Arquivo da categoria: Mestres da Pintura

Estudo dos grandes mestres mundiais da pintura, assim como de algumas obras dos mesmos.

Zurbarán – NATUREZA-MORTA COM LARANJAS…

Autoria de Lu Dias Carvalho

Limões, laranjas, taça e uma rosa mostram um campo visual tão purificado e tão perfeitamente composto que os objetos familiares parecem à beira da transfiguração ou (a palavra inevitável) transubstanciação. Permanecendo em alguma interseção iminente com o divino, e com a eternidade, eles exatamente quebram com o normalmente humano.(Norman Bryson)

O pintor barroco espanhol Francisco de Zurbarán (1598-1664) foi aluno de Pedro Diaz de Villanueva em Sevilha. Ele fez inúmeras obras para o Convento de Sevilha. Sua fama levou-o a receber o título de pintor honorário dessa cidade. Trabalhou para a corte de Madri, no governo de Filipe IV. É tido como um dos mais importantes pintores espanhóis do século XVII, ao lado de Velázquez, Ribera e Murillo. Ele se tornou conhecido sobretudo por suas obras religiosas que descrevem monges e mártires, e também pelas suas maravilhosas naturezas-mortas. A maioria de suas pinturas era destinada às ordens religiosas espanholas.

A composição denominada Natureza-morta com Laranjas, Limões e uma Rosa é uma obra-prima do gênero, criada pelo artista – única com data e assinatura –, pintada num estilo austero, seguindo o estilo do tenebrismo*. Trata-se de uma obra composta por quatro limões arranjados numa bandeja de prata, várias laranjas num cesto de palha – ainda com folhas e flores – e um prato de prata com uma xícara com água, enfeitado com uma rosa. Os objetos estão em fila sobre uma mesa de madeira, formando um equilíbrio espacial e geométrico, numa organização piramidal, destacando-se sobre um fundo escuro, seguindo a técnica do tenebrismo*, dentro da tradição das naturezas-mortas espanholas.

Muitos dos trabalhos de Zurbarán – artista responsável por inúmeras obras religiosas – carregavam temas cristãos, sendo que os objetos na pintura são muitas vezes interpretados como dotados de um significado simbólico, como alusão à Santíssima Trindade ou à Virgem Maria. Sobre esta pintura Morten Lauridsen escreveu:

“[…] os objetos desta obra são ofertas simbólicas para a Virgem Maria. Seu amor, pureza e castidade são significados pela rosa e pelo cálice de água. Os limões são uma fruta da Páscoa que junto com as laranjas com flores indica vida renovada A mesa é um altar simbólico.”.

* O termo “tenebrismo” vem do italiano “tenebroso” (sombrio, misterioso, dramático). Trata-se de um estilo de pintura usando claro-escuro profundamente forte, com densos contrastes de luz e escuridão. Tem por objetivo adicionar drama a uma imagem, usando um efeito de holofote.  Esta técnica era muito usada na pintura barroca. Não confundir com o “chiaroscuro” que é um termo com maior amplitude, abrangendo também o uso de contrastes de luz menos intensos com a finalidade de aumentar a tridimensionalidade.

Ficha técnica
Ano: c. 1633
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 60 x 107 cm
Localização: Museu de Arte Norton Simon, Califórnia, EUA

Fontes de pesquisa
Pintura na Espanha/ Cosac e Naify Edições
1000 obras-primas da pintura espanhola/ Könemann
https://en.m.wikipedia.org/wiki/Still_Life_with_Lemons,_Oranges_and_a_Rose

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Daumier – A LAVADEIRA

Autoria de Lu Dias Carvalho

O pintor francês Honoré Daumier (1808-1879) entrou aos 14 anos de idade para o atelier de Alexandre Lenoir, um antigo aluno de Jacques-Louis David. Também estudou escultura antiga no Louvre e as obras de Ticiano e Rubens. A liberdade de expressão chegou à França após a Revolução de 1830, o que sinalizou para que a arte da caricatura política se tornasse livre e ganhasse grande importância. Como era um grande admirador da República, Daumier passou a trabalhar com esse tipo de caricatura, principalmente com as que satirizavam o rei Luís Felipe. Ficou seis meses na prisão por causa de uma delas. Iniciou a pintura de quadros aos 37 anos de idade, vindo a transformar-se no maior representante do Realismo Social na pintura. Sua capacidade de síntese era tamanha que nenhum outro pintor do século XIX conseguiu igualá-lo. Morreu na miséria e quase cego numa casa que lhe foi dada. Apesar de ser visto como um exímio gravurista, foi também um dos mais importantes pintores do século XIX.

A composição intitulada A Lavadeira é uma obra desse artista francês e também a mais famosa de um conjunto de sete quadros com o mesmo tema. Sua composição apresenta duas robustas silhuetas escuras – a lavadeira e seu filho – subindo escadas nas margens do Rio Sena. O local em Paris, onde o artista viveu, permitia-lhe acompanhar o trabalho das lavadeiras no Rio Sena. A composição caracteriza-se pelas cores ocre e terra. As suas obras expressam a desgraça social e crianças na miséria, algo que o mobilizava e do qual foi vítima.

Um esboçado pano de fundo, composto por uma fila de casas, encontra-se banhado pela luz do crepúsculo que realça a silhueta das duas figuras humanas. A lavadeira galga os degraus de pedra após um dia extenuante de trabalho. Ela está voltando para casa. Debaixo do braço esquerdo carrega uma trouxa de roupas lavadas, enquanto traz o filho seguro pela mão direita. Tem o corpo curvado e os olhos voltados para a sua criança que traz uma pasta na mão, provavelmente está chegando da escola.

Ficha técnica
Ano: c. 1860
Técnica: óleo sobre painel
Dimensões: 49 cm x 34 cm
Localização: Museu do Louvre, Paris, França

Fonte de pesquisa
Obras-primas da pintura ocidental/ Taschen

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Pieter Bruegel, o Velho – A VOLTA DA MANADA

Autoria de Lu Dias Carvalho

A composição denominada A Volta da Manada é uma pintura do artista holandês Pieter Bruegel, o Velho. Faz parte de uma série de seis pinturas que retratam períodos do ano, encomendadas por um comerciante da Antuérpia. Cinco delas ainda sobrevivem (O Dia Escuro, Caçadores na Neve, Colheita de Feno, Os Ceifeiros e o Mastro de Maio, existindo do último apenas cópias feitas pelo filho do artista).

Presume-se que este quadro represente o mês de outubro ou novembro (ou os dois), mostrando uma paisagem de outono, como se vê no contraste entre as cores quentes da vegetação, composta por árvores desfolhadas, e as cores frias do céu que se mostra mais escuro do lado direito, onde há uma maior concentração de nuvens, prenunciando tempestade. A paisagem escarpada apresenta algumas edificações e mostra pessoas trabalhando na lavoura à direita. Um rio com algumas embarcações corta o cenário. Animais são vistos no campo a pastar. Uma ave solitária é vista no galho mais alto, à esquerda.

O artista, que gostava de pinturas retratando paisagens ou cenas camponesas, mostra aqui uma manada de vacas, sendo conduzida pelos vaqueiros que empunham grandes paus para tangê-la, levando o rebanho à aldeia no topo da colina. Os seis vaqueiros e o gado encontram-se numa colina, regressando da pastagem. Animais e homens possuem praticamente as mesmas cores. Eles formam uma larga curva que é quebrada por uma árvore isolada à direita e um grupo de árvores à esquerda.

Ficha técnica
Ano: 1565
Técnica: óleo sobre madeira
Dimensões: 117 x 159 cm
Localização: Museu de História da Arte, Viena, Áustria

Fonte de pesquisa
Enciclopédia dos Museus/ Mirador
https://www.wga.hu/html_m/b/bruegel/pieter_e/07/21novemb.html

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Van Gogh – RETRATO DE PÈRE TANGUY

Autoria de Lu Dias Carvalho

É um companheiro divertido e bondoso e penso muitas vezes nele. Não te esqueças de dar-lhe os meus cumprimentos e de dizer-lhe que se precisar de quadros para sua mostra, pode levar daqui alguns – de fato, os melhores. (Van Gogh em carta ao seu irmão Theo)

Se eu viver por muito tempo, eu me tornarei uma espécie de pai velho Tanguy. (Van Gogh)

O genial pintor holandês Vincent van Gogh (1853–1890) é, sem sombra de dúvidas, um dos grandes nomes da pintura universal. Contudo, não é fácil falar sobre ele, pois suas paixões e sentimentos estão ligados à arte de tal forma que não é possível ater-se a seu trabalho sem mergulhar na nobreza de sua alma impregnada de nobres ideais, aos quais se entregou a ponto de sacrificar a própria vida, pois nele tudo funcionava como um todo indivisível e exacerbante ao extremo. Infelizmente a sua genialidade artística só foi reconhecida após sua morte.

A composição intitulada Retrato de Père (Pai) Tanguy é uma obra do artista. Ele pintou três diferentes retratos de seu amigo, sendo este o último deles. Julien Tanguy – conhecido por todos aqueles que frequentavam a sua loja de material de pintura e sua pequena galeria de arte como “Père Tanguy” – era um socialista, comerciante de tintas e quadros. Homem extremamente generoso, sobretudo com os artistas pobres, aceitava seus quadros como pagamento pelas dívidas feitas com a compra de materiais de pintura. Além disso, oferecia seu espaço como local de encontro dos pintores, para exposição de suas pinturas e local de venda. Sua pequena galeria de arte ficava do lado da loja de material de pintura.

Van Gogh em sua pintura retrata Père Tanguy sentado de frente para o observador, com as mãos entrelaçadas, apoiadas no torso inferior.  Ele se mostra calmo e um leve sorriso enfeita seus lábios. Alguns historiadores de arte apontam para sua postura de Buda, um tipo de sábio japonês. A parede que serve de fundo está repleta de gravuras japonesas, compradas pelo artista. Numa delas está a representação do Monte Fuji, logo atrás do chapéu do retratado. É possível que este símbolo sagrado dos japoneses represente aqui a dignidade e a humanidade de Tanguy, tão apreciadas pelo artista.

Tanguy é visto como um sábio pertencente ao universo japonês que o artista tanto admirava. Atores do Kabuqui e cerejeiras em flor também estão presentes na parede. Dizem que, enquanto viveu, Julien Tanguy jamais abriu mão desta pintura. Após sua morte ela foi vendida por sua família a August Rodin, encontrando-se atualmente no museu que homenageia o escultor.

Ficha técnica
Ano: 1887
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 92 x 75 cm              
Localização: Museu Rodin, Paris, França

 Fontes de Pesquisa:
Impressionismo/ Editora Taschen
Grandes Mestres/ Abril Coleções
http://www.galleryintell.com/artex/portrait-of-pere-tanguy-by-vincent-van-gogh/

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Mestres da Pintura – ANNIBALE CARRACCI

 Autoria de Lu Dias Carvalho

O pintor italiano Annibale Carracci (1560-1609), nascido em Bologna, era oriundo de uma família de artesãos. Seus ancestrais eram alfaiates. Seu irmão Agostino (1557-1602) formou-se como gravador e pintor. Annibale começou trabalhando na alfaiataria, mas depois seguiu os passos do irmão mais velho, com quem trabalhou na oficina do primo Ludovico Carracci em Bolonha, o que leva a crer que esse tenha sido seu professor. Os três fundaram uma escola artística chamada Academia degli Incamminati (Academia do Caminho), sendo Ludovico o dirigente da escola conhecido por sua rejeição ao estilo maneirista. Os três Carracci trabalhavam ativamente com tudo o que lhes fosse encomendado, sendo Annibale o mais criativo do grupo. Os três artistas trabalharam juntos na decoração do Palazzo Fava em sua cidade natal. Em muitas das primeiras obras de Bolonha, é difícil distinguir as contribuições individuais de cada um deles, pois carregam apenas a assinatura “Carracci”, o que pode sugerir que os três participaram.

Annibale Carracci viajou para Parma, onde estudou o estilo de Correggio e depois para Veneza, onde se encontrou com o seu irmão Agostino. Estudou a arte de Veneza e encantou-se em Roma com as obras de Rafael. Conheceu as obras de Corregio, Ticiano e Michelangelo, tendo se inspirado no trabalho desses artistas.  Fez um profundo estudo da natureza, ao qual agregou novas ideias. Criou um estilo direto, claro e harmonioso. Foi rival de Caravaggio, tendo sido, à sua época, o principal pintor de Roma. A sua obra reflete o conhecimento da arte da Antiguidade e do Alto Renascimento, tendo se libertado da corrente maneirista, seu ponto de partida. Sua obra possui um arranjo simples e harmonioso que lembra a arte renascentista, contudo está imbuída de grande apelo emocional

Os mais importantes trabalhos de Carracci estão em afrescos. Entre os seus primeiros contemporâneos ele é visto como um inovador, ao reviver o visual de afrescos de Michelangelo e postular uma paisagem pictórica vividamente brilhante que vinha sendo progressivamente esquecida por um emaranhado de maneirismos. Se Michelangelo era capaz de curvar e contorcer o corpo humano em qualquer perspectiva possível, Carracci, nos afrescos de Farnese, ensinou como fazê-lo dançar. As fronteiras do “teto”, grandes extensões de parede a serem decoradas, durante as décadas posteriores seriam preenchidas pelo brilhantismo monumental dos seguidores de Carracci.

Carracci possuía uma temática incrivelmente diversificada: paisagens, cenas e retratos, incluindo uma série de autorretratos. Foi um dos primeiros pintores italianos a produzir telas nas quais a paisagem tinha prioridade sobre as figuras, como na sua encantadora composição intitulada A Fuga para o Egito. Nesse gênero Carracci foi acompanhado por Domenichino, seu aluno predileto, e Lorraine. É descrito por seus biógrafos como descuidado com as vestimentas e obcecado pelo trabalho. Segundo uma carta do cardeal Odoarde Farnese, Carracci, o artista possuía um “pesado humor melancólico”. Não se sabe o que o levou a aposentar os seus pincéis tão cedo. Faleceu em 1609.

Annibale Carracci foi muito importante para a história da pintura, não somente pelos seus afrescos, mas também como pintor de retábulos barrocos. Recebeu elogios de grandes nomes da arte como Bernini, Poussin e Rubens. Entre os seus assistentes e alunos surgiram grandes nomes, como: Domenichino, Francesco Albani, Giovanni Lanfranco, Domenico Viola, Guido Reni, Sisto Badalocchio e outros mais.

Fontes de pesquisa
1000 obras-primas da pintura europeia/ Konemann
Obras-primas da pintura ocidental/ Taschen

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Zurbarán – HÉRCULES E ANTEU

Autoria de Lu Dias Carvalho

Hércules era o herói clássico por excelência, cujos feitos de força e perseverança em face da adversidade e a transfiguração num status quase divino tornaram-no uma figura indispensável à iconografia principesca. (Jonathan Brown)

Percebendo os truques de Anteu, Hércules ergueu-o no ar e apertou-o tão poderosamente entre seus braços que a criatura morreu. Tal foi a vitória de Hércules nesta luta.[…] Diz-se que a cobiça ou o desejo carnal nasceu da Terra e, por isso, foi incorporado por Anteu. (Juan Pérez de Moya)

O pintor barroco, desenhista e gravador espanhol Francisco de Zurbarán (1598-1664) foi aluno de Pedro Diaz de Villanueva em Sevilha. Ele fez inúmeras obras para o Convento de Sevilha. Sua fama levou-o a receber o título de pintor honorário dessa cidade. Trabalhou para a corte de Madri no governo de Filipe IV. É tido como um dos mais importantes pintores espanhóis do século XVII, ao lado de Velázquez, Ribera e Murillo. Ele se tornou conhecido, sobretudo, por suas obras religiosas, que descrevem monges e mártires, e também pelas suas maravilhosas naturezas-mortas. A maioria de suas pinturas era destinada às ordens religiosas espanholas, tendo criado muitas pinturas religiosas durante a era barroca.

A composição intitulada Hércules e Anteu – ou também A Luta de Hércules com Anteu – é uma obra do artista que em razão de seu grande sucesso como pintor foi convidado pela corte espanhola a participar da decoração do “Salão dos Reinos”, criando pinturas sobre os “Doze Trabalhos de Hércules”. As críticas não foram unânimes quanto às 10 obras criadas pelo artista. Alguns as acharam deficientes se comparadas à antiga lenda, enquanto outros viram nelas uma concepção totalmente original. O fato é que o artista foi muito corajoso ao desviar-se das abundantes imagens desse herói grego, encontradas em esculturas, dentro dos protótipos clássicos, ao criar sua obra.

O Hércules de Zurbarán é mostrado como um personagem poderoso e desajeitado que necessita de muito esforço para derrotar seus inimigos. O artista não o idealiza como o semideus descrito na lenda, mas como um homem comum dotado de uma estupenda força. E por isso, ele necessita de força de vontade para atingir seus objetivos. Aqui, Hércules é visto com Anteu (o gigante norte-africano), filho da deusa Gaia (a Terra) em seus braços.

A tarefa de Hércules para derrotar o gigante não era fácil, pois toda vez que ele era derrubado, sua mãe dobrava-lhe a força, exigindo ainda mais esforço de Hércules. A luta entre os dois personagens acontece diante de uma caverna escura, sendo ambos apresentados verticalmente, o que deixou Anteu com pouco espaço na parte superior da tela, tendo seu braço e mão esquerda praticamente incompletos.

Ficha técnica
Ano: 1634/35
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 136 x 153 cm
Localização: Museu do Prado, Madri, Espanha

Fontes de pesquisa
Pintura na Espanha/ Cosac e Naify Edições
https://www.museodelprado.es/en/the-collection/art-work/hercules-fighting-with-antaeus/b50a7459-d674-4ce1-8da7-ecbe3120b9c9

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