Botticelli – A CALÚNIA DE APELLES

Autoria de Lu Dias Carvalho

apelles

A Calúnia de Apelles, obra de Sandro Botticelli, foi realizada para o financeiro Antonio Segni, usando como modelo descrições de uma pintura do grego Apelles, feita cerca de 300 a.C.

Na composição, um homem inocente é levado à presença de um juiz (ou um rei), que possui compridas orelhas de burro, que mostram o quanto ele é estúpido, apesar de ocupar um alto cargo. O magistrado encontr-se entre duas mulheres – a Desconfiança e a Ignorância – que a seus ouvidos murmuram mentiras e leviandades. Ele estende seu braço direito na direção de um homem encapuzado – a Inveja – que imita o seu gesto.

A Calúnia carrega, numa das mãos, uma tocha acesa e com a outra arrasta o inocente. A Traição e a Mentira ornamentam os cabelos da Calúnia, para torná-la mais aliciante e acreditável. O inocente encontra-se nu e tem as mãos em estado de prece, como a pedir clemência.

Mais afastadas da cena encontram-se duas personagens: A Contrição (ou Penitência) e a Verdade Nua. A Contrição, uma senhora idosa, tem as vestes rotas. Simboliza a longa busca para encontrar a verdade.

A mão e os olhos da Verdade Nua estão direcionados para os céus e simbolizam que toda a confiança está depositada no Altíssimo, e, que Nele está a Verdade absoluta, que sempre acaba triunfando.

Ficha técnica:
Data: 1495
Técnica: têmpera sobre madeira
Dimensões: 91 x 62 cm
Localização: Galeria de Uffizi, Florença, Itália

Fontes de pesquisa:
1000 obras-primas da pintura europeia/ Könemann

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ESCRAVIDÃO BRANCA NO BRASIL – REVOLTA DE IBICABA

Autoria de Beto Pimentel

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Meu nome é Heinrich Schlittler. Nasci do Cantão de Glarus na Suíça, em plena primavera de 1829, numa casa modesta de um vilarejo de onde se avista os Alpes. Meu pai era alfaiate, profissão que herdara do seu avô, ofício no qual eu também era aprendiz, desde os meus 14 anos. Fui educado dentro dos padrões e da ética da religião presbiteriana. O nosso racionalismo com relação ao convívio social é a capacidade protestante de associação para fins do interesse comum. É precisamente essa qualidade que possibilita a associação de pessoas para ir além do convívio familiar, sem que haja conflito ou confusão entre as relações afetivas e com as de interesse. Nossa norma moral pressupõe que, antes de obedecer aos homens, devemos obedecer a Deus. Assim, nossa sociedade encontra harmonia, pois permite que as relações sejam entre iguais, em contraponto com as relações entre pessoas de um modelo puramente hierarquizado.

A Suíça passava por uma profunda crise econômica associada ao uma explosão demográfica. Uma praga, conhecida com “a doença da batata”, alastrou-se pelas plantações reduzindo em mais de 50% das colheitas deste tubérculo, nosso principal alimento naquela época. Devido à escassez de alimentos e recursos para importá-los de outras regiões, passávamos fome. A situação obrigou muitos jovens, desempregados, soldados que voltavam das intermináveis guerras da Europa a procurarem uma saída na emigração para outros países. A propaganda de então falava de um novo eldorado: o Brasil, onde havia muita comida, terra em abundância e grandes oportunidades. Formamos um grupo e viajamos com destino à terra prometida. Deste grupo composto por 87 pessoas somente 13 conheciam e tinham trabalhado em atividades agrícolas. Os demais eram operários de fábricas, sapateiros, carpinteiros, pedreiros, pintor, mestre-escola e alfaiate como eu. Enfim, não tínhamos muitas alternativas, e o governo de certa forma nos incentivava a emigrar.

Do porto de Santos partimos para o nosso destino: a Fazenda Ibicaba, situada Limeira no Estado de São Paulo, de propriedade do senador Nicolau Pereira de Campos Vergueiro, cuja empresa levava o seu nome. O senador Vergueiro foi quem promoveu a vinda de imigrantes suíços para o Brasil, mas era contra as colônias de povoamento com doação das terras aos imigrantes, alegando que esse procedimento não atendia às necessidades do Império – que na época estava em busca de mão de obra livre para substituir a escrava. As estradas no Brasil eram poucas e muito precárias. Quando chovia muito a situação piorava ainda mais, tornando certos trechos intransitáveis. A nossa viagem até a fazenda Ibicaba durou quase um mês e foi muito penosa, principalmente para as mulheres, mais idosos e as crianças.

A fim de viabilizar o cultivo nas suas fazendas de café, o senador estabeleceu um sistema de parceria, através de contrato firmando através de um agente no país de origem dos imigrantes. Esse documento estabelecia o número de pés de café que recaia sobre a responsabilidade de cada família imigrante. Ao finalizar a colheita, os lucros auferidos com a venda das sacas de café seriam divididos entre os imigrantes e o proprietário da fazenda. No entanto, o contrato incluía uma série de exigências que indicavam a exploração da mão de obra, clausulas típicas de uma época na qual os trabalhadores braçais não contavam com nenhum tipo de garantia, e estavam sob o jugo dos grandes proprietários de terras.

O regime de semiescravidão ficava evidente no compromisso de cada família imigrante em pagar os custos da sua viagem com um acréscimo de juros à taxa de 6% ao ano. Adicionalmente, os imigrantes contratados pelo senador ficavam responsáveis por cuidar de cafezais localizados em áreas de baixa produtividade, e só podiam comprar gêneros alimentícios fornecidos pela própria fazenda, aumentando por um longo período os vínculos com o proprietário. Através desse contrato, nós, imigrantes, fomos reduzidos a uma condição similar a dos escravos negros. Esses últimos mantinham-se cativos pela força do seu dono, enquanto que nós havíamos perdido a liberdade pela obrigação jurídica totalmente desigual entre as partes.

O nosso grupo era integrado por um mestre-escola, Thomaz Davatz, que tinha como missão oficial enviar à Suíça um relatório acerca das condições de vida e trabalho na colônia, que servisse de orientação às autoridades suíças quanto à política de emigração. Também ministrava aulas e realizava cerimônias religiosas nos cultos protestantes.

Não demorou muito tempo para percebemos os problemas do dia a dia no “novo eldorado”. O clima quente, os insetos, os desconforto causado por uma cultura tão diferente da nossa, na qual a educação e a discrição nos cultos presbiterianos eram fatores prioritários, contrastando com o modo inculto de viver dos brasileiros da época. Dia após dia, o nosso entusiasmo inicial com a nova terra ia diminuindo e percebíamos que estávamos numa terra onde não se respeitavam os contratos firmados.

Em virtude das arbitrariedades e da interpretação pessoal da lei pelos proprietários e os seus prepostos, havíamos nos tornado tão escravos como os próprios negros. Não demoraria muito para começarem as agressões corporais, já nos castigavam com multas, prisões, restrições de liberdade, etc. No seu livro (1) Davatz acrescenta:

“Será exagero entender que os colonos estão sujeitos a novas formas de escravidão? Os próprios filhos de certo fazendeiro não hesitaram em apoiar essa convicção, dizendo que ‘os colonos eram os escravos brancos (de seu pai), e os pretos seus escravos negros’. E outro fazendeiro enunciou a mesma crença, quando declarou abertamente aos seus colonos: ‘comprei-os ao Sr. Vergueiro. Os senhores me pertencem.”(1)

Em virtude de a situação ter se tornado insuportável, Thomaz Davatz conseguiu, através de manobras inteligentes – já que toda correspondência era censurada pelo todo poderoso senador Vergueiro – enviar um relatório ao cônsul suíço no Rio de Janeiro, uma carta destinada às autoridades suíças explicando a situação dos colonos, denunciando o engodo representado pelo sistema de parceria. Exposto ao público e, portanto ao senador Vergueiro, Thomaz Davatz foi chamado, na manhã de 24 de dezembro de 1856, à sede da fazenda Ibicaba para dar explicações – através de um intérprete, pois só falava alemão. Nessas circunstâncias, totalmente descontentes com a dura realidade em que vivíamos e ainda muito mais com o pagamento do primeiro ano trabalhado, decidimos reagir em apoio ao mestre-escola. No levante armado somente dois tiros foram disparados sem que houvesse mortes, mas a repercussão foi tamanha que as autoridades suíças proibiram novas emigrações e acabou fazendo com que o Império do Brasil viesse a remodelar as relações entre grandes propriedades e os imigrantes.

Thomaz Davatz voltou para a Suíça, já com a saúde bastante abalada. Mas muitos de nós permanecemos no Brasil, na esperança de nos tornarmos pequenos proprietários de terras ou praticarmos livremente os nossos ofícios. Casei com Christine Beck, que conheci na viagem da Suíça ao Brasil e, no ano de 1877 em que escrevo essas memórias, já temos seis filhos brasileiros e vemos que o nosso trabalho e cultura influenciaram positivamente o futuro do país que escolhemos para viver.

Nota: Histórias contadas por minha avó e tias paternas, descendentes de Heinrich Schlittler, tataravô do autor.

Ref.: DAVATZ, Thomas Memórias de um colono no Brasil. Trad., prefácio e notas: Sérgio Buarque de Holanda. São Paulo: Livraria Martins.

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A MAJESTOSA GARÇA BRANCA GRANDE

Autoria de Antônio Messias Costa

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Majestosa, de linhas alongadas e voo suave, a garça branca é o habitante mais presente na avifauna da cidade de Belém, onde pode ser encontrada em colônias nas grandes árvores das praças e nos refúgios naturais dos Parques do Museu Goeldi, Mangal das Garças e Bosque Rodrigues Alves, muito embora, isolada ou em pequeno número, pode ser encontrada até mesmo em áreas de drenagens da cidade, onde o seu branco contrasta com a sujeira de ambientes contaminantes, o que indica ser um animal já com uma certa resistência natural a infecções.

Na cidade de Belém, elas almoçam no Mercado de Peixes do Ver-o-Peso, namoram na Praça Batista Campos e usam como local de maternidade (nidificam na copa de uma sumaumeira do Parque) o Museu Goeldi. Elas sabem bem usar as oportunidades que a cidade oferece!

Curiosamente, essas maravilhas aladas, cuja beleza às vezes nos é despercebida por serem tão comuns, possuem, na época reprodutiva, acréscimos de penas diferenciadas, sobrepostas às existentes. Essa roupagem associa-se a rituais não muito elaborados na época de acasalamento.

A natureza é sabia, basta prestar atenção no que acontece. Por exemplo, as aves de plumagem bela, de um modo geral, têm um repertório de canto inexistente ou fraco, ao contrário daquelas de plumagem pobre, que compensam a falta de tal atrativo com a beleza do canto para conquistar. Também existem aquelas aves que unem o canto, a plumagem e o ritual na conquista. Tudo isso é feito pelo macho, já que na maioria dos casos, a fêmea tem plumagem opaca e canto pouco elaborado.

Mas, por que a fêmea é muitas vezes menos favorecida em beleza? Assim, ela é menos percebida pelos predadores e tem mais chance de proteger seus ovos na fase de incubação e, posteriormente, a sua prole. O macho usa o canto para defender seu território e também atrair as fêmeas. Durante a fase de conquista, o macho que se sai melhor, normalmente o mais elaborado e persistente, será o escolhido pela fêmea, e terá a chance de passar geneticamente as suas características e “performances” para as gerações futuras, contribuindo para a perpetuação da espécie, evidentemente se as agressões humanas assim o permitirem.

Um fato inusitado ocorreu em um viveiro coletivo de aves do Parque do Museu Goeldi, em Belém, onde havia muitas garças. Na época de reprodução, uma ave de dentro do viveiro compartilhava a feitura de um ninho no alto do telame, com uma garça de fora, isolada do grupo interno. O que de fato ocorria era que a competição presente no grupo interno, ou mesmo a desproporção entre machos e fêmeas, colocou de escanteio alguns indivíduos menos competitivos, fato que também pode ter ocorrido na colônia de fora, em uma árvore próxima, daí o enlace que não durou muito, em razão das dificuldades que a barreira física impunha.

Outro fato envolvendo as garças deu-se no final do século XIX, quando eram dizimadas nas regiões de Manaus e principalmente no Pará, para que suas penas fossem exportadas para a Europa, onde a moda era utilizar penas nos chapéus da alta sociedade da época. Foi quando o naturalista suíço, Emílio Goeldi, então diretor do Museu que leva o seu nome em Belém, levantou uma forte campanha contra o massacre a que tais aves estavam sendo submetidas.

A garça branca grande, tem o nome científico de Casmerodius albus, é cosmopolita,  sendo encontradas em vários continentes, tem um amplo cardápio, alimentando-se de peixes, crustáceos, anfíbios, répteis, larvas entre outros itens, fator importante para que tenha se proliferado tanto. É vista em grandes e pequenos grupos ou solitárias. A disponibilidade de alimento e a competição por área de reprodução podem influenciar o seu comportamento em relação ao agrupamento.

Nota: Foto do autor.

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O MENINO E A FLORESTA

Autoria de Hely Pamplona

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Encontrei Edimundinho, garoto de oito anos, na comunidade de Mocoons, na Ilha de Marajó. Sua mãe foi para a cidade trabalhar como doméstica e ele passou a ser criado pelos avós, coisa muito comum no Norte do país. Os pais partem em busca de serviço nas grandes cidades, enquanto os filhos ficam sob os cuidados dos avós ou parentes idosos, esperando que da cidade chegue ajuda para a família de parcos recursos.

A vida do garoto consiste em brincadeiras nos rios, montar búfalos mansos ou cavalos típicos da Ilha de Marajó. Também ajuda o avô na caça e na pesca. Devido o calor da região, traz sempre o tronco descoberto.

Da porta de sua habitação tosca de madeira, o garoto observa a relva verde e a floresta mais adiante. Em que estaria pensando Edimundinho?

Nota: Foto do autor
Contato: helypamplona@hotmail.com

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Botticelli – O NASCIMENTO DE VÊNUS

Autoria de Lu Dias Carvalho

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A Vênus de Botticelli é tão bela, que não nos apercebemos do comprimento incomum do seu pescoço, ou o acentuado caimento dos seus ombros, e o modo singular como o braço esquerdo se articula ao tronco. Ou, melhor ainda, deveríamos dizer que essas liberdades que por Botticelli foram tomadas a respeito da natureza, a fim de conseguir um contorno gracioso das figuras, aumentam a beleza e a harmonia do conjunto na medida em que intensificam a impressão de um ser infinitamente delicado e terno, impelido para as nossas praias como uma dádiva do Céu. (E. H. Gombrich)

O Nascimento de Vênus (1484) é uma das mais famosas obras de Sandro Botticelli. Nela, segundo alguns críticos, o artista revela as mudanças de sua visão do mundo, de modo que Vênus representa a alma cristã a emergir das águas do batismo. Juntamente com sua obra A Primavera, a pintura em questão é um dos pontos altos da maturidade do pintor italiano.

A composição retrata a chegada de Vênus (Afrodite) — nascida da espuma do mar — à terra. Embora desnuda, a deusa não sugere erotismo algum, ao contrário, passa-nos uma extrema pureza. Ela se encontra dentro de uma enorme concha que é impelida para a praia pelo deus Zéfiro e pela ninfa Clóris. Na margem encontra-se a esperá-la uma das Horas, para colocar sobre ela um manto de púrpura bordado de flores.

Ao contrário de outros pintores que optaram pela representação mais sensual da deusa Vênus, Botticelli representou-a na pose conhecida como “Vênus Pudica”, imitando a pose de uma antiga e famosa estátua romana.

A figura delgada da deusa Vênus tem a mão direita cobrindo um dos seios, enquanto a esquerda cobre-lhe a virilha, usando as pontas de seus longos cabelos ruivos, gesto comum às pessoas pudentes. Ela desliza sobre o mar, de pé na parte mais pontuda da concha, numa atitude de confiança plena. Possui um olhar meigo e distante, imersa em seus pensamentos.

Muitas rosas são vistas sobretudo sobre Zéfiro e Clóris. A rosa — flor do amor — é a flor sagrada de Vênus e foi criada quando ela nasceu. Os espinhos das rosas são para nos lembrar de que o amor também pode ser doído.

Zéfiro, vento primaveril, é o filho da Aurora (amanhecer). Clóris, a ninfa, foi raptada pelo apaixonado Zéfiro. Ao se tornar sua noiva, ela se transformou em deusa e passou a se chamar Flora — aquela que é responsável pelas flores. Entrelaçados, os deuses alados impelem Vênus para a praia em meio a uma chuva de rosas.

A deusa Hora é uma das quatro Horas que simbolizam as estações do ano. Ela simboliza a primavera — estação do renascimento. Hora usa uma veste de fundo claro, salpicada de flores. Traz no pescoço uma guirlanda de murta.

A natureza encontra-se em festa, para receber tão sublime divindade. As folhas, flores e troncos das árvores parecem bordados com ouro. Mar e céu fundem-se num abraço de tons verdes e azuis.

Os personagens da obra possuem mãos e pés bem delineados e fortes, com dedos longos. Essa é uma característica das figuras pintadas por Botticelli. Todo o quadro é perfeitamente harmonioso, tendo Vênus como figura central. A deusa Hora parece flutuar em razão da graciosidade de seus movimentos. O mar, cujas ondas em forma de V apresentam-se mais calmas quando mais distantes, agita-se ligeiramente perto da praia com o sopro de Zéfiro.

O Nascimento de Vênus foi uma pintura revolucionária para o seu tempo, por ser a primeira obra de grande porte renascentista a tratar um tema laico e mitológico, abrindo mão dos temas sacros. Por isso, chega a ser surpreendente que o quadro tenha escapado da ira sagrada do monge beneditino Savonarola que consumiu outras tantas obras de Botticelli porque, segundo o extremista, teriam “influências pagãs”. O Nascimento de Vênus foi encomendado a Botticelli pelo rico mercador Lorenzo di Pierfrancesco de Medici, responsável por patrocinar a viagem de Américo Vespúcio ao Novo Mundo.

Ficha técnica:
Data: 1483
Técnica: têmpera sobre tela
Dimensões: 172,5 x 278,5 cm
Localização: Galleria degli Uffizi, Florença, Itália

Fonte de Pesquisa:
Grandes Mestres/ Abril Coleções
1000 obras primas…/ Könemann
A Arte em Detalhes/ Robert Cumming
A História da Arte/ Sextante A História da Arte/ LTC

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Botticelli – A PRIMAVERA

Autoria de Lu Dias Carvalho

primavera

A composição intitulada Primavera — também conhecida por Alegoria da Primavera — é mais uma das magníficas obras do pintor florentino Sandro Botticelli. Seu quadro, concluído em 1478, tinha por finalidade enfeitar a residência de verão dos Medici, tendo sido encomendado por Lourenzo, o Magnífico. Ao lado de “O Nascimento de Vênus” esta obra contribuiu para que o pintor fosse ainda mais prestigiado pelos Medici. É hoje um dos quadros mais populares e reverenciados na arte ocidental. A pintura que possui um formato monumental com figuras em tamanho natural reverencia a chegada da estação das flores, usando uma temática mitológica clássica.

Vênus — divindade ligada à primavera — está representada no centro do quadro, como se observasse tudo. Encontra-se vestida com recato e a posição da mão direita sugere que esteja abençoando toda a cena. O volume de sua barriga leva o observador imaginar que esteja grávida, mas trata-se apenas do pregueado de suas vestes. As árvores atrás dela formam um arco quebrado, como a distingui-la dos demais personagens. Acima da deusa está Cupido, seu filho, com os olhos vendados, apontando a sua flecha para as Três Graças (Aglaia, Talia e Eufrósina) que representam a beleza, a castidade e a sensualidade. À esquerda de Vênus, envolto numa túnica azulada, encontra-se Zéfiro — vento primaveril — com suas bochechas infladas, a fecundar Clóris. Seus traços são tristes. As árvores à sua volta vergam sobre ele.

Clóris — a ninfa da terra — está coberta por um transparente véu. Seu rosto é delicado e ela aparenta surpresa e medo ao ser tocada por Zéfiro. Uma fileira de flores sai de sua boca após ser fecundada. A seguir, transforma-se em Flora, a deusa da primavera que se apresenta com um vestido florido e, nas dobras desse, carrega muitas flores que ela espalha em volta. Cinge-lhe a cabeça uma coroa de flores e o pescoço está envolto por uma guirlanda também de flores. Ela tem plenos poderes sobre a primavera.

O chão da clareira encontra-se forrado de plantas e flores, enquanto frutas pendem das árvores. Segundo pesquisas, há cerca de 500 espécies de plantas identificadas e retratadas na pintura e cerca de 190 espécies diferentes de flores. Botticelli foi orientado ao pintá-las, assim como também passou a conhecer-lhes a simbologia.

As Três Graças estão cobertas por finos e transparentes véus. Elas dançam graciosamente, celebrando a chegada da primavera. A sensação de movimento e leveza transmitida pelo artista é tamanha que elas parecem flutuar — essa é a maneira típica de serem retratadas, sendo que uma delas se apresenta sempre de costas para o observador. Mercúrio — deus mensageiro dos ventos — usa uma túnica escarlate e uma espada à cintura e dissipa as nuvens com seu bastão de serpentes, a fim de que o jardim fique sempre iluminado pelos raios do sol.

Todos os personagens estão belamente representados. Seus movimentos são graciosos e harmônicos. A combinação das vestes brancas diáfanas das Três Graças com o vestido florido da deusa Flora e com a postura delicada das mãos de Vênus faz desta pintura uma das obras mais encantadoras do Renascimento italiano. Do traço gracioso de Sandro Botticelli flui feminilidade e delicadeza.

Obs.:
Alguns críticos de arte dão outros sentidos à pintura, como o de que retrata o ideal de amor neoplatônico popularizado entre os Medici e seus seguidores. Mas a grande maioria confirma que se trata de um grupo de figuras mitológicas num jardim, festejando a chegada da primavera. Explica que a leitura do quadro deve ser feita da direita do observador para a esquerda:

Zéfiro, o vento cortante de março, sequestra e possui a ninfa Clóris, com quem mais tarde se casa e a transforma em divindade, Flora, que se torna a deusa da Primavera, portadora da vida eterna, espalhando rosas pelo chão.

Infelizmente esta obra maravilhosa de Sandro Botticelli vem escurecendo muito com o passar dos anos.

Ficha técnica:
Data: t. 1482
Técnica: têmpera sobre madeira
Dimensões: 203 x 314 cm
Localização: Galeria Uffizi, Florença, Itália

Fonte de Pesquisa:
Grandes Mestres/ Abril Coleções
1000 obras primas…/ Könemann
A Arte em Detalhes/ Robert Cumming
A História da Arte/ Sextante
Renascimento/ Editora Taschen

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