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Temas diversos

REFLEXÕES E PRINCÍPIO ANIMADOR

Autoria de José Procópio Alves

O materialismo consumista cansa.
Cansam as falsas aparências, os preconceitos e as máscaras.
E quando o cansaço se torna insuportável é hora de mudanças.
Faz-se necessário trilhar outros caminhos, buscar novas metas
e novos projetos, tendo como guia a intuição.

É preciso deixar o espaço de anos e anos dedicado ao modelo
de mundo ditado pelo materialismo desmedido.
Deixar o velho caminho para os jovens cheios de vigor, que
inda possuem o ânimo necessário para confrontar os soberbos.

Deixarei o palco onde interpretei um personagem razoável.
Não quero mais interpretar e, sim, ser “eu” mesmo.
Estarei na busca daquilo que julgo ser a verdade.
Não possuo mais tanto tempo para ilusões apenas,
necessárias para a sobrevivência na realidade material.
O suficiente já é o bastante pra viver decentemente.

Após meio século de vida  tornei-me mais realista.
Estarei caminhando de encontro à verdade Deísta,
Pois compreendi o que disse o Mestre Jesus:
“O meu reino não é deste mundo,
buscareis a verdade e ela vos libertará”.

A verdade é além do carbono.
Não serei mudo, cego ou surdo.
Dedicarei atenção ao mais profundo:
à minha busca pelo mundo espiritual.
Vivenciarei mais o conteúdo do interior,
a intuição sensitiva  do Princípio Animador.

POEMA PARA MINHA MÃE QUE PARTIU

Autoria de LuDiasBH

poema

Por favor, todos, ouçam-me por piedade!

Parem todos os relógios e  as máquinas,
emudeçam os telefones fixos e os móveis,
ensurdeçam as vozes dos homens e animais,
calem os instrumentos e sons dos arredores.
Silenciem todos os sonidos da Terra, e que
só as lágrimas anunciem a descida de seu
corpo, seguido pelo murmurar do vento:
– Ela partiu! Ela foi embora para sempre!
Que os aviões singrem o ar, gemendo,
e que escrevam no céu a verdade cruel:
ELA PARTIU para nunca mais voltar.

As estrelas não são mais bem vistas,
apaguem-nas, uma a uma, por favor!
Guardem eternamente a lua e as flores,
desmontem para sempre o sol e a brisa.
Escureçam o azul do céu de uma só vez,
despejem o mar na vastidão do cosmo,
livrem-se da música, das flores e árvores,
onde cantam os curiós, canários e rouxinóis.
Coisa alguma terá o ardor de tempos atrás e
nada há que possa minimizar a minha dor,
pois não mais ouvirei o som de sua voz.

Por favor, meus parentes e meus amigos,
amarrem laços violetas nas torres das igrejas,
botem um manto roxo nos letreiros luminosos,
impeçam as crianças de divertir-se nos parques,
ponham tarjas negras nos braços dos passantes,
empanem a alegria impressa nos enamorados,
cubram de preto a cor esmeralda dos campos
e deixem-me também partir, expirar, fenecer,
pois minha vida já não tem mais significado.

Eu lhes peço, ó gentis presentes, que
não me estanquem a voz com frases feitas,
não me falem de céu, paraíso ou eternidade,
não me consolem com promessas vazias e
não me entorpeçam com o sono da caridade,
pois tudo será inútil diante da dor pungente,
que me dilacera corpo e espírito iracundos.
Mas, por favor, abracem-me! Abracem-me!

Minha mãe e adorada amiga,
jamais eu tocarei a sua face de novo,
nem sentirei a ternura de seu abraço,
nem ouvirei sua voz falando meu nome,
nem sentirei o ressoar de seus passos.
Quando a noite ou o dia vier, estarei só,
e também quando a vida me machucar,
pois você era o meu Norte e o meu Sul,
e era também o meu Leste e o Oeste.
Era meu incondicional amor, meu tudo!
Você era os meus dias úteis,
e os meus finais de semana,
a minha poesia, o meu causo
e era também o meu canto.

Eu pensava que o amor de mãe fosse eterno,
mas a verdade aparece apenas nas lágrimas
que escorrem no meu rosto murcho e roto, e
na dor que despedaça meu coração sem rumo,
com o sentimento forte de ter morrido junto,
para depois constatar que fiquei para trás,
aqui, sozinha no mundo.

Que nos abracemos, agora,
todos nós, filhos sem mãe,
deserdados do amor materno,
e que o nosso calor seja capaz
de arrefecer o nosso luto,
por termos ficado tão sós.
Sós nos braços do mundo.
Mas a vida deve continuar,
dizem, apesar de tudo.

Nota: poema inspirado em Blues Fúnebres, de W. H. Auden (Quatro Casamentos e um Funeral).

DORMIR O DIA

Autoria de Marcella Chaddad

Um dia, assim,
Os olhos brilhavam
E brilhavam no infinito da solidão
Solidão da alma
Alma dos olhos
Olhos que diziam.
No dia, diziam,
E diziam mais do que palavras
Diziam sentimentos
Da angústia do dia,
Daquele dia, em que os olhos ainda brilhavam
Em que o infinito da solidão dizia
E dizia
Deixa ir
Deixar o dia ir
Ir o dia
Ir…
Para que a alma pudesse se libertar
Libertar do que ainda nos prendia
E nos prendia ao dia
Ao dia em que os olhos ainda brilhavam.
E do brilho
Do brilho desse dia
Fizeram-se as palavras
Palavras de poesia
Poesia de dormir
Dormir o dia.

UMA PITADA PSICODÉLICA

Autoria de Marcela C. Chaddad

Era só um óleo sobre tinta
Tinta óleo que se dissolvia
No pouco do tecido
Que restou
Da poesia que juntos construímos.
Queimava
A cada gota de óleo
Mais um tom se partia
Até a completa fluidez
Exalar um novo aroma
Formando um novo verso
Que tecia
Das doces palavras de giz
Para a secura do óleo
Que não comungava com a poesia.
Era tempo de anunciação
Fez-se trepidação, exploração e desafeição
O afeto da poesia se retirou
E fez sua casa
Com uma pitada psicodélica de imaginação.

Nota: a ilustração é uma obra do pintor russo Leonid Afremov

O PIANO

Autoria de Marcela Cristina Chaddad

Um Sol de piano
Vacilou canções em mim
E a meio de tantos bemóis e sustenidos
As teclas desafinaram a melodia
Consentindo as correntes de águas salgadas
que desciam dos meus olhos
Misturadas a corais vermelhos vivos
E ele já não estava mais lá
Foi de pouco dó
Partiu de ré
Sem muitas notas
E nenhum acorde
Deixou o seu Piano anulando a armadura da clave
Que ainda insistia em tocar em Sol Maior
Fica um coração em sustenido

Nota: Madame Juliette Pascal ao Piano, obra de Henri de Toulouse-Lautrec

 

 

O TAPETE

Autoria de Zak Valença

Os tempos estavam sombrios
Um mundo de dar calafrios
Confusão
Ventania
Turbilhão
No reino da tristeza, ante a luta em ebulição,
A pior das batalhas que podia me surgir:
Forçado pelas circunstâncias,
Eis que me deparo comigo mesmo!

Incessantes lutas foram travadas,
Em gritante condição de desigualdade.
Se ainda insistia com minha velha racionalidade,
O inimigo, no golpe mais baixo do seu arsenal,
Me cortava os suprimentos de esperança.
Ah, isso não podia ser luta, mas dança
Uma dança fatal…

E foram vários passos nesse suplício
Seguindo na toada um pra cá, dois pra lá…
Lá, onde fica o precipício…
Não sei se por bondade ou desleixo,
Mas uma coisa o inimigo ainda havia me deixado:
A boca, e haveria de ficar calado?

E eis que descobri o professor G
Veterano nas orquestrações nos campos de batalha
Eu jogando, ele “professor”
Sim, as batalhas haviam virado jogos.

E daí ele escalou o Sr. Oxi para fazer dupla comigo
Que, ainda assim, teve que brigar para se integrar ao time,
No início foi quase expulso.
Logo após, sem ação e sem pulso,
E o inimigo ganhou impulso.

Foi quando me foi gritado à beira do campo:
“Usa a paciência, que vai dar certo!”
Era o professor G, mas também com Lu e seus amigos.
Sem acreditar, atendi no entanto
É que não parecia ser esperto.

Só que não…
Foi!
O time recuperou o fôlego.
E, ainda trôpego, conseguiu aplacar o adversário
Até há pouco ainda me perguntava como,
Mas suas armas tinham se calado

Passa-se um ano de calmaria,
E tudo em paz parecia…

Só parecia.

E não é que o inimigo havia ressuscitado?
Ora, ressuscitado…
Só ressuscita quem morre, e quem disse que ele havia morrido?

Surfando nas circunstâncias,
ele me pegou de novo, de jeito,
Descansado, e eu, iludido

Foi quando, espantado, percebi mais um no time dele
Um tapete, sussurrando friamente ao meu ouvido:
“Quem você acha que encobria seus monstros
Enquanto você achava que os tinha vencido, idiota?”
Sim, duro, incisivo, frio e grosseiro,
esse era seu novo artilheiro

Como assim, um tapete?!
E, pior, tecido por mim mesmo,
Aquele eu, maldito, que teima em não me dar satisfações!
Aí a aflição se agiganta, diante do questionamento:
Teria sido eu vítima de uma manobra sorrateira dele
Ou engenhoso cúmplice neste vil encobrimento,
Que, de tão engenhoso, enganou até meu monitoramento?

Agora eles riem de mim,
De tão forte que foi o baque
Tão fraco fiquei assim
Que nem consigo um ataque

Como pode? Se aquela vitória era só ilusão,
Como vencerei agora,
Sem mais achar munição?

Maldito tapete! (É mais cômodo xingá-lo do que eu)
Agora desfila na minha frente como a caixa aberta de Pandora
Tremulando os ventos da confusão de outrora
Chora, Zak, chora…

Nota: Melancolia, quadro de Edvard Munch