POR QUE SOFREMOS?

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Autoria de Lu Dias Carvalho

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Os erros humanos se diferenciam em grau de culpabilidade, de acordo com a época em que ocorrem. A visão sobre a vida flui a partir da caminhada do homem sobre o seu planeta. E assim não poderia deixar de ser. O sofrer está atrelado ao existir. Nenhum ser está imune a isso. Até as montanhas sofrem com o desgaste do tempo. E o homem, sem dúvida, é o ser mais vulnerável ao sofrimento. Este é o preço pago pela sua capacidade de sentir, refletir e criar.

O humano tem a sua primeira experiência com a dor, mas não como sujeito, mas como objeto, ao sentir o que os outros lhe fazem, ignorando o que faz aos outros. O que é natural em razão da imaturidade que o acomete na juventude. E pior, muitos continuam “jovens” até a velhice, sem se conscientizar do mal que causam a terceiros, pensando apenas no próprio umbigo. São muitos os motivos que levam o ser humano ao sofrimento. Eis alguns:

A ignorância, cuja palavra tem um significado muito mais profundo do que é dado a ela, não diz respeito apenas à falta de conhecimento. Vai muito além. Ignorar significa, também, preferir não ver, não ouvir e não sentir. Tornar-se omisso diante de uma realidade que se posiciona a nossa frente. A ignorância não diz respeito apenas à falta de instrução, como pensa grande parte das pessoas.

Ignorar a realidade, deliberadamente, é a maior de todas as formas da estupidez humana, de omissão. Uma pessoa “instruída” pode ser totalmente destituída de bom senso, capaz de enxergar apenas o que lhe interessa, enquanto uma “simplória”, mesmo sem uma educação formal, pode ser capaz de ouvir, sentir e ligar-se a tudo que a rodeia. Portanto, o sentido de ignorância é bem mais complexo.

O desequilíbrio é um dos maiores problemas do mundo moderno. E, como a Medusa, possui infinitas cabeças tomadas pela maldade, que originam tantas outras mais. O desequilíbrio é a raiz de quase todos os males. É a força motriz da injustiça. É o leito de morte da paz. A mesa da incompreensão. A derrocada do homem. O declínio da humanidade. A mortalha do planeta Terra.

O desequilíbrio leva ao rompimento de relações, quando o relacionamento é a essência da vida. Portanto, cortar relações é uma forma de nos desligarmos uns dos outros no seio do universo. É o empobrecimento da existência. É a morte do amor. E, por consequência, a morte da solidariedade e da justiça.

O dualismo é uma visão contorcida da realidade. É a mera divisão de tudo que se processa no Universo em apenas isso ou aquilo. É a falta de percepção de que a vida não é apenas dual. É a incapacidade de se colocar no lugar do outro. É ver apenas duas cores, ignorando as outras centenas de nuances. É o segregacionismo, o preconceito, o acolhimento de uma parte em detrimento do todo. É a ignorância elevada à máxima potência.

O reducionismo, por sua vez, acomoda tudo num único tipo de explicação. Ignora a profundidade, a complexidade e a intensidade de certos sentimentos e de determinados atos. Nivela a vida, como quem nivela uma xícara de farinha de trigo na feitura de um bolo. Não vai além daquilo que mostram os sentidos. Anestesia a razão e o bom senso. Não busca entender mais do que apenas vê.

A falta de paixão é outro complicador da vida humana. É a dificuldade de se doar no que se faz. É o esquecimento, quase que voluntário, do outro. É o descompromisso com quem se divide a vida. É o apagar do fogo que mantém a energia do existir, que brota do contato mais íntimo entre dois seres.

Tomás de Aquino dizia que “O amor está por trás de tudo no Universo – até do pecado”. O amor mal direcionado está, na maioria das vezes, atrás de nossos maiores erros. Apegamos à causa, distanciando-nos da essência. Por mais que se negue, todo ser quer ser abraçado pelo amor. Sem ele, o homem torna-se frágil e ressequido. Pois o amor tem o dom de vicejar, de dar vida.

Ilustração: Cabeça de Medusa (Peter Paul Rubens, óleo sobre painel, c. 1617)

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