Caravaggio – SANTA CATARINA DE ALEXANDRIA

Autoria de Lu Dias Carvalho

santa catarina

Esta tela foi encomendada a Caravaggio pelo cardeal Del Monte. E com ela o pintor inaugura o estilo chamado de tenebrismo, quando começa a potencializar os tons escuros. A personagem domina quase toda a composição, sendo que os objetos presentes possuem um peso menor e são todos alusivos a ela, o que reforça a sua presença.

Para fazer Santa Catarina de Alexandria, Caravaggio tomou como modelo a bela cortesã Fillide Melandroni, à época uma das mulheres mais populares de Roma, que frequentava ambientes ricos sendo muito requisitada. O talento do pintor aliado à personalidade da modelo conferiu à santa um ar de modernidade e vigor.

Santa Catarina é frequentemente representada na arte, especialmente no final da Idade Média. Aqui, ela não se apresenta como uma mulher madura, mas como uma jovenzinha doce e calma. Está ricamente vestida, com tecidos de veludo e damasco bordados, de acordo com sua posição de princesa, de joelhos sobre uma almofada vermelha, cuja tom é ressaltado pelos tons roxos e azuis das vestes da santa. Sobre a almofada também se encontra uma folha seca de palmeira.

A roda de madeira, equipada com lâminas cortantes e ferros pontiagudos, onde Santa Catarina encontra-se apoiada, assim como os pregos e a espada, são os instrumentos usados no seu martírio, e contrastam com a suntuosidade de suas vestes.

De uma maneira irreal, um facho de luz coloca em destaque a cena, tornando brilhante a pele e a blusa de Santa Catarina, incusive deixando luzes salpicadas em sua indumentária. Brilhantes também são a espada e os pregos na parte superior da roda, como se a a tocha de luz estivesse vindo da direita. No entanto, ali está uma imensa escuridão, sem nenhum filete de luz.

A santa tem os cabelos dourados, jogados para trás e, acima da cabeça encontra-se o halo que simboliza a sua santidade. Seu rosto dirige-se ao observador, com um olhar interrogativo. Tem entre as mãos delgadas a espada (símbolo de seu martírio), cujo metal cintila sob a luz. Ela se encontra bela e solene.

Curiosidades:

1.Tenebrismo foi uma tendência pictórica nascida no Barroco que se perpetuou até o Romantismo. Seu nome deriva de tenebra (treva, em latim), e é uma radicalização do princípio do “chiaroscuro”. Teve precedentes na Renascença e se desenvolveu com maior força a partir da obra do italiano Michelangelo Merisi, o Caravaggio, sendo praticada também por outros artistas da Espanha, Países Baixos e França. Como corrente estilística teve curta duração, mas em termos de técnica representou uma importante conquista, que foi incorporada à história da pintura ocidental. Por vezes, o Tenebrismo é usado como sinônimo de Caravaggismo, mas não são coisas idênticas.

Os intensos contrastes de luz e sombra emprestam um aspecto monumental aos personagens e, embora exagerada, é uma iluminação que aumenta a sensação de realismo, tornando mais evidentes as expressões faciais, a musculatura adquire valores escultóricos, e se enfatizam o primeiro plano e o movimento. Ao mesmo tempo, a presença de grandes áreas enegrecidas dá mais importância à pesquisa cromática e ao espaço iluminado como elementos de composição com valor próprio.

Na França Georges de La Tour foi um dos adeptos da técnica; na Itália, Battistello Caracciolo, Giovanni Baglione e Mattia Preti, e na Holanda, Rembrandt van Rijn. Mas, talvez, os mais típicos representantes sejam os espanhóis José de Ribera, Francisco Ribalta e Francisco de Zurbarán.
2. Alguns textos escritos entre os séculos VI e X , que se reportam aos acontecimentos do ano 305, tornaram pública a empolgante figura feminina de Catarina, descrita como uma jovem de dezoito anos, cristã, de rara beleza, filha do rei Costus, de Alexandria. Muito culta, dispunha de vastos conhecimentos teológicos e humanísticos. Discutia filosofia, política e religião com os grandes mestres, o que não era nada comum a uma mulher e jovem naquela época. Era respeitada pelos súditos da Corte que seria sua por direito. Entretanto, esses eram tempos duros, pois governava o imperador romano Maximino, terrível perseguidor e exterminador de cristãos. Segundo os relatos, a história do martírio da bela cristã teve início com a sua recusa ao trono de imperatriz. Maximino apaixonou-se por ela, e precisava tirá-la da liderança que exercia na expansão do cristianismo. Ofereceu-lhe poder e riqueza materiais e estava disposto a divorciar-se para se casar com ela, contanto que passasse a adorar os deuses egípcios.

Catarina recusou enfaticamente a proposta do imperador, ao mesmo tempo em que tentou convertê-lo, desmistificando os deuses pagãos. Sem conseguir discutir com a moça, o imperador chamou os sábios do reino para auxiliá-lo. Eles tentaram defender suas seitas com saídas teóricas e filosóficas, mas acabaram convertidos por Catarina. Irado, Maximino condenou todos ao suplício e à morte. Exceto ela, para quem tinha preparado algo especial.

O imperador mandou torturar Catarina com rodas equipadas com lâminas cortantes e ferros pontiagudos. Com os olhos elevados ao Senhor, ela rezou e fez o sinal da cruz. Então, ocorreu o prodígio: o aparelho desmontou. O imperador, transtornado, levou-a para fora da cidade e comandou pessoalmente a sua tortura, depois mandou decapitá-la. Ela morreu, mas outro milagre aconteceu. O corpo da mártir foi levado pelos anjos para o alto do monte Sinai. Isso aconteceu em 25 de novembro de 305.

Contam-se aos milhares as graças e os milagres acontecidos naquele local por intercessão de santa Catarina de Alexandria. Passados três séculos, Justiniano, imperador de Bizâncio, mandou construir o Mosteiro de Santa Catarina e a igreja onde estaria sua sepultura no monte Sinai. Mas somente no século VIII conseguiram localizar o seu túmulo, difundindo ainda mais o culto entre os fiéis do Oriente e do Ocidente, que a celebram no dia de sua morte. (Irmãs Paulinas)

Ficha técnica:
Ano: 1597
Material: óleo sobre tela
Dimensões: 173 x133 cm
Localização: Museu Thussen-Bornemisza, Madri, Espanha

Fontes de Pesquisa:
Grandes mestres da pintura/ Coleção Folha
Grandes mestres/ Abril Coleções
Wikipédia

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Caravaggio – O PEQUENO BACO DOENTE

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Baco, o deus do vinho, é aqui representado por Caravaggio, quando ele relutava em trabalhar com temas religiosos. O artista se autorretratou em o Pequeno Baco Doente, deixando aparente a debilidade do período em que se encontrava internado no hospital.

O pintor foi muito audaz para a sua época, ao afrontar as rígidas convenções a que estava atrelada a arte, mostrando um Baco de rosto pálido e corpo extremamente débil. Inteligentemente ele antecipou o olhar fotográfico. Nesta e em outras telas, ele se pintou olhando no espelho a sua imagem refletida, captando os instantes dramáticos mais perturbantes, sendo totalmente fiel ao que via.

Ficha técnica
Obra: O Pequeno Baco Doente
Ano: cerca de 1593/1594
Dimensões: 67 x 53 cm
Localização: Galleria Borghese, Roma

Fontes de pesquisa:
Grandes mestres da pintura/ Coleção Folha
Grandes mestres/ Abril Coleções
1000 obras-primas da pintura europeia/ Köneman

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Filme – AS AVENTURAS DE PI

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Eu nasci e fui criado em um dos lugares mais belos do mundo. Era um tempo cheio de maravilhas que eu sempre lembrarei. Mas, quando a minha família resolveu transferir o zoológico para o outro lado do mundo, foi quando a minha maior jornada começou. (Pi Patel)

Tanto a zebra quanto o orangotango quebraram a perna. E a hiena matou a zebra e o orangotango. Então a hiena é o conzinheiro, a zebra é o marinheiro e o orangotango é a sua mãe. E você é o tigre. (Narrador)

A história do senhor Patel é um relato surpreendente de coragem e resistência sem paralelo na história da navegação. Muitos poucos conseguiram sobreviver por tanto tempo no mar. E nenhum deles na companhia de um tigre adulto de bengala. (Narador)

O filme estadunidense As Aventuras de Pi (Life of Pi), 2012, do diretor Ang Lee, taiwanês radicado nos Estados Unidos, foi sem dúvida uma das estrelas do Oscar 2013. Para quem não se lembra desse sensível cineasta, que transita com sensibilidade por variados gêneros, estilos e temas, basta se lembrar de O Segredo de Brokeback Mountain (2005) que lhe deu o primeiro Oscar de Melhor Diretor. Dirigiu também, entre outros, o belíssimo Razão e Sensibilidade e O Tigre e o Dragão, esse último bem no estilo asiático. As Aventuras de Pi trouxe-lhe o segundo Oscar de Melhor Diretor.

As Aventuras de Pi tem como base o romance do escritor canadense Yann Martel, de nome idêntico, escrito em 2001, que por sua vez baseou-se no livro Max e os Felinos, do escritor gaúcho, Moacyr Scliar, o que causou uma grande polêmica, pois não houve o consentimento do escritor brasileiro e tampouco foi feita qualquer menção a ele.

O filme As Aventuras de Pi chegou a receber onze indicações ao Oscar: Melhor Diretor, Melhor Trilha Sonora, Melhor Fotografia, Melhores Efeitos Visuais, Melhor Filme,  Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Edição, Melhor Edição de Som, Melhor Mixagem de Som, Melhor Trilha Sonora e Melhor Canção Original, levando os quatro primeiros prêmios aqui citados.

A família do adolescente Pi Patel (Suraj Sharma), composta por ele, o pai, a mãe e um irmão, vivia tranquilamente na cidade indiana de Pondicherry, com seu zoológico. Após anos de trabalho, a prefeitura local retira o incentivo dado ao zoológico, obrigando-a a embarcar para o Canadá, levando junto os animais. No novo país, o pai de Pi pretende vender os animais e ali permanecer. Mas como a vida é cheia de imprevistos, durante a travessia para o novo país, o cargueiro japonês naufraga durante uma tempestade, perecendo toda a família, excetuando Pi, um tigre-de-bengala, uma zebra, um orangotango e uma hiena, sendo obrigados a dividir o mesmo bote salva-vida. Entretanto, pela ordem natural da vida na selva, os animais mais fracos vão sendo mortos, até que resta apenas o mais forte: o tigre-de-bengala, chamado de Richard Parker, em razão de um descuido no preenchimento de um formulário na alfândega indiana.

Ao ficar sozinho no bote com Richard Parker, Pi tem certeza de que sua vida corre perigo a todo instante, embora afirme ver alma nos olhos do felino. A única coisa que pode ajudá-lo, numa luta tão desigual, é o seu instinto de sobrevivência, o mesmo que também detém a fera. Vencerá o mais aguerrido. Pi e o tigre vagam pela imensidão do Oceano Pacífico durante 277 dias. O garoto tenta conviver da melhor forma possível com seu companheiro de desventura, procurando respeitar seu território dentro do bote, sem jamais menosprezar sua presença.

Não havia como As Aventuras de Pi não açambarcar o Oscar de Melhores Efeitos Visuais, pois as imagens do filme, rodadas em 3D, são belíssimas, onde coexistem realidade e fantasia, emolduradas pela vastidão do mar e do céu, que tornam o drama do jovem Pi ainda mais pungente, exaltando a pequenez humana diante da eminência do perigo, num vasto e insondável universo. É o encontro direto do homem com a natureza e consigo mesmo.

O diretor Ang Lee funde com maestria a computação gráfica com cenas reais, hipnotizando o espectador, que impregnado de emoção, muitas vezes não percebe onde começa a realidade e onde termina a fantasia. E por falar em computação gráfica, o que foi feito para impedir que o feroz Richard Parker desse fim, não à vida de Pi que é fictícia, mas à do ator Suraj Sharma? Foi feito um tigre em computador, imitando o felino real nos mínimos detalhes. Assim sendo, o ator só precisou mesmo representar, coisa que fez muito bem, vivendo os mais díspares sentimentos e repassando-os aos espectadores. Ele é responsável por tornar o filme convincente e nos levar para dentro da aventura e dela tirarmos muitos questionamentos e encontrarmos algumas respostas. Está de parabéns o jovem ator, nesse seu primeiro trabalho.

As Aventuras de Pi traz-nos certas indagações sobre a vida. Por que apesar de ter perdido a sua família e todos os seus pontos de referência com o mundo, Pi continuou lutando para sobreviver? Que ímã possui a vida a ponto de nos fazer transpor os mais árduos obstáculos para nos mantermos vivos? Por que o instinto de sobrevivência forma um escudo protetor em torno de nós, quando fora dele não enxergamos mais a esperança de dias melhores? Que crenças brotam de dentro de nós nos momentos em que a desesperança avoluma-se e por pouco não nos engole? Por que e a troco de que continuamos vivos quando o mundo não mais nos encanta? A própria sobrevivência é capaz de superar as perdas dolorosamente sofridas? Por que continuar quando todos os caminhos mostram-se obstruídos? Por que teimamos em resistir, apesar de tudo?

As Aventuras de Pi talvez queira nos mostrar que só nos tornamos realmente humanos quando nos deparamos com as dificuldades. E, se delas soubermos tirar lições, poderemos atingir o patamar de divinos. Portanto, benditos sejam todos os nossos desafios, nossos medos, nossas dúvidas, as ameaças sofridas e todas as nossas lutas, por mais árduas que sejam, ainda que percamos algumas e vençamos outras.

Parabéns ao grande cineasta Ang Lee que, com extrema sensibilidade, presenteia os cinéfilos com uma das mais emocionantes realizações da sétima arte em 2012. O filme merece ser visto e revisto.

Curiosidade:

Para criar o tigre, a equipe de efeitos digitais Rhythm & Hues modelou um animal digital como se fosse um experimento biológico:

  • construiu-o a partir do esqueleto;
  • colocou os músculos sobre os ossos, seguindo a anatomia real dos tigres;
  • prendeu a pele aos músculos;
  • e, por último, acrescentou a pelagem.

Fontes de pesquisa:
Revista Veja/ 12 de dezembro de 2012
Wikipédia
O próprio filme

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Caravaggio – CABEÇA DE MEDUSA

Autoria de Lu Dias Carvalho

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É esta Medusa, a de cabelos venenosos/ com milhares de serpentes?/ Assim é; não vês talvez como move os olhos/ como os põe na mira?/ Foge, foge de sua cólera, foge de seu desdém/ pois se te atinge seu olhar,/ converter-te-á em pedra também. (Gaspare Murtola)

 Conta a lenda que Medusa, uma das três irmãs Górgonas (as outras duas eram: Esteno e Euríale), petrificava com o olhar todo aquele que olhasse para ela, mas o herói Perseu usou um artifício para enganá-la. Assim que se aproximou do monstro, usou o seu escudo como espelho. Medusa, ao ver seu rosto refletido no escudo, ficou transtornada diante de tamanha aberração, lançando um grito dilacerante. Uma vez hipnotizada, Perseu cortou-lhe a cabeça com a espada de um só golpe, mas ela ainda continuou consciente. A seguir, o herói tomou a cabeça da besta mitológica e  colou-a num escudo como arma, pois seu olhar serviria para transformar os inimigos em pedra.

Cabeça de Medusa ou simplesmente Medusa é uma das obras-primas do pintor italiano Caravaggio que tomou como modelo seu amigo Mario Minniti — embora digam alguns que se trata do próprio rosto do pintor — para pintar a Górgona vertendo sangue abundantemente, logo após ter a cabeça decepada por Perseu (ou Perseus), um semideus da mitologia grega, conhecido por ser fundador da mítica cidade-estado de Micenas, segundo reza o mito grego.

O retrato de Medusa era muito usado nas armaduras e nos escudos dos guerreiros dos séculos XVI e XVII, pois na mitologia grega é tida como a deusa da estratégia e da guerra justa e também da sabedoria, de modo que esta obra nasceu como um escudo de desfile. O cardeal Francesco Maria del Monte, protetor de Caravaggio, presenteou Fernando I de Medici com a obra, provavelmente para a sua coleção de armas que foi mostrada pela primeira vez em 1598, causando grande impacto nos que a viram, sendo, inclusive, comentada em versos (ver acima em negrito).

Caravaggio, inteligentemente,  repassa ao observador a ilusão de que a cabeça de Medusa deixa a tela para se projetar no espaço real em que o observador encontra-se, de modo que o escudo convexo ilusoriamente transforma-se em côncavo. Tem-se a impressão de que a tela é feita em 3D. Embora o retrato da Górgona seja de origem clássica, Caravaggio recria uma nova Medusa, extremamente realista, cuja força de expressão continua impressionando quem a observa, pois sua cabeça decepada parece ganhar vida própria, com suas serpentes contorcionistas.

 É provável que, para pintar a Medusa com sua expressão aterradora, o pintor italiano tenha se inspirado na expressão agonizante e aterrorizada daqueles que eram executados: olhos esbugalhados que parecem saltar das órbitas; boca ovalada, aberta e paralisada, como se soltasse um longo grito de terror; língua e dentes aparentes; testa franzida; maçãs do rosto recuadas e o sangue vivo sendo vertido abundantemente.

O que mais chama a atenção na obra Cabeça da Medusa é seu realismo: os olhos saltando da órbita, os dentes cortantes à mostra, a boca aberta e imóvel, soltando um grito silencioso e o sangue vivo jorrando de sua cabeça, não deixando qualquer dúvida sobre o mito da mulher de cabeleira de serpentes que transformava homens em pedra, só pelo olhar, mas que foi derrotada por Perseu, ao mirar o escudo espelhado e ser vítima de sua própria arma letal.

A dramaticidade encontrada nas obras de Caravaggio dá-se pelo uso da técnica do chiaroscuro em que o pintor trabalha com os contrastes de luzes e sombras, gerando um resultado bastante peculiar. Ele pintou pelo menos três telas famosas que exibem cenas de decapitação, como Judite e Holoferne, Salomé com a Cabeça de São João Batista e Davi com a Cabeça de Golias (todas presentes neste blogue). Mas foi Medusa a obra responsável por ferir a sensibilidade de muitos críticos de arte da época, sendo considerada a criação mais sangrenta do pintor.

 Curiosidades:

  • Medusa era — segundo a mitologia grega — uma das três górgonas, irmãs monstruosas filhas de dois deuses marinhos — Fórcis e Ceto. Além de horrível, ela ainda possuía o poder de petrificar as pessoas com seu olhar.  Perseu cortou sua cabeça, de cujo sangue nasceu Pégaso — o cavalo alado. O herói também usou a cabeça da Medusa para salvar Andrômeda.
  •  Na Antiguidade clássica, a imagem da cabeça da Medusa aparecia no Gorgoneion — objeto utilizado para afugentar o mal.
  •  Caravaggio pintou duas versões da cabeça da Medusa. A primeira em 1596 e a segunda presumivelmente em 1597/15988. A primeira versão é também conhecida como Murtula, devido ao poeta que escreveu sobre ela. Foi encontrada no estúdio do pintor somente depois de sua morte.
  •  Na Galleria degli Uffizi, Medusa está entre as 25 obras mais importantes do palácio, onde se encontram, entre outras, a Vênus de Botticelli.

 Caravaggio — considerado o maior representante do estilo barroco — foi mestre na arte de manipular o jogo de luz e sombra, o que confere um enorme grau de complexidade à sua obra. São poucos os quadros de Caravaggio que sobreviveram até os dias de hoje — 62 ao todo — e alguns deles ainda passam por avaliação de especialistas para que o período de produção e as condições em que foram realizados sejam comprovados. A obra Medusa Murtola, por exemplo, era considerada uma cópia até recentemente. Só ao fim de trabalhos que duraram 20 anos — com sofisticadas análises em infravermelho — é que sua autenticidade foi comprovada.

 Ficha técnica:
Ano: 1598
Dimensões: 60 x 55 cm
Técnica: óleo sobre tela colado sobre escudo
Estilo: Barroco
Gênero: pintura mitológica
Localização: Galleria degli Uffizi, Florença, Itália

Fontes de pesquisa:
Grandes mestres da pintura/ Coleção Folha
Grandes mestres/ Abril Coleções
1000 obras-primas da pintura europeia/ Könemann

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Caravaggio – MADALENA ARREPENDIDA

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Maria Madalena é aqui retratada com extremo afeto, não como uma figura religiosa ou uma mulher madura, mas como uma jovenzinha quebrantada pelo peso da culpa que carrega apesar da tenra idade. Encontra-se numa atitude de total abandono, com a cabeça inclinada para a esquerda e tombada sobre o peito. Com as mãos entrelaçadas no colo e os longos cabelos que lhe caem pelas costas e ombro queda-se num gesto de desalento.

Caravaggio usou como modelo a mesma jovem prostituta, Ana Bianchini, que havia posado para O Repouso Durante a Fuga para o Egito (ainda iremos ver), que ali faz o papel da Virgem Maria. E, ao transgredir os princípios da época, acabou criando uma grande polêmica em torno da obra, principalmente com a Igreja, que alegava falta de decoro por parte do artista. Mas, enquanto os contestadores viam na escolha da modelo uma provocação, o pintor objetivava apenas pintar Maria Madalena como uma pessoa comum, num contexto mais atual, de modo a tornar a mensagem sobre o arrependimento mais próxima do observador e, portanto, mais eficaz.

O biógrafo Giovanni Pietro Bellori alega que, para fazer a sua composição, Caravaggio inspirara-se na imagem de uma moça secando o cabelo. Outro historiador, Peter Robb, levantou a hipótese de que a pintura de Caravaggio fosse a lembrança do que acontecera à modelo, que havia sido açoitada por policiais e apresentada nas ruas sobre o lombo de um burro, costume muito usado pela Igreja para punir as prostitutas da época.

O ambiente onde se encontra Maria Madalena é austero. Há somente como móvel uma pequena cadeira, na qual ela se encontra sentada. Espalhados pelo chão estão um par de brincos e um colar de pérolas, uma pulseira cravejada com pedras preciosas e um colar de ouro, além do vidro de unguento. Ela usa uma indumentária da época.

Uma pequena lágrima escorre em direção ao nariz, no lado direito da face de Maria Madalena. Suas mãos estão juntas sobre as pernas, numa atitude de grande tristeza. Pelos atributos em evidência na composição (pedras preciosas, pérolas, ouro, um frasco de unguento) ela é representada como uma cortesã. Tais objetos também representam os prazeres mundanos e que agora estão sendo deixados de lado.

Caravaggio usa um facho de luz vindo do lado direito da composição, que clareia a imagem da moça arrependida. O efeito claro-escuro é fundamental na apresentação da cena. Maria Madalena é apresentada de corpo inteiro.

O mais admirável nesta obra de Caravaggio é a carga emocional com que ele retrata a dor psicológica de Maria Madalena. A dor física é reparada com remédios, mas a espiritual, social e existencial, tão presente na história da humanidade, é muito mais profunda, pois impregna cada célula do ser. E Caravaggio capta o momento angustioso da mulher com extrema fidelidade e realismo. Esta tela é também conhecida como Madalena Penitente.

Cortesã, segundo o Aurélio:

  1. Favorita do rei.
  2. Mulher dissoluta, que vive luxuosamente.
  3. Prostituta elegante.

Curiosidades:

  • Maria Madalena é descrita no Novo Testamento como uma das discípulas mais dedicadas de Jesus Cristo. É considerada santa pelas igrejas Católica, Ortodoxa e Anglicana, sendo celebrada no dia 22 de julho. É também comemorada pela Igreja Luterana com festividades no mesmo dia. A Igreja Ortodoxa também a celebra no segundo domingo após a Páscoa.
  • O nome de Maria Madalena descreve-a como sendo natural de Magdala, cidade localizada na costa ocidental do Mar da Galileia. Ela acreditava que Jesus Cristo realmente era o Messias. Ela esteve presente na crucificação e no funeral de Cristo, juntamente com Maria de Nazaré e outras mulheres. No sábado, após a crucificação, saiu do Calvário rumo a Jerusalém com outros cristãos, para poder comprar certos perfumes, a fim de preparar o corpo de Cristo da forma como era de costume funerário. Permaneceu na cidade durante todo o sábado, e no dia seguinte, de manhã, ainda muito cedo, foi ao sepulcro. Achou-o vazio, e recebeu de um anjo a notícia de que Cristo havia ressuscitado e lhe foi dito que deveria informar tal fato aos apóstolos. Nada mais se sabe sobre ela a partir da leitura dos Evangelhos Canônicos.

Ficha técnica:
Ano: c. 1596/1597
Material: óleo sobre tela
Dimensões: 135,5 x 166,5 cm
Localização: Galleria Doria Pamphilg, Roma, Itália

Fontes de pesquisa:
Grandes mestres da pintura/ Coleção Folha
Grandes mestres/ Abril Coleções
1000 obras-primas da pintura europeia/ Könemann
Wikipédia

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Caravaggio – JUDITE E HOLOFERNES

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Recebi encomenda de um quadro sobre o tema de Judite e Holofernes. Os meus predecessores representaram-no após, quando Judite apresenta a cabeça cortada num prato. Eu queria bem mostrar o ato em si. Uma prostituta minha conhecida posou para a Judite e a criada velha do cardeal pela seguinte. Um ferreiro fez Holophernes. Para a expressão da cara fui ver muitas execuções públicas e observei muito bem as cabeças cortadas tombadas e guardei as expressões de terror. (Caravaggio)

Esta tela retrata a cena em que Judite, revoltada com as ameaças do general assírio — Holofernes — a seu povo, tentando obrigá-lo a adorar o rei assírio Nabucodonosor em vez de Javé, aproveita-se do estado de embriaguez do tirano, depois de seduzi-lo.  Aproxima-se de seu leito, segura-o pelos cabelos e decepa-lhe a cabeça, entregando-a para a serva que a joga num saco de provisões. Ela se converte depois em modelo para os judeus e em especial para os fanáticos religiosos.

Judite era uma viúva próspera e de boa conduta. Era bela nas formas e de presença encantadora. Para seduzir Holofernes, ela retirou os trajes de luto e botou uma vestimenta de festa e se introduziu no seu acampamento e bebeu com ele. O momento para assassinar o tirano era único, já que os judeus estavam prestes a se render diante das forças do inimigo que, após o crime, saíram em debandada. Depois ela regressou à Betulia com a cabeça do general e os judeus venceram o inimigo. Judite voltou da tenda do herege tão pura quanto ali chegara, sendo honrada por seu povo. Foi tida como uma heroína que deveria ser imitada. Esta passagem é narrada no Antigo Testamento, no Livro de Judite.

Caravaggio, ao pintar a cena não seguiu fielmente a versão bíblica. Dela diverge, quando traz a serva para perto de Judite no momento exato do crime. Ao colocar as duas mulheres juntas, contrasta a força da juventude com as cicatrizes da velhice. Enquanto a pele da heroína é sedosa e brilhante, a da serva é enrugada e opaca.

Judite demonstra determinação pelo modo como segura a espada e a cabeça de Holofernes. Também demonstra nojo ao afastar o corpo para trás, como se não quisesse se sujar com os respingos do sangue do tirano. Seu vestido dominical é simples, igual aos usados pelas mulheres do povo. Ela representa ao mesmo tempo sensualidade, brutalidade e coragem.

Do nariz da jovem parte uma ruga que vai morrer no meio da testa, passando entre as sobrancelhas contraídas, demonstrando concentração e firmeza. Seus olhos estão centrados no inimigo, ciente de que não pode cometer nenhum engano. O golpe é dado sem força na parte lateral do pescoço, ficando a autora o mais distante possível.

Embora a maioria dos pintores tenham representado Judite com a cabeça do tirano nas mãos, Caravaggio optou por retratar o momento exato da decapitação, já tendo a espada rompido 2/3 do pescoço, embora a vítima ainda pareça estar viva, com seus olhos aterrorizados e a boca aberta como a soltar um grito, deixando a obra cheia de realismo e crueza. É o mesmo grito visto em Cabeça de Medusa.

À época (Contrarreforma), existia um manual que aconselhava os artistas a observar o condenado, ao ser enforcado, para estudar as convulsões e o movimento dos olhos. Em muitos de seus quadros Caravaggio apresentou cenas de decapitação (O Sacrifício de Isac, A Decapitação de S. João Batista, Salomé com a Cabeça de S. João Batista, Davi com a Cabeça de Golias…), mas para muitos esta é uma das obras mais medonhas do pintor.

Na composição os personagens parecem emergir das sombras, ganhando destaque com a luz que focaliza cada gesto. O drama desenvolve-se num primeiro plano fechado. Como em “A Morte da Virgem” uma cortina vermelha projeta-se entre Judite e Holofernes, dando ainda mais teatralidade à cena da execução.

Fachos de luz iluminam os braços e a parte direita do rosto de Holofernes que agarra com desespero o lençol já manchado de sangue e destacam com pungência a bela Judite. A serva — atenta ao gestual de Judite — não expressa horror ou comoção, ao contrário, mostra aprovação, como se o ato fosse de vital importância. Nas suas mãos está o saco erguido, com a boca aberta, onde será colocada a cabeça do tirano.

A modelo escolhida por Caravaggio para representar Judite é a cortesã Fillide Melandroni, a mesma que posou para Santa Catarina de Alexandria e outras composições. Um ferreiro foi escolhido como modelo para Holofernes, embora algumas fontes digam que tenha sido o próprio Caravaggio.

Judite e Holofernes ou A Decapitação de Holofernes é uma das mais famosas obras de Caravaggio. A decapitação de Holofernes por Judith tem sido objeto de muitas pinturas e quadros desde a Idade Média. Artistas das mais diferentes formas de arte vêm reproduzindo a história de Judite e Holofernes ao longo dos tempos, representando os seus diferentes momentos. Podem ser citados: Cristofano Allori, Donatello, Sandro Botticelli, Andrea Mantegna, Giorgione, Lucas Cranach, o Velho, Palma Vecchio, Michelangelo, Caravaggio, Tiziano, Antonio de Pereda, Goya, Horace Vernet, Gustav Klimt, Artemisia Gentileschi, Jan Sanders van Hemessen, Hermann-Paul, Gustav Klimt, entre outros. A cena do banquete foi igualmente retratado por Rembrandt no quadro Artemisa. A história também inspirou um poema medieval em inglês, a ópera Betulia Liberata de Mozart e uma opereta de Jacob Pavlovich Adler, dentre muitas outras representações.

Ficha técnica:
Ano: c. 1597/1600
Material: óleo sobre tela
Dimensões: 145 x 195 cm
Localização: Galleria Nazionale d`Arte Antica, Roma, Itália

Fontes de pesquisa:
Los secretos de las obras de arte/ Taschen
Grandes mestres da pintura/ Coleção Folha
Grandes mestres/ Abril Coleções

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