Mestres da Pintura – SANDRO BOTTICELLI

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Botticelli é um verdadeiro filho do século 15 e exatamente nisso reside sua importância e seu encanto peculiar. Nele, a arte florentina da última fase do século atinge o ápice da perfeição. (Wilhelm von Bode / 1921)

O lirismo da arte de Botticelli também inspirou modernos compositores, poetas, romancistas e cineastas. Chamadas visuais baseadas em A Primavera e o O Nascimento de Vênus fazem parte da cultura popular ocidental. (David Garrif)

O pintor florentino Sandro Botticelli (1445 – 1510) quando tinha 17 anos de idade foi apresentado ao talentoso e prestigiado artista frade Filippo Lippi, para iniciar a arte da pintura, mas não demorou muito para que o aluno superasse o mestre com suas figuras suaves, rostos sérios e expressões contemplativas, buscando apresentar a realidade interior de seus personagens. A arte não tinha compromisso com a realidade, devendo ser puramente espiritual, religiosa e simbólica. Ele estava de acordo com a visão religiosa da época que via na pintura um instrumento de propagação da fé.

Quando jovem, Botticelli reverenciava os deuses pagãos da Antiguidade — Vênus, Apolo, Diana, Mercúrio —, mas após a sua permanência de um ano em Roma, quando produziu Tentação de Cristo, As Provações de Moisés e Punição dos Rebeldes, a sua visão de mundo começou a mudar, culminando com o caso do frade dominicano Savonarola. Antes que adentremos na vida e obra de Botticelli é bom que saibamos um pouco sobre a época em que viveu.

Naqueles tempos os nobres e os burgueses — controladores da política e da economia — viam na pintura votiva um meio de agradar os mais influentes que se posicionassem acima deles e, mais do que tudo, um jeito de barganhar com Deus. Pensavam eles que o Todo Poderoso haveria de reduzir a pena a ser cumprida, quando se tratasse de um bom patrono. Por isso, os retratos e as alegorias dos poderosos tinham como motivos principais os episódios bíblicos e outros temas religiosos. E como os artistas dependiam de tais senhores, não lhes restava outra saída, senão pintar o que lhes era encomendado. Alguns se ressentiam com as algemas impostas à sua arte, mas muitos deles comungavam com as mesmas crenças dos patronos, executando sua arte com profundo zelo e convicção religiosa. Dentre os últimos encontrava-se Botticelli.

Sandro Botticelli tornou-se protegido de Lourenço de Médici, de sua família e de seus amigos. Ao servir gente tão importante, sua fama crescia cada vez mais. Já não conseguia aceitar todas as encomendas que lhe eram feitas, apesar de ter muitos alunos que o ajudavam na preparação dos materiais e nas pinturas dos detalhes mais fáceis. Após a morte de Lourenço de Médici houve um período de grande agitação política, inclusive com a ascensão de um frade dominicano de nome Savonarola que se opunha ferozmente à vida mundana da época, pregando que o povo simples e virtuoso de Florença haveria de salvar a cidade contra a decadência dos costumes depravados da nobreza em relação ao luxo e à vaidade. Mas Savonarola, ao desafiar os poderosos, foi acusado de heresia e queimado na fogueira.

Sandro Botticelli mostrou-se bastante afetado com os acontecimentos envolvendo o frade. Uma das mudanças mais visíveis em sua vida foi a popularização de sua pintura. Seus trabalhos deixaram de ser direcionados à elite, tornando-se acessíveis ao grande público, além de conter, cada vez mais, elementos populares. Ele abriu mão do mundo esteticamente perfeito da Antiguidade Clássica, para aderir ao mundo moralmente perfeito dos mártires cristãos, imbuídos de heroísmo, abnegação e fé, mesmo diante da tortura e da morte, como aconteceu com Savonarola. Passou a viver um período de intensa religiosidade. É desse período a pintura Alegoria da Calúnia, numa alusão à perseguição contra o frade dominicano.

Os últimos anos de vida de Botticelli foram dedicados à meditação solitária de sua fé e ao estudo dos ensinamentos deixados pelo frade. Não mais se interessava pela vida cotidiana de Florença. Não mais se sentia interessado pelas mudanças que traziam o século XVI, vistas nos trabalhos de Michelangelo, Leonardo da Vinci e Rafael. Ao contrário deles, ignorava propositalmente as leis de perspectiva, usava os ornamentos em excesso e dava ênfase ao popular.

Sandro Botticelli morreu pobre, solitário e esquecido, só sendo “redescoberto” pelos pintores românticos do século XIX, para os quais a melancolia irreal de seus personagens veio novamente representar a expressão da beleza idealizada, pois, enquanto para Leonardo da Vinci a pintura era a realidade pesquisada e a busca de conhecimento, para Sandro ela estava fora da realidade, devendo ser apenas uma comunicação com Deus. Ele tinha a mesma visão dos pintores medievais, para quem “o mundo visível era a emanação de Deus”. Portanto, o belo era o ideal supremo. Assim, os últimos anos vividos pelo pintor foram muito sofridos. Ele passou por um progressivo declínio físico e artístico. As encomendas escassearam em nada lembrando seus áureos tempos. Mas seu nome e seu trabalho jamais serão esquecidos.

Fontes de Pesquisa:
Os pintores mais influentes…/ Editora Girassol
História da Arte/ E.H. Gombrich
Tudo sobre a Arte/ Editora Sextante
1000 obras primas…/ Könemann
Gótico/ Taschen

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A FORÇA DA MULHER RIBEIRINHA

Autoria de Hely Pamplona

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Dona Raimunda é o típico exemplo da mulher do interior da Amazônia. Nos seus 84 anos, ela ainda se encontra ativa, remando sua canoa através dos igarapés, em busca da lenha que usará em seu fogão, único meio de coser os alimentos para sustento da família, normalmente compostos por peixe e, eventualmente, caça. O açaí e a farinha jamais podem faltar na alimentação da gente amazônica.

Impressionou-me o vigor dessa senhora, que sobe sozinha o igarapé, manejando sua canoa pesada, cheia de pedaços de árvores mortas, recolhidas na floresta, em meio a tantos perigos: serpentes, animais peçonhentos e, até mesmo ataques de jacarés.

Dona Raimunda possui braços musculosos e rosto marcados pela inclemência do sol. Ela diz que tal serviço é rotineiro em sua vida e que os perigos da floresta e de seus rios não mais a amedrontam. Já conhece bem os caminhos pelos quais navega desde menina, ajudando a família. Conta que não é fácil a vida da mulher ribeirinha, perdida naquele mundão de água e matas.

Nota: Foto do autor
Contato: helypamplona@hotmail.com

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Bosch – CRISTO CARREGANDO A CRUZ

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Perdoai-os Senhor, pois eles não sabem o que fazem. (Cristo)

Cristo Carregando a Cruz é uma das mais fantásticas obras de Hieronymus Bosc, sendo bem provável que se trate de um dos seus últimos trabalhos. É possível encontrar um pouco do estilo expressionista nas feições dos personagens presentes na obra. O artista consegue, através da expressão distorcida das figuras, repassar um clima de tensão, ódio, brutalidade e vingança.

No espaço quadrado da obra, o artista reuniu dezessete personagens, ao retratar a humilhação pública de Cristo. Algumas delas são vistas a partir da metade superior do tronco, outras a partir do ombro, e de algumas só aparece a cabeça ou o rosto. A ocultação do corpo das figuras repassa ao observador uma sensação de abafamento e aglomeração. Não há profundidade na composição, de modo que não é possível ao observador, desviar sua atenção  dos rostos grotescos e do rosto inocente de Cristo.

Jesus, a caminho do Calvário, ocupa o centro da pintura. E sua cruz, em diagonal, apresenta apenas a parte superior. Seus olhos fechados recusam-se a presenciar a maldade humana. As mãos que seguram a cruz são as de Simão Sirineu.

O Cristo silencioso, cujo rosto situa-se no encontro de duas diagonais, repassa tristeza, dor e resignação, contrasta com a algazarra dos verdugos e suas faces ferozes, que se encontram em grupos de três e quatro pessoas.

No canto inferior esquerdo, Verônica exibe um pano com o rosto de Cristo. O bom ladrão, de rosto pálido e olhos angustiantes, aparece no canto superior direito, entre dois algozes, enquanto o mau ladrão,  amarrado com cordas, é o último, na parte inferior direita.

Esta pintura tão organizada e serena é uma das que fogem à criatividade fantástica e desmedida do artista.

Ficha técnica:
Data: 1515 -1516
Técnica: óleo sobre madeira
Dimensões: 76, 7 x 83,5 cm
Localização: Museum voor Kunsten, Ghent, Bélgica

Fontes de Pesquisa:
Gênios da pintura/ Abril Cultural
A história da arte/ E.H. Gombrich
Grandes Mestres/ Abril Coleções

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OXALATO DE ESCITALOPRAM OU FLUOXETINA

Autoria de Lu Dias Carvalho

       descabelada     feliz
                         Antes                                                        Depois

Meus caros amigos, hoje eu lhes quero dar um precípuo testemunho e desejar que, com o meu relato, algumas almas desorientadas, aflitivas e tontas como era a minha, encontrem a salvação, não a eterna, mas a terrena, já que a primeira é consequência da segunda. Amém!

O fato é que eu andava fastidiosa e serrazina com este mundo nauseabundo. Nada minimizava o nojo e o desalento entranhado no meu pobre espírito, alquebrado pela abirritação e dolência, amarfanhado por dilatados e inconceptos ardis dos muitos contratempos desta vida. E pior, eu achava que era a única vivente a carregar tão achavascada cruz.

O maridão, não aguentando o embate com os meus atormentados demônios, tratou de salvar a própria pele, tentando me persuadir a procurar um bom psiquiatrista para, ao menos, abrandar a minha afronesia. Até ele, coitado, que sempre foi tido como o pai da paciência, não estava me suportando mais. O que dá uma ideia de como a coisa estava braba, brabíssima.

Embora com as ideias meio desconjuntadas pelos fricotes de minha mente, um lampejo de lucidez mostrou-me que poderia usar a insistência do meu varão para fazer escambo. Então, elenquei uma centena de pedidos. Alguns bem incabíveis e inusitados, eu bem sei. Mas não poderia perder a ensancha. Vai que o especialista da mente me restaurasse a massa cinzenta por completo e eu não tivesse outra oportunidade… O melhor era me precaver.

Ajustes feitos na transação e ciente de que detinha 90% das vantagens, selamos o compromisso. Eu aceitei ir ao psiquiatra, para o bem da família, dos bichanos, dos amigos e do mundo concreto que me rodeia, assim como do virtual. Como eu era chata, maçante, enfadonha, impertinente, rabugenta, tediosa e sofrida! Nem eu mesma me aguentava, mas não tinha como me ver livre de mim ou de deixar-me num canto de algum armário.

Dr. Wander Lemos, o psiquiatra, recebeu-me com cara de bons amigos. Entabulamos vários assuntos antes de entrarmos no X da questão. Aqui para nós, penso que esse tipo de introdução seja para avaliar o grau de desvairamento do paciente. Mas ao me perguntar sobre o motivo que me levou até ele, aproveitei a deixa e desfiei as contas do meu martírio, bem mais apavorantes do que o de Joana D`Arc. E o maridão, que já conhecia toda a ladainha de cor e salteada, ali ao lado, dando o suporte estratégico.

Contei ao especialista que já era uma velha batalhante nos desacertos de minha mente, herança de minha amadíssima avó, que tomava cloridrato de fluoxetina havia um bocado de tempo, sem falar em muitos outros cloridatos já apagados pela memória. Foi quando ele me sugeriu mudar para certo oxalato de escitalopram, bem mais moderno. Meu Deus, quem seria esse tal mancebo? Como me trataria? Dúvidas cruéis!

Meus caros leitores, confesso que foi um duro golpe para mim, a “sugestão” dada pelo doutor, pois durante 15 anos, a Fluô (fluoxetina) e eu vivemos como unha e carne, duas grandes e inseparáveis amigas. Ela me conhecia muito melhor de que eu mesma. Havia passado muitos percalços a meu lado, sem jamais me abandonar. Sabia de tudo o que se passava em minha mente, conhecia os meandros de minhas fantasias e as mágoas acumuladas ao longo de tantos anos de caminhada juntas. Passar de uma hora para outra a conviver com esse tal senhor oxalato de escitalopram, seria como trair uma amizade feita com os neurônios de minha cadeia nervosa. E eu nunca fui mulher de atraiçoar aqueles que me são caros. Dura decisão!

Ainda havia um senão, que ora lhes conto, meus amados. A Fluô era uma pessoa simples e comedida, que exigia de mim pouquíssimo valor monetário. Gastava com ela uma quantia pequena, a cada dois meses. É fato que a amiga já fora muito poderosa, quando usava o nobre nome de Prozac. Depois que caiu sua patente, a coitadinha de minha amiga virou gente comum, sem nenhum aparato de nobreza. E estava aí a maior causa do meu forte apego a ela. Não sabia ainda o que o tal do oxalato de escitalopram iria exigir por sua permanência comigo. Mas não tardaria por esperar.

Eu não tinha saída, pois no contrato que firmara com o meu “husband” havia uma cláusula em que me comprometia a seguir a orientação do especialista. Só não contava com o golpe de ter que me afastar de minha doce e generosa Fluô. Pensei que o tratador da mente fosse me recomendar uns gramas a mais da benignidade dela. E foi sob o rigor da lei matrimonial que dei adeus à minha companheira querida, mas que perdera a força para conter os meus chiliques e fricotes. Não me restava outro caminho, senão lhe dizer adeus. Ela ainda permaneceria no meu corpo durante 15 dias, até que se esvaísse por completo. Só então, estaria eu preparada, ou seja, purificada, para receber o outro mancebo. E também evitaria uma síndrome serotoninérgica.

Dr. Wander apresentou-me o tal senhor oxalato de escitalopram, presenteando-me com uma caixinha mirrada, uma amostra grátis bem magrelinha, com sete comprimidos apenas. Disse-me que o tal mancebo em questão viera da Dinamarca e, por isso, exigia um dote cinco vezes maior do que aquele pago à minha velha amiga Fluô, brasileiríssima. Coração e bolso trombetearam ao mesmo tempo, mas o olhar do machão repassou, em neon, a ordem de que eu deveria aceitar, pois saúde e bem-estar não têm preço. Com certeza, pensava mais na sua paz de espírito do que em mim. Aceitei, já que nossa conta é conjunta e o rombo seria pela metade. Mas saí do consultório pisando alto. Indignada, é bom que se diga.

Eis que a cartelinha acanhada, inexpressiva e raquítica acabou, e lá fui eu comprar o “bendito” para os outros dias faltantes. Quase caí do salto com seu valor abusivo. Levei o tal dinamarquês para casa numa revolta sem igual, xingando todas as suas gerações. Tomara que fossem inundados pelo degelo da calota polar do Ártico e, que os vikings voltassem para dizimá-los. Eu poderia comprar mensalmente tantos livros, CDs e DVDs com um valor daqueles… E pior, como o ciclo lunático, o desgraçado do remédio só vinha com 28 comprimidos. Aqueles dinamarqueses ignorantes nem sabiam que só o mês de fevereiro possui 28 dias. Ou era ganhuça das brabas? Eu fazia questão dos outros dois comprimidos. Pensei até em procurar o PROCON, mas o maridão falou que me bastava deixar de comprar alguns pares de sapatos anualmente. Sendo assim, manda quem pode e obedece quem tem juízo. E eu tinha o discernimento de que precisava de ajuda.

Amigos queridos, foi assim que conheci o jovem Oxalato de Escitalopram. Confesso que, apesar da saudade da Fluô, no segundo dia de affaire, tirando os exageros do romance, eu já estava apaixonada pelas transformações que ele operava em mim, embora seu preço acabasse sempre por me jogar na cama, digo, na lona. Valeria à pena continuar um amancebamento tão oneroso para uma das partes? O meu buldogue dizia que sim. E ao marido a gente sempre obedece… Desde que exista algo compensativo no pacto.

Mas, como tudo na vida flui, principalmente levando em conta a guerra travada entre os laboratórios farmacêuticos, uns parentes mais pobres do moçoilo começaram a chegar ao mercado do país, fazendo com que o dote do nobre e donairoso Escitalopram despencasse. Seu preço agora é módico, modicíssimo em relação a seu valor inicial, principalmente no que tange a seus familiares. Diria que já quase equivale ao preço da minha querida Fluô. O que foi a salvação de minha mente conturbada e amotinada. E o nosso aconchego não mais passa por nenhum tipo de desencontro. Haja paixão!

Devo confessar aos leitores que o novo embeleco mudou minha vida. Hoje, o mundo é tão azul quanto o planeta Avatar. A humanidade é composta por anjos resplandecentes e generosos, sem um laico de egoísmo. O sofrimento inexiste. Homens e animais vivem em perfeita harmonia. A justiça impera em todos os lugares da Terra, inclusive no Brasil. Não existem  desigualdades sociais, tampouco qualquer tipo de preconceito em relação às raças. O planeta é tratado com respeito. E eu sou brilhante, insinuante, coruscante e maravilhosa.

Só não sei, amigos, por quanto tempo durará o meu chamego com tal varão, pois, como sabem vocês, os homens são seres inconstantes e inconsistentes. Mas o Oxa (apelido carinhoso) tem sido um cavalheiro, daqueles que nos amparam com fervor nos momentos mais difíceis da vida. Além do mais, goza de todo o apoio do titular (Existe marido que é cego!). Posso ficar sem o meu varão, mas sem o Oxa, nem ver. Sem me amancebar com ele, uma vez por dia, meus pensamentos ficam inquietantes, rodopiando na bacia do cérebro, sem saberem onde parar, tamanho é o embeleco. E eu perco toda a minha tesura, ou melhor, textura.

Portanto, meus leitores, para uma vida risonha, nada como um amante perfeito. Mas que o seu custo não seja muito grande, pois, se assim for, nossos problemas redobram. O retorno de um amásio deve ser exageradamente maior do que os prazeres que lhe damos. Fora disso não há enrabichamento que resista, ou força que mantenha o amancebo.

Atenção:

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Nota: Imagens copiadas de transitivoedireto.blogspot.com e  br.freepik.com

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KEVIN CARTER E A FOTO PREMIADA

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Estou deprimido, sem telefone, sem dinheiro para o aluguel, sem dinheiro para a manutenção dos filhos, para as dívidas. Dinheiro! Estou atormentado pelas lembranças vividas dos assassinatos e dos cadáveres da ira e da dor… Das crianças feridas e que morrem de fome, dos loucos do gatilho leve, com frequência da polícia, dos assassinos e verdugos. (Trecho da carta de despedida de Kevin Carter)

A foto acima, tirada numa aldeia do Sudão em 1993, é do fotógrafo sul-africano Kevin Carter (1960/1994). Depois de ser publicada no The New York Times, a foto acabou ganhando o Prêmio Pulitze por Recurso Fotográfico, o mais cobiçado prêmio do jornalismo, em 1994, sendo reproduzida em várias partes do mundo, representando o rosto da fome na África.

Após a publicação da foto pelo The New York Times, os leitores passaram a entrar em contato com o jornal, querendo saber o que teria acontecido com a criança faminta. O que levou os donos do jornal a emitir um comunicado, dizendo que a criança era capaz de fugir do abutre, mas que nada sabiam sobre seu destino.

Na foto, Carter mostra uma dos milhares de crianças famintas do Sudão, à época, sem forças nem para levantar a cabeça, aparentemente entregue à própria sorte. Tem por companhia apenas um abutre atento, que a acompanha em sua agonia, com o objetivo de se servir de seu corpo como repasto. Carter foi duramente criticado por não ter feito nada. O fotógrafo acabou se culpando, segundo dizem, por não ter ajudado a criança semimorta e teria dito:

– Um homem ajustando suas lentes para tirar o melhor enquadramento de sofrimento dela talvez também seja um predador, outro urubu na cena.

O mais triste é que, um ano após ter tirado esta foto, Kevin Carter, acometido por uma depressão profunda, acabou se suicidando. Carter começou a trabalhar como fotógrafo de esportes de fim de semana em 1983, mas 1984 mudou-se para trabalhar para a Estrela Joanesburgo, empenhado em expor a brutalidade do apartheid.

Segundo informações, os pais de Kong Nyong (nome da criança da foto) foram contatados 18 anos após a foto ser tirada e contaram que seu filho sobreviveu à fome, tendo morrido quatro anos depois, vitimado por uma infecção.

Embora o bebê use no bracinho direito uma pulseira de plástico com a inscrição T3, assinalando a presença da ONU no local, vê-se que suas condições são lastimáveis. A pulseira é também indicativa de que o fotógrafo não abandonou a criança. Segundo João Silva, repórter gráfico sul-africano, ele e Carter estavam viajando acompanhados de autoridades da ONU. Eles ficaram no local apenas 30 minutos, enquanto era feita a distribuição de alimentos, e aproveitaram para tirar fotos. Conta João Silva que era a primeira vez que seu amigo tinha contato real com o drama da fome e ficou bastante chocado. Kevin Carter, que era uma pessoa depressiva e tinha uma vida bem complicada, suicidou-se aos 33 anos.

A foto de Kevin Carter contribuiu para que o planeta voltasse seus olhos para o que acontecia na África e, infelizmente, continua a acontecer.

Reflexões

Cada dia a natureza produz o suficiente para nossa carência. Se cada um tomasse o que lhe fosse necessário, não havia pobreza no mundo e ninguém morreria de fome. (Gandhi)

A Terra provê o suficiente para satisfazer as necessidades de todos os homens, mas não sua ganância. (Gandhi)

Há o suficiente no mundo para todas as necessidades humanas; não há o suficiente para a cobiça humana. (Gandhi)

Fontes de pesquisa:
http://www.mdig.com.br/index.php?itemid=17330
Wikipédia

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VISITANDO MANAUS – (Parte 2)

Autoria de Beto Pimentel

onca

No texto anterior, falava eu de um passeio a Manaus, que agora retomo para contar mais um capítulo.

Cansados e famintos, avançamos por mais meia hora rio acima, e paramos para almoçar à moda  dos ribeirinhos, num  restaurante flutuante à margem do rio. Descanso necessário para podermos enfrentar a caminhada logo mais, a seguir por uma trilha, selva adentro.

Mal acabamos de almoçar num barco restaurante, atracado às margens do Rio Mar, quando o nosso guia nos chamou para iniciarmos a nossa aventura pela Selva Amazônica. A temperatura situava-se na marca de 42 ºC naquela tarde ensolarada de verão. Uma grande quantidade de turistas, em fila indiana, seguia o guia, a partir das margens do rio mata adentro. A trilha era sinuosa e estreita em alguns trechos, tornando-se mais larga em outros. Após caminharmos cerca de 20 minutos, paramos sob a sombra de uma grande árvore.

 – Esta árvore, senhores e senhoras, é um Mulateiro. Planta nativa das regiões tropicais da Amazônia, encontrada na proximidade dos rios, em áreas de várzea e em clareiras de solo argiloso. São também caracterizadas como plantas pioneiras. Esta árvore alcança de 25 a 30 metros de altura, sendo indicada também para o plantio em áreas degradadas. A sua casca é utilizada pelos indígenas para curar cortes, o seu córtex para infecções oculares e sua seiva é utilizada como antibacteriana, antioxidante, repelente e está sendo empregada em cosméticos para a eliminação de manchas de pele, cicatrizes e prevenção de rugas – explicava o nosso guia.

 Protegidos pela sombra das magníficas árvores, seguimos apreciando cada detalhe que a Natureza ia oferecendo aos nossos olhos fascinados, rumo ao nosso destino, que se tratava de um igarapé onde poderíamos apreciar quelônios, pássaros e as demais surpresas que a vida selvagem nos apresenta.

Eu caminhava quase no final da enorme fila, quando um barulho vindo da mata chamou a minha atenção. Olhando para a copa das árvores, percebi uma grande agitação. Eram macacos bugios que ruidosamente saltavam entre os galhos das grandes e altas árvores da Amazônia. Fascinado, fiquei parado, observando o comportamento dos grandes macacos por vários minutos. E, quando o bando de símios se afastou do meu campo de visão, fez-se um grande silêncio na mata. Nesse momento, dei-me conta que também pertencia a um grande grupo de Homo Sapiens, parentes do grupo em cima das árvores, e que necessitava voltar e seguir o meu caminho, junto com os outros da minha espécie. Olhei para todos os lados e não mais vi o grupo. Caminhei na trilha durante cerca de quinze minutos na esperança de encontrá-los. Podia ouvir o silêncio da mata. Mama mia! Havia me perdido!

Entretanto, esta não fora a primeira vez que eu passava por tal experiência. Assim, com passos acelerados na medida do possível, pois havia muitos obstáculos na trilha – restos de árvores cortadas, galhos caídos, etc. – fui caminhando instintivamente pela trilha. De repente, atingi uma clareira no meio da mata e o silêncio foi quebrado bruscamente por um barulho de vegetação seca e gravetos quebrados. Ufa, só pode ser o grupo de turistas!

– Olá, onde vocês estão? – falei em voz alta.

Nenhuma resposta. Olhei em volta da clareira e percebi que do lado oposto ao ponto onde terminava a trilha que me levara até ali, começavam três novas trilhas. E nesse momento, percebi que tinha somente duas opções: voltar pela trilha até o rio ou me aventurar através de um dos três novos caminhos e, com muita sorte, encontrar o grupo. E, foi nesse momento que, voltando os olhos para a direita, que levei um baita susto. A poucos metros, estava uma grande onça pintada. O magnífico felino, no topo da cadeia alimentar da selva, olhava fixamente na minha direção. Também imóvel e tremendo muito, fiquei ali parado, olhando para ele.

Sempre ouvi dizer que desgraça pouca é bobagem. Neste sentido, de repente, sai da mata um menino. Cerca de um metro de altura, cabelos ruivos e com os pés virados para trás. O Curupira. Lembrei-me de que os índios da Amazônia relatam o seu aparecimento para as pessoas que se perdem nas matas e, geralmente, nunca voltam para contar a sua experiência. Lembrei-me do relato de pessoas que passaram por experiências em que a sua existência, aqui neste mundo, ficara por um fio e dizem que a sua vida passara como um filme na  mente. Confesso que foi o que senti. Minutos pareciam segundos. Mas, de repente, ouvi um grande estrondo no céu, seguido por uma voz alta e grave.

 – Sou Tupã! Com um sopro, criei todas as formas humanas, dotando-as de espíritos do bem e do mal. Enviei o Curupira, entidade que defende os animais da caça e da pesca e protege as plantas da extração predatória do homem, para manifestar a minha ira em relação ao mal que os humanos estão fazendo ao planeta Terra. Ele é um ícone muito importante. É preciso começar a conscientizar  as crianças da importância da preservação  da Natureza. Esta entidade não tolera aqueles que depredam a Natureza,  caçam animais por prazer, e pode punir severamente, transformando caçadores em presas. Por outro lado, ajuda as pessoas de coração puro que estão perdidas ou em perigo.

E, como apareceu, a voz se foi. O deus do trovão nada falou sobre a onça. Ainda surpreso, esperava entender o porquê da presença também da onça.  Seria um julgamento! Sim, sem dúvida, o Curupira estava ali para me julgar. Quando garoto, gostava de caçadas – embora quase sempre sem sucesso, para alegria dos pobres  bichos. Agora seria caçado pela onça. Perdido, comecei a rezar alto. Foi quando senti uma forte sacudidela no ombro. Abri os olhos e vi o nosso guia e várias pessoas ao meu redor rindo.

– Acorda homem, estávamos muito preocupados com o seu sumiço. E você aí dormindo sob a sombra desta árvore, feito um bebê.

(*) Foto do autor, iniciando um processo de comunicação com a comadre onça.

Referência:
Projeto Curupira – http://www.kurupira.net/projetokurupira/foclore.php;
http://pt.wikipedia.org/wiki/Mitologia_guarani

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