Arquivo do Autor: Lu Dias Carvalho

Tintoretto – VULCANO SURPREENDE VÊNUS E MARTE

Autoria de Lu Dias Carvalho

vusuvem

A composição denominada Vulcano Surpreende Vênus e Marte é uma obra mitológica do pintor italiano Tintoretto que não deixou muitas obras baseadas na mitologia. O pintor mostra o momento em que Vênus — deusa da beleza e do amor — e seu amante Marte, deus da guerra, são surpreendidos por Vulcano — deus do fogo — marido da deusa. Esta mesma temática já foi representada por muitos outros artistas.

Vulcano, com seu corpo musculoso e alto, embora já idoso, tem os cabelos esbranquiçados e a barba branca. Usa uma faixa brilhante que lhe cobre os quadris. Ele se reclina sobre a cama, apoiando-se nela com o joelho direito e na perna esquerda estirada, tocando com a ponta do pé o chão e suspende o véu que cobre a genitália de Vênus, para ver se ali encontra algum vestígio de sua traição. Atrás dele, na parede, está um enorme espelho redondo que o mostra de costas, próximo à cama da esposa, reproduzindo a cena.

Vênus, com o corpo voltado para a lateral direita da tela e com as pernas abertas, tenta cobrir-se com o lençol. Ela não encara o marido. Com a mão esquerda levanta o lençol, procurando cobrir seu corpo nu, enquanto descansa o braço numa almofada dourada que se encontra à sua direita. O tecido escuro sobre sua cama lembra o manto de Marte — deus da guerra — que possivelmente não teve tempo de vesti-lo. Cupido, filho de Vênus com o amante, finge dormir tranquilamente num berço próximo à janela. Ele é o instigador da traição.

Marte esconde-se debaixo de uma mesa retangular postada atrás de Vulcano, forrada com uma toalha verde, trazendo em cima um manto vermelho, possivelmente o forro da cama de Vênus. Ele usa um capacete redondo e observa o cãozinho — tido muitas vezes como símbolo da fidelidade — aos pés da cama e voltado para ele e, ao que parece, prepara-se para latir, denunciando-o ao esposo traído.

A cena desenrola-se num luxuoso quarto de um palácio veneziano com belas janelas, cujos vidros possuem o formato de prismas. No peitoril da janela, próxima a Cupido, há um belo vaso de vidro de Murano. Os ladrilhos decorados levam a um segundo ambiente com escadas. Uma forte luz difusa banha a cena. As cores usadas pelo pintor são extremamente equilibradas.

Nota
Alguns veem no espelho, o próprio escudo de Marte. Também analisam que o deus da guerra encontra-se debaixo da cama de Vênus.

Ficha técnica
Ano: c. 1555
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 135x 198 cm
Localização: Alte Pinakothek, Munique, Alemanha

Fontes de pesquisa
Renascimento/ Editora Taschen
Enciclopédia dos Museus/ Mirador
http://www.wga.hu/html_m/t/tintoret/7/2vulcan.html

Views: 8

Renoir – LISE COM SOMBRINHA

Autoria de Lu Dias Carvalho

O júri havia estigmatizado Renoir como um rebelde, junto com Courbet, Manet e Monet. (Gary Tinterow – historiador de arte)

O pintor francês Pierre-Auguste Renoir (1841–1919) alegrava-se por ter nascido num família de grande talento manual, onde havia alfaiates, ourives e desenhista de modas. Para ele teria sido mais difícil se tivesse nascido numa família de intelectuais, pois teria levado muito tempo para se livrar das ideias recebidas. De origem humilde, aos 13 anos de idade Renoir deu início à sua carreira artística, pintando porcelanas, cortinas e leques para ajudar financeiramente sua família, composta por mais seis irmãos. Émile Laporte, seu colega nas aulas noturnas da Escola de Desenho e Arte Decorativa, incentivou-o a frequentar o ateliê do mestre suíço Charles Gleye, para que pudesse se ingressar na Academia, o que aconteceu dois anos depois.

A composição intitulada Lise com Sombrinha, ou simplesmente Lise, é uma obra-prima do artista que combina um retrato com uma paisagem. A elegante retratada é sua companheira Lise Tréhot — quase em tamanho natural — com quem viveu entre 1865 e 1871, tendo servido de modelo de muitas de suas obras.  Ao contrário de outros trabalhos seus que foram recusados, esta obra recebeu críticas positivas, tendo sido aceita pelo Salão de Paris em 1868. As iniciais do artista — AR — estão gravadas no tronco da árvore em segundo plano.

Lise encontra-se de pé numa clareira em uma floresta, com o corpo de frente para o observador e a cabeça virada para a sua direita. Usa um vestido longo de musselina branca, fechado até o pescoço, com uma enorme faixa preta que desce pela saia, caindo sobre a parte da vestimenta que descansa no solo. Suas mangas são transparentes. Finas fitas pretas compõem a renda das mangas e da parte de cima do vestido.

Sobre os cabelos presos Lise traz um pequeno chapéu de palha com fitas de tule vermelho em harmonia com seus brincos de pedras vermelhas. Ela segura na mão esquerda uma pequena sombrinha com cabo de marfim, ornada com renda preta na aba, que faz sombra sobre sua cabeça, pequena parte do tronco e no lado esquerdo do vestido. Sua vestimenta é típica de passeios ao ar livre no verão à época.

A parte do vestido branco que se encontra recebendo os raios solares mostra-se fulgurante, enquanto aquela que se encontra na sombra reflete um tom azulado. Ao fundo, o contraste claro-escuro dá ainda mais intensidade à luminosidade do branco. Ao deixar o rosto da retratada na sombra e o corpo sob a luz, o branco do vestido sobressai ainda mais.

Ficha técnica
Ano: 1867
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 182 x 113 cm          
Localização: Museu Folkwang, Essen, Alemanha

 Fontes de Pesquisa:
Impressionismo/ Editora Taschen
https://en.wikipedia.org/wiki/Lise_(Renoir)
https://useum.org/artwork/Lise-with-Umbrella-Pierre-Auguste-Renoir-1867

Views: 2

Segantini – A COLHEITA DE FENO

 Autoria de Lu Dias Carvalho

A bela figura divina estava rodeada por um lago prateado de luz que se espalhava e atravessava a sombra escura da luz. (Segantini)

O pintor italiano Giovanni Battista Segantini (1850 – 1899) nasceu numa família muito pobre e chegou a viver num reformatório, permanecendo muito tempo de sua vida sem saber ler ou escrever. Foi encorajado por um capelão do lugar a desenhar, coisa que fazia muito bem, a fim de melhorar sua autoestima. Depois foi morar com seu meio-irmão Napoleão que dirigia um estúdio de fotografia, onde o futuro pintor aprendeu o básico sobre esta arte, o que lhe possibilitou incorporá-la à sua pintura. Veio a estudar na Academia de Brera, onde se tornou amigo de inúmeros artistas. Suas primeiras obras situam-se, em grande parte, em cenas de gênero realistas, lembrando Millet e Daubigny. Tornou-se muito conhecido pelas paisagens pastorais que fazia dos Alpes, chegando a tornar-se um dos artistas mais famosos da Europa, no final do século XIX. Suas pinturas que combinavam um estilo divisionista com imagens simbolistas eram compradas por importantes museus.

A composição intitulada A Colheita de Feno é uma obra do artista que retrata o difícil trabalho dos camponeses com o feno que é ajuntado para depois ser carregado, numa faina cansativa e sem fim, com o objetivo de alimentar o gado na estação invernal. Assim como acontecia com os impressionistas, a luz era muito importante para Segantini, embora sob uma visão diferente — a divina.

Uma jovem mulher encontra-se em primeiro plano, curvada sobre um pequeno monte de feno, próxima a um amontoado de pequenas pedras. Seu braço direito está abraçado a um ancinho — seu instrumento de trabalho. Ela usa um vestido escuro e sobre ele um avental branco com mangas da mesma cor sobrepostas. Na cabeça traz uma touca branca. Mais ao fundo, um camponês carrega um pesado saco de feno em direção à carroça, onde outros já se encontram empilhados. Duas outras mulheres trabalham ao fundo, à esquerda, de costas para a figura principal. Outras figuras humanas são vistas distantes, à direita, na estrada de terra.

Um grande céu — tomando metade da tela — traz nuvens escuras e pesadas que são atravessadas por uma forte luz. Uma cadeia de montanhas desaparecem no horizonte. Pessoas e animais integram-se à paisagem, unidas pela luz radiante que vem do céu.

Ficha técnica
Ano: 1889/98
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 137 x 149 cm          
Localização: Segantini-Museum, Sr. Moritz, Suíça

 Fontes de Pesquisa:
Impressionismo/ Editora Taschen
https://en.wikipedia.org/wiki/Giovanni_Segantini
https://www.segantini-museum.ch/en/museum/collection/paintings.html

Views: 1

Sisley – ESTAÇÃO DE ÁGUAS EM…

 Autoria de Lu Dias Carvalho

Começo uma pintura sempre com o céu. (Sisley)

O pintor francês Alfred Sisley (1839 – 1899) era filho de pais ingleses. Em Londres, ele preferia visitar museus e copiar esboços a estudar comércio, como desejava sua família. Ao retornar a Paris foi-lhe permitido entrar para o atelier de Gabriel Gleyre, onde travou amizade com Renoir, Bazille e Monet, com os quais pintava ao ar livre. Tinha grande paixão pelas paisagens, tornando-se um dos mais importantes paisagistas do impressionismo. À medida que progredia em seu trabalho artístico, passava a dar mais atenção à cor do que à forma. Como era um grande observador, tornou-se capaz de captar os matizes mais tênues da luz, como podemos vem em seus quadros sobre as estações dos anos.

A composição Estação de Águas em Marly-le-Roi é uma obra do artista que apresenta uma paisagem invernal, quase toda congelada e coberta de neve. Um sol fraco tenta romper as camadas de nuvens e brilhar na tarde fria. Para criar sua paisagem de inverno ele usa uma fina camada de tinta e uma paleta com pouquíssimas cores. Ele usou apenas cinco cores, além do preto e do branco nesta tela, criada numa única tarde. 

A estação de água em primeiro plano é o motivo central da obra. Para criar a sensação de profundidade, o artista usou uma longa estrada coberta pela neve que leva até o campo. Pequenas figuras humanas são vistas andando por ali. À direita da composição está a floresta e à esquerda vê-se um aglomerado de casas.

Ficha técnica
Ano: 1898
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 49,5 x 65,4 cm        
Localização: Galeria Nacional, Londres, Grã-Bretanha

 Fontes de Pesquisa:
Impressionismo/ Editora Taschen
https://en.wikipedia.org/wiki/Alfred_Sisley

Views: 1

Morisot – PSIQUE

Autoria de Lu Dias Carvalho

Seu nome e seu talento já são muito importantes para nós, para que possamos prescindir dela. (Edgar Degas)

A impressionista francesa Berthe Morisot (1841 – 1895) veio de uma influente família. Seu pai era administrador e formado em arquitetura e sua mãe era sobrinha-neta de Jean-Honoré Fragonard, famoso pintor do Rococó. Foi copista do Museu do Louvre, onde teve a oportunidade de conhecer muitos artistas e professores, como Camille Corot, pintor de paisagens. Sob a influência dele ela começou a pintar ao ar livre. Foi a primeira mulher a fazer parte do grupo dos impressionistas. É tida como uma das grandes pintoras do Impressionismo, juntamente com Marie Bracquemond e Mary Cassatt. Seus trabalhos foram muito importantes na inovação deste estilo. Foi casada com Eugène Manet, irmão do pintor Édouard Manet.

A composição intitulada Psique, também conhecida como O Espelho de Vestir, é uma obra da artista que gostava de pintar mulheres fazendo sua toalete. O nome dado à pintura faz referência ao mito de “Amor e Psique”, encontrado na mitologia clássica. A postura dos braços da retratada, lembrando as asas de uma borboleta, pode ser uma alusão à imortalidade da alma, de acordo com a Psique do século XIX. Este quadro foi apresentado na exposição impressionista de 1877.

Morisot apresenta uma mulher ainda muito jovem, concentrada na sua imagem refletida num grande espelho, entre duas janelas que contribuem para a iluminação total da cena. Atrás da jovem, próximo à janela, encontra-se um sofá cujo tecido é muito parecido com o da cortina. As manchas e pintas – vistas no tapete de fundo vermelho que cobre todo o chão do ambiente – lembram uma pintura floral, realçada com os tons claros presentes no quarto. A moldura do espelho retangular, mostrando o reflexo da jovem, atinge a parte superior da tela, criando um quadro dentro do outro.

A mulher retratada traz as mãos nas costas, abaixo da cintura, lidando com o fecho de seu corpete branco. A manga esquerda de sua vestimenta, feita com pinceladas imprecisas, está a cair-lhe pelo ombro. Seu cabelo castanho encontra-se preso num coque e no pescoço ela traz uma fita preta. Tudo no seu quarto burguês exala naturalidade e bem-estar. Ela age serenamente, como se tratasse de uma tarefa rotineira à qual dedicava seu tempo com prazer.

A pintora usou pinceladas largas e livres em diferentes direções de sua tela. As transparências e as diferentes texturas apresentadas dão suavidade e leveza à obra. É sabido que ela costumava usar sua própria casa como cenário, apresentando seus móveis e objetos pessoais. Este quarto com espelho – dele visto apenas uma pequena parte – era o quarto da artista.

Ficha técnica
Ano: 1876
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 65 x 54 cm 
Localização: Museu Thyssen-Bornisza, Madri, Espanha

 Fontes de Pesquisa:
Impressionismo/ Editora Taschen
https://deanimaverbum.weebly.com/de-anima-verbum/berthe-morisot-a-primeira-
https://remi.uninet.edu/arte/morisot.htm

Views: 6

O NU MASCULINO NA ARTE

Autoria de Lu Dias Carvalho

                                  

Não apenas o nu feminino tem fascinado os artistas, mas também o nu masculino, estando o último presente na arte desde a Grécia Antiga até os dias de hoje. Mesmo em tempos remotos o nu masculino encontrava-se presente em esculturas, representando, sobretudo, a força. Enquanto a nudez feminina, além da emoção estética também pode fazer aflorar a sensualidade, a nudez masculina chama a atenção por simbolizar a força e as proporções físicas na maioria das vezes. Raramente o corpo masculino é visto na arte com cunho erótico.

Os artistas greco-romanos tinham por tradição a ideia de que a mulher era inferior ao homem, física e mentalmente, devendo esse, portanto, ser representado com a máxima perfeição possível. Ao retratá-lo, interessavam-se mais por sua anatomia, dando maior ênfase à expressão de seus músculos, veias e ossos, ou seja, à obra como um todo. Na Grécia Antiga, o corpo masculino já era representado em esculturas em pedra, como fruto de um trabalho em cima de cálculos matemáticos em que se buscava harmonia e perfeição formais. Tais estátuas ficaram conhecidas como “Apolos”. Mas, apesar da perfeição, elas não traziam qualquer naco de sensualidade, pois não eram naturais.

A que se deve a existência dos “Apolos”? Os gregos antigos julgavam que, para que uma obra de arte fosse perfeita, bastava trabalhar em cima de cálculos matemáticos, ou seja, o conhecimento intelectual supriria a criatividade.  Para servirem de modelo para os “Apolos”, eram escolhidos os homens mais bem favorecidos anatomicamente, próximos do ideal de beleza da Grécia Antiga.  Essa maneira de ver a arte durou muito tempo, chegando os artistas, para traçar o desenho do corpo humano, a fazer uso de formas geométricas. O estudo de anatomia pelos grandes artistas do Classicismo tinha por finalidade levá-los à perfeição na composição de suas obras, embora essa parecesse artificial, tamanha era a precisão dos traços.

É possível que Davi, obra do escultor italiano Donatello, seja a primeira representação de um nu masculino. E ainda assim servia a um propósito religioso. Além de ser uma obra pioneira para sua época, trata-se também de um trabalho maravilhoso. O artista esculpiu o jovem Davi, como se ele fosse um adolescente frágil, com traços delicados e belos. Não aparentava a força masculina, tão comum às figuras bíblicas, mas parecia estar ciente de sua própria beleza física.

Muitos historiadores de arte atribuem à opção de Donatello, o fato de ele ter sido homossexual, estando, portanto, mais propício a ver a formosura do corpo púbere de Davi, ao invés de repassar sua força e coragem. Contudo, Michelangelo, um dos grandes nomes do Renascimento, também era homossexual, e seus desenhos, estátuas e pinturas de nus masculinos são verdadeiras obras-primas em que chamam a atenção a constituição física do modelo. Foi responsável por outro Davi que se mostra bem diferente do de Donatello.  Seus músculos retesados parecem aguardar a luta com o gigante Golias.

Nota: pintura de Jean-Louis André Théodore Géricault (à esquerda)/ Davi, escultura de Donatello (à direita).

Fonte de pesquisa
Vida a Dois/ Editora Três

Views: 43