ÍNDIA – A LUTA DOS ATIVISTAS DALITS

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Autoria de LuDiasBH

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Apresento aos leitores o resumo da entrevista feita por Graciela Selaimen (Rets) e Anupam Wankhede (ativista da Campanha Nacional pelos Direitos Humanos dos Dalits) sobre a luta dos dalits para romperem com os grilhões em que se encontram aprisionados.

Ser considerado um “intocável” e sofrer discriminação por conta da sua casta é uma realidade para milhões de dalits na Índia. Eles são considerados quase subumanos, sujeitos aos trabalhos mais degradantes. Seus direitos são sistematicamente submetidos a violações. São chamados de “intocáveis” porque, para muitos hindus, quem toca em um deles (ou até mesmo fica debaixo de sua sombra) fica impuro.

Desde 1998, grupos de dalits uniram-se na coalizão chamada Campanha Nacional pelos Direitos Humanos dos Dalits – uma plataforma sem vínculos políticos, liderada por ativistas dalits na área de direitos humanos. Suas demandas são por direitos à habitação, à educação, à terra e ao trabalho, à igualdade de gênero, à vida com segurança e ao emprego.

Entender o que significa ser um dalit é praticamente impossível para uma cabeça ocidental – assim como entender o sistema de castas que segrega pessoas com se nada de anormal houvesse. Eis a entrevista:

Rets – Você poderia nos dar uma breve explicação sobre a situação dos dalits na Índia, a história e as tradições que estão por trás desta condição social? O que é ser um intocável?

Anupam Wankhede – Ser um intocável significa que você não pode ser tocado, não pode tocar em ninguém e que as pessoas de outras castas devem sempre manter distância de você. E que está em último lugar na sociedade.

Rets – Mas hoje em dia isso ainda é levado em conta?

Anupam Wankhede – Na Índia rural, principalmente, os dalits são intocáveis e ignorados pelas outras castas. Assim, há grupos de dalits de diversos lugares do país que protestam contra essa situação. A Constituição da Índia não reconhece esse sistema de castas que impõe a “intocabilidade”. Nós protestamos contra a discriminação e queremos ser reconhecidos, queremos nossa dignidade, como têm as outras classes sociais.

Rets – Então, oficialmente, o país reconhece os direitos humanos dos dalits, mas, apesar disso, eles continuam sendo violados. Como os movimentos sociais e as organizações da sociedade civil apoiam a luta dos dalits por seus direitos?

Anupam Wankhede – As organizações da sociedade civil ajudam as organizar os grupos de dalits por todo o território indiano, apoiando nossa articulação na luta contra as classes mais altas, que ainda nos discriminam.

Rets – O que vocês conseguiram alcançar com este movimento? Alguma mudança, alguma evolução na maneira de pensar das elites?

Anupam Wankhede – Sim. Antigamente, eram raríssimos os dalits que tinham acesso à educação e eram impedidos de sair dos seus lugares de origem. Mas, ao longo dos últimos 35 anos, as coisas começaram a mudar. Eu sou um exemplo disso. Eu sou um dalit, e consegui estudar. Hoje estou na universidade, estudo Direito. Os dalits estão conseguindo sair do lugar da exclusão e adquirir educação, conhecimento, trabalho, poder. E nós, que conseguimos essas coisas, tentamos estender estes direitos aos outros de nossa classe social.

Rets – Como é a situação das mulheres dalit? Porque na Índia, a situação da mulher já é, tradicionalmente, de exclusão. Para as mulheres dalit, a exclusão deve ser ainda mais radical…

Anupam Wankhede – Na verdade, na Índia já é difícil ser mulher, mas ser uma mulher dalit é ainda pior. Em muitos lugares na Índia, ser mulher ainda significa ser inútil. Ser uma mulher dalit é a pior situação possível, em nossa sociedade.

Rets – Quais são as piores formas de constrangimento impostas aos dalits?

Anupam Wankhede – Nós somos segregados em lugares públicos. Em um hotel ou restaurante, por exemplo, não podemos fazer refeições com as pessoas de outras classes, se usamos um copo ou talher, nós mesmos temos que lavá-lo. Ninguém quer lavar um copo usado por um dalit.

Rets – E quanto aos direitos humanos e sociais? Acesso à educação, serviços de saúde, trabalho?

Anupam Wankhede – Também nesse sentido somos discriminados. Nós continuamos sendo ignorados nos lugares onde são oferecidos serviços públicos – de uma maneira ou de outra.

Rets – E como o governo assegura aos dalits os serviços sociais básicos, como educação e saúde?

Anupam Wankhede – A Constituição assegura aos dalits 25% de ocupação em cargos no governo (embora uma parte dos cargos reservados continue vazia) e vagas para utilização dos serviços públicos. Além dos espaços governamentais, há diversas ONGs que lutam pelos direitos dos dalits e pelo seu acesso aos serviços básicos. Apesar destas garantias na Constituição, na hora de exercermos os direitos na prática ainda sofremos muito – às vezes, com violência física.

Rets – E como se sabe quem é dalit?

Anupam Wankhede – Antigamente, tínhamos que andar com sinos ou chocalhos para avisar que estávamos nos aproximando, para que as pessoas de outras castas pudessem nos evitar. Isso já não acontece – pelo menos, nas cidades. Não há diferença física entre pessoas de diferentes castas. Deus não fez as castas, não fez as pessoas diferentes para pertencerem a esta ou àquela casta. Isso foi um sistema criado pelos homens, pela elite – os Brahmans – que queriam dominar os outros. Por isso criaram as castas, para terem poder sobre elas. Deus não inventou isso. Nós nascemos da mesma maneira, morremos da mesma maneira. Eu nasci dalit porque sou filho de dalits (aponta para o pai). Eu luto contra a dominação e a exclusão e tenho amigos que não são dalits, que me aceitam. Eu falo abertamente com eles sobre minha condição, e eles me aceitam abertamente. Mas nas pequenas vilas, nas áreas rurais, isso não acontece. E os dalits de todo o país precisam saber que podem mudar o sistema, que eles têm poder para lutar pela mudança.

Rets – Essa mudança é mais fácil entre as gerações mais jovens?

Anupam Wankhede – Sim, nossa geração, que está na Universidade, que tem informação, está abrindo sua cabeça, pensando diferente da geração de seus pais, questionando o que diz a religião. Nós temos que ter a mudança na cabeça. A Índia vai mudar sua maneira de pensar, um dia.

Nota: Imagem copiada de http://iam2.org/tag/dalits/

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