Mangueira, a contatar os velhos amigos que já o julgavam morto. Ao encontrar Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta), foi abordado pelo colunista que falou sobre ele em sua coluna, levando-o para trabalhar na Rádio Mayrink Veiga. Vários admiradores do artista, inclusive políticos, passaram a ajudá-lo, embora ainda não tivesse conseguido se livrar da cachaça totalmente.

Cartola e Zita abriram um restaurante, O Zicartola, onde se reuniam sambistas do morro e a juventude da zona sul carioca. Mas, como não era um bom administrador, o restaurante acabou fechando as portas, mas Cartola continuou compondo sambas, sendo considerado por muitos músicos e críticos como o maior compositor de samba da história da música brasileira.

Cartola já tinha 40 músicas gravadas e pequenas participações em discos coletivos, mas nunca gravara um disco seu. Os executivos das gravadoras alegavam que ele já estava velho. Foi João Carlos Botezzeli, o Pelão, quem conseguiu que ele gravasse seu primeiro LP, que ganhou inúmeros prêmios e foi unanimidade na crítica elogiosa. Reconhecido seu talento musical, Cartola, que foi pedreiro, tipógrafo, lavador de carro, funcionário público e dono de bar, passou a se disputado por gravadoras, vindo a ser contratado pela poderosa RCA-Victor, excursionando pelo país através do Projeto Pixinguinha.

Apesar do sucesso artístico, financeiro e do reconhecimento nacional, o estado de saúde de Cartola era precário. Havia fumado e bebido demais. Foi diagnosticado com um câncer na tireoide, operou, mas não levou a sério o tratamento. Teve um derrame cerebral. O câncer voltou e foi feita nova cirurgia. Cartola veio a falecer em 1980, aos 72 anos de idade. Morreu sem deixar filhos.

Frustação de Cartola

Era sonho seu que Roberto Carlos gravasse uma de suas composições. A sugerida era “As Rosas Não Falam”, mas Roberto recusou gravá-la sob a alegação irônica de que na sua cobertura na Urca, tanto as rosas quanto os outros vegetais mantinham diálogos diários com ele. Hoje, “As Rosa Não Falam” é uma das músicas mais conhecidas e admiradas de Cartola, ao lado de “O Mundo é um Moinho”.

Nota: Ouçam, clicando no link abaixo, As Rosas Não Falam.
http://www.youtube.com/watch?v=te2HfDsXcXs

Fontes de perquisa:
Raizes da Música Popular Brasileira/Coleção Folha de São Paulo
Wikipédia

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JOSÉ MOJICA MARINS

Autoria de Lu Dias Carvalho

Mojica                        Diretor de À Meia-noite Levarei Sua Alma e Despertar da Besta

Vi que em todo filme de terror, a mulherada jogava-se nos braços dos homens. E isso me animou a fazer filme de terror. (José Mojica Marins)

Eu aprendi a fazer cinema, fazendo. O que fiz foi explorar nossas superstições. (José Mojica Marins)

Quem nunca ouviu falar de À Meia-Noite Levarei Sua Alma ou Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver ou ainda do Despertar da Besta?

O paulistano José Mojica Marins é um dos gênios da sétima arte nacional, onde exerce várias funções: cineasta, ator, roteirista e diretor, assim como foram seus colegas de profissão, Oscarito e Mazzaropi, em tempos idos. É respeitado tanto no Brasil quanto no exterior, recebendo de diversos países convites como palestrante e homenagens.

O nosso Zé do Caixão já nasceu no meio artístico, como se aquilo fosse o prenúncio de sua carreira. Seus pais eram artistas circenses, sendo o pai toureiro e a mãe dançarina de tango. Quando tinha 3 anos de idade, seu pai tornou-se gerente de cinema e levou a família para morar no fundo de um. O pequeno José Mojica Marins ficava maravilhado, ao assistir aos filmes na sala de projeção. Também brincava de teatro de bonecos e montava peças feitas de papelão e tecido.

Aos 8 anos de idade, o menino Mojica preferiu uma câmara de 16 milímetros a uma bicicleta, o que já delineava a sua opção pela carreira cinematográfica. Sua primeira fita baseou-se nos quadrinhos, tinha fascinação pelo Mandrake, criando A Mágica do Macho.

Embora tenha trabalhado com os mais diferentes gêneros: drama, faroeste, aventura e pornochanchada (que fazia por dinheiro, mas não gostava), José Mojica Marins tornou-se conhecido como diretor de filmes de terror. É tido como um dos inspiradores do movimento marginal do cinema, ao fazer seus filmes à margem dos estúdios de filmagens, despertando para o movimento outros artistas. Como diz ele, “era tudo na base da criatividade”. E, como dizia Glauber Rocha, “era uma ideia na cabeça e uma máquina na mão”. Se lhe davam um roteiro, Mojica lia-o apenas uma vez e ia fazendo o que achava legal, sem nenhum compromisso com o que se encontrava escrito.

Segundo Mojica, o cinema brasileiro regrediu de lá para cá, excetuando alguns poucos trabalhos como Cidade de Deus, Independência ou Morte, Guarani, Iracema, películas que têm a ver com o país. Diz não entender porque não se explorava naquela época o que era nosso, num país cheio de vida.

O cineasta José Mojica Marins foi o primeiro a fazer Cinemascope (certa tecnologia de filmagem e projeção) e a fazer 10 minutos de desenho animado em Meu Destino em Tuas Mãos. Começou a fazer filmes de terror em 1960, fora dos estúdios, dando início ao cinema independente. Seu primeiro filme em Cinemascope foi A Sina do Aventureiro. A princípio, chegou a ser esnobado pelos críticos do cinema nacional, mas, quando seus filmes começaram a ser tidos como cult no circuito internacional, passou a ser visto com outros olhos.

Mojica atribui à ditadura o fato de não ter se tornado riquíssimo com o filme O Despertar da Besta, o seu preferido, que ficou 20 anos detido pela censura dos anos de chumbo. Ele afirma que a arte é o seu mundo, o seu objetivo maior de viver. Trabalha atualmente com cinema, televisão e histórias em quadrinhos. Aos 67 anos de idade, continua vivendo de arte: shows, reprises de seus filmes, festivais de cinema, etc. Será homenageado neste mês, num festival de Cinema no Texas.

O cineasta polivalente diz ter horror ao plágio. Sua criatividade diz respeito às coisas de seu país com muito orgulho: superstições, centro espíritas, macumbas, etc. É isso que tem a ver com ele, como explica. Quando novo, recebeu inúmeros convites para trabalhar nos EUA, França, Inglaterra e outros países. Arrepende-se por não ter aceitado os convites. Hoje, transformou-se num ícone do cinema nacional. É cult.

Há uma grande curiosidade acerca do apelido de Zé do Caixão, personagem popular criado por José Mojica Marins. Ele conta que nasceu de um pesadelo. O personagem Zé do Caixão estreou no filme À Meia-noite Levarei Sua Alma, ganhou popularidade e passou a estar presente em vários filmes do cineasta. Sua explicação:

Certa noite, ao chegar em casa bem cansado, fui jantar. Em seguida, estava meio sonolento, entre dormindo e acordado, e foi aí que tudo aconteceu: vi num sonho um vulto me arrastando para um cemitério. Logo, ele me deixou em frente a uma lápide, lá havia duas datas, a do meu nascimento e a da minha morte. As pessoas em casa ficaram bastante assustadas, chamaram até um pai de santo por achar que eu estava com o diabo no corpo. Acordei aos berros, e naquele momento decidi que faria um filme diferente de tudo que já havia realizado. Estava nascendo naquele momento o personagem que se tornaria uma lenda: Zé do Caixão. O personagem começava a tomar forma na minha mente e na minha vida. O cemitério me deu o nome; completavam a indumentária do Zé a capa preta da macumba e a cartola, que era o símbolo de uma marca de cigarros clássicos. Ele seria um agente funerário.

Completa este ano 50 anos de Zé do Caixão. Outra curiosidade é que ele é dublado em muitos de seus filmes, em razão dos problemas apresentados pelo cinema nacional na época.

Sua obra:
33 longas-metragens
4 médias-metragens
20 (cerca de) curtas-metragens

Maldito – nome do livro escrito pelo jornalista André Barcinski baseado na vida de José Mojica Marins.

Projeto: fazer uma série para a televisão e cinema, baseando-se no livro Maldito.

Televisão: possui um programa de terror no Canal Brasil chamado O Estranho Mundo de Zé do Caixão.

Explicação de Mojica para o sucesso do filme A Sina do Aventureiro:

Para fazer sucesso, eu usei um estratagema, porque já era difícil você entrar uma semana, e ficar três semanas em cartaz num cinema era mais difícil ainda. O que eu fiz? Eu pegava os meus alunos, numa época em que os cinemas tinham fila, e dividia um grupo de alunos numa fila, outro grupo em outra e mais outra. Todos eram atores, né? Então ficavam todos no meio da fila e diziam: “Pô, a gente perdendo tempo nessa fila, e passando uma fita tão boa no Cine Coral!”. Com isso, eles saíam de lá e levavam o pessoal da fila. E ia todo mundo para o Cine Coral. A fita foi muito bem nas capitais. Estourou em Salvador, em Porto Alegre. Porque ela tem uma miscelânea de Nordeste, de roupa nordestina com roupa gaúcha, com roupa americana. Eu misturo tudo, tem uma miscelânea. No final, tem uma curiosidade: a fita realmente agradou, só não agradou aos padres. Aí eu tive uma desavença com os padres que me acompanharia a vida toda.

Fontes de pesquisa:
Vox Objetiva
Canal Brasil
Wikipédia

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