Caravaggio – DESCANSO NA FUGA PARA O EGITO

Autoria de Lu Dias Carvalho

jose do egito

Esta composição foge à regra das telas pintadas por Caravaggio, sendo um exemplo de seu estilo inicial, antes de abraçar o tenebrismo, técnica que revolucionou a arte europeia. Trata-se de uma pintura idílica e de uma representação individualista do pintor. Nela podemos perceber uma imensa paisagem, com tonalidades luminosas (bosque de carvalhos e álamos), que se estende por trás dos personagens,  bem ao contrário dos fundos neutros tão comuns em suas composições. O artista ainda era muito jovem, quando fez esta pintura.

A Sagrada Família é composta por pessoas simples. A pintura é feita com cores fortes e claras, com pouco uso da sombra e com uma atenção esmerada aos detalhes de superfície, principalmente em se tratando das asas do anjo.  Caravaggio fez uso da figura alada com o intuito de dividir a composição em duas partes. O anjo sereno e sensível encontra-se no centro do grupo.

O conjunto de figuras insere-se dentro de um retângulo, com o anjo ao meio, tornando o lado esquerdo da composição ligeiramente desequilibrado. Ao abrir mão dos personagens representados com meio corpo, ou isoladamente, Caravaggio apresenta uma cena sacra com maior complexidade.

A Virgem, que ocupa o lado mais bonito da paisagem com o céu acima, não tem cabelos claros ou dourados, como aparece tradicionalmente, mas é ruiva, com os seus cabelos avermelhados presos em forma de trança. Ela encosta a sua cabeça sobre a cabecinha do filho ainda bebê, que dorme profundamente, expressando o seu cansaço. O pintor quebra aqui mais um paradigma da época, ao mostrar a exaustão da Madona, pois um ser divinal jamais apresenta cansaço, atitude extremamente humana.

São José é um velho camponês de pés descalços, usando roupas de tons da terra. À sua direita, no chão, encontra-se uma garrafa de vinho, próxima a uma trouxa. Atitude inimaginável para um santo, à época. Mostra-se envelhecido e cansado. Atrás dele está o burro, quase imperceptível, ao se misturar com a folhagem marrom. O animal serve de transporte para ele e sua família na fuga para o Egito, pois Herodes planeja matar seu filho recém-nascido. O terreno onde São José pisa é pedregoso, de modo que ele descansa um pé sobre o outro, para diminuir o desconforto que sente. Observem a perfeição da embalagem da garrafa.

O anjo ruivo e seminu, coberto ligeiramente por um manto branco e de costas para o observador, acompanha a partitura que São José segura, tocando seu violino. O jovem modelo é o mesmo que posou em O Trapaceiro. A música apresentada na partitura é legível e reproduz um motete que homenageia a Virgem. Não existe precedente para um anjo tocando violino na história bíblica ou no simbolismo artístico passado, sendo aqui uma invenção do artista. Ao colocar São José segurando a partitura, Caravaggio trouxe graça e leveza para a composição. Observem que o anjo apresenta-se nu frontal para São José.

O Descanso na Fuga para o Egito é considerada a primeira tela complexa da história da obra religiosa de Caravaggio. O quadro foi realizado pelo pintor nos seus primeiros anos em Roma. É uma composição grandiosa, tanto pelo tema como por apresentar os personagens de corpo inteiro e pela inovação iconográfica do anjo músico, com suas grandes asas pretas.

Curiosidades:

  • Ana Bianchini, uma prostituta amiga do pintor, presente como modelo em Madalena Arrependida serve de modelo para a Madona.
  • A música que José detém em suas mãos foi escrita por Noel Bauldewijn em honra de Maria: Quam pulchra es, “Como você é linda”, baseada em um verso do Cântico dos Cânticos.

Ficha técnica:
Artista: Michelangelo Merisi da Caravaggio
Título: Repouso na fuga para o Egito
Data: 1596-7
Técnica: Óleo sobre tela
Dimensões: 133,5 x 166,5 cm
Localização: Galleria Doria-Pamphili – Roma

Fontes de pesquisa:
Grandes mestres da pintura/ Coleção Folha
Grandes mestres/ Abril Coleções
1000 obras-primas da pintura europeia/ Könemann

Views: 32

O AMOR, A CRIANÇA E A GUERRA

Autoria de Lu Dias Carvalho

menina e o desenho

Esta menina perdeu a mãe na guerra.
No pátio do orfanato desenhou-a com giz.
Aconchegou-se num colo que não existe mais,
deixando fora as sandálias para respeitá-la, como
manda a cultura oriental ao se entrar num lugar santo.
(Explicação que acompanha o pps)

O mundo virtual traz-nos muitas coisas interessantes e outras nem tanto. Mas os pontos positivos superam em muito os negativos, quando mil caminhos desta nossa existência, ainda que efêmera, abrem-se à nossa frente e nos tornam parte deste planeta maravilhoso chamado Terra. Não digo “parte” pelo fato de estarmos aqui neste momento. Refiro-me a nos sentirmos integrados a ele, lutando para que se transforme num lugar sagrado, onde todos nos tornemos divinos, mas só depois de nos tornarmos realmente humanos.

Foi exatamente este mundo virtual que me trouxe a imagem tocante da garotinha que busca conforto junto ao corpo etéreo de sua mãe ausente. Mais do que isso, numa postura de feto, ela procura o útero que a agasalhou e a protegeu de todas as maldades do homem, que ainda não se tornou humano. Mas aquele lugarzinho ali é sem dúvida, divino, ainda que por um breve instante, até que ela se acorde para as cruezas que lhe traz o homem, na vida.

Eu odeio todos os tipos de guerra, sobretudo pelo sofrimento que impingem às crianças, esses serezinhos que mal começam a desabrochar para a vida. Nada pode ser mais cruel do que roubar de uma criança a sua mãe. Ela perde todo o contato consigo e com o mundo. Melhor seria que tivesse nascido para a vida num outro tempo, numa outra dimensão, numa outra esfera ou num outro planeta, quando e onde o homem tivesse se tornado humano na busca do divino.

Malditas sejam todas as guerras que existem.
Amaldiçoados sejam os que as promovem.
Precitos os que nada fazem para evitá-las.
Desgraçados vermes da maldade humana
que tornam nosso planeta tão triste.
E benditas sejam todas as crianças
deserdadas do amor – pelas guerras,
de ontem, de hoje e de amanhã,
quaisquer que seja elas.

“Há momentos na vida em que sentimos tanto a falta de alguém que o que mais queremos é essa pessoa de nossos sonhos e abraçá-la.” (Clarice Linspector)

Nota:
Peço aos leitores que leiam a observação do Gilberto J. Otto, postada como comentário:

Não querendo ser o “estraga prazeres” é que já vi esta foto sendo postada no face por vários amigos, oriundos de sites e blogs de cunho religiosos. Todos querem aproveitar e tirar uma “casquinha” da situação. Mas fui a fundo e na verdade achei o seguinte: A história conta, de fato, é verdadeira para milhares de crianças espalhadas pelo mundo, vítimas de guerras e outros males, mas não se aplica a menina na foto. A autoria Bahareh Bisheh explicou que a menina é sua prima e que se adormeceu sobre o asfalto do lado de fora da minha casa após muita brincadeira. A fotógrafa aproveitou o momento desenhou no chão a figura e subiu em uma cadeira para fazer a foto, não podia deixar passar a chance. A foto foi feita em janeiro de 2009. Assim, não há orfanato envolvido e nem trágica história por trás disso. Afirma a autora que é um estilo de fotografia. Visite o site e veja outras belas e criativas fotos com a mesma menina (visitem e comprove): http://www.flickr.com/photos/khatt-khatti/

Views: 25

VOCÊ SE CONSIDERA UMA PESSOA HONESTA?

Autoria de Beto Pimentel

              capeta    anjo

Outro dia, acabara de fazer compra num dos estabelecimentos de um grande supermercado, instalado na minha cidade. Passei o carrinho pelo caixa, paguei a conta e dirigi-me à saída, quando um funcionário muito solícito conferiu as mercadorias com a nota fiscal e me liberou a saída.

Ao chegar ao carro, quando comecei a descarregar as mercadorias no porta-malas, percebi que dentro de uma das caixas estavam sete caixas de uma deliciosa água de coco, 330 ml, do  tipo longa vida.  Engraçado, pensei com os meus botões, só comprei seis unidades desse produto e não sete. Conferi a quantidade com a nota fiscal.  Realmente, só comprara seis. O caixa e o conferente não perceberam o erro. E agora? Foi quando, no meu ouvido, senti uma voz sussurrando:

– Não seja bobo! E só uma caixinha de valor irrisório (R$ 2,40). Imagina só! O dono do supermercado já incorporou essas e outras perdas no preço final do produto. Além disso, trata-se de uma multinacional riquíssima.

Mas de repente, outra voz também soprou no outro ouvido:

– Você é o cara! Sempre condena qualquer tipo de desonestidade, principalmente nos políticos, e agora precisa demonstrar que pratica o que defende. Não importa se for uma caixinha de água de copo ou algo de maior valor. Não tenha preguiça. Volte lá e devolva a caixa ou pague a diferença.

Embora muito atrasado para o trabalho, decidi voltar ao caixa e pagar a diferença.  Chegando ao balcão de atendimento, fui recebido por uma moça bastante atenciosa, acompanhada pela gerente.

– Bom dia.

– Bom dia, senhor. Posso ajudá-lo?

– Sim. Acontece que, ao descarregar as mercadorias, que comprei há poucos minutos, no carro percebi que em vez de seis, levei sete caixas de água de coco com 330 ml.

Imediatamente, a gerente, dirigindo-se à atendente pediu.

– Pode pegar a nota fiscal e devolver o dinheiro ao cliente.

Atônito, tentei explicar novamente o ocorrido.

– Não. Eu estou aqui para pagar uma caixa que levei a mais. Observe na nota fiscal que só paguei seis caixas.

Silêncio geral. É inexplicável a expressão delas me encarando. Será que elas pensaram estar à frente de um ET? Sem nada falar, tirei uma nota de um real e outra de dois da carteira e paguei a moça.

– O senhor não tem trocado? Uma moeda de dez centavos?  Estou sem troco no momento.

Nesse instante, a gerente que estava nos observando, interveio:

– Eu estou autorizando você cobrar só dois reais. Este cliente é honesto.

(1)   Clip Art do MS OFFICE – MS.

Views: 18

Caravaggio – CRUCIFICAÇÃO DE SÃO PEDRO

Autoria de Lu Dias Carvalho

sao pedro     sao pedro cruz

Caravaggio é o mestre das trevas. Ele as entreabre somente o suficiente para não diminuir seu trágico e viril pessimismo. Tudo nesta tela ocorre como uma evidência inconsciente de que cada um cumpre a sua tarefa. A desolação reside no acontecimento puro e simples. E o santo, bom modelo conhecido na via Margutta, já fincado à cruz, exibe um olhar calmo, consciente, de herói laico moderno. (Roberto Longhi)

Relatam certas fontes antigas que a primeira versão da Crucificação de São Pedro, pintura que mostra o martírio do santo, feita para a a Capela de Tibério Cerasi, foi recusada, tendo Caravaggio que substituí-la, mas nunca não foi encontrada a primeira versão da pintura, se é que algum dia existiu.

O artista apresenta São Pedro como um velho camponês  já pregado à cruz, com os três carrascos tentando colocá-la de pé. O santo levanta a cabeça, que se destaca no fundo escuro. Seus pés, tendo bem visíveis os dois pregos neles fincados, encontram-se numa posição mais alta, na extremidade esquerda da tela, captando o olhar do observador, ressetido com a brutalidade dos carrascos e com a candura emanada do santo. A resignação do mártir dá-lhe uma aura de santidade diante de tamanho sofrimento.

Os três homens rudes, malvestidos e descalços, aparentando cansaço diante do empenho extremado, tentam concluir a ação. Eles sentem dificuldades em levantar a cruz. Seus esforços são visíveis. Nenhum deles mostra o rosto, o que os identifica como pessoas sem destaque, que ali estão apenas para levar a cabo uma incumbência certamente remunerada. Um deles está de costas para o observador, apoiado numa pá, que se encontra no chão, perto da roupa de São Pedro, no lado direito da tela, enquanto seu ombro esquerdo sustenta a cruz, funcionando como um apoio, na tentativa de erguê-la.

O homem de pé, também de costas para o observador, segura a corda com as duas mãos, apoiando-a no meio das costas. O corpo arqueado denota o seu grande esforço físico. O modo como o terceiro homem abraça os pés de São Pedro, no intuito de ajudar os dois companheiros a levantarem a cruz, mostra proximidade para com a vítima e, ao mesmo tempo, indiferença.

Os três verdugos, extremamente impessoais, parecem alheios ao sofrimento de São Pedro, como se ali estivessem apenas para cumprir um trabalho qualquer, sem  questionarem se o que fazem é correto ou não.

Não se vê a presença de sangue na tela, apesar dos pregos fincados nas mãos e nos pés do santo. Também não existem testemunhas presentes à crucificação, a não ser o sentimento de compaixão que toma conta do observador.

Caravaggio, como é do seu estilo, limita-se ao uso do essencial. Além da cruz, onde se encontra São Pedro, a composição, elaborada na diagonal, forma com seus personagens uma segunda cruz. Observem a foto menor, acima, para entenderem melhor.

São Pedro, cujo modelo foi encontrado na rua pelo artista, apresenta-se velho, porém forte, com o rosto marcado pelas rugas e pelo sofrimento. Não há revolta em seu semblante, mas aceitação. Observem que os três homens tentam levantar a cruz, deixando São Pedro de cabeça para baixo. Dizem que o próprio santo pediu para ser crucificado de cabeça para baixo, pois não queria imitar seu mestre Jesus Cristo.

Ficha técnica:
Artista: Caravaggio
Ano: 1601
Tipo: Óleo sobre tela
Dimensões: 230 cm × 175 cm
Localização: Santa Maria del Popolo, Roma

Fontes de pesquisa:
Grandes mestres da pintura/ Coleção Folha
Grandes mestres/ Abril Coleções
A história da arte/ E. H. Gombrich

Views: 44

Caravaggio – A VOCAÇÃO DE SÃO MATEUS

Autoria de Lu Dias Carvalho

mateus

Partindo Jesus dali, viu sentado na coletoria um homem chamado Mateus, e disse-lhe: Segue-me. E ele, levantando-se, o seguiu. (Mt. 9,9)

A Vocação de São Mateus — também conhecida como Invocação de São Mateus ou O Chamamento de São Mateus — retrata o momento em que Mateus é convocado por Jesus para segui-lo. Ao receber a encomenda da tela que ornaria a capela Contarelli da igreja São Luís dos Franceses, o pintor também recebeu ordens para se basear nos versículos bíblicos (ver acima). Trata-se de uma obra de grandes dimensões em que o pintor combina um tema cristão com uma pintura de gênero (pintura que mostra uma cena da vida diária).

Caravaggio procurou seguir as instruções recebidas, mas sem abrir mão de sua visão realista. Tanto é que ambientou a cena em que Jesus faz o chamado a Mateus num local bem conhecido à época, chamado telônio (Aurélio: Agência onde se fazia o câmbio de moedas entre os judeus no tempo de Cristo.). Mas ao pintar o quadro, tornou o local bem parecido com uma taverna. Há fontes que dizem se tratar realmente de uma taverna romana, levando em conta a maneira como o pintor arruma as figuras.

A composição é realizada em torno de dois planos paralelos, sendo que o superior é ocupado por uma janela coberta com um oleado (muito usado antes do uso universal do vidro) e o inferior apresenta a cena propriamente dita, na qual Jesus chama Mateus para a evangelização. A posição dos pés de Jesus e de São Pedro é indicativa de que eles já se encontram em direção à saída. A composição é formada por dois grupos de personagens:

 1º grupo — posicionado à direita. É composto por Cristo (apenas sua cabeça, a mão direita e os pés são visíveis) e São Pedro que se encontram de pé. Os dois representam o mundo espiritual.

2º grupo — posicionado à esquerda. Sentados em torno de uma mesa rude encontram-se cinco elementos, incluindo Mateus, de barbas e com barrete. O grupo representa o mundo terreno.

A composição está dividida em duas partes. Os valores permanentes e corretos formam um retângulo vertical (primeiro grupo), e aqueles temporários e mundanos, reunidos em torno da mesa, formam um retângulo horizontal (segundo grupo). Existe um espaço vazio entre os dois grupos, como a diferenciar os dois mundos: o terreno e o espiritual. É a mão de Cristo que graciosamente faz a ligação entre eles, numa forte simbologia. A mão está quase exatamente como a pintada por Michelangelo em Criação de Adão. No entanto, Caravaggio não copia Deus com os dedos energéticos do Pai, mas em vez disso ele traça a mão frouxa de Adão.

Os cinco indivíduos posicionados ao redor da mesa apresentam idades variadas. Mateus parece ser a figura mais importante do grupo de amigos. Encontra-se elegantemente vestido, traje que condiz com a sua posição de arrecadador de impostos. Seus amigos também estão bem vestidos, de acordo com a época do pintor, e parecem desfrutar de uma situação privilegiada. Usam tecidos brilhantes e luxuosos, contrastando com a simplicidade das vestes de Jesus e de São Pedro, ambos descalços.

Embora Mateus seja a figura principal da composição presente no segundo grupo, o olhar do observador é puxado para as figuras de Cristo e Pedro, pela intensidade da luz que cobre o rosto do Mestre, e alastra-se pelas costas de seu discípulo, emanada deles próprios. A divindade de Jesus é reforçada pelo halo sobre sua cabeça que tem uma parte absorvida por outra fonte de luz. O corpo do Mestre é ofuscado pelo corpo de seu apóstolo Pedro que se encontra à sua esquerda. Apenas seu rosto e a mão que aponta para Mateus estão iluminados. O facho de luz — acima de ambos — parece uma seta a indicar o coletor e futuro discípulo.

O facho de luz, entrando pela parte superior do lado direito, foca Mateus e seu grupo com intensidade, como se quisesse mostrar que ali está o escolhido pelo Mestre. Mateus aponta para si, surpreso com o convite, pois sua única preocupação era coletar impostos. Dois de seus amigos voltam-se curiosos para Jesus e São Pedro, enquanto os outros dois continuam entretidos na contagem do dinheiro, sem perceber a presença de Cristo e de seu apóstolo.

A iluminação é irreal nesta composição. A luz é o elemento responsável por divinizar a cena, ao lado da auréola sobre a cabeça do Mestre. Sem ela a composição perderia todo o seu caráter religioso. Também evidencia o gesto de Jesus que aponta o seu dedo para Mateus. A luz que ilumina a cena não vem da janela, mas de um ponto fora do quadro.

O pintor barroco dispõe a cena do minimamente necessário, pois o que importa para ele são os personagens. O mais jovem do grupo, com o braço direito sobre Mateus, como se buscasse a sua proteção, usa um luxuoso traje e chapéu de plumas, (trata-se de Mario Minitti, amigo do pintor, já visto em outras telas). O outro personagem que se encontra à sua frente parece mais velho e mais intrépido. Encontra-se armado com uma espada e apresenta-se meio ameaçador, virando-se  para  São Pedro e Jesus.

Curiosidades

  • Dentre os personagens, São Mateus foi sempre tido como o homem de barba que aponta para si, como se questionasse sobre ser ele ou não o indicado por Cristo. O seu gesto é traduzido como se ele perguntasse: “Quem, eu?” Uma interpretação mais atual sugere que o homem barbado, na verdade, aponta para o jovem que se encontra de cabeça baixa, imerso na contagem do dinheiro, de modo que a pergunta do homem de barba seria: “Ele?” Outros críticos de arte acham que Caravaggio deliberadamente deixou a composição ambígua, cabendo ao observador a escolha.
  • Levi era o nome de São Mateus antes de ele se tornar um apóstolo de Cristo.
  • A luz é muito bem manipulada pelo pintor: a janela visível coberta com oleado, muito provavelmente para fornecer luz difusa ao estúdio do pintor; a luz superior, para iluminar o rosto de São Mateus e do grupo sentado; e a luz por trás de Cristo e de São Pedro, introduzida apenas com eles. Pode ser que esta terceira fonte de luz é pretendida como milagrosa. Caso contrário, por que São Pedro não lançou sombra sobre o jovem defensivo à sua frente?
  • Caravaggio compôs esta tela com cores vivas, usando contrastes ousados de vermelhos, dourados e verdes e texturas diferentes de veludo e pele macia. Ele também contrasta gestos e expressões.

Ficha técnica:
Data: 1599 -1600
Técnica usada: óleo sobre tela
Dimensões: 340 cm × 322 cm
Localização: Igreja São Luís dos Franceses, Roma

Fontes de pesquisa:
Grandes mestres da pintura/ Coleção Folha
Grandes mestres/ Abril Coleções
1000 obras-primas da pintura europeia/ Könemann

Views: 177

Caravaggio – A CEIA EM EMAÚS

 Autoria de Lu Dias Carvalho

ceia

Aproximando-se da aldeia para onde iam, deu ele a entender que ia para mais longe. Mas eles o constrangeram, dizendo: Fica em nossa companhia, porque é tarde e o dia já declinou. Ele entrou para ficar com eles. (Lucas 24:28-29)

Esta cena religiosa é uma das mais belas pinturas de Caravaggio. Narra a passagem bíblica em que Cléofas e Pedro (possivelmente), entristecidos com a morte do Mestre, resolvem caminhar até a aldeia de Emaús. Durante o trajeto, um desconhecido agrega-se à companhia dos dois. Ao chegar a Emaús, o pequeno grupo detém-se em uma estalagem para comer. Antes da ceia, os dois discípulos surpreendem-se ao ver o desconhecido abençoar o pão. A seguir, descobrem que se trata do Cristo ressuscitado, que repete o mesmo gesto feito na Última Ceia.

Na composição, que se estrutura em torno do gesto eucarístico do Mestre, Caravaggio retrata quatro personagens: Cristo, os dois apóstolos e o estalajadeiro, todos a meio corpo. A cena é mostrada no exato momento em que Jesus abençoa os alimentos. Para qualquer um dos personagens que se olhe,  seus gestos apontam ao observador a figura de Jesus.

Cléofas, de barba preta e vestes rotas, sentado de costas para o observador, à esquerda da tela, faz menção de se levantar, segurando os braços da cadeira com suas mãos fortes e rudes. Uma rasgadura no seu casaco mostra um pedaço do tecido branco de sua camisa, técnica usada por Caravaggio para acentuar o escorço (Aur.: Art. Plást. Desenho ou pintura que representa objeto de três dimensões em forma reduzida ou encurtada, segundo as regras da perspectiva.). Cléofas é o único apóstolo mencionado pelo nome na versão de Lucas.

Pedro, à esquerda de Jesus ressuscitado, abre os braços em forma de cruz, lembrando o martírio do Mestre. Seus cabelos estão ralos e sua barba esbranquiçada. A concha em suas vestes identifica-o como peregrino. Sua mão esquerda parece precipitar-se para fora da tela e a direita para dentro. O que leva a acreditar que se trata do apóstolo Pedro é a presença de uma concha em suas roupas.

Cristo encontra-se no centro da composição, de frente para o observador, com os olhos voltados para a mesa, enquanto ergue o braço direito para abençoar o pão. É representado como um jovem forte, imberbe, com os cabelos cacheados caindo sobre os ombros, contrastando com o aspecto envelhecido e esfarrapado dos dois apóstolos. Sua sombra projeta-se na parede, às suas costas, criando uma auréola que evidencia ainda mais a sua figura divina. Não se trata de um Cristo distante e inalcançável, mas sim de um Cristo que pode ser visto, ouvido e abraçado. E tudo na composição aponta para ele.

O hospedador, que figura entre Cristo e Cléofas, observa sereno  e atentamente o Mestre, enquanto apoia sua mão esquerda no cinto, sem compreender o que se passa ou quem sejam aquelas pessoas. Sua tranquilidade contrasta com o espanto e a afobação dos dois discípulos, ao descobrirem que é o Mestre quem está ali entre eles.

Sobre a mesa estão: uma cesta de frutas, a carne dentro de um prato, duas jarras, sendo uma de louça e outra de vidro e um cálice. Todos os objetos projetam sombra na mesa, sendo que a cesta com frutas projeta uma sombra em forma de peixe, símbolo dos primeiros cristãos. E todos os elementos possuem uma simbologia. O pão e o vinho referem-se à Eucaristia. As uvas referem-se ao vinho. A maçã machucada e os figos já estragados simbolizam o pecado original, ou seja, a Queda do Homem, enquanto as romãs simbolizam o triunfamento de Cristo que, ao ressuscitar, acabou vencendo o mal. Alguns veem um rabo de peixe na sombra que a cesta com frutas projeta na mesa, à direita, considerando-o o símbolo dos primeiros cristãos.

A cesta de frutas em primeiro plano, traz a sensação de que poderá cair da mesa a qualquer momento, oscilando na sua beirada. A toalha branca sobre a mesa, o guardanapo no colo de Pedro e o lenço amarrado no braço direito do hospedeiro dão luminosidade à composição. A visão frontal e a parca profundidade da cena, assim como o lugar vago bem em frente ao Mestre, fazem com que o observador sinta-se convidado a sentar-se à mesa ou se sinta na cena inserido.

Caravaggio transpôs a cena para o seu tempo, ambientando-a numa taberna romana. E mais uma vez criou polêmica ao representar Cristo jovem, gordo e um pouco feminino, sem barba, tendo à frente, sobre a mesa, frutas que estariam fora da estação. O realismo com que tratava os temas religiosos, como apóstolos que se parecem com trabalhadores, angariou a reprovação veemente do clero.

Na obra, Caravaggio usa sua técnica concebida, o tenebrismo, que consiste no uso de um fundo escuro, algumas vezes completamente negro, onde faz a incidência de focos de luz sobre os detalhes da pintura que quer destacar.

Curiosidades:
1.Caravaggio pintou uma segunda versão da Ceia em Emaús (hoje na Academia de Belas Artes de Brera , Milão), em 1606, onde acrescenta mais uma personagem: a mulher do estalajadeiro. Em comparação com a primeira, os gestos das figuras são muito mais contidos, tornando a presença mais importante do que o desempenho. Esta diferença possivelmente reflete as circunstâncias da vida do pintor, naquele momento (ele havia fugido de Roma como um fora da lei após a morte de Ranuccio Tomassoni), ou se trata apenas da contínua evolução de sua arte.

2. Ceia de Emaús é uma das primeiras aparições de Jesus após a ressurreição e à descoberta do túmulo vazio. Relata uma refeição que Jesus teve com os dois discípulos após o encontro na estrada, tornando-se um tema muito popular na arte. O episódio está descrito em Lucas 24:13-35, onde se lê também a expressão “fica conosco, Senhor” (em latim: Mane nobiscum Domine), que inspirou diversos textos, orações e canções.

3. Entre outros artistas, que pintaram o jantar, estão Jacopo Bassano, Pontormo, Vittore Carpaccio, Philippe de Champaigne, Albrecht Dürer, Benedetto Gennari, Jacob Jordaens, Marco Marziale, Pedro Orrente, Tintoretto, Titian, Velázquez e Paolo Veronese. O jantar também foi tema escolhido por um dos mais bem-sucedidos falsários de Vermeer, Han van Meegeren.

Ficha técnica:
Autor: Caravaggio
Data: 1601
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 141 x 196 cm
Localização: Galeria Nacional de Londres

Fonte de pesquisa:
Grandes mestres da pintura/ Coleção Folha
Grandes mestres/ Abril Coleções
A história da arte/ E. H. Gombrich

Views: 16