Bosch – OS SETE PECADOS CAPITAIS

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Os Sete Pecados Capitais, composição também conhecida como Os Sete Pecados Mortais e os Quatro Novíssimos do Homem, é uma das obras-primas de Hironymus Bosch, que enfatiza o destino da humanidade. O painel foi concebido originalmente para ser o tampo de uma mesa, e pode ter sido encomendado por alguma ordem religiosa. Sabe-se apenas que, posteriormente, passou a fazer parte da coleção do rei espanhol Felipe II, juntamente com outras obras de Bosch.

 Os sete pecados capitais estão representados num círculo central, dividido em sete cenas, ornadas com títulos em latim, e, em torno desse, estão quatro discos menores, ou medalhões.

 O disco central corresponde ao olho de Cristo ressuscitado. Ele se encontra na pupila, em pé, sobre o túmulo, mostrando suas chagas. Em torno da íris de Cristo estão várias linhas radiais douradas e a frase: “Cave cave deus videt” (Cuidado, cuidado, Deus vê). A imagem remete ao significado do olho de Deus, que tudo vê. E o que ele vê? Os sete pecados capitais cometidos pelo homem.

 A córnea está dividida em sete seções, em forma de trapézio, que representam os sete pecados mortais que são: a Gula, a Preguiça, a Luxúria, a Vaidade, a Ira, a Inveja e a Avareza. São assim mostrados:

 
  1.  dois homens devoram tudo aquilo que a dona da casa serve-lhes.  O mais magro deles, de pé, vira vira um jarro de vinho na boca. Uma criança obesa pede ao homem gordo mais comida. Tudo na cena indica que aquelas pessoas só vivem para comer (Gula);
  2. um homem dormindo, assentado, tendo um gato a seus pés (Preguiça). A mulher com um rosário na mão, lembra ao preguiçoso que ele está deixando de lado seus deveres espirituais;
  3. três casais de amantes encontram-se numa tenda, com instrumentos musicais e um recipiente com vinho espalhados pelo chão. Há também uma mesa posta com comida e vinho (Luxúria);
  4. uma mulher, diante do espelho, mostra-se excessivamente apegada a seu novo chapéu, sem notar que um demônio é quem segura o espelho, tendo parte do corpo escondido atrás do armário (Soberba ou Vaidade);
  5. dois homens deixam a taberna e põem-se a brigar, enquanto uma mulher tenta apaziguá-los (Ira);
  6. um homem rejeitado, olha com ciúme o rival (Inveja).
  7. um juiz corrupto recebe suborno (Avareza);

 Os quatro medalhões, nos cantos da composição, descrevem as quatro últimas etapas na vida do homem: Morte, Juízo Final, Inferno e Paraíso. Vejamos:

  1. um homem encontra-se deitado no seu leito de morte, rodeado por religiosos e, possivelmente um parente, aos pés da cama. Um anjo e um demônio jazem na cabeceira da cama, enquanto a morte, à espreita, esconde-se atrás da cabeceira. Num outro compartimento, duas mulheres conversam;
  2. Cristo apresenta-se no Juízo Final, rodeado de santos e anjos, enquanto os mortos são ressuscitados, para serem julgados, conforme seus merecimentos;
  3. Cristo apresenta-se em seu trono, rodeado por anjos e santos. Os homens bons são recebidos no portão do Paraíso. Os eleitos são mostrados em duas outras partes;
  4. seres humanos passam pelas mais diferentes torturas no Inferno. Um caldeirão com um líquido fervente aguarda os maus.

 Significado dos textos em latim: “Porque é uma nação insensata, desprovida de inteligência. Se fosses sábios, compreenderiam e discerniriam aquilo que os espera (parte de cima). Ao ver tais coisas, o Senhor indignou-se com seus filhos e suas filhas e disse: vou lhes oculta o meu rosto e verão o que lhes sucederá… Pois são uma geração perversa, filhos sem lealdade (parte de baixo).

O tema da composição lembra aos pecadores que é preciso refletir sobre o que os aguarda após a morte, destino certo de toda a humanidade. A obra mostra, mais uma vez, a preocupação do artista com a humanidade e seu destino após a morte.

Segundo alguns estudiosos, possivelmente o tampo da mesa do Prado tinha como objetivo levar à meditação, ajudando no exame de consciência, que os cristãos deveriam fazer antes do ato da confissão.

 Ficha técnica

Ano: c. 1500-1520
Técnica: óleo sobre madeira
Dimensões: 120 x 150 cm
Localização: Museu del Prado, Madri, Espanha

 Fontes de Pesquisa:
Gênios da pintura/ Abril Cultural
A história da arte/ E.H. Gombrich
Tudo sobre arte/ Sextante
Grandes pinturas/ Publifolha
Grandes Mestres/ Abril Coleções
Os pintores mais influentes do mundo/ Girassol
Bosch/ Taschen

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Bosch – O INFERNO MUSICAL

Autoria de Lu Dias Carvalho

Bosch…inferno o descobridor do inconsciente. (Carl Jung)

O Inferno Musical situa-se na janela direita do Tríptico do Jardim das Delícias.  Representa os castigos a que estarão sujeitos homens e mulheres, se não se enveredarem no caminho do bem, afastando-se dos pecados.  Hieronymus Bosch apresenta um mundo onírico, demoníaco, opressivo, de incontáveis tormentos, onde estão presentes o fogo e o gelo.

 A presença de vários instrumentos musicais, símbolos tradicionais do amor e da luxúria, usados pelos seres satânicos, dão nome à pintura. Para quem não sabe, a diversão era tida como um caminho para o pecado, à época de Bosch. Portanto, na pintura, os instrumentos musicais são transformados em instrumentos de tortura.

 Logo no alto do painel, uma cidade está sendo consumida pelo fogo, enquanto uma atmosfera sulfurosa remete à visão que se imagina do Inferno. Logo abaixo, vê-se um símbolo fálico em forma de tanque de guerra, composto por uma lâmina e duas orelhas. Na faca está escrita a letra M. A origem de tal letra aventa várias explicações. Uma delas sugere que representa a palavra “mundus”. E, logo abaixo, são mostradas as barbaridades da guerra, com a punição dos condenados.

 Dentre os elementos figurativos presentes na composição estão o vaso e a lanterna, que simbolizam o sexo feminino, enquanto as facas e os calçados são emblemas do sexo masculino. O ato de subir escadas é representativo, muitas vezes, da relação sexual.

 No canto inferior da composição, um monstro híbrido, semelhante a uma ave gigantesca, está assentado sobre um trono, em pose autoritária, devorando os miseráveis sofredores e  defecando-os num poço de excrementos. Castigo dado àqueles que se escravizaram pelo pecado da gula. Um enorme caldeirão serve de capacete para o ser infernal. Abaixo do trono do monstro, um homem vomita e outro defeca moedas, simbolizando a avidez pelo dinheiro. Sob o manto do monstro, uma mulher é acossada por um diabo em forma de árvore, tendo ela que olhar sua imagem refletida nas nádegas desse, que lhe serve de espelho.

 No canto inferior esquerdo da composição, um porco com um véu de freira está abraçado a um homem, enquanto uma criatura de armadura, em frente, observa os dois. O animal parece estar falando ao ouvido do homem, que tem sobre a perna esquerda um testamento, seduzindo-o para que doe seus bens à Igreja. Bosch parece querer mostrar a ganância da Igreja, muito mais comprometida com o poder temporal do que com o divino, fato que vemos assumir formas assustadoras nos dias de hoje.

 Bem no centro da composição, está o homem-árvore, parte homem, parte árvore e parte ovo, que olha diretamente para o observador. Seus braços são como troncos de árvore e estão descansando sobre barcas. O tórax está aberto e oco, e no seu interior há mais seres estranhos. Encontra-se dentro de um lago gelado, sobre o qual patinam alguns condenados, enquanto o gelo se quebra. A cabeça do monstro serve de base para um alvo (um disco) e para uma gaita de foles cor de rosa, que representam o masculino e o feminino, respectivamente. Em volta de tais objetos circulam bruxas, demônios e pecantes.

Vejamos algumas cenas:

  1. um homem sangrando é carregado numa vara por um coelho, enquanto de sua barriga o sangue jorra com força, como numa explosão;
  2. uma figura nua está amarrada a um alaúde;
  3. uma figura está presa nas cordas de uma enorme harpa;
  4.  uma figura foi enfiada dentro de um instrumento de sopro;
  5. um homem, sobre um tambor azul, tem enfiado no ânus uma flauta, enquanto dois outros estão colocados dentro do tambor;
  6. dois animais estraçalham um corpo, etc.
  7. do ânus da figura engolida pelo monstro sentado na cadeira saem pássaros negros;
  8. uma mulher com um dado na cabeça faz menção aos jogos de azar, etc.

As obras de Bosch continuam difíceis de serem explicadas, pois grande parte da simbologia medieval ainda continua desconhecida.

 Ficha técnica:
Data: 1480 – 1490
Tipo: óleo sobre madeira
Dimensões: 220 x 97 cm
Localização: Museu do Prado, Madri

 Fontes de Pesquisa:
Gênios da pintura/ Abril Cultural
A história da arte/ E.H. Gombrich
Arte em detalhes/ Publifolha
Tudo sobre arte/ Sextante
Bosch/ Tachen
Grandes pinturas/ Publifolha
Grandes Mestres/ Abril Coleções
Os pintores mais influentes do mundo/ Girassol

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VISITANDO MANAUS (Parte 1)

Autoria de Beto Pimentel

folha

Sinto o avião desacelerando devagar. Neste instante, uma voz ecoa no sistema de autofalante da aeronave:

 – Atenção senhores passageiros, aqui é o comandante para informá-los que já iniciamos o procedimento de descida para o Aeroporto Internacional Eduardo Gomes, em Manaus, com estimativa de pouso para as 12h33min, hora local. O tempo em Manaus está bom, com poucas nuvens e a temperatura local é de 38ºC no momento.

Olho para o meu relógio de pulso e começo ajustá-lo para o novo fuso horário de Manaus, voltando no tempo 2 horas, pois está em vigor o horário de verão.  A seguir, olho pela janela do grande pássaro de aço. Só vejo nuvens embaixo de um céu de brigadeiro, iluminado pelo sol do meio dia. Distraidamente, folheio uma revista de bordo e encontro um excelente artigo sobre Manaus, seus pontos turísticos, o Rio Mar, seu povo, sua cultura e suas indústrias. Volto a olhar pela pequena janela e não há mais nuvens, somente um belo e imenso mar verde, entrecortado por rios de todos os tamanhos, serpenteantes num imenso mar verde. E, à medida que descemos, as árvores vão se tornando maiores, mais exuberantes. De repente o avião balança fortemente. As luzes de alerta do teto piscam e o alerta sonoro soa.

– Apertem os cintos!

A voz firme da comissária de bordo avisa que estamos atravessando uma área de turbulência. Mas, felizmente dura pouco e o desconforto causado pela turbulência logo passa. Já se passaram 20 minutos do aviso do comandante. Volto a olhar para a mata novamente e, logo à frente, já consigo avistar Manaus.

Não sei bem o porquê, mas toda vez que me aproximo de Manaus, lembro-me de um ditado popular da  região: “ Quem bebe a água do Rio Negro, come o peixe Jaraqui, não sai  mais  daqui!”.

  Não tomar a água do Rio Negro constitui uma hipótese improvável porque é o manancial utilizado para o sistema de tratamento e abastecimento da capital, sendo captada desse importante e emblemático rio. Já comer o Jaraqui, um peixe muito abundante na região e de bom paladar, nunca deixarei essa iguaria de lado. Ir a Manaus e não comer peixe com pirão feito com a farinha local é como ir a Roma e não ver o Papa. Talvez essa seja a razão de eu ter viajado tantas vezes a Manaus!

O dia seguinte da minha chegada à cidade era um sábado que amanheceu magnífico. Acordei às 6 horas, tomei banho, vesti-me e tomei café. Logo chegaram os amigos para um passeio de barco, partindo do cais do Hotel Tropical de Manaus. Barco lotado. Turistas de várias partes do mundo. Torre da Babel a bordo. Na proa, um guia turístico ia explicando a origem e as características de  cada ponto de interesse que  podia ser avistado nas margens do rio.

– Estão vendo aquela marca naquele barranco à  esquerda – dizia o guia – é a marca deixada pela última enchente, mais de 20 metros! Mais adiante, o prédio da primeira cervejaria da região!

Neste momento, avisto um ponto de captação de água para tratamento e distribuição na cidade e comento com o guia a tão falada pureza da água do Rio Negro,  que necessita de  pouca adição de produtos químicos e decantação. Mas o guia corrige o meu comentário. Necessitava, pois, infelizmente, já se constata a elevação de contaminantes químicos e orgânicos em alguns pontos do rio.

O barco continua avançando rio acima, passa sob uma moderna e bonita ponte. O calor é forte, obrigando-nos a tomar muito líquido. Uma turista chinesa, sentada à minha frente dorme, está quase caindo da cadeira, vencida pelo calor. Mas de repente, começamos avistar à frente, alem das águas escuras do Rio Negro, as águas pardas do Rio Solimões. Botos aparecem aqui e acolá, dando boas vindas ao fenômeno do encontro das águas. É o Rio Amazonas nascendo, formando-se, em seu destino de rio mar. Neste instante, de posse do seu potente microfone, o guia explica:

 – As águas não se misturam por quilômetros! Os estudiosos do assunto relatam três motivos para que isso não ocorra: a velocidade das correntezas, a diferença de temperatura e de acidez das águas dos rios.

Permanecemos cerca de meia hora, observando o fenômeno da Natureza, com os botos nos homenageando e circulando junto ao barco. No céu avistam-se revoadas de pássaros, bandos de araras Canindé, tucanos… Puro deleite junto à Natureza.

O barco parte calmamente. Cansados e famintos, avançamos por mais meia hora rio acima e paramos para almoçar à moda  dos ribeirinhos, num  restaurante flutuante à margem do rio. Descanso necessário para podermos enfrentar a caminhada logo mais, a seguir por uma trilha, selva adentro.

Referências:

(1)   http://sustainabledevelopment.un.org/ – UNITED NATIONS
(2)   INPA – Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia

Nota: Foto do autor, junto à maior folha do mundo da planta Coccoloba da região Amazônica.

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Bosch – O JARDIM DAS DELÍCIAS TERRENAS

Autoria de Lu Dias Carvalho

                                                 (Clique na imagem para ampliá-la.)

O Tríptico do Jardim das Delícias, de Hieronymus Bosch, traz na parte central O Jardim das Delícias Terrenas, na esquerda o Paraíso e na direita o Inferno. A parte central mostra homens e mulheres, de raças diferentes, unidos em pares ou em grupos, alguns em posturas inocentes e outros em posturas luxuriosas, despidos, espalhados pelo Jardim. O grande grupo convive com várias espécies de animais, pacificamente, e algumas pessoas comem grandes frutos. Todos celebram os prazeres da carne, sem acanhamento ou sentimento de culpa.

O Jardim das Delícias Terrenas é na verdade um falso paraíso, pois ali reina apenas o pecado, especialmente o da luxúria, que acaba por levar o ser humano ao inferno. Este painel traz uma profusão de imagens, com inúmeros símbolos, a maioria deles desconhecidos. São vistas diversas formas de relações eróticas heterossexuais, homossexuais e onanistas. Há também relações eróticas ou sexuais entre animais e entre plantas.

Na Fonte da Juventude (analisada por alguns como a Fonte do Adultério ou Fonte Carnal), mulheres nuas com corvos (símbolo da incredulidade), pavões (símbolo da vaidade), íbis (referem-se às alegrias passadas) e frutas na cabeça banham-se, atraindo os homens ao redor. Os moralistas medievais viam a mulher como fonte do pecado da luxúria e, provavelmente, essa era também a visão de Bosch.

A cavalgada da libido, na parte superior da composição, contorna a Fonte da Juventude, onde se encontra um bando de mulheres provocantes. Os homens nus estão montados em animais em pelo. Os animais montados  são reais e alguns  imaginários. Na Idade Média, os animais eram identificados com os apetites mais baixos ou carnais da natureza humana, e o ato de cavalgar era usado como metáfora sexual.

A presença de suculentas frutas, como cerejas, framboesas, uvas, etc, são uma alusão aos prazeres sexuais e também à fugacidade do prazer, pois passam do frescor para a degeneração. O morango, às vezes usado como uma menção às gotas do sangue de Cristo, aqui é uma metáfora sexual, sugerindo atividade carnal. Ele é visto na pintura como alimento, abrigo e embarcação. Bizarras plantas, minerais e conchas também são vistos no quadro.

À esquerda da composição, dentro do lago, existem grandes pássaros, com pontos luminosos formando os olhos, pintados com minúcias, que também simbolizam o erotismo. Estranhas estruturas encarceram o corpo humano em algumas cenas, elas são vistas como o pecado que aprisiona a alma humana.

Um globo cinza azulado, onde são realizadas acrobacias sexuais, boia dentro de um rio com figuras bizarras. Outras criaturas extravagantes encontram-se dentro de estranhas estruturas que parecem serem feitas de vidro.

Muitas pessoas e animais são mostrados em posições invertidas. Dentro do lago está um homem com cabeça e tronco submersos, enquanto as pernas, visíveis, estão abertas em forma de Y, com um ovo vermelho do qual sai um pássaro. Esta inversão mostra que tudo ali é falso e pecaminoso.

Na parte inferior do painel, à esquerda, um homem vestido, o único com vestes na composição, indica uma mulher deitada, enquanto olha para fora do quadro. Para alguns, ele seria Adão e ela Eva. Para outros, seria Eva sendo assinalada por João Batista, como culpada por ter sido a origem do pecado.

Toda a composição expõe o prazer dos sentidos, ou seja, a luxúria, que pode ser vista em inúmeras cenas, como:

  1. o casal dentro de uma bolha, à esquerda, com o homem com a mão na barriga da mulher;
  2. o casal dentro de uma concha;
  3. o homem que mergulha na água, escondendo o sexo com as mãos;
  4. o rapaz que coloca flores no ânus de seu companheiro, etc.

Bosch mostra que o Jardim das Delícias é uma ilusão, um falso paraíso, pois tudo ali é falso e transitório, levando o homem a perder sua alma ao se dedicar à perversão. E o fato de não se ver crianças na obra, significa que o sexo era usado apenas para o prazer.

Estudiosos continuam estudando esta complexa iconografia de Hieronymus Bosch, pois na época em que viveu o pintor, os símbolos eróticos eram inumeráveis, simbolizados por frutos, animais, plantas, etc.

Ficha técnica:
Ano: c. 1510
Técnica: óleo sobre madeira
Dimensões: 220 x 195 cm (parte central)
Localização: Museu do Prado, Madri, Espanha

Fontes de Pesquisa:
Gênios da pintura/ Abril Cultural
A história da arte/ E.H. Gombrich
Arte em detalhes/ Publifolha
Tudo sobre arte/ Sextante
Grandes pinturas/ Publifolha
Grandes Mestres/ Abril Coleções
Bosch/ Taschen
Os pintores mais influentes do mundo/ Girassol

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Bosch – O PARAÍSO TERRESTRE

 Autoria de Lu Dias Carvalho

paraisoSede fecundos e multiplicai-vos e enchei a terra; e dominai sobre os peixes do mar e as aves do céu. (Gênesis: 1,28)

O Jardim do Éden, também chamado de O Paraíso Terrestre, situa-se na janela esquerda do tríptico O Jardim das Delícias.  Representa o último dia da criação, quando Deus criou o primeiro homem e a primeira mulher. O artista mostra o momento em que o Criador apresenta Eva, ajoelhada, a Adão, desperto. A imagem de Deus é tradicional. Com a mão esquerda ele segura Eva pelo pulso, para apresentá-la a Adão. E com a direita, ele abençoa o casal.

No Paraíso, encontram-se flores, frutos, animais e os primeiros seres humanos. Uma dracena, postada logo atrás de Adão, representa a Árvore da Vida. Ao lado dela estendem-se outras espécies frutíferas e plantas exóticas.

No centro do lago, que fica no meio da composição, está uma fonte rosa, misto de caranguejo, concha e planta, que simboliza a Fonte da Vida, da qual nascem os rios do Paraíso. Ela se encontra sobre pedras preciosas. Na parte oval da fonte, ocupando o centro de gravidade da composição, está uma coruja, cujo significado ainda é incerto, já que a ave tanto tem significado positivo como negativo. Para alguns, ela representa a sabedoria e para outros a feitiçaria. O animal observa a criação de Adão e Eva.

À direita da composição, a meia altura, está a Árvore do Conhecimento, do bem e do mal, a única a conter o fruto proibido. Uma serpente está enrolada em seu tronco. Esquisitos animais, saídos da água, guiam-se em direção a ela.

Bizarras criaturas, terrestres e marinhas, aparecem em primeiro plano, em volta do espelho d’água. Ali, alguns animais comem outros. Um gato carrega um rato na boca e aves alimentam-se de rãs e sapos. Mais ao longe, no alto da composição, um leão devora um cervo, e um estranho bípede é perseguido por um javali. Existem muitos animais no jardim, como elefante,  girafa e outras criaturas imaginárias, como o unicórnio, símbolo da pureza, e o pássaro de três cabeças. Dois coelhinhos encontram-se logo atrás de Eva, simbolizando a multiplicação da espécie humana.

Os animais exóticos e criaturas assustadoras e rastejantes, que aparecem na frente de Adão e Eva, são uma menção ao futuro que aguarda o casal.

  • Curiosidades:
    O pecado feminino é personificado pelos bichinhos que se arrastam pela terra (insetos e, répteis) ou nadam pela água (anfíbios e peixes).
  • O pecado masculino é representado pelas alimárias que voam (insetos voadores, aves, morcegos…).
  • O demônio está escondido nos tanques e nas rochas que são, para Bosch, a guarida dos espíritos malignos.
  • Aparecem na obra animais reais, mas extremamente exóticos, à época de Bosch, como girafas, elefantes, leões, leopardos, quando a África era praticamente desconhecida na Europa.

Ficha técnica
Data: 1480 – 1490
Tipo: óleo sobre madeira
Dimensões: 220 x 97 cm
Localização: Museu do Prado, Madri

Fontes de Pesquisa:
Gênios da pintura/ Abril Cultural
A história da arte/ E.H. Gombrich
Arte em detalhes/ Publifolha
Tudo sobre arte/ Sextante
Grandes pinturas/ Publifolha
Grandes Mestres/ Abril Coleções
Os pintores mais influentes do mundo/ Girassol

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Bosch – SUA ARTE SOBRENATURAL

Autoria de Lu Dias Carvalho

bosch arte

A diferença entre as pinturas de Bosch e as de outros pintores é que os demais procuraram pintar o homem qual parece por fora; somente ele o ousou pintar qual é por dentro (…). Os quadros de Bosch não são dísparates, senão uns livros de grande prudência e artifício, e os o nossos sim são disparates, não os seus; em síntese, é uma sátira pintada dos pecados e desvarios dos homens. (Frei  José de Sigüenza)

Poucos pintores na história da arte ocidental podem igualar a capacidade de Bosch de fundir elementos tão díspares como o simbolismo medieval e o humanismo renascentista, a devoção religiosa e os prazeres mundanos, fontes bíblicas e literatura popular, alquimia e ciência natural, imaginação e observação, em visões tanto pessoais quanto universais do mundo. (David Gariff)

É a capacidade de dar forma a nossos medos que torna suas obras atemporais. (Laurinda Dixon/ Times Higher Education)

No século XX, depois do Expressionismo alemão, do Surrealismo, do Cubismo e do Realismo mágico, tornou-se possível compreender a técnica usada por Bosch, assim como parte de sua linguagem enigmática, pois além dos quadros tradicionais, o pintor criou obras que se encontram entre as mais imaginativas da história da arte, onde um mundo de criaturas bizarras reforçam o medo do inferno que atemorizava a gente medieval, e,que ainda impressiona muita gente.

Bosch viveu no final da Idade Média, numa época marcada por convulsões religiosas, sendo as suas obras um retrato desse tempo, em que os medos e as crenças eram muito fortes no norte da Europa. O simbolismo usado na sua pintura ainda não foi totalmente compreendido, estando aberto a inúmeras interpretações. Sua obra é complexa e rica, com seus temas, símbolos e alegorias sobre a natureza do homem. Nela deparamos com questões relativas à vida , morte, tentação, pecado, julgamento e salvação. É visto, com clareza, o poder negativo e satânico da alma humana, sendo o homem tendente ao pecado, se deixado à sua própria sorte.

Especulam alguns críticos que a criação de imagens extravagantes e exdrúxulas por parte de Bosch tenha nascido de seu arraigado e sincero sentimento religioso e não de bruxarias e heresias, como chegaram a  pensar alguns. E que o pintor, ao reforçar a representação alucinante do mal, tinha como objetivo abrir os olhos dos fiéis para a necessidade de se voltarem para Deus, em quem residia a salvação de suas almas. Outros críticos, no entanto, veem na nas imagens de Bosch, a exteriorização de seus sonhos funambulescos, ou desvairamentos induzidos por algum tipo de drogas medicamentosa ou excitante.

Mesmo no nosso século, a visão que se tem das obras de Bosch não são conclusivas, pois os eruditos ainda não estão satisfeitos com as respostas encontradas. Alguns o veem como um surrealista do século XV, tendo sua obra brotado de seu inconsciente, ou seja, ele seria um Salvador Dalí daqueles tempos. Outros, dizem que sua pintura é um reflexo do esoterismo praticado por ele, onde se misturavam alquimia, astrologia e bruxaria. E outros relacionam seu trabalho com movimentos heréticos medievais. Mas nada há que se prove isso ou aquilo.

As obras de Bosch demonstram que foi um observador detalhista  e um esmerado desenhista e colorista. Criou uma série de composições fantásticas e diabólicas, em que são mostrados, com um tom satírico e moralizante, os vícios, os pecados e os temores de ordem religiosa, que afligiam o homem da Idade Média. O artista também pintou  quadros tradicionais, como vidas de santos e cenas do nascimento, paixão e morte de Jesus.

Como sempre acontece com os gênios, pois esses sempre se situam além de sua época, as obras de Bosch não foram acolhidas e compreendidas por muitos dos intelectuais de seu tempo. Inclusive, a composição A Criação do Mundo em Seis Dias foi removida da Catedral de São João, pelo bispo, que julgou a pintura devassa por apresentar nus. São herdeiros artísticos de Bosch: Matthias Grünewald, Bruegel, William Blake, Henry Fuseli, Goya e os surrealistas.

Curiosidade:
Bosch é tão admirado no mundo da arte, que o termo “boschiano” é usado para descrever algo fantástico, ilógico, apavorante, tenebroso. Sua obra continua encantando e causando perplexidade até os dias de hoje.

Nota: A Extração da Pedra da Loucura
A mensagem inscrita na parter superior e inferior da tela significa “Mestre, tira fora esta pedra, meu nome é Das Lubbert”. A pedra é uma alusão à loucura. Um charlatão opera um paciente crédulo, que é assistido por uma mulher que equilibra um livro na cabeça  e por um padre. Não fica claro quem é o louco na cena. Ao mostrar a bolsa do simplório com um punhal a perfurá-la e o crânio sendo esburacado com uma flor, fica claro o significado alegórico da pintura: a falsa cirurgia tinha como objetivo tirar dinheiro dos bobos.

Ficha Técnica:
Ano: 1494
Tipo: óleo sobre madeira
Dimensões: 48 x 35 cm
Localização: Museu do Prado, Madri

Fontes de Pesquisa:
Gênios da pintura/ Abril Cultural
A história da arte/ E.H. Gombrich
Tudo sobre arte/ Sextante
Grandes Mestres/ Abril Coleções
Wikipédia

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