MEU EX-MARIDO É BIPOLAR

Siga-nos nas Redes Socias:
FACEBOOK
Instagram

Autoria de Magdaline Santiago

Descobri que meu marido era bipolar quando ele teve um surto, após nossa primeira separação dentro do casamento, porque nos cinco anos de namoro foram inúmeras. Ele estava na fase de mania: andava irritado, falando coisas ao mesmo tempo, com o humor lá nas alturas, querendo curtir a vida loucamente, gastando exageradamente com coisas banais, bebendo muito e dirigindo alcoolizado. A busca por ajuda médica nem passava por nossa cabeça (minha e da família dele) que não sabíamos que se tratava de um transtorno mental. Além disso, ele tinha uma resistência muito grande para consultar médicos, imagine ter que ir a um médico PSIQUIATRA. Tínhamos também a falsa ideia de que a bipolaridade trazia mudanças repentinas de humor (do dia pra noite) e isso não acontecia com ele. Apesar de eu ter percebido que ele vivia em ciclos, nunca imaginei que teria Transtorno Bipolar, achava que suas mudanças eram relativas à sua personalidade e jeito de ser.

Certo dia, nós brigamos por ele ter saído na noite anterior para curtir. Ele me agrediu com palavras, extremamente nervoso, quebrando coisas à volta. Fui embora para a casa da minha mãe. No terceiro dia ligaram-me dizendo que ele estava mal, surtado, sem dormir, perdendo-se nos lugares e sem conseguir trabalhar. Queimou algumas roupas minhas, quebrou coisas dentro de nosso quarto e o levaram ao psiquiatra que lhe deu o diagnóstico de bipolaridade e 15 dias de atestado, além de prescrever medicamentos. Ele precisava fazer um exame de sangue para saber se prescreveria já o Lítio, mas ele não quis fazê-lo e nem continuar o tratamento. Tínhamos uns 10 anos juntos, entre namoro, noivado e casamento. Aquele diagnóstico fazia todo sentido.

Meu ex-marido sempre tinha uma desculpa para não fazer o tratamento. Dizia que não aceitava ser bipolar e que o médico estava enganado no seu diagnóstico. Tempos depois, por estar extremamente depressivo e irritado, aceitou ir a uma médica que lhe passou remédios para controlar o humor, a irritabilidade e o sono (ele tinha fases de muita insônia e pesadelos). Porém, alguns dos medicamentos, a princípio, pioraram os sintomas e ele quis parar, não quis voltar à médica, colocando vários defeitos nela. Possivelmente estava passando pelos efeitos adversos, além disso, os medicamentos são também testes, sendo que cada pessoa tem uma reação diferente que precisa ser comunicada ao médico para que ele faça mudanças, quando necessárias.

Os ciclos pelos quais passava meu ex-marido eram bem longos: meses com uma mania leve, meses ou semanas com uma mania mais forte e meses ou semanas com depressão que, curiosamente, era sempre nos últimos meses do ano para os primeiros do ano seguinte. Na época de festas, férias e verão, ele estava sempre triste, calado, sem querer ver ninguém. Havia começado terapia devido à depressão, mas sempre parava… Quando ainda não sabíamos do que se tratava, e ele se encontrava na fase de mania leve, ficávamos todos felizes, torcendo para que isso durasse. Nossa maior preocupação era com a depressão, porém, após o surto e o diagnóstico de bipolaridade, a mania mais severa começou a nos preocupar muito.

Tivemos cinco anos de namoro entre muitas idas e vindas. Por muitas vezes, ele pôs fim no nosso relacionamento por estar confuso, querendo curtir a vida, sem limites para nada; noutras porque estava triste e qualquer coisa a mais seria um peso, pois nascera para viver sozinho; noutras vezes eu terminei por infidelidade dele, o que curiosamente acontecia na fase da mania, porém, era sempre previsível ele se arrepender e pedir para voltar, chorar, sofrer, emagrecer. Muitas vezes voltei por eu estar sofrendo; noutras por pena dele; algumas vezes por acreditar que mudaria. Ele sabia ser convincente e, por fim, criei uma dependência emocional. Eu tenho TAG que leva ao pânico e num dos nossos términos tive crises muito fortes de ansiedade, o suficiente pra criar dependência emocional. Achava que se não estivesse com ele iria sofrer sempre de pânico, porque eu não tratava bem esse transtorno mental, pois confundia os conflitos da mente com os sentimentos.

Graças a Deus não tivemos filhos. Até tentamos, porém, é complicado, porque na fase depressiva a comunicação é péssima.  Ele não falava comigo, não tinha libido. A essa altura, eu era mais mãe do que esposa dele, tentando animá-lo, fazê-lo caminhar, tomar sol, abrir-se. Marcava médicos, tentava fazê-lo tomar a medicação, sempre buscando saber o porquê de alguém, que não tinha o costume de fumar e beber, consumir vários cigarros e beber muito. Além de me preocupar com meus problemas psicológicos, com os trabalhos de faculdade, com a organização da casa, etc., e ainda me preocupava o tempo todo com ele. Meu maior medo, na fase depressiva dele, era um dia chegar em casa e dar de cara com uma cena traumática para minha vida. Quando ele pediu para se separar de mim, tirou um peso das minhas costas. Eu já estava tratando minha TAG com psicóloga e medicação e consegui passar muito bem pela separação.

É difícil, hoje, um homem (ou mulher) bipolar não ser “ex-” de alguém, quando não faz o tratamento. Chega uma hora em que não se aguenta mais. Comigo foi assim na última vez em que nos separamos. Já saturada de tantas idas e vindas, eu não quis voltar mais. Estava cansada das indefinições, incertezas e sofrimento. Os problemas maiores são os conflitos e também o fato de você fazer parte de um ciclo vicioso que parece não ter fim. Conheci inúmeras ex-mulheres de portadores do Transtorno Bipolar. Elas me relataram parte de suas vidas com seus ex-maridos que não aceitaram o diagnóstico e tampouco o tratamento, ou não deram continuidade ao mesmo. Eles interrompem o tratamento porque não têm paciência com os efeitos ruins de sua fase inicial. As mulheres são bem mais fáceis de aceitar o transtorno e de se tratarem. Elas podem tomar medicação a vida inteira e viver muito bem em família e em sociedade.

Deixo aqui um alerta aos homens com este transtorno. Se quiserem ser felizes com a família, trabalho e amigos precisam aceitar o tratamento. Não adianta se arrepender depois de ter perdido a pessoa (namorada, noiva ou esposa) que amava. Quando aceitam o tratamento, a mulher compreende sua doença, tem mais paciência e passa a redobrar seus cuidados com ele. Caso contrário, o único caminho é a separação.

Nota: Amizade, obra de Pablo Picasso.

11 thoughts on “MEU EX-MARIDO É BIPOLAR

  1. Luciana Silva

    Magdaline

    É exatamente igual a minha história, mas não dei conta de voltar. No meu caso, ele tomava os medicamentos certinho, mas bebia muito álcool sempre, então não devia fazer efeito corretamente. O que dá no mesmo de não se tratar.Tivemos um filho juntos, e só o vejo nas visitas. Acho que se não fosse esse vínculo não o veria mais.

    Responder
    1. Magdaline

      Luciana Silva

      Não fico feliz com separações, porém se uma das partes tem problemas e não quer se cuidar corretamente, não é justo a outra parte passar a vida sofrendo por sua causa. Com certeza o álcool corta o efeito do medicamento e piora os sintomas da doença e ainda causa mais dependência, porque se alcoolizar torna-se uma fuga dos sintomas da doença. Fica um ciclo vicioso: a pessoa toma o remédio que não faz efeito devido ao álcool, então ela piora, daí quer beber pra “fugir”… Se não deixar o álcool, não adianta fazer tratamento.

      Meu ex consumia muito álcool e cigarro nas crises de euforia ou depressão. A coisa mais estranha do mundo é você ver quem nunca foi de beber e fumar, bebendo e fumando compulsivamente. Verdade, a melhor coisa para os dois seguirem em frente é não ter contato mais, só o que for necessário mesmo.

      Responder
  2. Cristina Santos

    Amiga estou vivendo uma fase assim meu marido a cerca de 5 meses acabou o casamento de 12 anos pelo “whatsapp”. só percebi que tinha algo errado depois que me vi fora da relação ele gasta rios de dinheiro com coisas inúteis está sempre…

    Responder
  3. Mel

    Magdaline

    Como você conseguiu se reerguer depois de uma relação traumática dessas? Fiquei por 7 anos com um bipolar e estou há 3 anos nesse processo de auto reconstrução. A presença dele ainda me agride de inúmeras maneiras. Como foi seu processo pós separação? Grata pelo seu texto e pelo acolhimento que ele trouxe por conta da identificação. Só quem passa por essa experiência sabe o que é e o que causa.

    Beijo grande!

    Responder
    1. Magdaline

      Mel

      Perdoe-me pela demora em responder. Essas últimas semanas foram muito corridas para mim e não gosto de responder na correria, gosto de parar e dar atenção à resposta.

      Bem, Mel, eu cheguei em um nível em que estava tão esgotada, cansada, saturada que sabia que se ele fosse embora eu não ia querê-lo mais e até já havia prometido isso a mim mesma. Como de praxe, dois meses depois ele pediu para voltar, dessa vez eu estava me sentindo inexplicavelmente tão livre, tão leve, com tanta vontade de me reerguer e ter uma vida plena, sem amarras, sem dores de cabeça, que foi fora de cogitação voltar pra ele. Fiquei bem triste por saber que ele estava sofrendo, preferia que ficasse bem e não pedisse pra voltar. Mas eu aprendi a me amar primeiro, exercitei isso até com a ajuda da terapia.

      Como era um relacionamento abusivo, minha autoestima estava bem abalada. Eu me apeguei a minha família que me deu todo um suporte. Meus pais são maravilhosos e como eu estava recém desempregada, comecei a dar aula particular aos meus sobrinhos, o que me fez muito bem esse contato com as crianças. Reaproximei-me de amigas que eu não tinha contato fazia tempo. Comecei academia, que era algo que eu sempre começava, mas parava por causa dele. Comecei a fazer dança que eu amo. Foquei na faculdade que estou terminando, era algo também que eu sempre parava por causa dos altos e baixos do nosso relacionamento.

      Quando você fala que a presença dele ainda te agride de inúmeras maneiras o que quer dizer? Você precisa vê-lo? Vocês têm filhos juntos? Trabalham juntos ou algo assim? Porque não tivemos filhos, só precisei vê-lo quando eu dei entrada no divórcio (para a surpresa dele também, aquela mulher que sempre voltava foi a que não quis mais voltar e ainda deu entrada no divórcio).

      Mel, eu não tive muito o que superar, porque já estava bem saturada, a separação foi um alívio inexplicável que eu nunca tinha sentido antes em nossas separações. Acredito que o fato dele ter sido diagnosticado também ajudou, porque é algo que sei que não tem cura, tem tratamento, porém ele não queria se tratar, ou seja, não mudaria, porque todas as vezes que voltei foi com a esperança dele mudar, dessa vez eu não tinha mais esperança. Ele também teve a iniciativa de me bloquear em tudo e isso também foi ótimo pra mim. Ele mesmo me evitava. Não foi no aniversário do sobrinho porque eu estaria, não foi no casamento da prima porque eu fui madrinha, enfim, sem querer ele me ajudou bastante… rs

      Estou há 2 anos e 3 meses separada, ele até já se casou inclusive (mas isso é outra história rs) e só consigo agradecer a Deus por até hoje eu ter esse sentimento de alívio, por ter me feito entender que mereço ser feliz sozinha ou com outra pessoa, mas que mereço ser feliz! Também estou no processo de reconstrução, porque saímos de um relacionamento abusivo perdidas de nós mesmas, sobre o que queremos e o que não queremos, se fazíamos algo porque gostávamos ou por causa deles, o que realmente gostamos ou não, o que é bom para nós ou não, o que é certo para nós ou não, enfim, precisamos nos reencontrar e nos reconstruir realmente, é um processo longo de conhecimento, talvez até infinito… rs, mas muito necessário e descobrimos o quão valiosa somos, únicas e que merecemos alguém a nossa altura.

      Aconselho que você faça terapia, isso vai fortalecer seu emocional e ajudar no seu psicológico, apegue-se a pessoas que te fazem bem, família, amigos e nesse processo de reconstrução descubra coisas que você ama fazer e permita-se fazê-las. Lembre-se que você não deve nada a ele e às pessoas, você só deve a você mesma, você deve e merece ser feliz.

      “Você nasce sem pedir e morre sem querer, aproveite o intervalo.”

      Espero ter ajudado, qualquer coisa estou aqui. Um abraço e tudo de melhor na sua vida. Vai dar tudo certo!

      Responder
  4. Vanessa

    Lu

    Obrigada pelo carinho. O meu -ex até hoje me acusa de ter destruído sua vida, mas não entro em conflito porque sei que só quis ajudar, mas agora cabe a ele encontrar seu caminho…

    Beijo grande

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Vanessa

      Trata-se de uma acusação injusta, você sabe disso, mas que é normal partindo do estado de saúde dele. O que pode fazer é sempre aconselhá-lo a buscar tratamento para que possa ter uma vida com qualidade.

      Beijos,

      Lu

      Responder
  5. Vanessa

    Lu

    Namorei dois anos um biopolar. Era um namoro instável, pois ele terminava e voltava. Eu vivia insegura, mas sempre que ele me procurava eu o tratava com carinho e nem questionava seus sumiços… Ele se queixava muito dos seus pais e dizia que só seria feliz no dia que saísse de casa e tivesse a sua própria vida.
    Surgiu uma casa para alugar, ele adorou a ideia e fomos morar juntos.

    Ele sempre bebeu, mas dizia que era só nos momentos de folga. Quando passei a viver com ele, descobri que além da bipolaridade ele era alcoólatra e a minha vida virou um inferno. Eu nunca sabia como estava o humor dele e com a bebida a irritabilidade ia ao extremo. Logo começou a me tratar com berros, implicância e um ciúme fora do comum.

    Eu pedia com educação e carinho que deixasse a bebida; ele prometia parar, mas no dia seguinte começava a beber assim que acordava. Eu sofri muito, até que percebi que meus pedidos não surtiam efeito, pois tanto a bipolaridade quanto o alcoolismo precisam ser tratados por profissionais e eu estava esgotada.

    Terminei a relação, ele voltou a morar com seus pais e eu tinha a esperança de que ele finalmente se tratasse, mas continua do mesmo jeito, bebendo diariamente… Sei disso porque às vezes me procura, fala coisas lindas para me envolver, mas em seguida me acusa, diz que eu destruí a vida dele. Sofro muito porque ainda gosto dele e preocupo-me com ele, mas infelizmente sem tratamento não tenho condições de levar avante o relacionamento.

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Vanessa

      Seja bem-vinda a este cantinho. Sinta-se em família.

      Amiguinha, posso entender o que você passou, pois conviver com a bipolaridade é uma tarefa muito árdua. É difícil o relacionamento com alguém que nunca sabemos em que fase se encontra, sem dizer que todas elas são dificílimas. Por desconhecimento, sempre imaginamos que somos capazes de mudar uma pessoa que amamos apenas com a nossa companhia e com a força que lhe repassamos. Isso, contudo, nem sempre acontece. Primeiro porque toda mudança vem de dentro para fora, segundo porque só muda quem assim o deseja. Quando se trata de uma doença mental a tarefa é hercúlea, ainda que lutemos com todas as nossas forças, pois a pessoa precisa passar por um tratamento com especialistas, inclusive fazendo uso de remédios.

      O importante é que você tentou segurar o relacionamento, fazendo o melhor que podia, ainda que não compreendesse que seu companheiro deveria passar por um tratamento médico. É uma pena que não tenha tido consciência da doença dele, pois assim não teria sofrido tanto. Se a bipolaridade prima pela instabilidade emocional, imagine o que acontece quando ela se junta ao alcoolismo. Fico a imaginar o tamanho de seu problema que envolvia até mesmo a sua segurança física e pela dele, pois o bipolar, quando sem tratamento, pode ficar extremamente agressivo.

      Vanessa, você agiu corretamente ao separar-se dele. A menos que ele faça um tratamento sério, não volte, pois a barra ainda será mais árdua, pois sua tendência, sem tratamento, é só piorar, adoecendo você também. Nenhum relacionamento resiste aos altos e baixos da bipolaridade quando sem medicação.

      Um grande abraço,

      Lu

      Responder
  6. LuDiasBH Autor do post

    Magdaline

    Tenho a certeza de que seu texto servirá de alerta tanto para homens quanto para mulheres que convivem com tal transtorno. Você foi de uma clareza e sinceridade a toda prova, ao desvendar o abismo do relacionamento em que um dos cônjuges sofre de bipolaridade, mas recusa o tratamento. Ao vivenciar tal relação, pode reproduzir fielmente as consequências nefastas que tomam conta da vida a dois, sobrecarregando, sobretudo, a parte que tem que carregar nas costas o peso das consequências de um transtorno sério não tratado. É mais do que compreensível que o fim seja a separação, pois para tudo há limites.

    Fica aqui o seu alerta. Espero que sirva de espelho para os casais que vivenciam, de uma forma ou de outra, as consequências de tal transtorno, quando colocam em segundo plano a ajuda médica. Parabéns pela sinceridade de seu texto e por ter se predisposto a ajudar os que passam por situação parecida.

    Abraços,

    Lu

    Responder

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *