Arquivo do Autor: Lu Dias Carvalho

Giorgio Morandi – PAISAGEM

Autoria de Lu Dias Carvalho

O pintor italiano Giorgio Morandi (1890 – 1964) veio de uma família muito modesta da cidade de Bolonha, onde nasceu. Seu pai Andrea era um pequeno comerciante e sua mãe Maria Maccaferri dona de casa. Foi o primeiro de cinco irmãos.  Após os estudos regulares, trabalhou no escritório de seu pai por um tempo. Embora sua cidade fosse desprovida de tradições artísticas, ali havia uma Academia de Belas Artes, onde o rapazinho veio a estudar, mesmo percebendo que o ensino ministrado pela academia era muito limitado. Ele passou a completar sua instrução com a leitura de livros e revistas de arte, vindas da França, pois naquela época a Itália vivia um período de relativa obscuridade.

A composição intitulada Paisagem, uma das primeiras telas de Morandi, mostra a influência do pintor francês Paul Cezánne – por quem o artista sentia grande admiração – ao apresentar as massas levemente esquematizadas e geometrizadas. Contudo, o tratamento que ele deu às cores assim como a luminosidade presente nesta obra já são próprios de seu estilo, como poderemos ver nas partes claras, cheias de sensibilidade.

Ficha técnica
Ano: 1911
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 52 x 37,5 cm
Localização: Pinacoteca de Brera, Milão, Itália

Fonte de pesquisa
Enciclopédia dos Museus/ Mirador

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QUEM TEM AMIGOS VIVE MAIS

Autoria de Lu Dias Carvalho

 Quem risca a amizade da vida elimina o sol do mundo. (Cícero)

 O espírito esquece todos os sofrimentos quando a tristeza tem companhia e amizade que a console. (William Shakespeare)

 Os amigos conhecem-nos nos tempos de abundância. Nós os conhecemos nos momentos difíceis. (Anthony Collins)

 O neurologista Robert Sapolsky trabalhou durante anos documentando a vida de macacos na Tanzânia a fim de estudar seu comportamento. Uma de suas mais importantes observações é a de que “quanto mais amizades duradouras um macaco tinha, menor era o seu grau de tensão”, ou seja, menos estressado ele era. O mesmo se aplica aos humanos, seres sociáveis por natureza. Aquele que abraça a solidão ou abre mão do convívio com outras pessoas torna-se normalmente infeliz, uma vez que o ato de se relacionar amplia o grau de satisfação com a vida, como comprovam vários estudos científicos mudo afora.

Um importante estudo sobre a amizade foi realizado na Europa Ocidental e nos Estados Unidos com milhares de participantes. A conclusão a que se chegou é de que as pessoas que cultivam amigos possuem a probabilidade de viverem bem mais. Incrivelmente descobriu-se que “os relacionamentos sociais aumentam a expectativa média de vida tanto quanto a prática regular de uma atividade física”. Isso prova que todo ser humano tem necessidade de sentir-se ouvido, compreendido e confortado durante a sua vida. Os animais de estimação (pets), cujas estatísticas comprovam seu aumento em todo o mundo, cumprem o objetivo de diminuir o isolamento humano com a sua presença.

Não resta dúvida de que é preferível sentir-se só do que sob o fardo de uma indesejável companhia, mas é bom sempre se lembrar de que a solidão afeta tanto a mente quanto o corpo. Quando se vive num ambiente extremamente estressante, nada melhor do que contar com a presença de amigos para amainar o fardo, como comprova o resultado de uma pesquisa realizada com homens na cidade sueca de Gotemburgo cujo resultado final é o de que: “por mais duros que sejam, os golpes do destino são superados com mais facilidade quando se tem alguém com quem falar”. Pesquisas também atestam que os animais ficam sob grande estresse quando lhes é negado o contato com outros de sua espécie.

A psiconeuroimunologia é uma disciplina científica que tem por objetivo estudar o poder dos sentimentos sobre a saúde, documentando as interações entre o corpo e a mente. O estudo feito com animais e humanos evidencia que o estresse pode desencadear desde simples resfriados a doenças cardiovasculares. E muito se tem discutido sobre o câncer. Embora numerosas pesquisas científicas aleguem que sua origem não é psíquica, é crença popular que o surgimento de tumores tem a ver com uma espécie de interiorização dos sentimentos, ou seja, com o fato de as pessoas guardarem suas mágoas para si mesmas, sem as extravasar com alguém. Portanto, nada como um desabafo entre amigos diante das circunstâncias adversas, melhorando ou conservando a saúde, ao reforçar o sistema imunológico.

O neurocientista e psicobiólogo Jaak Panksepp, responsável por cunhar o termo “neurociência afetiva” (nome do campo que estuda os mecanismos neurais da emoção) relatou em seus estudos que “a busca de contato com outras pessoas deve-se, sobretudo, ao medo que temos da solidão”. Por sua vez Stefan Klein, biofísico alemão, afirma que “quanto mais próximos estamos uns dos outros, mais doamos de nós mesmos; e quanto mais damos e recebemos, mais unidos nos sentimos”. E que viva a amizade!

Nota: ilustração – Almoço dos Remadores, obra de Renoir

Fonte de pesquisa:
A Fórmula da Felicidade – Stefan Klein – Editora Sextante

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Giorgio Morandi – A CASA ROSA

Autoria de Lu Dias Carvalho

O pintor italiano Giorgio Morandi (1890 – 1964) veio de uma família muito modesta da cidade de Bolonha, onde nasceu. Seu pai Andrea era um pequeno comerciante e sua mãe Maria Maccaferri dona de casa. Foi o primeiro de cinco irmãos.  Após os estudos regulares, ele trabalhou no escritório de seu pai por um tempo. Embora sua cidade fosse desprovida de tradições artísticas, ali havia uma Academia de Belas Artes, onde o rapazinho veio a estudar, mesmo percebendo que o ensino ministrado pela academia era muito limitado. Passou a completar sua instrução com a leitura de livros e revistas de arte, vindas da França, pois naquela época a Itália vivia um período de relativa obscuridade.

A pintura denominada “A Casa Rosa” é uma obra do artista. A casa apresenta muros rosados, uma vegetação simples e o céu quase sem cor. A paisagem faz imaginar uma existência tranquila e mais interiorizada. O artista deixa patente que não o assunto que lhe interessa, mas, sim, as formas, as cores e o valor plástico das coisas. O objeto pintado sempre tem algo a dizer, em razão da visão sensível que ele traz da realidade.

Assim como os utensílios pintados por Morandi, a paisagem é sempre anônima em suas obras. Tudo tem um valor especial que toca a sua sensibilidade.

Ficha técnica
Ano: 1925
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 42 x 45 cm
Localização: Coleção Particular

Fontes de pesquisa
Enciclopédia dos Museus/ Mirador

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QUANDO O PRAZER É PERIGOSO

Autoria de Lu Dias Carvalho

O que serve para tudo se presta ao abuso (ditado popular)

 A dependência é em parte determinada pelas circunstâncias da vida e em parte pelos genes. (Stefan Klein)

Não há quem não deseje ter uma vida plena de prazeres, contudo, a busca exagerada pelo aprazimento pode transformar-se numa faca de dois gumes. Isso acontece porque, ao ter a vontade saciada, a satisfação decresce rapidamente levando a pessoa a buscar uma nova, pois, como reza o dito popular, “os prazeres são efêmeros”. Como bem mostram os compradores compulsivos, o desejo passa a comandar a vontade, tornando o indivíduo refém de um anseio incontrolável. O biofísico Stefan Klein explica porque isso acontece: “Quando um estímulo desencadeia repetidamente o desejo, isso altera o modo de funcionamento de várias áreas do cérebro. Poderoso, o desejo pode transformar um indivíduo em um ser obcecado que não conhece mais limites e perde o sentido da realidade”.

O fato é que o ser humano possui apenas um circuito – um sistema multiuso – relacionado ao “desejo” que é o mesmo no que diz respeito ao aprazimento proporcionado pelos alimentos, pelo amor, reconhecimento social, etc., portanto, não importa qual seja o tipo de prazer para que a dopamina (conhecida como o neurotransmissor do prazer) seja produzida. Segundo pesquisas científicas, ao buscar mais e mais prazer, a pessoa acaba entrando no “fazer por fazer”, ou seja, a ação passa a ser mais importante e não a coisa em si. Para o comprador compulsivo, por exemplo, o ato de comprar é muito mais importante de que o objeto adquirido, enquanto para o glutão interessa apenas a ação de comer.  Para o sujeito refém do desejo, o que conta é a satisfação de seu anseio, o prazer antecipado daquilo que irá obter.

Os vícios nada mais são do que desejos descontrolados e um acidente na vida do indivíduo na busca pela felicidade, como explica Stefan Klein: “Dependendo da disposição genética, o prazer por comida pode se transformar em gula desenfreada; o gosto pela prática de esportes em um castigo obsessivo com corridas ou peso; a alegria com o ato de jogar ocasionalmente em uma prática constante. Todos esses comportamentos compulsivos surgem da mesma maneira. […] A evolução não programou nada para evitar que nos prejudicássemos dessa maneira, pois não podia prever essa circunstância que só ocorreria em um futuro distante. […] Há apenas dez gerações, na época em que a fome era um flagelo frequente em muitos países, não se tinha a ideia de que a agricultura mecanizada viria a ampliar a oferta de alimentos de tal forma que a obesidade se tornaria um grave problema de saúde pública. A dependência, portanto, não pode ser compreendida como um desejo que escapou do controle evolutivo”.

Ao ligar a procura obsessiva por prazer à busca pela felicidade, Stefan Klein relaciona até mesmo os sete pecados capitais a um desejo incontrolável para obter satisfação. Assim explica: “Orgulho é amor-próprio em altas doses, avareza é parcimônia excessiva e inveja é um exagero da nossa tendência natural de buscar nas outras pessoas um ponto de comparação. A gula surge sempre que o organismo não responde à ingestão de alimentos com a sensação de saciedade. A luxúria nos domina quando não encontramos no sexo uma satisfação plena, o que nos faz querer sempre mais. A ira é a agressividade descontrolada, não submetida à razão. A preguiça é o estado em que ficamos, quando, depois de um relaxamento saudável, não conseguimos recuperar o ritmo e a motivação naturais”.

Como podemos desligar o circuito da dependência predadora pelo prazer e escapar das tentações? Acionando o sistema de vigilância diária. Vigiando-nos o tempo todo, buscando sempre racionalizar os nossos desejos de modo a não nos tornar reféns deles. Epicuro de Samos, filósofo grego do período helenístico, já dizia: “O prazer não é um mal em si; mas certos prazeres trazem mais dor do que felicidade”, ou seja, quando deixa de ser prazer para se transformar em vício.

Nota: a ilustração é o quadro Os Sete Pecados Capitais de Bosch.

Fonte de pesquisa:
A Fórmula da Felicidade – Stefan Klein – Editora Sextante

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Mestres da Pintura – GIORGIO MORANDI

Autoria de Lu Dias Carvalho

O pintor que nos dá a impressão de ter verdadeiramente santificado a realidade é Giorgio Morandi. (De Chirico)

Morandi se comove na ação de pintar e nela se concentra com muito amor e sentimento, dedicados com igual intensidade a cada centímetro do quadro. (Alberto Martini)

O pintor italiano Giorgio Morandi (1890 – 1964) veio de uma família muito modesta da cidade de Bolonha, onde nasceu. Seu pai Andrea era um pequeno comerciante e sua mãe Maria Maccaferri dona de casa. Foi o primeiro de cinco irmãos.  Após os estudos regulares, trabalhou no escritório de seu pai por um tempo. Embora sua cidade fosse desprovida de tradições artísticas, ali havia uma Academia de Belas Artes, onde o rapazinho veio a estudar, mesmo percebendo que o ensino ministrado pela academia era muito limitado. Ele passou a completar sua instrução com a leitura de livros e revistas de arte, vindas da França, pois naquela época a Itália vivia um período de relativa obscuridade.

Mesmo seu país tendo pouco conhecimento sobre o Impressionismo que imperava na França, Morandi, ainda muito jovem, lia tudo que encontrava sobre o assunto. Foi assim que entrou em contato com o trabalho de Seurat, Cézanne, Rousseau, Picasso, Dérain e Braque. Ao visitar as telas de Renoir, na Bienal de Veneza, Morandi encantou-se com elas. Na cidade de Florença ele observou e estudou o trabalho dos mestres da Renascença: Giotto, Masaccio e Paolo Ucello. Em Roma, ao visitar a Exposição Internacional, ficou conhecendo as primeiras obras de Monet, mestre do Impressionismo. Contudo, embora buscasse aprender com os outros pintores, seu grande interesse era pelo trabalho de Cézanne.

Morandi participou em Roma da Primeira Exposição Livre Futurista, onde expôs seu trabalho pela primeira vez, aos 24 anos de idade, embora esse não estivesse ligado ao movimento e às suas concepções, objetivando apenas opor-se à tradição acadêmica. Também expôs em Bolonha, onde passou a ensinar desenho nas escolas. Porém, no ano seguinte, foi mobilizado para a guerra, mas acabou sendo reformado em razão de uma doença grave. Sua vida pessoal era rotineira e muito simples. Dedicava-se ao trabalho e à meditação na calmaria da velha casa familiar, sendo muito moroso na criação de suas obras, levando um a dois anos na feitura de uma tela. Fazia suas pinturas no estúdio, passeava à tarde e ia à escola dar aulas de desenho. Levando uma vida muito modesta, o pintor jamais teve dinheiro para longas viagens, não tendo conhecido nem Paris.

O artista, dono de um estilo em que a realidade do objeto, colhida em toda a sua pureza, era o mistério, atingiu sua maturidade com a pintura “Garrafa com Fruteira” em 1916, aos 26 anos de idade. Dois anos depois passou pelo período “metafísico”, mas voltou ao seu estilo tradicional, influenciado por Chardin (importante colorista francês do século XVIII, famoso por suas naturezas-mortas e interiores domésticos) e Corot (pintor conhecido por suas paisagens poéticas e retratos femininos). Participou de uma exposição em Berlim, ao lado de Chirico e Carrá. Já famoso tanto na Itália quanto no exterior, ganhou o prêmio da IV Bienal de São Paulo, em 1957.  Morreu aos 74 anos no mesmo lugar onde nasceu.

Morandi – um dos maiores nomes da arte italiana do século XX – foi um muito comprometido com seu trabalho que passou praticamente ignorado no seu país, envolvido à época com o fascismo. Ele era o poeta das coisas simples e da intimidade, sendo sempre fiel a si mesmo. Seus temas prediletos eram garrafas, utensílios de cozinha, flores e paisagens. Encontrava-se entre os poucos artistas capazes de ver beleza e poesia nos objetos domésticos, personagens comuns do cotidiano.  Sobre o trabalho do pintor expressa o crítico Alberto Martine: “O amor às coisas pequenas, infelizmente sempre desprezadas na Itália, poderá explicar a poesia sentida e murmurada que captamos ao admirar esses objetos de tão irrelevante valor material, que só valem enquanto desejados pelo espírito e ligados a uma saudade”.

Fonte de pesquisa:
Gênios da Pintura/ Editora Abril Cultural

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PRODUTIVIDADE X EXCESSO DE TRABALHO

Autoria do Dr. Telmo Diniz

O ócio permanente vira tédio, bem como o trabalho ininterrupto vira escravidão. (Dr. Telmo Diniz)

Somos criados em uma sociedade consumista e, em tempos de gastanças, o trabalho é o antídoto para as contas que não param de chegar. Estudos demonstram que longas jornadas de trabalho acarretam sérios problemas de saúde no médio e longo prazo. Mas qual seria o limite para o trabalho? Quando devemos descansar? É disso que vamos tratar neste texto.

A aparente crença no equilíbrio entre trabalho duro e “il dolce far niente” (a doçura de não se fazer nada, em tradução livre do italiano) não deixa de ser intrigante. Até porque não fazer nada soa como o oposto de ser produtivo. E a produtividade, seja criativa, intelectual ou braçal, é a principal forma de se usar o tempo a nosso favor. Entretanto, à medida que preenchemos nossos dias com mais e mais afazeres, muitos de nós estamos descobrindo que a atividade ininterrupta não é o ápice da produtividade. Pelo contrário, é sua adversária.

Pesquisadores estão notando que o trabalho após uma jornada de 14 horas não é apenas de pior qualidade, mas que esse padrão está prejudicando a criatividade e a memória. Ao longo do tempo, isso pode nos deixar fisicamente doentes, fazendo-nos sentir que a vida não tem propósito algum. A ideia de que conseguimos estender indefinidamente nosso trabalho, com foco e produtividade, é um erro imenso. Como tudo na vida, o trabalho também tem limites.

  • Uma grande pesquisa descobriu que trabalhar por muitas horas aumenta o risco de doença cardíaca em 40% – quase tanto quanto fumar, 50%.
  • Outro estudo mostrou que pessoas que trabalhavam muito tinham um risco bem maior de hipertensão arterial, infarto e derrame.
  • Outra pesquisa apontou que os que trabalhavam mais de 11 horas por dia tinham 2,5 vezes mais chances de episódios depressivos do que os que trabalhavam sete ou oito.
  • Um estudo com empresários de Helsinque, capital da Finlândia, mostrou que, ao longo de 26 anos, executivos e empresários que tiravam menos férias na meia idade tinham mais chances de morrer mais cedo ou ter piores condições de saúde na velhice.
  • Outra pesquisa com mais de 5.000 trabalhadores norte-americanos descobriu que pessoas que tiram menos de dez dias de férias por ano têm três vezes menos chances de receber um aumento ou bônus em três anos.
  • Já existem relatos de pessoas que literalmente morrem ou morreram de tanto trabalhar, como é o caso do Japão, onde a morte por excesso de trabalho é conhecida pelo termo “karoshi”.

Como uma forma de reflexão, enxergamos o trabalho apenas do ponto de vista econômico. E, dessa forma, nós nos esquecemos de que o descanso e o ócio, assim como o trabalho, são atos humanos. Ambos devem conviver em harmonia. Temos de trabalhar, sim, entretanto, também precisamos do tempo de descanso, que é igualmente importante.

Domenico De Masi, sociólogo e escritor italiano, que elaborou a obra “O Ócio Criativo”, disse: “O ócio pode transformar-se em violência, neurose, vício e preguiça, mas pode também elevar-se para a arte, a criatividade e a liberdade”. Particularmente, penso que ócio permanente vira tédio, bem como o trabalho ininterrupto vira escravidão.

Nota: A Sexta, obra de Vincent van Gogh

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