Arquivos da categoria: Poesia

Temas diversos

SOFRO PORQUE SOFRO…

Autoria de LuDiasBH

 – Vem cá, minha pequena!
Por que és tão bela e tão triste?

– Porque eu transporto as dores
Do mundo na minha frágil alma.

– Por que motivos tu carregas
Tão pesado e doloroso fardo?

– Desconheço uma explicação,
Penso que a vida escolhe alguns
Para levar adiante esta missão.

– Descreve-me esta tua angústia,
Quais causas ferem-te o coração?

– Infinitas são elas! Sou uma esponja
a filtrar o sofrimento que se espalha
Pelos cantos e recantos da Terra.

– Dize-me porque levas n’alma este
Absinto, bebida amarga dos poetas
Pela sensibilidade, dilacerados.

– Sofro, sobretudo, pelos desvalidos
E pelos animais vagando pelas ruas.
Sofro por mim, por ti, pelos outros
E pelas maldades perpetradas pelo
Homem nas mais diferentes plagas.

– Ainda assim, tua dor é tão aflitiva
Que transpõe a materialidade da vida,
Dá-me uma razão mais profunda para
Eu entender esta agonia não debelada.

– Amado meu, não me tortures mais!
Sofro por carregar chagas na alma.
Sofro porque sofro… E mais nada!

Nota: A bebedora de Absinto, obra de Pablo Picasso

O POETA NÃO MAIS PARIU PALAVRAS

Autoria de LuDiasBH

As folhas em branco encontravam-se espalhadas sobre uma escrivaninha em madeira nobre trabalhada. Um pouco mais distante jazia um tinteiro, com um líquido escuro, já um pouco envelhecido, e a seu lado descansava uma pena, cujo metal, na ponta inserido, ainda brilhava.

Acostumada ao trabalho da escrita, a pena ressentia-se  por ficar parada, sem cumprir o seu dever de vivificar as palavras do poeta que se encontrava tomado por um desencantamento profundo pelo homem e pelo mundo.

Ele se cansara-se de alegrar o espírito bronco da espécie humana, como se  pérolas aos porcos jogasse. Em seu desencanto, seu útero cerebral não mais pariu palavras. Emudeceu-se!

A pena, acostumada a ser direcionada pela mão macia e carinhosa de seu dono, fez um esforço imenso para mover-se. Levantou-se como um boneco desconjuntado, num cai aqui e cai acolá e pediu ao tinteiro que lhe emprestasse um pouco de seu sangue escuro. Com visível empenho, ela se debruçou sobre a folha branca mais próxima e escreveu:

“Ah! Como eu gostaria de mudar o mundo, conforme dita o coração dos poetas, sempre cheio de graça, sabedoria e dádiva. Ainda que por suas benditas palavras minha lâmina não seja gasta, o tempo me consome com a mesma ferrugem que apodrece as mentes estúpidas e insensatas dos homens. Quão grande é o meu pesar, ao passar pela vida, não mais como servidora da poesia, mas como objeto inútil e sem qualquer serventia –  assim como o é a maioria dos humanos: abjeta, insensível, corrupta e fútil.”.

A folha sentiu-se insultada ao ver a brancura de sua pele pela escrita manchada. Inculta, desconhecia a profundidade das palavras pela pena ali deixadas. Para ela, o mandamento maior da vida era a aparência, uma vez que a essência estava quase sempre ocultada. Era assim que pensava a mente vazia do papel em branco.

A folha não se encontrava sozinha em seu cômputo, pois entre nós, humanos, os que assim pensam são tantos, que à folha é-nos possível perdoar o disparate.

O fato é que, perdida em seu tolo e inexato juízo, a folha nem percebeu que a arrumadeira juntou todas as suas companheiras, embolou-as e no lixo as sepultou.
Contudo, ela ficou incólume sobre a escrivaninha.

Pensara a mulher que aquele papel, por belas letras bordado, fosse o guardião do pensamento do poeta que voltara a parir palavras.

O MILAGRE

Autoria de Edward Chaddad

No chorinho alegre do nascer,

Em um sorriso se abre o amor,

Encanta, jovem mãe, o  prazer  

De perpetuar-se mesmo na dor!

 

Castelo de inocência e pureza,

Construído com tanta ternura,

Presente de Deus, que beleza!

Rostinho lindo, que fofura!

 

O botão em flor se tornou,

Trazendo muita felicidade,

No coração bate a esperança.

 

O sonho almejado se consumou,

A vida é agora uma realidade,

O milagre se chama Criança! 

REFLEXÕES E PRINCÍPIO ANIMADOR

Autoria de José Procópio Alves

O materialismo consumista cansa.
Cansam as falsas aparências, os preconceitos e as máscaras.
E quando o cansaço se torna insuportável é hora de mudanças.
Faz-se necessário trilhar outros caminhos, buscar novas metas
e novos projetos, tendo como guia a intuição.

É preciso deixar o espaço de anos e anos dedicado ao modelo
de mundo ditado pelo materialismo desmedido.
Deixar o velho caminho para os jovens cheios de vigor, que
inda possuem o ânimo necessário para confrontar os soberbos.

Deixarei o palco onde interpretei um personagem razoável.
Não quero mais interpretar e, sim, ser “eu” mesmo.
Estarei na busca daquilo que julgo ser a verdade.
Não possuo mais tanto tempo para ilusões apenas,
necessárias para a sobrevivência na realidade material.
O suficiente já é o bastante pra viver decentemente.

Após meio século de vida  tornei-me mais realista.
Estarei caminhando de encontro à verdade Deísta,
Pois compreendi o que disse o Mestre Jesus:
“O meu reino não é deste mundo,
buscareis a verdade e ela vos libertará”.

A verdade é além do carbono.
Não serei mudo, cego ou surdo.
Dedicarei atenção ao mais profundo:
à minha busca pelo mundo espiritual.
Vivenciarei mais o conteúdo do interior,
a intuição sensitiva  do Princípio Animador.

POEMA PARA MINHA MÃE QUE PARTIU

Autoria de LuDiasBH

poema

Por favor, todos, ouçam-me por piedade!

Parem todos os relógios e  as máquinas,
emudeçam os telefones fixos e os móveis,
ensurdeçam as vozes dos homens e animais,
calem os instrumentos e sons dos arredores.
Silenciem todos os sonidos da Terra, e que
só as lágrimas anunciem a descida de seu
corpo, seguido pelo murmurar do vento:
– Ela partiu! Ela foi embora para sempre!
Que os aviões singrem o ar, gemendo,
e que escrevam no céu a verdade cruel:
ELA PARTIU para nunca mais voltar.

As estrelas não são mais bem vistas,
apaguem-nas, uma a uma, por favor!
Guardem eternamente a lua e as flores,
desmontem para sempre o sol e a brisa.
Escureçam o azul do céu de uma só vez,
despejem o mar na vastidão do cosmo,
livrem-se da música, das flores e árvores,
onde cantam os curiós, canários e rouxinóis.
Coisa alguma terá o ardor de tempos atrás e
nada há que possa minimizar a minha dor,
pois não mais ouvirei o som de sua voz.

Por favor, meus parentes e meus amigos,
amarrem laços violetas nas torres das igrejas,
botem um manto roxo nos letreiros luminosos,
impeçam as crianças de divertir-se nos parques,
ponham tarjas negras nos braços dos passantes,
empanem a alegria impressa nos enamorados,
cubram de preto a cor esmeralda dos campos
e deixem-me também partir, expirar, fenecer,
pois minha vida já não tem mais significado.

Eu lhes peço, ó gentis presentes, que
não me estanquem a voz com frases feitas,
não me falem de céu, paraíso ou eternidade,
não me consolem com promessas vazias e
não me entorpeçam com o sono da caridade,
pois tudo será inútil diante da dor pungente,
que me dilacera corpo e espírito iracundos.
Mas, por favor, abracem-me! Abracem-me!

Minha mãe e adorada amiga,
jamais eu tocarei a sua face de novo,
nem sentirei a ternura de seu abraço,
nem ouvirei sua voz falando meu nome,
nem sentirei o ressoar de seus passos.
Quando a noite ou o dia vier, estarei só,
e também quando a vida me machucar,
pois você era o meu Norte e o meu Sul,
e era também o meu Leste e o Oeste.
Era meu incondicional amor, meu tudo!
Você era os meus dias úteis,
e os meus finais de semana,
a minha poesia, o meu causo
e era também o meu canto.

Eu pensava que o amor de mãe fosse eterno,
mas a verdade aparece apenas nas lágrimas
que escorrem no meu rosto murcho e roto, e
na dor que despedaça meu coração sem rumo,
com o sentimento forte de ter morrido junto,
para depois constatar que fiquei para trás,
aqui, sozinha no mundo.

Que nos abracemos, agora,
todos nós, filhos sem mãe,
deserdados do amor materno,
e que o nosso calor seja capaz
de arrefecer o nosso luto,
por termos ficado tão sós.
Sós nos braços do mundo.
Mas a vida deve continuar,
dizem, apesar de tudo.

Nota: poema inspirado em Blues Fúnebres, de W. H. Auden (Quatro Casamentos e um Funeral).

DORMIR O DIA

Autoria de Marcella Chaddad

Um dia, assim,
Os olhos brilhavam
E brilhavam no infinito da solidão
Solidão da alma
Alma dos olhos
Olhos que diziam.
No dia, diziam,
E diziam mais do que palavras
Diziam sentimentos
Da angústia do dia,
Daquele dia, em que os olhos ainda brilhavam
Em que o infinito da solidão dizia
E dizia
Deixa ir
Deixar o dia ir
Ir o dia
Ir…
Para que a alma pudesse se libertar
Libertar do que ainda nos prendia
E nos prendia ao dia
Ao dia em que os olhos ainda brilhavam.
E do brilho
Do brilho desse dia
Fizeram-se as palavras
Palavras de poesia
Poesia de dormir
Dormir o dia.