Autoria de Marguerite Yourcenar

A horrível matéria prima animal é um produto novo, como a floresta aniquilada que fornece a pasta necessária aos nossos jornais diários e hebdomadários, repletos de anúncios e de falsas notícias; como os oceanos em que os peixes são sacrificados aos petroleiros.
Durante milênios, o homem tem considerado o animal como propriedade sua, só que subsistia um estreito contato entre ambos. O cavaleiro amava, embora dela abusando, a sua montaria; o caçador de antigamente conhecia as condições de vida de sua caça, e “amava” à sua maneira os animais que se sentia glorioso em abater. Uma espécie de familiaridade se entremeava com o horror: a vaca enviada ao matadouro depois de totalmente exaurida de seu leite, o porquinho que era sangrado no Natal (a mulher do camponês da Idade Média sentava-se tradicionalmente sobre as patas do animal para impedi-lo de espernear), eram a princípio “os pobres animais” para os quais se ia cortar capim ou se preparava uma ração de restos.
Para muitas mulheres do campo, a vaca contra a qual se apoiavam para ordenhar era uma espécie de amiga muda. Os coelhos nas gaiolas não estavam mais que a dois passos do guarda-comida onde iriam acabar, “picadinhos como carne de pastel”, mas enquanto isso não ocorria, eram animais que gostávamos de ver remexendo as narinas róseas quando através das grades lhes estendíamos uma folha de alface.
Modificamos tudo isto: as crianças das cidades jamais viram uma vaca ou uma ovelha; e não podemos amar estes seres dos quais nunca tivemos ocasião de nos aproximar ou a que jamais acariciamos. O cavalo, para um parisiense, não passa desse animal mitológico, dopado e arrastado além de suas forças, que nos faz ganhar algum dinheiro quando acertamos no páreo de um “grande prêmio”.
Exposta em fatias cuidadosamente envoltas em papel celofane num supermercado, ou conservada em latas, a carne deixa de ser sentida como tendo sido a de um animal vivo. Ousamos mesmo dizer que nossos açougues, onde pendem de ganchos quartos de animais que mal se acabaram de abater, de aspecto tão atroz para quem não está acostumado a isto a ponto de certos amigos meus, estrangeiros, mudarem de calçada, em Paris, quando os percebem de longe, talvez até sejam um bem, na medida em que testemunham a violência que o homem inflige aos animais.
Da mesma forma, os casacos de pele apresentados com cuidados especiais nas vitrines das grandes peleterias parecem estar a mil léguas da foca trucidada na banquisa, a golpes de matraca, ou da nútria que apanhada na armadilha rói a pata tentando recuperar a liberdade.
A bela mulher que se maquia não sabe que seus cosméticos foram testados em coelhos ou cobaias que morreram sacrificados ou cegos. A inconsciência, e consequentemente a boa consciência, do comprador ou da compradora é total, como é total, por ignorância do que se fala e por falta de imaginação, a inocência dos que se dão ao trabalho de justificar os gulags* de toda espécie, ou daqueles que preconizam o emprego da arma atômica. Uma civilização que cada vez mais se distancia do real tende a fazer cada vez mais vítimas, inclusive a si própria.
*campos de trabalhos forçados.
Nota: texto extraído do livro “O Tempo, Esse Grande Escultor”/ Edit. Nova Fronteira
Imagem copiada de https://www.festaeoferta.com.br
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