ESPANHA – A CRUELDADE DAS TOURADAS

Autoria de Lu Dias Carvalho

toutoDepois desta imagem fica a dúvida: “Será que somos mesmos racionais”?

Durante uma tourada, o toureiro sentiu-se mal, teve tonturas e precisou se sentar. Antes que alguém interferisse, o touro, que estava sendo agredido pelo toureiro no horrível espetáculo, apiedou-se do homem, parou diante dele e, para surpresa geral, simplesmente ficou a olhar para ele como que sentindo o seu drama. O animal foi solidário e ficou ao lado do sujeito, fitando-o, sem nenhuma ação violenta. Normalmente um ser humano, numa situação dessas, teria reagido de forma diferente. Observem que o animal já tinha diversas “banderillas” cravadas no seu dorso (recebido via e-mail).

Mesmo convivendo com os animais, ditos irracionais, e vendo as diferentes gradações de emoção que repassam seus olhos, as pessoas, na sua grande maioria, não têm por eles o menor apreço. Tratam-nos com escárnio e debochada crueldade, como se os bichos fossem alheios à dor. O mesmo homem que, ao sentir o menor desconforto físico, empanturra-se de anestésicos, é capaz de quebrar a perna de um cãozinho, jogar água fervente num gato, matar a pedradas um passarinho, chicotear um cavalo, escadeirar um burro com um peso inconcebível para sua força, ou matar um touro na arena por mera exibição. Assim é o homem que se diz cristão, imbuído dos valores humanísticos e fiel aos ensinamentos do Cristo, senhor de toda a criação.  Imaginem se fosse o contrário.

Recebi um e-mail que me remeteu aos perversos toureiros, que a serviço da atrocidade e da selvageria que em certos lugares assumem o nome de “diversão”, comprazem-se em torturar e matar inocentes animais, sob o grito de guerra do “Olé!”, ainda que os jornais estampem notícias de toureiros em “estado grave”, feridos por touros. Recentemente, certo “Matador” teve o chifre do animal torturado penetrando-lhe o pescoço e atravessando boca e língua, em Madri. É menos um que, se conseguir viver, jamais voltará bestializado à arena das touradas. Imagine o leitor que tal apresentação acontecia em comemoração ao Festival de San Isidoro. Não conheço tal santo, mas tenho a certeza de que deve ter atendido os rogos de São Francisco, para que acabasse com a barbaridade imposta ao inocente animal.

Todos nós temos conhecimento dos festivais romanos, onde homens e animais eram colocados na arena para se enfrentarem. Era matar ou morrer. Não havia escapatória. Mas ver tais costumes acontecendo em pleno século XXI é um contra senso jamais visto nas sociedades primitivas, pois essas matavam animais e humanos durante as guerras ou como sacrifícios feitos a seus deuses, não para satisfazer à volúpia do bestial prazer. Fiquei orgulhosa do povo de meu país quando, por ocasião da Copa na Espanha, os brasileiros surpreenderam os espanhóis ao torcerem pelo touro e não pelo toureiro. A cada avanço do animal em cima do carrasco, a nossa torcida gritava: Olé! (Para o touro, é claro).

O fato, meu amigo, é que ser algum, em sã consciência, pode aceitar que a crueldade para com os animais possa ser vista como uma forma de prazer, a menos que se trate de uma mente doentia e maquiavélica, que deve ser enclausurada num hospital para maníacos. E, em se tratando de países, podemos dizer que ainda estão atrelados à maldade dos imperadores e da turba da Roma Antiga, pois a dor infligida a qualquer ser, meramente pelo aprazimento, nada mais é que o masoquismo levado às raias da loucura. Que tipo de altruísmo possuem aqueles, que pagam ingressos para assistirem a tão lamentável circo de horrores? Eu não lhes confiaria um fio de cabelo, tamanha é a perversidade que carregam.

Quando se critica a Espanha (e países afins) pela crueldade das touradas, seus governantes colocam como contraponto o fato de que o país é autônomo e que se trata de sua cultura. Mas não nos ensina a filosofia que ser autônomo é ter capacidade de se autogovernar? E tal capacidade não deve estar imbuída de sensatez e sabedoria, convergindo para o bem universal? Do contrário, nenhum país poderia enfiar o bedelho na vida do outro. Mais do que realizar o bem, a humanidade precisa estar ciente de que precisa agir de conformidade com o que é correto e humano, indiferente de qual seja a cultura. Caso contrário, o Coliseu ainda estaria em franca atividade. E, como um país pode falar em moralidade, quando limita ou ignora os direitos de outras espécies de vida?

Cada vez torna-se mais difícil negar que cada ação, mesmo perpetrada contra o menor dos seres, traz consequências iguais ou superiores a ela para o planeta como um todo. E mesmo que a humanidade não tivesse nenhum código de ética para ser seguido, ainda assim poderia contar com a sensibilidade, o entendimento e a razão, nascidos do conhecimento empírico, para nortear-lhe os passos. Não é preciso ser um intelectual para ter consciência do mundo. Nossa sensibilidade é a maior de todas as mestras. Portanto, abaixo as touradas!

Observação: A tourada é tradicional em Portugal, Espanha e França, bem como em alguns países da América Latina: México, Colômbia, Peru, Venezuela e Guatemala.

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BRASIL – O OLHAR DE UMA ESCRITORA HOLANDESA

Autoria desconhecida

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Transcrevo aqui um e-mail que corre pela internet, sobre o modo como uma escritora holandesa vê o Brasil. Se é verdadeiro ou não, o fato é que contém muitas verdades:

Os brasileiros acham que o mundo todo presta, menos o Brasil. Realmente parece que é um vício falar mal do Brasil. Todo lugar tem seus pontos positivos e negativos, mas no exterior eles maximizam os positivos, enquanto no Brasil se maximizam os negativos.

2- Aqui na Holanda, os resultados das eleições demoram horrores, porque não há nada automatizado. Só existe uma companhia telefônica e pasmem: se você ligar reclamando do serviço, corre o risco de ter seu telefone temporariamente desconectado.

3- Nos Estados Unidos e na Europa, ninguém tem o hábito de enrolar o sanduíche em um guardanapo – ou de lavar as mãos antes de comer. Nas padarias, feiras e açougues europeus, os atendentes recebem o dinheiro e com mesma mão suja entregam o pão ou a carne.

4- Em Londres, existe um lugar famosíssimo, que vende batatas fritas, enroladas em folhas de jornal – e tem fila na porta.

5- Na Europa, não fumante é minoria. Se pedir mesa de não fumante, o garçom ri na sua cara, porque não existe. Fumam até em elevador.

6- Em Paris, os garçons são conhecidos por seu mau humor e grosseria e, qualquer garçom de botequim no Brasil, podia ir pra lá dar aulas de “Como conquistar o Cliente”.

7- Você sabe como as grandes potências fazem para destruir um povo? Impõem suas crenças e cultura. Se você parar para observar, em todo filme dos EUA a bandeira nacional aparece, e geralmente na hora em que estamos bem emotivos.

9- Vocês têm uma belíssima língua, chamada de língua portuguesa, apesar de não se parecer quase nada com a língua portuguesa falada em Portugal e em outros países, por isso, as empresas de software chamam-na de português brasileiro.

10- Os brasileiros são vítimas de vários crimes contra a pátria, crenças, cultura, língua, etc… Os brasileiros mais esclarecidos sabem que têm muitas razões para resgatar suas raízes culturais.

Os dados são da Antropos Consulting:

1. O Brasil é o país que tem tido maior sucesso no combate à AIDS e a outras doenças sexualmente transmissíveis, e vem sendo exemplo mundial.
2. O Brasil é o único país do hemisfério sul que está participando do Projeto Genoma.
3. Numa pesquisa envolvendo 50 cidades de diversos países, a cidade do Rio de Janeiro foi considerada a mais solidária.
4. Nas eleições de 2000, o sistema do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) estava informatizado em todas as regiões do Brasil, com resultados em menos de 24 horas depois do início das apurações. O modelo chamou a atenção de uma das maiores potências: os Estados Unidos, onde a apuração dos votos teve que ser refeita várias vezes, atrasando o resultado e colocando em xeque a credibilidade do processo.
5. Mesmo sendo um país em desenvolvimento, os internautas brasileiros representam uma fatia de 40% do mercado na América Latina.
6. No Brasil, há 14 fábricas de veículos instaladas e outras 4 se instalando, enquanto alguns países vizinhos não possuem nenhuma.
7. Das crianças e adolescentes entre 7 a 14 anos, 97,3% estão estudando.
8. O mercado de telefones celulares do Brasil é o segundo do mundo, com 650 mil novas habilitações a cada mês.
9-Na telefonia fixa, o país ocupa a quinta posição e número de linhas instaladas.
10. Das empresas brasileiras, 6.890 possuem certificado de qualidade ISO-9000, maior número entre os países em desenvolvimento. No México, são apenas 300 empresas e 265 na Argentina.
11. O Brasil é o segundo maior mercado de jatos e helicópteros executivos.

Por que vocês têm esse vício de só falar mal do Brasil?

1. Por que não se orgulham em dizer que o mercado editorial de livros é maior do que o da Itália, com mais de 50 mil títulos novos a cada ano?
2. Que têm o mais moderno sistema bancário do planeta?
3. Que suas agências de publicidade ganham os melhores e maiores prêmios mundiais?
4. Por que não falam, que são o país mais empreendedor do mundo e que mais de 70% dos brasileiros, pobres e ricos, dedicam considerável parte de seu tempo em trabalhos voluntários?
5. Por que não dizem que são hoje a terceira maior democracia do mundo?
6. Que apesar de todas as mazelas, o Congresso está punindo seus próprios membros, o que raramente ocorre em outros países ditos civilizados?
7. Por que não se lembram de que o povo brasileiro é um povo hospitaleiro, que se esforça para falar a língua dos turistas, gesticula e não mede esforços para atendê-los bem?
8-Por que não se orgulham de ser um povo que faz piada da própria desgraça e que enfrenta os desgostos sambando?

 É! O Brasil é um país abençoado de fato.
Bendito este povo, que possui a magia de unir todas as raças, de todos os credos.
Bendito este povo, que sabe entender todos os sotaques.
Bendito este povo, que oferece todos os tipos de clima para contentar toda gente.
Bendita seja esta pátria chamada Brasil!
Orgulhem-se de ser brasileiros!

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ÁFRICA – COLONIZAÇÃO E ESCRAVIDÃO

Autoria de Lu Dias Carvalho

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A África, continente mais pobre do planeta, foi retalhada pelos colonizadores europeus, a partir do início do século XIV, quando os portugueses ocuparam as Ilhas Canárias. As potências europeias (Portugal, Alemanha, Holanda, Bélgica, Itália, Espanha e Reino Unido) não apenas fizeram uso do domínio político, como também exploraram intensamente as riquezas do continente até a metade do século XX.

A competição entre as metrópoles europeias pelas terras africanas foi tão feroz, que em 1884 houve a Conferência de Berlim com o objetivo de criar regras para a ocupação do continente. Foi negociada a divisão da África de modo que uma nação não pudesse invadir o território já ocupado por outra.

A escravidão africana nasceu do encontro dos exploradores europeus e alguns chefes locais. Juntos, capturaram milhões de africanos e os exportaram como escravos para os mais diferentes locais do planeta. Apenas dois países africanos não se submeteram ao domínio europeu, não chegando a se transformar em colônias: Etiópia, que apenas foi invadida pela Itália, num curto espaço de tempo, durante a Segunda Guerra Mundial e a Libéria, que tinha sido formada recentemente por escravos libertos dos EUA.

Só para se ter uma ideia da situação desse continente negro, no início da Primeira Guerra Mundial, 90% de suas terras já estava em mãos européias. E o pior: a divisão das terras fora feita arbitrariamente, desrespeitando características étnicas e culturais de cada tribo, o que gera, até os dias de hoje, conflitos sangrentos no continente africano. Como quase sempre acontece, o colonizador tem como objetivo sucatear o colonizado, de modo que os europeus deitaram e rolaram nas riquezas do continente africano, sem se importar com seus reais habitantes.

A descolonização do continente africano aconteceu após a Segunda Guerra Mundial, com exceção do Egito, que em 1922 proclamou unilateralmente a sua independência e da África do Sul que se tornou autônoma, na forma de domínio do Império Britânico. Todo o resto dos territórios africanos começou o seu processo de independência a partir de 1950, num passado ainda muito recente.

Quem imagina que a descolonização foi tranquila, engana-se. Os europeus não tinham nenhum interesse em abrir mão de tantas riquezas. Mas nem todas as colônias tornaram independentes com o uso da força. Exceção feita para as colônias portuguesas e a Argélia, colônia francesa.

Em 1990, Namíbia e Eritréia, que estavam sob a administração da África do Sul e da Etiópia, respectivamente, foram os últimos países africanos a se tornarem independentes. Contudo, as garras europeias ainda estão fincadas em vários territórios africanos. Em suma, o continente africano é composto por 54 países independentes (sendo 48 continentais e 6 insulares), 4 províncias nacionais e mais de 10 territórios estrangeiros (pertencentes à países da Europa)

 O mais triste na história da colonização da África pelos europeus é que esses não se misturaram ao povo africano. Dentro de suas colônias, construíam pedaços de seu país de origem, onde o povo da terra entrava apenas como serviçal. O fascínio, que os europeus sentiam pelo continente africano, não dizia respeito ao povo, mas à caça por esporte, aos safáris, aos clubes de dança e pesca, aos passeios e às riquezas encontradas em suas terras. Nas escolas, dentro do mais puro padrão europeu, nenhum africano estudava. Quando muito, os colonizadores distribuíam remédios aos doentes, que rodavam suas fabulosas moradas.

Os colonizadores europeus possuíam uma sedução exacerbada pela caça. As crianças, desde cedo já eram preparadas para tal.  Apenas ver o bicho não era o suficiente. Era preciso contar a história de como se deu a morte do animal, perseguido por cães farejadores e como foi o tiro de misericórdia, principalmente em elefantes e búfalos. Empalhavam o animal como troféu, ornamentavam suas salas ou o enviava para sua terra de origem. Também, era muito comum que esses insensíveis caçadores fossem encontrados com o corpo perfurado por chifres de búfalos ou rígido dentro da mesma poça de sangue do elefante abatido (a manada vingava a morte de seu membro).

A África é o continente mais miserável do planeta. Seu povo sofrido vem sendo dizimado por doenças como a malária (ou paludismo), SIDA (ou AIDS), doença do sono, doença de chagas e, sobretudo, pela FOME.  Segundo a OMS, a malária mata uma criança africana a cada 30 segundos, e muitas crianças, que sobrevivem a casos severos, sofrem danos cerebrais graves e têm dificuldades de aprendizagem.

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ÁFRICA – A HOSPITALIDADE DOS TUAREGUES

Autoria de Lu Dias Carvalho

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No deserto é preciso viver como uma pedra, cuidando para não fazer um único movimento que consuma água. E até mesmo de noite a gente deve se mexer tão devagar quanto um camaleão e, assim, se conseguir ser insensível ao calor e à sede e, sobretudo, vencer o pânico, conservar a sanidade, aí então se tem uma remota possibilidade de sobreviver. (Alberto Vazquéz-Figueiroa)

O livro TUAREG é uma obra-prima do escritor espanhol Alberto Vazquéz-Figueiroa, com traduções em português, inglês, francês, alemão, italiano, polonês e japonês. É impossível deixar de amá-lo desde a primeira página à última. O leitor fica ávido para chegar a seu final e, ao mesmo tempo, com pena de ver acabar uma leitura tão prazerosa. O livro é, sobretudo, o resgate da honra de um povo que vai às últimas consequências para fazer cumprir a lei da hospitalidade

O romance se passa nas areias escaldantes do deserto do Saara, em meio a um povo guerreiro, altivo e orgulhoso, outrora chamado de O Povo do Véu ou de Os Senhores do Deserto. A linguagem usada é belíssima e extremamente poética. O escritor mostra grande habilidade para narrar.  Faz uma descrição do deserto, das paisagens inóspitas e do estilo de vida dos tuaregues, de uma forma que prende e seduz o leitor. O desfecho é uma grande surpresa. Ninguém é capaz de imaginá-lo.

O Saara é um mundo estranho e fascinante, onde vive um povo ímpar, capaz de sobreviver ao calor infernal, enquanto o sol caminha poderoso pelo céu, ou sobreviver às noites gélidas, quando doem os ossos. E, como se só isso não fosse suficiente para fascinar o leitor, TUAREG ainda o leva a conhecer os costumes morais daquela gente, que despreza o progresso do mundo que jaz além de seu território. E que faz da hospitalidade a lei maior de seu povo, nem que para isso tenha que oferecer a própria vida.

TUAREG leva o leitor pela imensidão desértica do Saara, caminhando entre as dunas, queimando os pés na areia quente, sacudindo-se no dorso de um dromedário, sentindo sede e frio, protegendo-se contra as hienas, escorpiões e chacais, tentando se safar da areia movediça, caminhando pelas salinas infernais, sacrificando camelos para lhes comer a carne e beber a água de seus estômagos. Tudo na companhia de um guerreiro corajoso, de princípios ferrenhos e tão implacáveis quanto o deserto. E, junto dele, o leitor sente-se seguro, por maior que possam parecer perigosos os caminhos.

O livro conta a história do tuaregue Gacel Sayad que dá abrigo a dois homens e, subitamente, é surpreendido com o assassinato de um deles e o rapto do outro. Ele então, abandona a família e todos os seus bens, para vingar o hóspede que fora morto em sua casa e  trazer de volta o que foi levado à força, pouco se importando com o tempo necessário para atingir seus objetivos.

Gacel Sayad sabe que a hospitalidade é como um código de honra, o maior de todos os mandamentos de uma lei que não foi escrita, mas que é respeitada por todos. Se for necessário matar para proteger um hóspede a causa será justa. Mesmo o inimigo, se ele pedir abrigo, deverá recebê-lo e ser protegido, enquanto estiver sob o mesmo teto do dono da casa.

Proteger seu hóspede é a coisa mais importante para um tuaregue, mais importante que a própria vida ou a própria família. A lei da hospitalidade é mais importante do que qualquer outra lei, inclusive as do Corão. Mais do que ninguém, um tuaregue conhece a dureza da vida no deserto e sabe que é preciso oferecer segurança ao viajante, aonde quer que vá. Ele precisa ser bem recebido, ajudado em suas necessidades e respeitado. E se a hospitalidade não for sagrada, nenhum viajante terá coragem de se arriscar a andar pelo deserto. Sem o respeito aos costumes é impossível sobreviver naquela fornalha durante o dia e na friagem da noite. Pois, mais de cinquenta graus de diferença acontecem entre a máxima temperatura do meio-dia e a mínima, na hora que precede a aurora. Um homem pode morrer de calor ou de frio ao cabo de poucas horas.

Gacel Sayad tem certeza de que o medo é o principal inimigo no deserto. Ele conduz o homem ao desespero e à loucura, e a loucura leva o homem ao embrutecimento e à morte. Mas ao saber que pode contar com a hospitalidade, ele não precisa ter medo.  Por isso, as leis e os costumes de sua raça devem continuar sendo respeitados, porque são leis e costumes adaptados à rusticidade do meio onde vive, e sem os quais não existirá possibilidade alguma de sobrevivência. Pois, quando a gente compreende que ninguém mais vai sentir interesse ou compaixão por nós, deixa de sentir interesse e compaixão pelos outros. Então o medo se instala.

Algumas passagens do livro:

  • Um animal só deve ser morto para matar a fome, sempre preservando a fêmea. Quando um macho é abatido, outro aparece para cobrir as fêmeas. Mas, quando se mata uma fêmea, se mata também os filhos dela e os filhos dos filhos dela, que haverão de alimentar seus filhos e os filhos de seus filhos. Nada devolve a vida de um animal que foi morto sem razão.
  • O deserto deve ser o único lugar do mundo onde as atividades são realizadas durante a noite. O dia, com seu sol chamejante, é a hora do descanso. Nas quatro horas de sol mais forte, homens e animais devem se manter quietos à sombra, para não contraírem insolação. Muitas vezes é necessário cavar e colocar o corpo em contato com a areia fria.
  • Os camelos são os mais fiéis companheiros dos tuaregues em suas travessias pelo deserto. São capazes de beber até cem litros de água de uma só vez. Os colonizadores franceses não nutriam muito amor por eles. Consideravam-nos animais burros, cruéis e vingativos, que só obedeciam a troco de pancadas. Mas um tuaregue sabe que não é assim. Eles podem ser tão fiéis quanto um cão e são mil vezes mais úteis nas terras das areias escaldantes e do vento traiçoeiro. E não podem ser tratados de qualquer jeito em qualquer época do ano. Na época do cio mudam o comportamento, tornando-se irritadiços e perigosos.
  • No Saara, cada homem tem o tempo, a paz e a atmosfera necessários para se encontrar a si mesmo, olhar para a distância ou para o seu interior. No deserto, o ódio, a ansiedade, o medo, o amor, ou qualquer outro sentimento não é um bom companheiro.

Por que teria querido Deus, capaz de tudo imaginar, plasmar ali, de maneira tão flagrante, a realidade do mais absoluto dos nadas?

Outras obras do autor (que passou a sua infância no Saara):

  • Anaconda
  • Ébano
  • A Iguana
  • Vendaval
  • Quem Matou o Embaixador?

Nota
Há um filme baseado no livro chamado Tuareg – O Guerreiro do Deserto.

Sinopse do filme

Líder de uma pequena aldeia de tuaregues, Gacel Sayad é um dos guerreiros mais corajosos do deserto. Quando dois homens sedentos aparecem no acampamento, Gacel, honrando as milenares tradições de hospitalidade do seu povo (ninguém pode negar abrigo a pessoas necessitadas cruzando o deserto), recebe os desconhecidos em sua aldeia. Mas logo surgem jipes do exército atrás dos dois hóspedes do tuaregue. Ele se recusa a entregá-los e tenta fazer valer a velha tradição, só que os soldados não a respeitam, dizendo que ali, a lei são eles. Matam um dos homens e levam o outro com eles. O tuaregue sente-se desonrado e “indigno” por não ter conseguido proteger os “hóspedes”. Segue-se 1h30min de um duelo solitário de Gacel contra todo o exército, de modo que seu comportamento acaba mudando o destino do país.

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O SALVAMENTO NO PARQUE

Autoria de Lu Dias Carvalho

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O nosso país, apesar de seu tamanho territorial e de suas belezas naturais, é ainda muito pobre no lazer direcionado às classes mais pobres, sobrando para as famílias que vivem com um salário mínimo, apenas os maltratados parques com seus brinquedos enferrujados, seus barquinhos destrambelhados, suas montanhas russas rangentes e mais algumas outras gambiarras. Apesar disso, os parques exercem um grande fascínio nas famílias carentes, que pululam com seus rebentos de um brinquedo a outro, principalmente após o pagamento mensal.

É contagiante sentir a alegria dos pais com suas crias, comendo pipoca, quebra-queixo, chupando picolés gigantescos, correndo entre um brinquedo e outro. Jumentinhos ajudam a compor o quadro, carregando no lombo os molecotes. O pai vai puxando a rédea, enquanto a mãe segura ao lado o seu tesouro. E no ar, uma multidão de balões coloridos completam as alegorias. Retratistas dos anos 60 escondem-se sob o manto negro de sua parafernália, para clicar a meninada e os casaizinhos apaixonados.

De uma feita, fui mostrar para uma prima do interior, o Parque Municipal de Belo Horizonte. Assentamo-nos perto de um lago cheio de barquinhos de pedais e de barquinhos a remo. Um casal, acompanhado de um garoto de 5 a 6 anos, esperava impacientemente a sua vez. O responsável pelo barco ancorou-o bem pertinho da margem, para pegar sua esdrúxula carga.

Pai e filho, dois palitos na magreza, tomaram a dianteira do barco, enquanto a mãe, gorduchona, assentou-se na outra ponta, atrás. E lá foi o pobre barquinho gemendo com sua carga, para o meio do lago, tendo o pai a comandar o remo. O lado da mulher ficava cada vez mais rente à água, enquanto os dois gravetos pareciam suspensos no ar. Num dado momento, a água não se faz de rogada e encheu o barco, levando tão gentil carga para o fundo. Primeiro, desapareceu a gorduchona, depois, sumiram os dois magricelas.

Dois salva-vidas pularam na água e pegaram as duas tripinhas, pai e filho, jogando-os para fora do lago. Voltaram imediatamente para salvar a senhora gorducha, que tentava manter a cabeça para fora da água. Enquanto isso, os espectadores dobraram em número e em gritos. Os dois rapazolas lutavam arduamente para tirar a mulher com sua saia rodada. Trouxeram-na até á beira do lago, mas não conseguiram levantá-la para fora. Era peso em demasia para os dois. E quem segurasse na mão da vítima, era capaz de ser puxada para a água. Três homens grandalhões correram para ajudar. Pegaram os braços roliços da senhora, puxando-a para fora, enquanto os salva-vidas levantavam-lhe a traseira.

Tudo teria terminado muito bem, se a maldita saia rodada não tivesse subido para a cabeça da mulher, deixando lhe as coxas de fora, enquanto um volumoso sutiã segurava-lhe as mamas e uma calçola mantinha as partes pudicas escondidas dos olhares curiosos. Foi a apoteose. Gargalhada geral.  Confesso que também não consegui esconder o riso. Espanto-me sempre com a nossa incapacidade de segurar o riso em certos momentos tão constrangedores para o outro.

(*) Imagem copiada de http://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2012/12/15/interna_gerais,337183/oasis-entre-predios-parque-municipal-nasceu-antes-de-bh.shtml

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TANATOLOGIA, ORTOTANÁSIA, EUTANÁSIA E DISTANÁSIA

Autoria de Lu Dias Carvalho

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A beleza da morte é que ela nos desnuda completamente. A morte obriga a pessoa a ser ela mesma, a aceitar-se como é. Já vi muitos religiosos aflitos diante da morte, porque a espiritualidade deles era pregada, mas não vivida. Por outro lado, vejo ateus que morrem muito bem. Convictos de que tudo acabou. Eles sentem que fizeram tudo o que podiam, que gozaram a vida e ela foi muito boa. Quando a pessoa sente que a vida teve um sentido, ela morre bem. Não importa se acredita em Deus ou não. Quem vive bem, morre bem. (Dr. Franklin Santana Santos)

O homem fraco teme a morte, o desgraçado a chama, o valente a procura. Só o sensato a espera. (Benjamin Franklin)

Entrou em vigor em nosso país O Novo Código de Ética Médica que estabelece normas sobre situações clínicas até então cheias de controvérsias. E, se há um campo, em que a ética deve ser vista com muito rigor, este é, sem dúvida, a área médica, que lida com a vida humana.

Embora muitas religiões sejam pródigas em afirmar que somente Deus pode decidir sobre o nascimento e a morte do homem, a prática não funciona bem assim. Deixando de lado a violência, a fome (fruto das desigualdades sociais), a pena de morte, as guerras e tantas outras mazelas que ceifam vidas, a medicina possui poderes tanto para prolongar, quanto para abreviar a permanência humana na Terra.

Dentre as normas do Novo Código de Ética Médica, uma delas estabelece que nas situações clínicas irreversíveis e terminais, em que procedimentos cirúrgicos e terapêuticos configurem-se desnecessários, servindo apenas para aumentar o sofrimento do doente, o médico deve evitá-los, concentrando-se em oferecer todos os cuidados paliativos que atenuem a dor do paciente. Tal prática é chamada de ortotanásia.

O professor e geriatra brasileiro, Franklin Santana Santos, é um dos principais estudiosos da ortotanásia no país. Segundo ele, além de aliviar a dor física do doente é também necessário respeitar suas necessidades espirituais ou existenciais. Segundo Santos, os médicos encontravam muitas dificuldades em lidar com pacientes terminais, com medo de incorrerem em risco de processos por parte do Conselho Regional de Medicina. Agora, o profissional que optar por não entubar um paciente em estado terminal, com chance zero de cura, não corre risco de ser processado, pois a prática da ortotanásia (que ainda não foi aprovada por uma lei) está amparada pelo novo código como uma atitude ética.

Os procedimentos respaldados pela ortotanásia devem ser vistos com muito rigor, pois, se provada a má fé do profissional, ele será acusado de omissão de socorro, eutanásia (prática, sem amparo legal, pela qual se busca abreviar, sem dor ou sofrimento, a vida de um doente reconhecidamente incurável) ou assassinato e, portanto, sujeito a todas as penalidades da lei. Portanto, a família deverá, mais do que nunca, receber todas as informações possíveis, inclusive de outros médicos, para que não se sinta depois, responsável pela morte de alguém querido.

Também não podemos nos esquecer de que, apesar do belo juramento feito pelos médicos, quando se formam, a realidade é bem outra. Ninguém em sã consciência pode negar que os pacientes ricos são bem melhor tratados, muitas vezes passando por cirurgias desnecessárias, pois constituem um filão de “prosperidade” para os hospitais particulares, que hoje trabalham visando o lucro em primeiro lugar. Por isso, o risco da prática de eutanásia será muito maior com pacientes pobres do SUS. Olho vivo!

As fronteiras entre a ortotanásia e a eutanásia precisam ser bem delimitadas. Segundo o  doutor Santos, por exemplo, se um paciente foi diagnosticado recentemente com câncer e tem a perspectiva de viver várias semanas ou meses, em caso de uma parada cardíaca ele deve ser reanimado, recebendo todos os recursos tecnológicos, que vão lhe dar melhor qualidade de vida, no tempo que ainda lhe resta. Mas, se o doente já estiver em fase terminal, com metástase no cérebro e no pulmão, ele não deve ser reanimado. Se o profissional reanimá-lo estará cometendo distanásia (usando todos os meios para prolongar a vida do paciente à custa do sofrimento dele).

Quando vemos os profissionais de branco (médicos, enfermeiros, etc.) na sua lida nos hospitais com os mais diferentes tipos de doenças e doentes, ficamos impressionados com a facilidade com que transitam entre a vida e a morte. Mas as coisas não são como parecem. Pesquisas provam que eles também lidam mal com a morte e que possuem medo dela, assim como toda a sociedade, pois foram treinados para curar e não para apenas cuidar. Cada paciente que parte, não deixa de ser considerado um fracasso pelo profissional.

Segundo o doutor Santos, só para que tenhamos uma noção de como o médico não está preparado para a morte, das 181 faculdades de medicina do Brasil, apenas a Faculdade de Itajubá/MG tem na graduação a disciplina obrigatória de tanatologia (parte da medicina legal, que se ocupa da morte e dos problemas médico-legais com ela relacionados.). E, que é exatamente este medo de trazer a morte para a discussão, que atrapalha a expansão dos cuidados paliativos no Brasil, pois tais cuidados estão ligados diretamente à morte.

Ao contrário do Oriente, onde a morte natural é aceita com normalidade, nós ocidentais negamos a transitoriedade da vida. Somos parte de uma cultura pautada no prazer, no ter, na beleza e no poder. Achamo-nos capazes de estancar a fluidez de nossa existência. Dificilmente vemos na nossa sociedade um espaço para se discutir a nossa efemeridade. Mesmo as escolas postergam tal assunto, de modo que as crianças, ao perderem um ente querido, não associam a morte como parte da vida, o que lhes gera muitos traumas.

Há também sérias discussões para que se diga ou não ao doente sobre o seu estado de saúde. A maioria das famílias opta pelo silêncio. Ignora o fato de que as pessoas hoje são muito mais bem informadas sobre suas próprias doenças. A grande maioria dos médicos acha que o doente precisa saber de tudo, de modo a compartilhar sua angústia e, em muitos casos, resolver pendências de sua vida. Ele pode ter outras dores além das físicas, como sociais, psicológicas, existenciais, espirituais e buscar encontrar alívio para elas. Tanto o médico quanto a família precisam estar cientes disso, ajudando o paciente terminal.

Ao ser perguntado se existe a boa morte, doutor Santos toma como exemplo os estadunidenses, que enumeram as condições da boa morte:

  1. Não ter sofrimento.
  2. Estar rodeado pelas pessoas amadas.
  3. Ter autonomia e permitir que a doença siga seu curso sem interferências extraordinárias da ciência.

(*) Imagem copiada de http://pt.dreamstime.com/fotos-de-stock-royalty-free-menino-doente-em-uma-cama-de-hospital-image9590078

Fonte de pesquisa: Revista Época, 19 de abril de 2010

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