Caravaggio – LUZ E SOMBRAS

Autoria de Lu Dias Carvalho

fruta

Caravaggio trouxe um realismo para a pintura em suas ardentes representações tanto de temas sagrados como seculares. Pintando diretamente sobre suas telas, usando efeitos exagerados de luz e sombra, ele interpretou respeitáveis santos e humildes pecadores, através das lentes do sofrimento e da emoção humana. A arte de Caravaggio foi revolucionária, sua vida foi trágica e seus seguidores foram inúmeros (David Gariff)

O que Caravaggio desejava era a verdade. A verdade tal como ele a via. Não nutria preferência alguma pelos modelos clássicos nem respeito pela beleza ideal. Queria romper com os convencionalismos e pensar a arte por si mesmo. (E.H. Gombrich)

Em arte tudo o que não for tirado da vida é frivolidade. (Caravaggio)

Pelo horror que sentia diante dos ideais tolos, Caravaggio não corrigia nenhum defeito dos modelos que parava na rua para fazê-los posar. Vi algumas de suas pinturas que foram recusadas por pessoas que lhes haviam encomendado. O reino da feiura ainda não havia chegado. (Stendhal)

Caravaggio era um pintor preocupado com a verdade tal como a via, de modo que representar os modelos clássicos ou ter qualquer forma de compromisso com a “beleza ideal” não faziam parte de seus objetivos. Tanto é que desprezava aqueles que se recusavam a retratar a fealdade. Considerava-os fracos e indignos de serem levados a sério. Por isso, desde cedo procurou afastar-se das convenções e repensar a arte de uma forma diferente, rejeitando a beleza idealizada da arte renascentista, desprovida de realidade, de verdade natural e de honestidade emocional. Pouco lhe importava que a natureza retratada fosse feia ou bela, interessava-lhe apenas a verdade.

O pintor era intransigente no estudo que fazia da natureza e, se a realidade da vida era crua, ainda assim deveria ser retratada. O pintor recusava-se a seguir as normas estabelecidas pelo Concílio de Trento que exigiam que a representação pictórica das Escrituras Sagradas tivesse como objetivo edificar o povo ignorante, mas sem perder a dignidade e a nobreza da arte. Ele se colocou contra o ideal de beleza do Renascimento, ao mostrar o mundo de uma forma diferente e extremamente realista, chocando muito de seus contemporâneos.

Como acontece com quase todos os gênios, Caravaggio foi incompreendido por muitos de seus contemporâneos que achavam que ele não tinha respeito pela beleza e pela tradição, tendo como único objetivo chocar o público. Por isso, alcunharam-no de “naturalista”, “gênio do mal”, o “anti-Cristo da pintura” e de “il tenebroso”. Ele não copiava os modelos tradicionais, pintava os modelos vivos sem lhes retirar as cicatrizes ou as marcas do tempo. A verdade é que seus detratores não foram capazes de perceber a seriedade com que ele executava seu trabalho, tanto é que, quatro séculos depois, sua obra continua a encantar gerações, pois a sua contribuição para a arte da pintura jamais poderia ser ignorada.

Segundo os estudiosos da obra de Caravaggio, é nos quadros religiosos que ele deixa a sua grande contribuição à história da arte, com seus temas impregnados de verdade, onde é revelada a dimensão humana do sofrimento, criando uma vigorosa mistura entre o terreno e o espiritual, o real e o místico, sendo capaz de captar o momento exato da dor, expondo-a em toda a sua crueza. Na sua tela, Judite e Holofernes, aparece pela primeira vez o fundo preto (tenebroso), destacando-se sobre o mesmo as figuras iluminadas por um processo de luz artificial, elementos que se tornaram típicos de sua obra.

Caravaggio trabalhava com efeitos de luz e sombra exagerados. Suas figuras são vistas em perspectiva reduzida, movimentos diagonais e fortes toques de cor  em oposição aos temas principais. Através da técnica usada seus personagens refletem uma intensa emoção, embora o seu estilo de pintura pareça muitas vezes confuso e desorientado, eles são verdadeiros, poderosos e ousados. Foi o primeiro dos pintores a adotar o estilo “tenebrista”, cujo objetivo era destacar a escuridão e não a luz. Sendo que em sua obra destacam-se as trevas e a violência. Em várias de suas telas são mostrados espadas, punhais e facas, assim como decapitações e sangue. E, segundo seus biógrafos, embora ele cumprisse os prazos de entrega de suas obras, não aguentava trabalhar por períodos longos, precisando da companhia de seus tortuosos amigos.

Muitas telas de Caravaggio foram rejeitadas sob o argumento de que eram muito realistas e alguns patronos religiosos argumentavam que certas obras eram blasfematórias, mas essa não era bem a verdade, pois o pintor esforçava-se apenas para retratar fielmente o mundo, de modo que suas figuras tivessem o maior compromisso possível com a verdade. Se a sua franqueza resultava numa representação ousada da realidade, era assim que tinha que ser no seu compromisso com a verdade.

A arte de Caravaggio — apesar de incompreendida no seu tempo — angariou muitos seguidores pela Europa, os chamados “caravaggisti” que imitavam seu estilo, originando escolas de seguidores, cuja obra é definida como “caravagesca”. Entre eles, podemos destacar grandes nomes da pintura como Diego Velázquez que ficou muito sensibilizado com o estilo do pintor, com as descobertas feitas por ele no campo da pintura e o modo como abriu mão das convenções em prol da observação desapaixonada da natureza. Rembrandt, assim como Caravaggio, via na verdade e na franqueza muito mais valor de que na harmonia e na beleza. Embora tenha sido apreciado por poucos de seus contemporâneos, artistas subsequentes viram nele um dos mais geniais mestres.

Os contrastes entre luz áspera e quase cegante, e sombra, sempre profunda, carregam a obra de Caravaggio de grande religiosidade e intensidade dramática, trazendo à arte sacra um sentimento de realidade. Suas figuras parecem reais e palpáveis, como se suas ações estivessem acontecendo no momento em que o observador as vê. A cena destaca-se com uma honestidade tocante. A técnica do “chiaroscuro”, usada pelo artista, embora exibida um século antes por Leonardo da Vinci, foi aprimorada por ele.

É interessante conhecer o recurso científico usado por Caravaggio para produzir o seu jogo imprescindível de luz e sombra. Ele usava um quarto com paredes negras (câmara escura) no qual inseria fachos de luz nos locais que desejava colocar em evidência. Para a época, a sua experimentação era fantástica, bem à frente de seu tempo.

Embora os puristas criticassem-no por não ter educação formal, inclusive faltando-lhe o uso do esboço, isso não o preocupava. Ele simplesmente desenhava direto sobre a tela, pintando por cima, não fazendo uso da tradicional intervenção do desenho, resultando numa obra admirável. O artista achava que a introdução de uma ideia preconcebida na composição tornava-a inverídica. Tanto os academicistas quanto a Igreja ficaram escandalizados com sua postura. O seu talento para as naturezas-mortas era extraordinário, tanto é que o biógrafo Giovanni Pietro Belloni escreveu que Caravaggio foi o primeiro pintor a transformar uma natureza-morta em um gênero plástico autônomo. Cesto de Frutas é a única obra sobrevivente em se tratando de frutas.

Enquanto os pintores de então só conseguiam reproduzir certos temas em ambiente natural, Caravaggio retratava-os em locais escuros e sem outros elementos, certo de que a luz e as cores haveriam de dar-lhes formas em contraste com as sombras. E, apesar das rígidas normas que cerceavam a liberdade artística na época, — principalmente por parte da Igreja — o pintor botou no lugar dos santos personagens humanos retirados das ruas.

No seu tempo, Caravaggio trabalhou com os mesmos temas em voga, religiosos e mitológicos, mas com a diferença de que transformou a visão do mundo sobre a arte. Dava a objetos e personagens a mesma relevância, questionando a visão renascentista de antropocentrismo. A partir do século XX  suas inovações passaram a ser compreendidas com profundidade e sua obra passou a ocupar um lugar de destaque na história da arte. Tanto a sua vida pessoal quanto a sua obra continuam inspirando a arte contemporânea em seus vários campos.

Caravaggio trouxe para a pintura o mesmo contexto social no qual estava inserida a sua vida. Fez uso da luz artificial, optando antecipadamente pelos efeitos e reflexos a serem registrados, de modo que seus personagens saltam da escuridão, captados pela luz, estabelecendo o papel de cada um na trama representada, sem disfarçar a realidade que foi atentamente observada por ele. Luz e sombra foram uma constante na vida do grande pintor, tanto na sua arte quanto na sua vida pessoal.

Existem apenas 62 telas de Caravaggio até agora, reconhecidas como autênticas. A sua primeira tela conhecida é Rapaz Descascando Fruta (acima) e dela fez inúmeras cópias para se manter.

Nota:  Rapaz Descascando Fruta
Ano: 1593
Material: óleo sobre tela
Dimensões: 75 x 64 cm
Localização: Long Collection, Roma, Itália

Fontes de pesquisa:
Grandes mestres da pintura/ Coleção Folha
Grandes mestres/ Abril Coleções
A história da arte/ E. H. Gombrich
Los secretos de las obras de arte/ Taschen
Revista Veja/ Maio/ 2012

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Caravaggio – O TOCADOR DE ALAÚDE

Autoria de Lu Dias Carvalho

alaude

Este é o quadro mais belo que pintei (Caravaggio)

Em meio a flores, frutas, violino e partituras, o jovem toca seu alaúde (Aurélio: Mús. Antigo instrumento de cordas dedilháveis, de origem oriental, com a caixa de ressonância sensivelmente abaulada, sem costilhas e em forma de meia pera, e com a pá do cravelhame inclinada, formando ângulo quase reto com o braço longo.), instrumento refinado e ligado ao amor.

O jovem tocador de mãos delicadas, possivelmente ainda pubescente, tamanha é a sua beleza aparentemente feminil, sobrancelhas negras, boca carnuda e um delicado furinho no queixo, possui um ar langoroso, veste uma camisola com inúmeras dobras e com um profundo decote em V, mostrando o peito liso. Traz uma faixa na cabeça, de onde desce um laço branco, sobre seus cabelos negros e encaracolados.

O alaúde tem a superfície gasta e uma fenda na sua caixa. As partituras abertas sobre a mesa, também aludem ao amor, pois eram tocadas nos madrigais (Aurélio: Mús. Composição poético-musical que, no séc. XIV e sob a forma de desenvolvimento e aperfeiçoamento da frótola, no séc. XVI, constituiu um dos gêneros mais importantes da música profana italiana, no qual o elemento literário tem papel preponderante. Era escrita para uma ou mais vozes (cinco e até seis no madrigal clássico do séc. XVI), com acompanhamento instrumental (alaúde, clavicímbalo, harpa), ou sem ele, e foi sob a sua influência que se operou a secularização da música, mediante a utilização de textos profanos e o emprego de fórmulas melódicas novas, de um cromatismo intenso.) Vários elementos revelam a natureza amorosa da composição, tais como flores, instrumentos musicais, partituras, etc.

No jogo de luz e sombras presentes na pintura, a luz dá ênfase ao que é importante, enquanto o secundário permanece na sombra. Observem que a luz entra pela direita da composição, incidindo com força sobre o jovem músico, o alaúde, as partituras, as flores, o violino e as frutas. A exuberância das flores, com sua riqueza cromática, a textura das frutas à esquerda das partituras, assim como as gotas de água visíveis sobre elas, aludem à fugacidade da beleza e da juventude, pois nada é permanente.

Apesar da beleza do jarro com natureza-morta, cujos reflexos atraem o olhar do observador, o tema principal da composição é a música executada pelo alaúde, instrumento já em desuso por ser extremamente difícil de ser tocado. O livro de música que se encontra aberto sobre a mesa, trata-se da edição romana do Libro Primo (Primeiro Livro) de Jakob (ou Jacques) Arcadelt. Trata-se de uma coleção de obras de vários compositores. O jovem entoa um madrigal amoroso, que pode ser identificado através da leitura da partitura aberta, o que comprova o conhecimento musical de Caravaggio (Música: Sabeis que eu vos amo, do compositor do século 16, Jakob Arcadelt).

O tema aqui tratado pelo artista foi repetido em outros quadros com algumas variações. Assemelha-se a Concerto de Jovens, visto no primeiro texto desta série sobre Caravaggio.

Ficha técnica:
Ano: c. de 1595
Material: óleo sobre tela
Dimensões: 94 x 119 cm
Localização: Museu de Hermitage, S. Petersburgo, Rússia

Fontes de pesquisa:
Grandes mestres da pintura/ Coleção Folha
Grandes mestres/ Abril Coleções
1000 obras-primas da pintura europeia/ Könemann

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CUTIA – A PLANTADORA DE FLORESTAS

Autoria de Antônio Messias Costa

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A cutia é um animal terrestre e crepuscular, embora mude seus hábitos de vida em função de suas necessidades alimentares. Entoca-se em buracos no chão e, principalmente, em raízes de grandes árvores e troncos velhos. Está presente em todo o território nacional.

Curiosamente, a cutia apresenta um rabo diminuto, quase invisível, muito embora exista a cutia com rabo maior, denominada cutiara. Como a maioria dos roedores, ela constitui um importante elo da cadeia alimentar dos animais carnívoros e do próprio caboclo e índio amazônicos.

O que mais chama a atenção nesse animal é a sua pelagem variável do amarelo escuro ao amarelo ouro e a sua plasticidade, principalmente quando ameaçada. Ela para e põe em ação a sua boa audição e olfato aguçado e, estática, espera o melhor momento e direção para a busca de refúgio.

No Parque do Museu Goeldi (Belém/Pará), cutias vivem livres em grande número, e jamais ultrapassam a distância de segurança em relação ao visitante, salvo casos isolados de animais criados desde filhotes, por particulares, como é o caso de Maria Claúdia e Júnior dos Santos, duas cutias que foram levadas ao Parque, e passaram a fazer suas “refeições” dentro do  Setor de Nutrição, sem se preocuparem com as pessoas. É interessante notar que, quando os animais têm a sua fase de socialização no convívio humano, passam a se identificar mais com os humanos, isto na maioria dos casos.

Por ter o hábito de esconder sementes em buracos cavados no chão da floresta, a cutia tem um importante papel na natureza: plantar várias árvores, como castanheiras e palmeiras. A semente da castanheira fica dentro do ouriço (invólucro da castanha), que por ser muito duro, poucos animais conseguem rompê-lo, dentre esses está a cutia.

Solitária ou em pequenos grupos em áreas alimentares, a cutia é extremamente territorial, demarcando sua área com urina, ou batendo com as patas nas folhas secas. Na época de cio, os machos disputam as fêmeas em grande correria, brigas e gritos, e muitos saem seriamente machucados.

Os filhotes nascem em número de 1 a três, geneticamente programados para avaliar e fugir do perigo, pois a distância em que ficam da toca vai aumentando gradualmente, monitorados à distancia pela mãe, que ataca todos que possam se aproximar do local onde se encontram seus filhotes. Eles já nascem “prontos”, locomovendo-se, o que é uma arma de sobrevivência para um animal tão ameaçado pelos predadores.

Ciente da agilidade que possui a cutia, muitas vezes, eu brinco com as crianças dos visitantes, oferecendo-lhes um animalzinho, mas desde que consigam pegá-lo, fato que jamais acontece em razão da extrema velocidade do bicho.

Até o nosso próximo encontro!

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Mestres da Pintura – CARAVAGGIO

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Fala-se de Caravaggio como um pintor tenebrista ou luminoso de forma indistinta. Esquece-se de que sem ele não teria havido Ribera, Vermeer La Tour nem Rembrandt. E Delacroix, Coubert e Manet teriam pintado de outra maneira. (Roberto Longhi)

Caravaggio viveu em uma época de poder burocrático, censura de ideias e conformismo assustador […] em que as mentes criativas eram ferozmente castigadas. (Peter Rob)

“Não sou um pintor valentão, como me chamam, mas sim um pintor valente, isto é, que sabe pintar bem e imitar bem as coisas naturais” (palavras de Caravaggio perante o tribunal que julgava sua primeira acusação de perturbar a ordem pública).

Caravaggio era um homem de temperamento impetuoso e irado, extremamente suscetível à menor ofensa e até capaz de apunhalar um desafeto. (E.H. Gombrich)

Após uma quinzena de trabalho, Caravaggio irá vagar por um mês ou dois com uma espada a seu lado e um servo o seguindo, de um salão de baile para outro, sempre pronto para se envolver em alguma luta ou discussão, de tal maneira que é bastante torpe acompanhá-lo. (Floris Claes van Dijk)

Michelangelo Merisi da Caravaggio (1571-1610) nasceu no calmo povoado de Caravaggio, próximo à cidade de Milão e cujo nome acabou por incorporar-se a seu nome. Também existe a hipótese de que o pintor tenha nascido em Milão. Era filho de Fermo Meresi — arquiteto e decorador de Francisco Sforza, duque de Milão e marquês da pequena Caravaggio — e de Lucia Aratori. Aos cinco anos de idade vivia em Milão com seus pais, cidade ocupada pela Espanha. Além das tensões geradas pela ocupação estrangeira, a fome e a peste também se faziam presentes. Em razão da peste a família do futuro pintor retornou ao povoado de Caravaggio que também acabou sendo alcançado pela doença que ceifou a vida do pai, do avô e do tio do garoto. Sua mãe, optou por permanecer ali com os filhos, distanciando-se do fanatismo religioso e da violência política que se espalhavam por Milão.

Agraciado pelas amizades do pai, Caravaggio teve contato com os Sforza e com outras famílias importantes, havendo indícios de que os Sforza tenham sido responsáveis por sua educação e a de seus irmãos. Aos doze anos de idade foi enviado para Milão, tendo os estudos no ateliê de Simone Peterzano — discípulo de Ticiano — custeados pelo príncipe Colonna que passara a governar o povoado de Caravaggio. Após os estudos em Milão, o jovem pintor acreditava contar com a ajuda do tio capelão da Catedral de Milão  que lhe faria encomendas, o que não aconteceu. O jovem teve que retornar para sua cidade, trabalhando com outros negócios que não a pintura.

Caravaggio acabou retornando a Milão e, posteriormente, deixou a cidade. Na verdade não existem dados conclusivos sobre tais acontecimentos. Há suspeição de que tenha fugido, pois era um homem enigmático, fascinante e também perigoso, sempre envolvido em duelos e brigas. Há também o boato de que ficou um ano aprisionado por ter se envolvido em brigas e se negado a entregar os envolvidos. O que se sabe com certeza é que o rapaz tinha um caráter arruaceiro, sempre metido em confusões, seduzido pela marginalidade e pela criminalidade. Após deixar Milão, não se sabe ao certo por onde andou, até parar em Roma, onde tencionava trabalhar como pintor e apaziguar a turbulência interior que carregava. A ocasião era propícia, pois a cidade vivia um clima de grande efervescência impulsionada pela Contrarreforma.

Caravaggio morou em Roma por pouco tempo com o monsenhor Pucci, sendo incentivado a fazer cópias de obras religiosas. Criou quadros próprios, cuja venda ajudou-o a se sustentar, pois queria viver por conta própria. Andava por toda a Roma visitando ateliês em busca de trabalho. Chegava a pintar três quadros por dia, vendendo-os por valores irrisórios. Gostava de usar roupas excêntricas e chapéus de feltro com abas largas, embora fosse visto muitas vezes com roupas esfarrapadas e sujas. Carregava uma espada na cintura — privilégio da nobreza — e um cachorro no colo. O pintor viera de uma classe inferior, sendo a sua maneira agressiva e o uso da espada uma forma de encobrir o seu complexo de inferioridade social.

O artista trabalhou no estúdio do pintor siciliano Lorenzi, indo depois para o ateliê de Antiveduto Grammatica, também conhecido por Cavalier d`Arpino que além de muito culto era um renomado retratista. Na época em que trabalhou em tais locais,  Caravaggio fez muitos amigos, entre eles o jovem e desordeiro Mario Minniti que lhe serviu de modelos em vários quadros, alternando “sessões de trabalho, festas, diversões no submundo e passeios às vinhas, propriedades de ricos amantes da arte”, conforme relata o biógrafo Gilles Lambert.

Foi muito importante para Caravaggio a sua passagem pelo ateliê de Giuseppe Cesari, pois esse último gozava de muitas regalias junto ao papa Clemente VIII. Época em que, possivelmente, o pintor trabalhou como ajudante nos afrescos da abóbada da Capela de Contarelli na Igreja de S. Luís dos Franceses. Nessa época ele ficou muito doente, sendo internado no Hospital Santa Maria dela Consolazione sob os cuidados do prior da instituição — monsenhor Contreras — a quem atribuiu a sua recuperação. Agradecido, presenteou o prior com várias de suas obras que, enviadas à Espanha, chamaram a atenção dos pintores Zurbarán e Velázquez. Outras fontes dizem que tais pintores tomaram conhecimento de seu trabalho através de obras de seus seguidores.

O cardeal Francesco Maria del Monte — embaixador do duque de Toscana no Vaticano — ficou extremamente impressionado com a primeira tela de motivo religioso do artista intitulada São Francisco em Êxtase, de modo que o pintor passou a ficar sob a tutela do alto prelado. Caravaggio tornou-se reconhecido, iniciando a fase mais próspera de sua arte. Contudo, apesar de famoso e prestigiado, o pintor parecia irremediavelmente ligado ao escândalo. Depois de pintar alguns quadros religiosos, recusados por seus clientes e muitas vezes tendo que pintar uma nova versão, ele rompeu com o Vaticano após pintar o quadro de Nossa Senhora dos Palafreneiros.

De qualquer forma o encontro com o cardeal Del Monte, homem inteligente e curioso, foi altamente enriquecedor para o artista, pois esse agiu como se fora seu mecenas. Ele o inseriu num ambiente de grandes colecionadores e contribuiu para que o artista pegasse importantes encomendas. Nessa época, embora o pintor não relegasse a companhia de prostitutas, espadachins e outras personagens duvidosas com quem costumava raiar o dia, participando de brigas, ele pintou uma série de grandes obras de temática religiosa, muitas vezes tidas como indecentes, por pintar os santos com pés sujos e representar a Virgem Maria morta, usando como modelo o cadáver inchado de uma afogada (pintura presente nesse blogue).

Além dos problemas com suas pinturas recusadas, Caravaggio voltou a ter complicações judiciais. Foi preso, acusado de ter assassinado um policial, mas conseguiu fugir com a ajuda de seus amigos. Passou a ser procurado pela justiça. Depois foi acusado de matar o nobre Rannucio Tommasoni de Terni, durante um jogo, sendo condenado à morte. Foi obrigado a fugir para o Lácio — feudo da família Colonna. Dali partiu para Nápoles, sob jurisdição da Espanha, onde ficou por um período de oito meses, tornando-se muito famoso. Mas sua cabeça estava sempre voltada para Roma, onde se encontravam as mais altas honrarias. De Nápoles o artista foi para Malta, onde foi ordenado Cavaleiro da Ordem, recebendo a Cruz de Malta, depois de pagar uma alta soma para ingressar na ordem, o que poderia ajudá-lo no perdão pelo crime cometido em Roma e na sua possível volta.

Como se não pudesse evitar os excessos de seu gênio colérico, Caravaggio foi expulso da Ordem de Malta por se envolver em situações provocadoras, inclusive sendo acusado de hostilidade para com um membro da irmandade, de modo que seu passado também deve ter vindo à tona. E mais uma vez o artista foi obrigado a fugir, dessa vez para a Sicília, onde esperou durante um ano o perdão vindo de Roma. De Siracusa foi para Messina. Quando se encontrava doente e cansado, depois de vagar por tantos lugares diferentes, mas ainda esperançoso de receber o indulto, Caravaggio escolheu voltar para Nápoles, onde se colocou sob a proteção de Constanza Sforza Colonna, marquesa de Caravaggio. Ali foi brutalmente agredido e quase morto. Suspeita-se de que os agressores tenham sido enviados pelos cavaleiros de Malta. O pintor ficou com uma marca no rosto e com sequelas da brutalidade sofrida. Ainda convalescia quando resolveu partir.

Roma era a Meca do mundo civilizado para onde afluíam artistas de todas as partes da Europa. A cidade continuava na mente de Caravaggio, cada vez mais confiante de que seu indulto estava prestes a acontecer. E para lá se dirigiu por via marítima, sendo preso no Porto de Ercole, conforme alegam alguns historiadores, mas acabou ficando livre. Outros, no entanto, dizem que o artista ficou aborrecido com a perda das pinturas que levava consigo, e ainda fragilizado pela febre, com o corpo cheio de feridas, depois de vagar pela praia, morreu possivelmente vitimado pela sífilis. Logo após a sua morte, aos 39 anos, o papa Paulo V deu-lhe a absolvição que tanto esperara.

Nota: Caravaggio se autorretrata na composição Os Músicos. Ele é o cantor à direita, em segundo plano.

Ficha técnica
Data: c. de 1595 – 1596
Dimensões: 92 x 118,5 cm
Material: óleo sobre tela
Localização: Metropolitan Museum of Art/ Nova York/ EUA

Fontes de pesquisa:
Grandes mestres da pintura/ Coleção Folha
Grandes mestres/ Abril Coleções
A história da arte/ E. H. Gombrich
Los secretos de las obras de arte/ Taschen

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ÍNDIA – GOLPE DA UNIÃO COM ESTRANGEIRAS

Autoria de Lu Dias Carvalho

casamento

A brasileira e blogueira Sandra Duarte, dona do blog Indiagestao, sediado na Índia e premiado como um dos melhores blogs em língua estrangeira, que possui aqui no nosso blog dois artigos bastante acessados (vejam os link abaixo do texto), tem sido responsável por desbancar muitas das ilusões que os ocidentais possuem sobre a Índia. Uma delas é a de que se trata de um país extremamente espiritualizado. O que não é verdade – diz ela. Ali, o que conta é o dinheiro e ponto final.

Agora, Sandra vem tentando alertar as mulheres para os casamentos com indianos (ou propostas), cujo interesse encontra-se, por parte deles, apenas no ganho da cidadania do país desejado, normalmente os desenvolvidos, ou em retirar-lhes dinheiro e joias. Seu blog vem recebendo queixas de mulheres de várias partes do mundo. Elas alegam que, ao se casarem, logo após receber a cidadania, eles entram com o pedido de divórcio. E, quando recebem dinheiro, sempre em dólares ou euros, desaparecem e criam outros perfis.

Sandra explica que os indianos não possuem certidão de nascimento e nem possuem registro de casamento na Índia. Os rituais são mais importantes do que documentos legais. Segundo ela, “O primeiro registro de um indiano é a matrícula escolar aos cinco anos de idade. Atualmente, a matrícula escolar está valendo como certidão de nascimento, pois o governo já fez campanha, mas nem o pessoal da classe média das cidades registram seus filhos.”. Assim, eles não se casam legalmente, vivendo uma relação sem nenhum vínculo com a lei.

Uma leitora portuguesa escreveu para o blog Indiagestão:

Sandra, realmente acontece muito isso aqui em Portugal, mas as pessoas muitas vezes até sabem que eles querem só documentos ou dinheiro, mas se iludem a pensar que depois não vão pedir divórcio e casar na Índia . Coisa que dificilmente acontece, pois, na realidade todos querem documentos e dinheiro  para regressarem à Índia, e se casar com quem a família quer, e retornar ao país onde obtiveram cidadania.

Estou deduzindo que o sujeito casa no país onde quer morar. Divorcia. Volta para seu país, onde se casa com a escolhida da família, sem nos esquecermos da história do dote, e volta com a nova esposa para o país, onde ganhou o direito à cidadania. É mesmo um golpe bem urdido. O mais triste é saber que mulheres ingênuas ainda caem nessa fria.

Nem todos os países permitem que tal engodo seja usado por estrangeiros. O estranho que se casa na Noruega, por exemplo, ao separar-se, perde o visto de residência. Contudo, a cidadania de um estrangeiro, nos países que não levam em conta o divórcio, como no Brasil, só é retirada quando entram questões de segurança nacional. Assim, as interessadas em se casar, antes de caírem na teia de aranha indiana, devem procurar conhecer as leis de seu país. É bom lembrar que o namoro com indianos vem acontecendo muito através da internet, desaguando em muitos casamentos inconsequentes… e divórcios.  Portanto, não é aconselhável ir com muita sede ao pote, esquecendo-se das consequências que poderão vir. Toda calma e juízo são poucos!

Segundo o comentário de uma brasileira, que vive há doze anos no Japão, as mulheres ali também são vítimas dos estrangeiros, que querem ficar no país, pois, ao se casarem, eles ganham o visto de permanência, com o qual ficam mesmo após o divórcio. Casam e divorciam-se, e voltam com outra mulher de seu país de origem.

Por ter escrito muitos textos sobre a Índia, por ocasião da novela Caminhos das Índias, recebi muitos e-mails de brasileiras que estavam namorando indianos, via internet. Diziam-me que estavam indecisas quanto a casarem-se ou não, pois não conheciam os costumes do país. Fica aqui, portanto, a sugestão de que não devem se precipitar, pois podem estar caindo numa tremenda armadilha. Há casos de muitas mulheres que foram se casar na Índia e por lá desapareceram. Quem estiver com um namorado indiano, seria bom que buscasse ler as informações de alguém que vive no país, como Sandra Duarte Bose, em seu blog Indiagestão. Vejam o que ela me escreveu:

“Lu, estive ontem na embaixada do Brasil para pegar meu novo passaporte e uma funcionária disse-me que existe um número imenso de indianos querendo ir para o Brasil, mas que eles logo voltam, para pegar as esposas escolhidas pelos pais. A coisa está ficando crítica! Obrigada pela ajuda de alerta às brasileiras. Beijos, Sandra.”

Minhas caras leitoras, nós podemos ajudar, ao fazer com que um grande número de mulheres, no nosso país, tome ciência desse problema, que vem se alastrando como erva daninha. Muitas delas, com vergonha do que lhes aconteceu, não expõem seus comentários no blog, mas me enviam e-mails sofridos e cheios de arrependimento. Peço a todas aquelas, que participam de redes sociais, que postem o link deste artigo, assim como os outros a seguir. E quem não participa, que envie os links, via e-mail, para seus contatos, pedindo-lhes para repassá-los. Vamos fazer uma corrente e desmascarar esses fajutos “príncipes indianos”, matreiros como raposas .

Leiam também, abaixo, textos sobre o mesmo assunto, e conheçam a gravidade do problema a que estão sujeitas as mulheres ingênuas:

ÍNDIA – MULHER ESTRANGEIRA  X  INDIANO
ÍNDIA – BRASILEIRAS, ACAUTELAI-VOS!
ÍNDIA – INDIANOS SEDUZEM NA INTERNET
ÍNDIA– INDIANOS VIRTUAIS JURAM AMOR ETERNO

 Nota: Foi criada uma page no FB e o nome é “GOLPISTAS EM REDES SOCIAIS, ATENÇÃO MULHERES”  Vejam o depoimento abaixo: (enviado pela leitora Luna)

“Moça, mulher, menina muçulmana ou não muçulmana, leiam por favor: Se um cara da Índia, Paquistão ou de qualquer outro país árabe entrar em contato com você, dizendo que a ama, ou quer namorar com você, ou vir ao Brazil para casar-se consigo, fique alerta, pois  99% dos casos tratam-se de armadilhas  e mentiras. O cara vem aqui, fica um tempinho, consome seu dinheiro e some. Não caia nessa, e nem culpe o Islã, pois este tipo de pessoa não sabe nada e não aplica nada do islamismo em sua vida. Cansei de falar isso em mensagem, mas agora a coisa está ficando de mais. Então chega.”  *Nassim J. Islamismo

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RELÓGIO PARA QUÊ?

Autoria de Alfredo Domingos

relógio 1

 Diariamente, faço caminhada. É muito bom! Além do proveito para a saúde, vale como  terapia, longe dos consultórios apertados, refrigerados e repletos de assuntos delicados. Meu trajeto é feito pelas ruas da vizinhança. São arborizadas, agradáveis, propícias à atividade. Já conheço alguns vizinhos, caminhantes ou não, porteiros, ambulantes, jornaleiros, o resto mais. Carrego o celular, que me oferece música e a hora certa. O relógio de pulso também me acompanha. Fica mais fácil consultá-lo do que retirar o celular do bolso para saber da hora.

Outro dia, esqueci em casa tudo de que preciso. “Cabeça de vento”, como diria a minha mãe! Mas aceitei o desafio. Fui caminhando e curtindo.  Quando precisasse situar-me no tempo, perguntaria a alguém. Pois é, veio, então, o momento. Avistei um perfeito atleta aproximando-se. Passadas vigorosas, alto, fortão, boné vermelho da Ferrari, grandes óculos escuros espelhados, tênis turbinados e alaranjados, fones de ouvido e para completar um vistoso relógio dourado, daquele tipo usado pelo famoso apresentador das tardes de domingo. “Ô, loco, meu!”

Ao cruzarmos um pelo outro, perguntei sem querer atrapalhar o exercício:

 – Companheiro, diga as horas, por favor.

A resposta deixou-me boquiaberto. Foi deste jeito:

– Não posso. Este relógio não marca hora.

O quê?! Pensei, mas não falei que não acreditava.

Um relógio serve para muitas coisas, nós sabemos, porém, o mínimo que ele faz, o essencial mesmo, é indicar a hora presente. Registrar o tempo que nos envolve. Mostrar o momento de sair, chegar, correr, estudar, pedir “help”, comer, tomar remédio, etc., etc. O homem trazia tantos apetrechos engenhosos, que imaginei ser facílima a minha pergunta. Ou será que o amigo se ligava em várias coisas grandíssimas que o simples passar dos ponteiros não tinha a menor relevância? Será?

Em decorrência, só sei que até desisti de continuar na caminhada. “Enfiei a viola no saco” e voltei quietinho para casa, vexado! Assimilei que o problema havia sido meu – que abuso da minha parte interpelar altiva figura.

 Finalmente, perguntei-me querendo apoio:

– Relógio para quê?

(*) Imagem copiada de www.relogioserelogios.com.br

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