UM PIRÃO DE GULA E TRAIÇÃO

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Autoria de LuDiasBH

pirao

O meu primo Nel, cujo nome prometi não revelar jamais, nem que torturada fosse, contou-me hoje um sofrido, mas risível causo de sua infância, causo esse que divido com os meus queridos leitores, sabendo que será enterrado no mais profundo dos abismos e jamais chegará a seus ouvidos, embora digam que o segredo não pode passar de uma pessoa, e por cima tenha boa memória, para não se esquecer de que se trata de sigilo absoluto.

Estava o anjinho em questão, hoje um diabão bem elaborado, com sete anos de idade, quando o pai, cheio de luxúria, caiu de amores por uma sirigaita, abandonando a sua mãe, tia Amelinda, com uma penca de cinco filhos, lá pelas bandas do Vale do Jequitinhonha. Se há uma coisa que arrebenta é o abandono, a certeza de que um amor de longos anos foi chutado para escanteio, em razão de uma caipirinha qualquer. Principalmente se a rejeitada tiver sido uma exímia serva de cama, fogão e tanque para ulceração que não fecha nunca. E coitado daqueles que estiverem em volta do ser alvejado pelo desdém e desprezo. As flechadas não acertam somente o alvo devido, mas também os inocentes que adejam por perto.

Assim aconteceu com o meu priminho Nel, lá para os meados de 1996, quando o pai deixou o lar. Tia Amelinda ruminava seu ódio para os parentes e “derentes”, amigos e desconhecidos. Já havia visitado Pomba-gira, Tranca-rua e seu séquito sem obter resultado algum. E, nesse nefasto dia, que ora lhes narro, estava recebendo a visita de uma cartomante de muita fama e valia nas redondezas, em se tratando de coisas do coração e coisa e tal. Dizia a dita que ela era mais forte do que São Cipriano, e traria qualquer infiel no laço, num prazo em que se queimam duas velas de sete dias.

A poderosa mulher adivinhadeira chegara cedo à casa da família, pronta para filar a boia de sua cliente de coração gangrenado e curtido no ódio ao pilantra e leviano marido, mas ainda lutando para trazê-lo de volta para debaixo dos lençóis macios, muito mais pelo ferimento causado ao ego do que por amor. Pois quem há de amar quem nos machuca e desrespeita a nossa humanidade?

A egrégia visitante, conhecedora dos melindres do amor e da malquerença, foi a primeira a servir o prato no fogão à lenha, pegando os melhores pedaços da penosa, enquanto a vítima fazia um pratinho de comida para cada filho, recusando-se a come, tamanho era o dilaceramento de seu ser. O fel que lhe tomara corpo e alma, não lhe deixara nenhum espaço para qualquer alimento que não fosse a certeza de jogar o traidor a seus pés, custasse o que custasse.

O meu priminho Nel, com seus dentinhos afiados, acabou de comer seu pratinho antes que a insigne ledora de cartas deglutisse o seu pratázio. E a comida, feita no capricho para agradar a dona do destino da mãe, estava uma gostosura só. A pequenina barriga do menino pedia mais, apesar de todo o sofrimento que via a mãe passar, pois coração de criança não arquiva mágoas por muito tempo e, tampouco, o estômago fecha-se. Ele, humildemente, dirigiu-se à mãe:

– Mãe, eu quero mais! Bota mais um tiquinho para mim.

Tia Amelina fez ouvidos moucos, dando o pedido por não feito. E bom seria para o coitadinho, se a história parasse por aqui. Mas não, o pior estava por vir.

Assim que a pitonisa saiu, deixando mais desconsolo, ao dizer que para trazer o insidioso, era preciso duplicar o tempo das velas queimantes, pois a “outra” também fizera uma forte mandinga para roubar o proditório, tia Amelinda pegou uma gamela de meio metro de diâmetro e vinte centímetros de altura (medidas dadas pelo Nel) e despejou nela toda a comida que havia nas panelas, acrescentando muita farinha de mandioca. E gritou:

– Manoel, seu moleque guloso, venha aqui! Vai comer tudo, para aprender a ter educação na frente de visita tão importante, responsável pelo nosso destino. Não foi esta a educação que eu lhe dei, seu moleque. Já basta a vergonha que seu pai tem me feito passar diante das gentes da rua.

Tia Amelina colocou a gamela no colo do menino de olhos esbugalhados de surpresa e medo. E o inocente foi comendo, comendo, comendo, até perder a noção do que fazia. De modo que, em face do trauma, não sabe se chegou a engolir tudo, mas tem certeza de ter comido uns três quartos da “mistureba”. Duas horas depois, o piá começou a esguichar comida por todos os orifícios do corpo. O pequeno banheiro tornou-se fétido e o ar se encarregou de levar o cheiro para o quarto, onde a “dedicada” mãe dormia meio ébria. De modo que o bodum, a inhaca, o xexéu acabou por acordar a sofredora. Colérica, pegou o cinto que o amado pérfido havia deixado, e começou a bater no guri pela catinga, talvez pensando que estivesse subjugando o desalmado companheiro de tantos anos.

E Nel, que antes comia como um passarinho, passou a comer desordenadamente como vingança. É capaz de comer um frango inteiro de uma sentada, e tem por ídolo Dom João VI. O que não faz um trauma!

(*) Imagem retirada de http://quilomboafricaelaranjituba.blogspot.com.br/2011/07/artesanatos-tradicionais-produzidos-nas.html

 

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