O ÂNGELUS (Aula nº 80 B)

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Autoria de Lu Dias Carvalho

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É impossível imaginar essas pessoas pensarem em ser qualquer outra coisa, senão o que são. Nós podemos ver a opressão, mesmo que eles não possam. Talvez isto nos seja revelado na esperança de que nós reajamos. (Millet)

 A ideia do Ângelus surgiu-me porque me lembrei que a minha avó, ao ouvir o sino da igreja tocar, enquanto trabalhávamos no campo, sempre nos fazia parar para fazer a oração do Ângelus pelos pobres que partiam. (Millet)

 O pintor realista francês Jean-François Millet (1814-1875) era filho de uma próspera família rural da Normandia. Através de uma bolsa de estudos foi estudar em Paris com Paul Delaroche, Jérome Langlois e Chevreville. Permaneceu dois anos na Escola de Belas-Artes. No início de sua carreira o artista fez retratos e pinturas históricas e mitológicas, vindo a trabalhar posteriormente com o tema camponês, retratando a vida diária das pessoas que trabalhavam no campo. Os temas usados pelo artista em suas obras eram vistos como revolucionários e perigosos para os poderosos da época. Millet nutria grande amor pelo mundo camponês.

A composição realista intitulada O Ângelus é a obra mais famosa do artista, figurando como uma das obras-primas da pintura francesa do século XIX. Apresenta dois camponeses, um homem e uma mulher, no campo de trabalho, onde cavavam batatas, no momento em que param seu labor, ao pôr do sol, para rezarem (Hora do Ângelus), após ouvirem os sinos da igreja ao fundo.  O casal assume uma aparência monumental, apesar das dimensões reduzidas da tela. Ambos se encontram de pé e em postura de preces, com a cabeça voltada para o chão. O homem segura seu chapéu e a mulher junta as mãos sobre o peito. Ainda que reduzido, trata-se de um breve momento de paz e descanso, após um pesado dia de trabalho.

Nada há na composição que possa indicar que a dupla de camponeses esteja se preparando para voltar para casa. Próximo a eles estão os utensílios (sacos, forquilha, cesto e carrinho de mão) usados no trabalho. Uma cesta de vime encontra-se entre os dois, largada ali, possivelmente pela mulher, durante o momento de preces. Um ancinho fincando no solo, à direita do homem, leva a crer que ele continuará o trabalho. Nada indica qual seja o tipo de relação existente entre ambos.

Os tons escuros da obra imergem os dois camponeses num momento profundo de oração. A imensidão da paisagem e a postura das figuras aumentam a quietude ali presente, nela também imergindo o observador. A linha do horizonte é muito alta, o que leva a superfície do quadro a ocupar dois terços da suave cor verde acastanhada da terra, enquanto a parte superior é invadida pela luz que chega da esquerda. Os rostos das duas figuras encontram-se na sombra, enquanto a luz foca seus gestos.

Ainda que o artista não evidencie abertamente sua intenção sociopolítica em suas obras, ele sabia que seu público via-o como um revolucionário republicano. Embora alguns críticos contemporâneos achassem que os quadros do artista eram muito sentimentais, Millet buscava evitava qualquer coisa que despertasse sentimentalismo. Ele não idealizava e sim testemunhava os fatos. O pintor não quis repassar à sua obra nenhum cunho religioso, apesar do título. Ela foi inspirada em suas memórias de infância, como descrito acima. Ele desejava apenas apreender a rotina imutável da vida camponesa numa cena simples.

Vincent van Gogh via em Millet seu mestre espiritual e Salvador Dalí venerava essa obra, fazendo algumas variantes do tema das Trindades (Angelus), dedicando-lhe um livro. Para Dalí o Angelus foi o trabalho mais inquietante e perturbador que conheceu. Em 1932 um louco dilacerou essa obra que se transformou num ícone mundialmente conhecido no século XX.

Fontes de pesquisa
Ano: c.1821/22
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 55,5 cm x 66 cm
Localização: Musée d’Orsay, Paris, França

Fontes de pesquisa
Obras-primas da arte ocidental/ Taschen
https://www-musee–orsay-fr.translate.goog/fr/oeuvres/langelus-345?_x_tr_sl=fr&
https://snpcultura.org/o_angelus_de_millet_e_a_incapacidade_pos_moderna
https://pt.wikipedia.org/wiki/Angelus_(pintura)
https://artsandculture.google.com/asset/the-angelus/CgHjAgexUzNOOw

Views: 3

Géricault – A FÁBRICA DE CAL

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Autoria de Lu Dias Carvalho

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O sensível pintor francês Jean-Louis-André Théodore Géricault (1791-1824) foi um dos mais famosos, autênticos e expressivos artistas franceses do estilo romântico em seu início. Desde a sua infância Géricault demonstrava interesse pelos desenhos e cavalos. Sua família mudou-se para Paris e sua mãe faleceu quando o garoto tinha dez anos, deixando-lhe uma renda anual. Na capital francesa o futuro artista tornou-se esportista, elegante e educado, frequentando os ambientes mais sofisticados. Embora seu pai não aprovasse a sua opção pela pintura, um tio materno resolveu o impasse, ao chamar o sobrinho para trabalhar com ele no comércio, mas lhe deixando um bom tempo livre para dedicar-se à pintura.

A composição intitulada A Fábrica de Cal, também conhecida como Forno de Gesso, é uma pintura romântica do artista. Em sua obra ele apresenta uma velha fábrica de cal. Pela falta de atividade deduz-se que se trata de uma pausa no trabalho. Em frente à fábrica, e em primeiro plano, estão três cavalos malhados, ainda com os arreios, comendo a aveia de seus embornais presos em torno do pescoço. Estão próximos de uma velha carroça de rodas altas, forrada com cal e perto de um solo lamacento que ocupa o primeiro plano, à esquerda. A edificação da fábrica, situada mais à direita, forma uma pesada massa. Parados em sua grande abertura estão dois cavalos manchados, ainda presos a uma carroça, também a comer sua ração de aveia.

Através de uma abertura, à esquerda do edifício da fábrica, densas nuvens de pó branco direcionam-se para o alto, contrastando com o céu escuro presente no lado esquerdo da cena. Este é o único sinal de trabalho no lugar. Nenhuma figura humana é apresentada na composição, o que leva a obra a parecer muito mais com uma paisagem do que uma pintura de gênero. Vê-se que se trata de um ambiente pobre, mas a obra narra muito pouco sobre esta questão. A composição, praticamente monocromática, é criada com tons terrosos, beges e marrons. Os elementos pictóricos presentes na obra são trabalhados equilibradamente, recebendo todos a mesma luz e tom. Há certa melancolia presente no quadro.

Obs.: Géricault não se deu bem ao investir muito dinheiro nessa falida fábrica de cal.

Ficha técnica
Ano: c.1821/22
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 50 cm x 60 cm
Localização: Museu Nacional do Louvre, Paris, França

Fontes de pesquisa
Obras-primas da arte ocidental/ Taschen
1000 obras-primas da pintura europeia/ Konemann

Views: 3

OS QUEBRADORES DE PEDRA (Aula nº 80 A)

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Autoria de Lu Dias Carvalho

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Coubert não queria formosura, queria realidade. (E.H. Gombrich)

Espero sempre ganhar a vida com minha arte, sem me desviar um milímetro de meus princípios, sem ter mentido à minha consciência nem por um único momento, sem pintar sequer o que pode ser coberto pela palma de minha mão para agradar a alguém, ou para vender mais facilmente. Sejamos verdadeiros mesmo que feios!  (Gustave Courbet)

O pintor francês Gustave Courbet (1819-1877) nasceu em meio a uma bem-sucedida família de agricultores. Estudou com Flajoulat, que fora aluno do famoso pintor Jacques-Louis David. Aos 20 anos de idade foi para Paris, onde estudou com o pintor Steuben, e também fez cópias no Louvre. A primeira pintura de Courbet, aceita pelo famoso Salão de Paris, foi Autorretrato com Cão Preto, feita em 1844, aos 25 anos de idade. Quatro anos depois o artista expôs 10 telas no Salão, chamando para si a atenção de um crítico de arte. No ano seguinte um júri, composto por artistas, escolheu onze quadros do pintor.

A composição Os Quebradores de Pedra é uma das obras mais polêmicas e aclamadas de Courbet em que ele expõe o empobrecimento e a vida miserável dos camponeses de seu país à época, sem nenhuma esperança de melhoria de vida.

A composição apresenta duas figuras masculinas: uma bem mais jovem e outra mais velha, ambas subjugadas pelo interminável trabalho braçal — quebrar pedras para a construção de uma estrada. A presença do garoto e do homem mais velho deixa claro o ciclo infindável em que se começa a trabalhar ainda muito moço e se envelhece fazendo a mesma coisa nas classes pobres. Ambos vestem roupas velhas e rasgadas, atestando a pobreza em que vivem.

O garoto está de costas para o observador, segurando uma vasilha com pedras, enquanto o homem mais velho — possivelmente seu pai — está de perfil, ajoelhado numa perna, tendo a outra dobrada. Ele traz as duas mãos na marreta erguida para quebrar as pedras no monte espalhado à sua frente. O chapéu encobre grande parte do rosto, deixando apenas o queixo visível. Ao fundo vê-se um velho caldeirão e um recipiente, possivelmente com água. Uma picareta descansa à frente do garoto, enquanto ele carrega pedras, numa alusão de que assim será sua vida, até se tornar velho como o homem que acompanha no árduo trabalho.

O quadro Os Quebradores de Pedra trata-se de um manifesto nu e cruento sobre o trabalho braçal a que estavam submetidos os camponeses franceses à época, mas que poderia, ainda hoje, simbolizar a vida de muitos trabalhadores espalhados pelo mundo, inclusive em nosso país, onde os serviços pesados cabem sempre aos pobres.

Infelizmente esta pintura, conhecida em todo o mundo, e uma das mais procuradas deste site, foi perdida no bombardeio de 1945, durante a Segunda Guerra Mundial. Ainda bem que podemos apreciar a sua cópia.

Ficha técnica
Ano: 1849
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 159 x 259 cm
Estilo: realismo
Localização:  Dresden, Alemanha (antes de ser destruída)

Fontes de pesquisa
Courbet/ Abril Coleções
Courbet/ Coleção Folha
Courbet/ Taschen

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Daumier – DOM QUIXOTE

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Autoria de Lu Dias Carvalho

O pintor francês Honoré Daumier (1808-1879) entrou aos 14 anos de idade para o atelier de Alexandre Lenoir, um antigo aluno de Jacques-Louis David. Também estudou escultura antiga no Louvre e as obras de Ticiano e Rubens. A liberdade de expressão chegou à França após a Revolução de 1830, o que sinalizou para que a arte da caricatura política se tornasse livre e ganhasse grande importância. Como era um grande admirador da República, Daumier passou a trabalhar com esse tipo de caricatura, principalmente com as que satirizavam o rei Luís Felipe. Ficou seis meses na prisão por causa de uma delas. Daumier Iniciou a pintura de quadros aos 37 anos de idade, vindo a transformar-se no maior representante do Realismo Social na pintura. Sua capacidade de síntese era tamanha que nenhum outro pintor do século XIX conseguiu igualá-lo. Morreu na miséria e quase cego numa casa que lhe foi dada. Apesar de ser visto como um exímio gravurista, foi também um dos mais importantes pintores do século XIX.

A composição intitulada Dom Quixote é uma obra do artista que criou cerca de 25 pinturas a óleo, aquarelas e desenhos a carvão para ilustrar a obra de Miguel de Cervantes. Ele ficou maravilhado com as obras sobre Dom Quixote nos seus últimos anos de vida, quando enfrentava a velhice e a cegueira. Compôs uma série inteira sobre o tema.  Aqui ele retrata Dom Quixote em seu cavalo num terreno baldio e despovoado, o que aumenta ainda mais a sensação de solidão do cavaleiro magérrimo que cavalga um esquelético cavalo branco, preenchendo a parte central da pintura. O fundo montanhoso e arenoso apenas lembra uma paisagem. Ao observador cabe imaginar o que o cavaleiro enfrenta à sua frente.

Daumier era particularmente fascinado pelos personagens de Dom Quixote, o homem com delírios de grandeza, e Sancho Pança, seu ajudante simples, mas leal. Raramente acrescentava outros personagens em seus desenhos. Começou pintando cenas com os dois personagens viajando e, com o tempo, foi abandonando as referências específicas ao livro e transformou-se em Dom Quixote e Sancho Pança caminhando sozinhos em uma estrada aberta. Ao final da vida, passou a criar apenas a figura de Dom Quixote, fato que, na visão dos historiadores, não significa a eliminação de Sancho Pança, mas a fusão dos dois personagens em um só. Isso lhe possibilitou expressar as duas facetas de sua personalidade: o cartunista sarcástico e o pintor sensível. Seu crescente problema de visão fez com que as imagens fossem se tornando cada vez mais simplificadas.

Dotado de uma invejável capacidade de síntese, Daumier coloca em sua tela apenas os elementos minimamente necessários. Tanto a figura de Dom Quixote quanto a de seu cavalo são estilizadas até chegarem à deformação esquelética. Ele usa a iluminação, não para modelar as duas figuras, mas para eliminar toda a corporalidade tangível, como se ambas não passassem de uma ilusão aos olhos do observador. O fundo do quadro, com seu colorido irreal, repassa a sensação de uma paisagem de outro mundo. O que sugere ser um pequeno triângulo à direita, lembra que o fundo é arenoso e  também montanhoso.

O pintor é minimalista no uso da cor. Na tela estão presentes as cores: preta, branca, azul, amarela e vermelha. O rosto e a mão do personagem são marrons, diferente de sua perna esquerda que é branca, como se englobasse os dois personagens: Dom Quixote e Sancho Pança. O uso da luz é bem sutil. Cavalo e cavaleiro deixam uma sombra no chão amarelado. A pincelada simples do artista está ligada ao fato de sua perda de visão. A comprida lança atrai imediatamente o olhar do observador.

Ficha técnica
Ano: c.1868
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 52,2 cm x 32,8 cm
Localização: Bayerische Staatsgemäde – Sammlugen – Munique, Alemanha

Fontes de pesquisa
Obras-primas da pintura ocidental/ Taschen
https://www-artble-com.translate.goog/artists/honore_daumier/paintings/don_quixote?_x_tr_sl=en&_x_tr

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UM NOVO ESTILO – REALISMO (Aula nº 80)

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Autoria de Lu Dias Carvalho                                               (Clique na imagem para ampliá-la.)

Na nossa viagem pela História da Arte passamos por diferentes épocas da história da humanidade: Pré-História (Período Paleolítico/ Período Neolítico/ Idade dos Metais), Antiguidade, quando nos defrontamos com a arte do Mundo Antigo (Egito/ Grécia/ Roma) e a Arte Bizantina. Na Idade Média tivemos contato com dois importantes estilos: Românico e Gótico. Na Idade Moderna travamos contato com os seguintes estilos: Renascimento, Maneirismo, Barroco e Rococó. Adentramos na Idade Contemporânea — esta em que vivemos, iniciada no século XVIII, continuando até os nossos dias —, responsável por um grande leque de estilos. Já vimos: Neoclassicismo, Romantismo e agora nos embrenhamos na história do Realismo.

O Realismo — movimento que surgiu na França em meados do século XIX — tinha como objetivo o afastamento formal e estilístico das cenas idealizadas e naturais, assim como da pintura histórica que obedecia aos ditames da arte acadêmica do início do século XIX. O novo estilo desejava romper definitivamente com a tradição artística do passado, ao buscar uma arte objetiva em suas representações e referências. Suas sementes foram lançadas quando em Paris, no final da década de 1840, um grupo de artistas, escritores e intelectuais passaram a reunir-se num bar, Brasserie Ander, onde debatiam variados assuntos, abrangendo desde políticas radicais e questões sociais a tendências artísticas. O local passou a ser chamado de o “Templo do Realismo”, nome que o pintor francês Gustave Courbet viria a usar posteriormente em sua arte.

O desenvolvimento de uma consciência social cada vez maior e de uma crença na democracia e na liberdade individual fez com que revoltas políticas estourassem na metade do século XIX. As ideias fundamentais dos filósofos alemães — Karl Max e Friedrich Engels — que pregavam a igualdade social e a distribuição justa das riquezas, espalharam-se, tornando-se a razão de grande parte da obra realista. Dentre os fatores que contribuíram para que as ideias realistas ganhassem vida estava a situação dos pobres das áreas urbanas e rurais. Eles se viram numa situação de privação e miséria em razão do crescimento descontrolado da população, das inúmeras quebras de safras e do aceleramento da industrialização. Esta junção de fatores acabou gerando grande instabilidade, resultando na Revolução de fevereiro de 1848 que teve como ganho a garantia do voto universal para os homens, assim como o “direito ao trabalho”. Dentro de tal contexto os pobres passaram a ter voz na política.

Os pintores realistas aproveitaram-se de tais transformações sociais e políticas para contestarem tudo aquilo que não aceitavam, como o fato de as autoridades artísticas dizerem-lhes o que podiam ou não fazer, ou a presunção de que só um fato importante podia ser algo digno da arte. Também mostraram sua indiferença pelo Romantismo (estilo anterior), ao retratarem pessoas e acontecimentos do dia a dia, usando um estilo de pintura naturalístico, quase fotográfico, tendo como principal objetivo a observação o mais fiel possível. As cenas eram pintadas na maioria das vezes em grandes telas, com a intenção de dar-lhes a mesma importância conferida às pinturas que representavam grandes eventos históricos. Aos realistas não importava mostrar figuras belas ou feias, mas mostrá-las simplesmente reais.

O pintor francês Gustave Courbet é tido como o líder do movimento realista, sendo que sua obra intitulada “O Ateliê do Artista” é vista como uma declaração de seus princípios políticos e artísticos. Ao mesmo tempo em que compõe sua obra usando um estilo grandioso, próprio da pintura histórica, aborda uma temática realista ao apresentar seu estúdio, onde se reuniam pessoas das mais diferentes classes sociais, evidenciando sua crítica à postura idealizada da arte acadêmica. Sua tela não foi aceita pelo júri do Salão de Paris de 1855. Em resposta Courbet construiu um espaço próprio intitulado “Le Réalisme” que acabou atraindo uma geração mais jovem de artistas parisienses.

Os pintores realistas encontraram no interior rural um lugar propício para suas obras, nas quais retratam principalmente paisagens tristes. As pinturas rurais foram objeto, sobretudo para os artistas da chamada “Escola de Barbizon”, criada por um grupo de pintores sob a liderança de Jean-Baptiste-Camille Corot, Thèodore Rousseau, Jean-François Millet e Charles-François Daubiny, que se inspirou nas cenas pintadas pelo artista inglês John Constantable. Eles não só pintaram a natureza como tema principal, como nela inseriram personagens, a exemplo de Millet em sua obra “Os Catadores” em que inclui camponeses. Os membros desse grupo tinham em comum, sobretudo, a repulsa pela artificialidade da arte acadêmica. Propunham-se representar as cenas que viam com o maior realismo possível. Esses artistas foram mais tarde citados pelos impressionistas como inspiração para o novo estilo que criariam — o Impressionismo.

Os críticos que até então conviviam com as formas idealizadas da arte acadêmica achavam tudo aquilo bizarro. Para eles os artistas realistas faziam uma busca deliberada pela feiura. No entanto, os realistas não tinham compromisso com a beleza, mas com a verdade. Transgredir a arte acadêmica à época era tido como um absurdo sob o ponto de vista dos imponentes censores da arte. Achavam, por exemplo, um disparate o tamanho grandioso das pinturas naturalistas que retratavam as cenas rurais que para eles tinham apenas a finalidade de transmitir aos cidadãos urbanos certo escapismo. E pior, essas ainda mostravam as condições do trabalho daquela gente, o que para os conservadores cheirava perigosamente a socialismo.

A França, ao abraçar um movimento coerente com seus ideais, foi a grande fomentadora do Realismo. As tendências naturalistas, ainda que em menor escala, ganharam projeção em vários países europeus, como Áustria, Alemanha e Itália, o que possibilitou diferentes graus deste estilo. Em seu contexto, o Realismo também apresentou formas chocantes para a época, sendo vistas pela maior parte dos críticos e público como ofensivas. É fato que alguns artistas realistas tinham por objetivo agredir as ditadoras convenções artísticas, mas também queriam atacar as conveniências sociais que eram, ao mesmo tempo, sociais e artísticas, uma vez que eles tinham compromisso com a realidade. Courbet, por exemplo, ao apresentar sua pintura “As Banhistas” provocou um escarcéu no Salão de Paris de 1853, sendo sua tela vista como ofensa pública.  A mesma pressão e crítica sofreu Manet, dez anos depois, com sua tela “Olympia”, uma versão do decantado tema de Vênus.

Ilustração: O Ateliê do Artista, 1855, Courbet

Fontes de pesquisa
Tudo sobre arte/ Editora Sextante
Manual compacto de arte/ Editora Rideel
A história da arte/ E. H. Gombrich
História da arte/ Folio
Arte/ Publifolha

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Millet – O ÂNGELUS

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Autoria de Lu Dias Carvalho                                               (Clique na imagem para ampliá-la.)

É impossível imaginar essas pessoas pensarem em ser qualquer outra coisa, senão o que são. Nós podemos ver a opressão, mesmo que eles não possam. Talvez isto nos seja revelado na esperança de que nós reajamos. (Millet)

 A ideia do Ângelus surgiu-me porque me lembrei que a minha avó, ao ouvir o sino da igreja tocar, enquanto trabalhávamos no campo, sempre nos fazia parar para fazer a oração do Ângelus pelos pobres que partiam. (Millet)

 O pintor realista francês Jean-François Millet (1814-1875) era filho de uma próspera família rural da Normandia. Através de uma bolsa de estudos foi estudar em Paris com Paul Delaroche, Jérome Langlois e Chevreville. Permaneceu dois anos na Escola de Belas-Artes. No início de sua carreira o artista fez retratos e pinturas históricas e mitológicas, vindo a trabalhar posteriormente com o tema camponês, retratando a vida diária das pessoas que trabalhavam no campo. Os temas usados pelo artista em suas obras eram vistos como revolucionários e perigosos para os poderosos da época. Millet nutria grande amor pelo mundo camponês.

A composição realista intitulada O Ângelus é a obra mais famosa do artista, figurando como uma das grandes obras-primas da pintura francesa do século XIX. Apresenta dois camponeses, um homem e uma mulher, no campo de trabalho onde cavavam batatas, no momento em que param seu labor, ao pôr do sol, para rezarem (Hora do Ângelus), após ouvirem os sinos da igreja ao fundo.  O casal assume uma aparência monumental, apesar das dimensões reduzidas da tela. Ambos se encontram de pé e em postura de preces, com a cabeça voltada para o chão. O homem segura seu chapéu e a mulher junta as mãos sobre o peito. Ainda que reduzido, trata-se de um breve momento de paz e descanso, após um pesado dia de trabalho.

Nada há na composição que possa indicar que a dupla de camponeses esteja se preparando para voltar para casa. Próximo a eles estão os utensílios (sacos, forquilha, cesto e carrinho de mão) usados no trabalho. Uma cesta de vime encontra-se entre os dois, largada ali, possivelmente pela mulher, durante o momento de preces. Um ancinho fincando no solo, à direita do homem, leva a crer que ele continuará o trabalho. Nada indica qual seja o tipo de relação existente entre ambos.

Os tons escuros da obra imergem os dois camponeses num momento profundo de oração. A imensidão da paisagem e a postura das figuras aumentam a quietude ali presente, nela também imergindo o observador. A linha do horizonte é muito alta, o que leva a superfície do quadro a ocupar dois terços da suave cor verde acastanhada da terra, enquanto a parte superior é invadida pela luz que chega da esquerda. Os rostos das duas figuras encontram-se na sombra, enquanto a luz foca seus gestos.

Ainda que o artista não evidencie abertamente sua intenção sociopolítica em suas obras, ele sabia que seu público via-o como um revolucionário republicano. Embora alguns críticos contemporâneos achassem que os quadros do artista eram muito sentimentais, Millet buscava evitava qualquer coisa que despertasse sentimentalismo. Ele não idealizava e sim testemunhava os fatos. O pintor não quis repassar à sua obra nenhum cunho religioso, apesar do título. Ela foi inspirada em suas memórias de infância, como descrito acima. Ele desejava apenas apreender a rotina imutável da vida camponesa numa cena simples.

Vincent van Gogh via em Millet seu mestre espiritual e Salvador Dalí venerava essa obra, fazendo algumas variantes do tema das Trindades (Angelus), dedicando-lhe um livro. Para Dalí o Angelus foi o trabalho mais inquietante e perturbador que conheceu. Em 1932 um louco dilacerou essa obra que se transformou num ícone mundialmente conhecido no século XX.

Fontes de pesquisa
Ano: c.1821/22
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 55,5 cm x 66 cm
Localização: Musée d’Orsay, Paris, França

Fontes de pesquisa
Obras-primas da arte ocidental/ Taschen
https://www-musee–orsay-fr.translate.goog/fr/oeuvres/langelus-345?_x_tr_sl=fr&
https://snpcultura.org/o_angelus_de_millet_e_a_incapacidade_pos_moderna
https://pt.wikipedia.org/wiki/Angelus_(pintura)
https://artsandculture.google.com/asset/the-angelus/CgHjAgexUzNOOw

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