A APOTEOSE DE HOMERO (Aula nº 77 E)

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Autoria de Lu Dias Carvalho

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O pintor e desenhista Jean-Auguste-Dominique Ingres (1780-1867) nasceu no sul da França em Montauban, sendo seu pai músico amador, escultor e pintor de miniaturas, que muito incentivou o filho no seu ingresso no mundo das artes. Passou a estudar na Academia de Arte de Toulouse, antes dos 12 anos de idade, como aluno de Guillaume-Joseph Roques. Aos 16 ano de idade mudou-se para Paris, onde estudou com o mestre Jacques-Louis David, um dos mais famosos neoclássicos franceses, com quem permaneceu quatro anos, tornando-se seu seguidor, passando a nutrir, como ele, grande admiração pela arte heroica da antiguidade clássica. Admirava as obras de Rafael, Holbein, Nicolas Poussin, Ticiano e John Flaxman, tendo uma grande inclinação pelos mestres do passado. Apreciava os escritos de Johann Joachim Winckelmann sobre a natureza da arte grega antiga.

A composição denominada Apoteose de Homero é uma obra do pintor. Em sua majestosa pintura o artista coloca em evidência a herança cultural clássica, apresentando 44 figuras reunidas nas escadarias de um templo grego antigo, para homenagear o grande poeta grego mítico Homero, envolto por uma túnica branca, trazendo na mão esquerda um cajado. O grande poeta da Grécia Antiga que viveu no século VIII antes de Cristo, autor dos poemas épicos Ilíada e Odisseia, encontra-se no centro do quadro, sendo coroado por uma figura alada que simboliza a Fama ou a Vitória. A seus pés duas figuras femininas, sentadas, personificam suas duas famosas obras: Ilíada, de vermelho, traz perto de si uma espada na bainha, envolta numa fita vermelha, enquanto Odisseia, de verde, tem um leme recostado a seu corpo.

Na homenagem prestada a Homero estão presentes poetas, artistas e filósofos antigos e modernos. Ingres colocou os personagens antigos na parte superior da pintura, (embora ali também se encontrem Rafael e Michelangelo). Na parte inferior estão os personagens modernos. As figuras encontram-se assim distribuídas:

Parte superior da composição (a partir da esquerda)

Horácio, Peisistratos, Licurgo, Dante, Virgílio, Rafael, Safo, Alcebíades, Apelles, Eurípedes, Menadro, Demóstenes, Sófocles, Ésquilo, Heródoto, Íliada, Orfeu, Linus, ?, Musaeus de Atenas, Vitória, Odisseia, Aesop, Pindar, Hesíodo, Platão, Sócrates, Péricles, Fídias, Michelangelo, Aristóteles, Aristarco de Smotrácia e Alexandre (o Grande)

Parte inferior da composição (a partir da esquerda para a direita)

Shakespeare, La Fontaine, Tasso, Poussin, Mozart, Corneille, Racine, Molière, Boileau, Longinus, Fanelon, Gluck e Luís Vaz de Camões.

Ingres trabalhou em mais de 300 desenhos para chegar a esse resultado.

Ficha técnica
Ano: 1826/27
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 386 x 512 cm
Localização: Museu do Louvre, Paris, França

Fontes de pesquisa
1000 obras-primas da pintura europeia/ Könemann
https://en.wikipedia.org/wiki/The_Apotheosis_of_Homer_%28Ingres%29

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BIPOLARIDADE – SEM FORÇAS E SEM RUMO

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Autoria de Aline Oliveira

Estou feliz por ter encontrado este espaço com tanta informação, esclarecimento e relatos, mas triste por fazer parte dos que sofrem com seus companheiros bipolares.

Vivo com meu companheiro há exatos 27 anos. No início foi tudo muito bom. Namoramos por 10 anos e nesse tempo a vida dele teve muitas oscilações de trabalho, desemprego e problemas familiares. Também ocorreram várias crises, porém sempre as relacionei aos acontecimentos e o apoiei. Estive ao seu lado em todos os momentos, mas, até então, não tinha sentido na pele o furacão que é a convivência com um bipolar. Como é sofrido!

Em 2013 resolvemos morar juntos. No primeiro ano foi muito difícil, pois ele ficou desempregado e passamos por muitos meses de tensão. Ainda acreditava que toda a ira e descontrole dele era pela situação vivida, porém logo tudo se voltou para mim. Eu era a culpada pela situação, eu era a culpada por seu nervosismo, eu era culpada por deixa-lo fora do controle…

Acordava às 5:30 horas da manhã para trabalhar. Chegava exausta do trabalho e do desgastante transporte público. Isso por volta das 20 horas. Ainda ia fazer comida. Ouvia depois que tudo estava horrível (antes minha comida era maravilhosa), que eu não fazia nada direito, que as camisas estavam sempre mal lavadas (lavava roupas aos sábados e domingos na mão, pois não tinha máquina), entre tantas outras coisas…

Comecei a ficar doente, pois me sentia culpada por tudo. Tive câncer e passei por duas grandes cirurgias. Nesse tempo fui ao inferno e voltei todos os dias. Mesmo sabendo da minha condição, ele alegava que eu fazia corpo mole. Com duas semanas de operada e 79 pontos na barriga, culpava-me por não termos relações sexuais, alegando que era homem e tinha suas necessidades. Passado esse capítulo, cogitei a separação, mas não tinha dinheiro nem para alugar um barraco.

Família, não tenho! Minha mãe era alcoólica e faleceu de câncer faz alguns anos. A família dele sempre sofreu com seu temperamento e eles não têm uma relação amigável. Sim, eu o amo e este é o grande motivo de estar com ele todo esse tempo. Infelizmente ele não aceita tratamento e, quando toco no assunto, fala que sou eu quem precisa de tratamento, pois sou louca e desequilibrada.

Passado um período, a vida dele foi se transformando, pois voltou a trabalhar, mas o comportamento continuava por períodos alternados, entre euforia e depressão. Por muita insistência e num período mais calmo da relação, ele resolveu procurar ajuda psiquiátrica, sendo diagnosticado com bipolaridade. Iniciou o tratamento que durou apenas uns seis meses, pois chegaram os efeitos colaterais, o que para ele era uma invalidez masculina. Ele se sentia castrado por não ter mais a mesma libido.

Desde então vivo numa montanha russa, entre momentos de carinho e meses de xingamentos, brigas, menosprezo, culpa, entre tantos outros motivos criados pelo seu cérebro monstruoso que surge de tempos em tempos. Com a pandemia veio o trabalho home office e ele desempregado. Estou há quase dois anos literalmente no inferno. Tudo é minha culpa, diz que eu sou burra, ignorante e não tenho sentimento por ele. Tudo isso sem eu ao menos abrir a minha boca.

Este é meu desabafo resumido desses 27 anos. Não cabe julgamento, pois além de me sentir um trapo, existe muitas coisas não ditas. Estou sem forças, sem rumo, sem ser eu. Preciso me reencontrar e sinceramente não sei como. Muito obrigada pelo espaço para este desabafo e parabéns por compartilhar tantas experiências.

Ilustração: Mulher Chorando, 1947, Cândido Portinari

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A MORTE DE SÓCRATES (Aula nº 77 D)

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Autoria de Lu Dias Carvalho

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É a maior realização da arte desde a Capela Sistina (Sir Joshua Reynolds)

A composição intitulada A Morte de Sócrates foi pintada pelo artista francês Jacques-Louis David (1748 – 1825) a pedido de um mecenas. Tanto o tema heroico quanto as formas clássicas dizem respeito ao Neoclassicismo, sendo o artista o pioneiro e líder da pintura neoclássica na França. Ele dava destaque a tudo que fosse de rara qualidade na Antiguidade clássica.

David pintou a cena que acontece numa sala de estilo romano em que Sócrates encontra-se na prisão e recebe a visita de seus discípulos, momentos antes de tomar a taça de veneno, preferindo morrer a ter que mudar suas ideias em relação ao conhecimento. Ao contrário dos amigos que o cercam, impotentes e chorosos, ele se mostra vigoroso, não se deixando abater. O pintor realça sua figura, jogando sobre ela toques de luz.

Ao lado do mestre estão nove de seus discípulos. Embora Platão apareça na composição – o homem assentado aos pés da cama – à época ele se encontrava doente e não esteve presente no momento da morte do seu querido mestre. Era também muito mais novo, pois contava com 20 anos de idade na ocasião.

Sócrates aproveitou até os momentos finais de sua vida para ensinar. Em sua sabedoria usou o que lhe ia acontecer para debater com seus discípulos sobre a imortalidade da alma. Seu dedo levantado indica que há uma dimensão mais elevada do que a Terra, onde vivem os mortais. Não há tensão ou medo em seu corpo. Ele nem ao menos dirige o olhar para a taça de cicuta, apenas estende a mão para pegá-la.

Apolodoro é a figura que se encontra encostada na parede, com as mãos para cima em grande desespero. Segundo Platão, Sócrates foi obrigado a pedir que ele fosse embora, tamanho era o transtorno em que se encontrava. O pintor David optou por colocá-lo na sombra, mais afastado do grupo.

 As pessoas presentes no ambiente, com exceção do rapaz que segura a taça de veneno, fazem parte do círculo de amigos do filósofo. O moço vestido de vermelho foi encarregado de levar o veneno e testemunhar a morte de Sócrates, mas ele também se encontra visivelmente perturbado, virando-se e tapando o rosto para não ver a cena. O heroísmo do filósofo e a injusta sentença são demais para ele que aperta os olhos com os dedos. Cristo, um dos discípulos mais queridos de Sócrates, está assentado a seus pés, com a mão direita em seu colo. Ao ser anunciada a sentença ele tenta convencer o mestre a fugir.

Platão, assentado na cabeceira da cama, reage com dignidade diante da morte do mestre. Imóvel, apenas acompanha com os ouvidos as palavras de Sócrates. Direciona seus olhos para o chão, como se estivesse perdido em pensamentos, filosofando sobre o destino do mestre. Um dos discípulos traz o rosto entre as mãos, enquanto outro, de costas, clama aos céus. São variadas as expressões de tristeza e dor vista no ambiente.

O cálice de veneno ocupa o centro da composição. David inteligentemente coloca-o em evidência ao direcionar para ele o braço de Sócrates e o do rapaz que oferece a taça com o líquido mortífero. Um ambiente descortina-se depois da porta, onde estão presentes algumas figuras, duas delas indiferentes ao que se passa na sala ao lado. Num outro ambiente à esquerda, seguida por uma mulher, a esposa de Sócrates é vista deixando a prisão.

Ficha técnica
Ano: 1787
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 1,30 x 1,96 cm
Localização: Metropolitan Museum of Art, Nova York, EUA

Fontes de pesquisa
Tudo sobre arte/ Editora Sextante
História da arte ocidental/ Editora Redeel

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A MORTE DE MARAT (Aula nº 77 C)

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Autoria de Lu Dias Carvalho                                                       (Clique na imagem para ampliá-la.)

David conseguiu fazer o quadro parecer heroico sem deixar, no entanto, de respeitar detalhes concretos de um registro policial. (E.H. Gombrich)

Eu matei um homem para salvar cem mil vidas. (Charlotte Corday)

Esta obra contém algo ao mesmo tempo pungente e terno; uma alma alça voo no ar frio do aposento, entre estas paredes frias, em volta desta fria banheira funerária. (Charles Baudelaire)

O pintor neoclassicista francês Jacques-Louis David (1748 – 1825) exibe com esmero sua genialidade, aliada às suas convicções políticas, na composição A Morte de Marat, tida como a maior pintura da arte ocidental a retratar o martírio de um político. O artista também se encontrava ameaçado, até que Napoleão Bonaparte tomou para si o comando da França.

Jean Paul Marat encontrava-se entre os amigos de David que tiveram uma morte violenta, durante a Revolução Francesa. Era um dos líderes da revolução. Portador de uma doença de pele, Marat era obrigado a ficar na banheira, para que a água aliviasse seu desconforto. Para aliviar o mal-estar causado pela enfermidade, ele usava um pano embebido em vinagre na cabeça. Como ali passasse longas horas, adaptou o local para dar expedientes, colocando uma tábua sobre a banheira que lhe servia de mesa. Ao lado, um velho caixote servia como uma escrivaninha improvisada. E foi nela que David deixou a sua dedicatória.

A fanática monarquista Charlotte Corday apunhalou Marat dentro de sua banheira,em 13 de maio de 1793, matando-o. Na mão de Marat encontra-se a carta de apresentação que permitiu o acesso da mulher até ele. Ela foi guilhotinada quatro dias depois.

O quadro é bastante sintético na exposição dos elementos. Tudo que ali se encontra é necessário e calculado, carregado de significado simbólico. Nada entra na tela por acaso, resultando numa composição forte e realística. David retirou a decoração da sala de banho de Marat, deixando no fundo um vazio escuro. A banheira foi trocada de modo que o braço caído de Marat, em primeiro plano, evocasse a pose de Jesus ao ser descido da cruz. Deixou apenas poucas manchas de sangue no lençol de modo a atenuar a violência. Ocultou a facada no peito com sombras. E apenas um pouco da água vermelha de sangue é visível.

Os elementos principais da tela são iluminados por uma luz dramática: a face sofrida de Marat e o velho caixote que mostrava a simplicidade em que vivia. Valendo-se do estilo clássico, o pintor apresenta seu amigo fazendo lembrar, deliberadamente, as pinturas da “Descida da Cruz”, mostrando Marat não apenas como um mártir da Revolução Francesa, mas também como um santo martirizado. Modela os músculos e os tendões do corpo de Marat, dando-lhe um aspecto de real grandeza. São desprezados todos os detalhes desnecessários. O que conta é a simplicidade. O caixote, a cabeça e os braços de Marat são iluminados, enquanto as partes mais sangrentas situam-se nas sombras.

Embora triste, a figura de Marat é idealizada. Não traz as manchas da pele e o sangue possui um tom menos forte. Tanto seu ferimento quanto seu sangue são pouco perceptíveis, diante da palidez de seu corpo. Traz na mão direita a carta recebida, salvo-conduto da assassina, e na esquerda uma pena, ainda mantida de pé. À esquerda da banheira está a faca suja de sangue, único objeto a recordar o ato insano.

Em primeiro plano vê-se sobre o caixote uma carta, com dinheiro sobre ela, uma pena e um tinteiro.  Como a pena ainda se encontrava na mão direita de Marat, pressupõe-se que ele havia acabado de escrevê-la para uma viúva de um soldado, enviando-lhe dinheiro, o que mostra a atitude caridosa do revolucionário. A banheira, coberta com um lençol branco, chama a atenção do observador que não compreende porque ele estaria ali, onde deveria haver apenas água. O fato é que Marat cobria a superfície de sua banheira com lençol, pois, se seu corpo entrasse em contato com o revestimento de cobre, sua pele se irritaria.

A carta de apresentação de Charlotte na mão de Marat diz: “Basta minha grande infelicidade para me dar direito à sua bondade”, estratégia usada para ter acesso até o revolucionário Marat, na sua luta contra a monarquia francesa.

Ficha técnica
Ano: 1793
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 165 x 128 cm
Localização: Musée Royal des Beaux-Arts de Bruxelas, Bélgica

Fontes de Pesquisa
Os pintores mais influentes do mundo/ Girassol
A história da arte/ E.H. Gombrich
1000 obras-primas da arte europeia/ Editora Könemann
Grandes Pinturas/ Publifolha

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Giovanni Bellini – MADONA ENTRONIZADA COM…

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Autoria de Lu Dias Carvalho

                                                    (Clique na obra para ampliá-la.)

O pintor italiano Giovanni Bellini (c.1430-1516) nasceu em Veneza numa família de artistas. Era também conhecido pelo apelido de Giambellino. Seu irmão mais velho, Gentile Bellini, era também pintor.  Teve o pai – o respeitado pintor Jacopo Bellini – responsável por levar o Renascimento a Veneza, como primeiro mestre, tendo se dedicado intensamente a transformar seus dois filhos em importantes pintores. Giovanni tornou-se depois aluno de Andrea Mantegna, seu cunhado, que influenciaria grandemente sua arte. Ele era muito inteligente e criativo, além de dominar o uso de cores e luminosidade, também compreendia a natureza com apuro. Graças a ele foi instituído o costume de realizar retratos em Veneza. O foco de seu trabalho foi Veneza, onde teve sua própria oficina, nomeado pintor oficial da cidade. Teve como aluno Ticiano, Giorgione, Lorenzo Lotto, entre outros grandes nomes da pintura veneziana.

A obra intitulada Madona Entronizada com o Menino e os Santos (e também chamada de o Retábulo de São Zacarias) é um trabalho do pintor renascentista, tendo sido criado para ornamentar o altar mor da pequena igreja de São Zacarias, situada na cidade de Veneza. É um dos grandes retábulos venezianos do século XVI. Assim como a maior parte dos pintores de sua cidade, ele via na cor um dos principais elementos para unir as figuras e formas de uma pintura num único padrão. A pintura é luminosa e reluzente. Ele botou as figuras numa abside com aberturas laterais para repassar a ilusão de que a luz que entrava pelas laterais parecesse mais com a luz do dia.

O retábulo constitui um nicho arquitetônico completo com teto abobadado, debaixo do qual encontram-se os personagens, tendo o pintor baseado sua composição no agrupamento padrão de pirâmide – popular na arte renascentista –, colocando as figuras mais importantes – a Virgem e o Menino – no ápice da pirâmide. A Virgem Mãe é a figura central da composição. No colo traz o seu Menino. Ela se encontra entronizada num nicho de mármore. Uma atmosfera quente e dourada espalha-se pelo local. O Menino Jesus apresenta-se nu e de pé no colo da Mãe. Sua pele é extremamente branca. Ele levanta sua mãozinha direita para abençoar os devotos ali presentes, enquanto os observa com os olhos voltados para baixo, assim como a Virgem.  Sobre o altar vê-se a cabeça de Cristo com a coroa de espinhos.

Um anjo, sentado aos pés do trono de Maria e seu Menino, toca seu violino com suavidade, como mostra seu gestual. Quatro santos apresentam-se simetricamente nas laterais do altar. À esquerda estão Santa Catarina de Alexandria com a palma do martírio e a roda quebrada, vista a seu lado, e São Pedro Apóstolo com suas chaves e um grande livro de capa vermelha. À direita encontram-se Santa Lúcia (ou Luzia, conhecida por ter sido cegada) segurando uma tigela com seus dois olhos e São Jerônimo – o erudito que traduziu a Bíblia para o Latim – lendo um livro. Os dois santos estão de costas para o altar.

As laterais abertas da obra deixam à vista parte da paisagem. O ovo dependurado acima da cabeça da Virgem simboliza a criação. Não há interação entre os personagens, todos trazem os olhos voltados para baixo.  Apenas o anjo músico, com seu olhar direcionado ao longe, convida o espectador a entrar na cena. As figuras sagradas mostram-se meditativas e distantes e suas vestes são ricamente coloridas.

Giovanni Bellini dotou sua madona de muita serenidade e dignidade e, de certa forma, fugiu um pouco da tradição bizantina que costumava ladear rigidamente a imagem da Virgem com a figura de santos. Aqui os personagens parecem reais, mas, contudo, sem eliminar seu caráter de sagrado.

É a primeira obra do artista em que a influência de Giorgione está presente, iniciando a última fase da carreira do artista – a da tonalidade. O espaço arquitetônico ilusionista é grandioso. O resultado final apresenta um agrupamento de cinco figuras em torno da Virgem e do Menino Jesus, todas autocontidas e conscientes da presença divina. O artista foi responsável por um grande número de pinturas religiosas com a Virgem e o Menino, das quais mais de 60 sobrevivem até hoje.

Obs.:

  • Este tipo de imagem – santos e anjos agrupados em torno de uma Madona Entronizada – é conhecido como uma “conversa sagrada” (sacra conversazione), uma forma de arte cristã lançada por Giotto (1267-1337) e seus seguidores, mas devidamente estabelecida durante o Renascimento em Florença por artistas como Fra Angelico (1400-55), Fra Filippo Lippi(1406-69) e Domenico Veneziano (1410-61). (Visual-arts-cork)
  • O crítico de arte vitoriano John Ruskin considerou a pintura uma das “duas melhores do mundo”.

Ficha técnica
Ano: 1505
Técnica: óleo sobre madeira transferido para tela
Dimensões: 402 cm x 273
Localização: Igreja de São Zacarias, Veneza, Itália

Fonte de pesquisa
A História da Arte/ E. H. Gombrich
http://www.visual-arts-cork.com/famous-paintings/san-zaccaria-altarpiece.htm

 

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O JURAMENTO DOS HORÁCIOS II (Aula nº 77 B)

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Autoria de Tom Pavesi*


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O Juramento dos Horácios (1785) ou “Le sermente des Horaces“, do pintor francês Jacques-Louis David (1748-1825) é considerada uma das maiores obras-primas do Neoclassicismo tanto pelo seu estilo quanto por sua representação patriótica. Pintada por David, entre 1784 e 1785, quando estudava em Roma, no “Palazzo Costanzi“. Trazida a Paris em 1785, para fazer parte do “Salon” de exposições de pinturas e esculturas do Louvre, onde foi um dos maiores sucesso nessa época pré-revolução. É uma pintura a óleo sobre tela com dimensões gigantescas: 3.30 metros de altura por 4.25 metros de largura. Foi usada mais tarde como propaganda política dessa nova filosofia definida a partir das lições morais da Antiguidade. Ele e outros pintores eminentes da época usaram a iconografia (temas) da Antiguidade para representar a virtude, a moralidade e o dever patriótico.

Se o combate aparece em muitas fontes literárias, o juramento é na verdade uma invenção do pintor. É provável que David pertencesse à maçonaria e tenha se inspirado nos procedimentos do juramento com espadas para os iniciantes que entravam na ordem, que tem como significado expressar a coragem, a justiça, orgulho e a defesa de uma causa. O prenúncio do lema da liberdade, igualdade e fraternidade, da primeira República francesa. Poderia ter escolhido várias outras passagens desse combate, mas preferiu destacar os três irmãos Horácios jurando ao Pai (= Pátria), vencer ou morrer em nome da liberdade, da lealdade e da justiça. Um juramento cívico fortemente patriótico.

Estudo da composição

David quebra com as regras usuais da composição ao descentralizar os principais personagens em planos diferentes. Ele também ignorou os princípios da Academia ao tratar suas cores e pinceladas de uma forma relativamente plana. A cena se passa no interior de um pátio pavimentado de uma residência de moradores romanos, sendo o espaço representado fechado e paralelo ao plano da pintura. O fundo escuro concentra toda a atenção dos personagens no primeiro plano.

Triângulos – a composição é baseada no número três: são três grupos de personagens inscritos nos três grupos de arcadas presentes ao fundo. À esquerda, os três irmãos; no centro o pai e à direita, três mulheres (três irmãs ou a mãe e duas irmãs). David usa a regra dos três, apresenta uma composição em perfeito equilíbrio e estabilidade.

Em boa parte das mitologias conhecidas, a simbologia do número três, tem um significado específico. No Cristianismo representa a Santa trindade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Na mitologia grega, as três irmãs Moiras, Cloto, Láquesis e Átropos, entidades sombrias que determinavam o destino dos deuses e dos seres humanos elaborando, tecendo e interrompendo o fio da vida de todos. Na mitologia romana, as três Graças, Tália, Eufrosina, Aglaia ou Cárites (mitologia grega), deusas dotadas de beleza e virtudes.

O artista adotou uma posição triangular para os três irmãos Horácios, representando a força, coragem e principalmente a união do grupo em que cada um expressa seu espírito de honra, lealdade e patriotismo. O pai no centro, também faz parte desse jogo de três, pois segura as três espadas que vai entregar aos seus três filhos para lutarem. Simbolicamente ele é a Pátria romana, e os filhos, o povo.

As três mulheres da direita e uma criança foram colocadas para dar sequência a composição (como nas histórias em quadrinhos, uma leitura da esquerda para direita). Estão visivelmente desoladas com a ideia do combate e do resultado que será irremediavelmente trágico. Existe uma perfeita união feminina de infortúnio e solidariedade. David não definiu exatamente quem são as mulheres, pois pode ter retratado a mãe dos três Horácios e suas duas irmãs ou simplesmente três irmãs. As duas mulheres à esquerda também foram retratadas numa composição piramidal (triangulo rosa) segundo a regra dos três que David adotou desde o início. A terceira irmã (ou mãe) dos Horácios que aparece ao fundo protegendo duas crianças (filhos ou netos?) tem na sua composição triangular uma ligação ao cristianismo, através da figura da Santa Trindade (triângulo em amarelo).

Linhas – é de se notar na pintura de David uma dicotomia característica do Neoclassicismo em que de imediato vemos a presença de dois grupos: os homens, à esquerda, e as mulheres, à direita. Caracterizado por linhas diretrizes: linhas retas para os homens e linhas curvas paras as mulheres.  Os rostos e olhares dos homens (círculos em vermelhos) estão traçados numa mesma linha horizontal, paralela à linha central do quadro (linha mediana) que traça a altura do braço do irmão de capa branca. As linhas retas dos homens estão imbuídas de determinação, força e patriotismo, enquanto que as linhas curvas das mulheres estão caracterizadas pela tristeza e melancolia, por causa da partida de seus familiares.

Perspectiva com um ponto de fuga (PF) – a perspectiva com um ponto de fuga (PF), também conhecida como perspectiva renascentista foi o primeiro método de perspectiva exata que tem como função estabilizar a composição. A partir da escolha do ponto de fuga na linha do horizonte, na qual convergem retas paralelas, são traçadas várias linhas diagonais para provocar uma sensação de profundidade para a composição. David traçou suas linhas construtivas partindo de um ponto de fuga (PF), marcado no centro do quadro, justamente sobre uma das mãos do Pai/Pátria. A partir desse ponto toda a atenção da cena ficou concentrada nela, e principalmente sublinhada pelo alinhamento dos rostos dos três filhos e do pai.

Nessa obra de David, se analisarmos a composição do espaço interior com suas colunas, arcadas e piso de pedra encontramos elementos que nos faz acreditar que a cena se passa na mansão de um nobre romano. É precisamente nesse desenho realizado com ajuda da perspectiva renascentista (com um ponto de fuga) que o conjunto arquitetônico encontra-se equilibrado e nas boas proporções.

Cores – os homens se vestem com cores vivas, as mulheres com cores opacas. A mensagem de David é clara, o grupo dos homens vai defender a causa de Roma, com o grupo de mulheres, a ideia é relevar os interesses privados de emoções sentimentais e os laços familiares. O vermelho do primeiro filho é o ponto de partida da pintura. Um vermelho forte e contrastante com o vermelho da capa do pai, personagem central da trama. O branco do vestido da última mulher da direita contrastando com a cor branca da capa do primeiro filho da esquerda, a coberta vermelha da poltrona da segunda mulher com o vermelho da capa do pai, o azul dos vestidos de duas mulheres, com o azul dos trajes dos homens, cores balanceadas de forma a proporcionar equilíbrio para a composição. As três espadas brancas sobre o fundo escuro tornaram-se o principal ponto de atenção do observador e o ponto de fuga para a perspectiva.

Significados – o vermelho significa força, virilidade, poder, ação, combate e coragem, cor escolhida como principal para representar sua ideia de patriotismo e lealdade a Pátria. O branco é um símbolo de pureza, candura e divindade e encontra-se na obra de forma bem visível na veste da mulher da direita mesmo que em contraponto aparece também no primeiro combatente, para dar um significado de proteção divina, que por estar em destaque, pode ser o filho mais velho que sobreviveu (Publius Horatius). O azul se refere a sabedoria, virtude, fé e paz. Novamente o primeiro Horácio da direita concentra essas três cores, azul, branco e vermelho, cores que apesar de já terem sido usadas nas vestimentas dos guardas franceses desde a época de Henrique IV (1589-1610) foram posteriormente adotadas pelo general La Fayette (1757-1834) durante a Revolução Francesa nos cocares tricolores dos militantes, e em 14 de fevereiro de 1794 foi usada pela primeira vez como as cores da nova bandeira nacional, que era branca.

Pintura moral: este tema, inspirado da história de Roma e também em peças de teatros clássicos, como “Horácio“, de Pierre Corneille (1606-1684), que explora a exaltação da virtude, do auto sacrifício e do patriotismo, qualidades essas que serão defendidas pelos revolucionários. Essa ideologia é semelhante a dos filósofos do Iluminismo, como Denis Diderot (1713-1784), que defendia a pintura moral e buscava na Antiguidade o modelo de uma nova sociedade.

 * Tom Pavesi – guia  conferencista: brasileiro, arquiteto e urbanista, guia conferencista conferido pelo Ministério da Cultura e do Turismo da França, diplomado Técnico Superior em Animação e Administração Turísticas Locais (BTS AGTL-Paris), com especializações em: História das civilizações, História da Arte, História de Paris, História da França, Arquitetura, Patrimônios e Monumentos da França. Seu profissionalismo, dedicação, experiência, dinamismo faz dele uma boa opção para você descobrir os segredos e peculiaridades deste imenso museu de uma forma calorosa, familiar, que somente um guia brasileiro poderá lhe proporcionar. https://guiadolouvre.com/tom-pavesi-guia-conferencista/

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