Arquivo da categoria: Pintores Brasileiros

Informações sobre pintores brasileiros e descrição de algumas de suas obras

Oswaldo Goeldi – SUBÚRBIO

Autoria de LuDiasBH

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A penumbra é um elemento constante de sua linguagem, que acabou encontrando perfeita tradução plástica no opção do artista pela xilogravura como meio preferencial de expressão. (Rafael Cardoso)

O Brasil que aparece nas obras do gravador, filho do naturalista suíço Emilio Goeldi, está muito distanciado da ideia de um país tropical, alegre e solar. O mundo de suas gravuras e desenhos é formado por personagens solitários em ruas silenciosas – universo que, para o espectador, pode parecer inquietante. (jornal O Estado de São Paulo)

Ninguém que conhece a paisagem do Brasil – suas ruas e casario, seus tipos e costumes – ousaria negar a centralidade do país no imaginário do artista. (Rafael Cardoso)

A composição O Subúrbio, que também pode ser encontrada com o título “Tropischer Garten” (Jardim Tropical), é uma obra do artista brasileiro Oswaldo Goeldi. As duas impressões foram feitas a partir da mesma matriz. Não se sabe o porquê de trazerem nomes diferenciados. Mas isso é comum acontecer na gravura, onde existe a reprodução das obras. Aquela com nome em alemão deve ter sido feita para o estrangeiro.

A gravura apresenta um sobrado, rodeado por palmeiras e bananeiras, além de um imenso pé de flamboaiã  e da nossa tão conhecida babosa. A frente do  sobrado de dois pavimentos ocupa o centro da composição. Na parte de baixo estão duas grandes portas. O casarão parece espremido, acima, pelo céu e, abaixo, pelas árvores.

Na frente do sobrado, em primeiro plano, encontra-se um casal. O tamanho agigantado da edificação e da vegetação, que a envolve, torna-o diminuto. Na segunda gravura vista, denominada Chuva, o artista deixa o seu mundo do preto e branco, para inserir um pouco de cor em seu trabalho de xilogravura.

Ficha técnica
Ano: c. 1930
Técnica: xilogravura sobre papel
Dimensões: 14,6 x 15 cm
Localização: Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, Brasil

Fonte de pesquisa
A arte brasileira em 25 quadros/ Rafael Cardoso

Pintores Brasileiros – OSWALDO GOELDI

Autoria de LuDiasBH

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O grande mestre da gravura brasileira preservou em sua obra o que ela possui de mais autêntico e universal: sua humanidade profunda. […] A penumbra é um elemento constante de sua linguagem, que acabou encontrando perfeita tradução plástica na opção do artista pela xilogravura como meio preferencial de expressão. (Rafael Cardoso)

Nunca sacrifiquei a qualquer modismo o meu próprio eu – caminhada dura, mas a única que vale todos os sacrifícios. (Oswaldo Goeldi)

Sua imaginação tem a brutalidade sinistra das misérias das grandes capitais, a solenidade das casas de cômodos onde se morre sem assistência, o imenso ermo das ruas pela noite morta e dos cais pedrentos batidos pela violência de sóis explosivos. (Manuel Bandeira)

Goeldi só não é um desesperado, porque tem amor à humanidade e certo apego à vida. Gosta de perambular pelas ruas, fixando tipos, guardando imagens. […] Seu olhar para as coisas vai carregado de força subjetiva que logo se transforma em visão. Visão quase sempre trágica. (Aníbal Machado)

 O gravurista, desenhista, ilustrador e professor Oswaldo Goeldi (1895-1961) nasceu na cidade do Rio de Janeiro. Era filho de Emílio Augusto Goeldi, cientista suíço, que foi diretor do hoje Museu Paraense Emílio Goeldi, e de mãe brasileira. Sua família mudou-se para a cidade de Belém, no Pará, quando ele tinha apenas um ano de idade. Ali permaneceu durante seis anos, mudando a seguir, com a família, para Berna, na Suíça.

Oswaldo, aos 22 anos de idade, tornou-se alundo da Escola de Artes e Ofícios, em Genebra, mas abandonou o curso, sem concluí-lo. Optou por ter aulas no ateliê dos artistas Serge Pahke e Henri van Muyden. Ao realizar a sua primeira exposição individual em Berna, ficou conhecendo a obra do ilustrador expressionista austríaco Alfred Kubin, pela qual se viu fortemente atraído. Os dois artistas tornaram-se amigos e mantiveran uma longa correspondência. Na mesma época, ele se tornou amigo do artista suíço Hermann Kümmerly, com quem fez suas primeiras litografias.  Presenteou o amigo suíço com 157 desenhos e gravuras. Felizmente, esse acervo voltou ao Brasil, ao ser adquirido por Raul Schmidt Felippe Jr., colecionador brasileiro.

Aos 24 anos de idade, Oswaldo retornou ao Brasil, após o falecimento de seu pai,  escolhendo a cidade do Rio de Janeiro, onde nascera, para morar. Passou a trabalhar nas revistas “Ilustração Brasileira” e  “Para Todos”, como ilustrador. Realizou sua primeira individual dois anos depois. Tomou conhecimento da xilogravura, técnica através da qual passou a expressar-se. Estudou com Ricardo Bampi, em Niterói. Começou a experimentar o uso da cor em suas xilogravuras. Lançou o álbum “10 Gravuras em Madeira de Oswaldo Goeldi”, em 1930, cuja introdução foi feita pelo poeta Manuel Bandeira. Ilustrou revistas e periódicos. Expôs seu trabalho na 25ª Bienal de Veneza, em 1950, e ganhou o Prêmio de Gravura da 1ª Bienal Internacional de São Paulo, no ano seguinte.

Oswaldo, um dos maiores mestres da gravura, visto como expoente máximo de sua arte no Brasil e do século XX, tornou-se professor, em 1952, da Escola Nacional de Belas-Artes (Enba), no Rio de Janeiro, abrindo ali uma oficina de xilogravura. Dentre seus alunos podem ser citados: Adir Botelho, Anna Letycia, Samico, Antônio Dias e Roberto Magalhãe. Dentre suas obras, todas de grande qualidade, encontram-se: Na Favela, Bairro Industrial, Rolando Pipa, Conversa de Esquina, Canto de Rua, Mascate, Cais, etc. As paisagens na obra do artista são, geralmente, noturnas e urbanas. O artista tinha como temas pessoais: casario suburbano, mar e pescadores, noite e solidão, dentre outros. Dentre os animais tinha predileção pelos gatos, garças, abutres e tubarões.

O artista era, às vezes, sarcástico em muitas de suas obras, enquanto noutras invertia aquilo que se tem como normalidade, a exemplo de um peixe perseguindo um pescador, pássaros aguardando momento propício para investirem contra o dono, caveiras que retomam a vida, o vento que tudo destrói e leva consigo,  como se a natureza e os objetos voltassem-se contra o homem todo poderoso, sempre a intimidá-los.

Oswaldo Goeldi faleceu em 1961, na cidade do Rio de Janeiro. Sua obra continua fazendo parte de exposições póstumas, em vários países. Todo o seu acervo vem sendo preservado e catalogado pela Associação Artística Cultural Oswaldo Goeldi e pelo Projeto Goeldi. Hoje, a quase totalidade das matrizes e muitas centenas de gravuras e desenhos seus estão no Rio de Janeiro, no Museu Nacional de Belas-Artes e na Biblioteca Nacional, onde são guardados os arquivos do artista, transferidos da PUC-RJ.

Fontes de pesquisa
A arte brasileira em 25 quadros/ Rafael Cardos
Brazilian Art VII
https://pt.wikipedia.org/wiki/Oswaldo_Goeldi

Rodolpho Amoedo – MÁS NOTÍCIAS

Autoria de LuDiasBH

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A composição Má Notícias é uma obra do pintor brasileiro Rodolpho Amoedo. Trata-se de uma pintura de gênero, que retrata um momento doméstico e também sentimental. Não se sabe se é um retrato, de acordo com a definição do termo, uma vez que nada se conhece da modelo, ou seja, se ela teria se feito retratar, ou seviu de mero modelo.

O quadro mostra uma jovem mulher, sentada numa cadeira de madeira, ornamentada com motivos de marchetaria, tendo à esquerda uma volumosa almofada finamente trabalhada, lembrando o Oriente. Ela se encontra de frente para o observador. Seus olhos escuros, embora pareçam mirar o observador, estão perdidos, distantes. Seu braço esquerdo está apoiado na aba da cadeira, enquanto a mão serve de apoio para o queixo. O corpo inclinado para a direita repassa a leitura de uma intensa emocão, sendo que seu rosto de traços marcantes demonstra angústia e conformidade.

A mulher está ricamente trajada.  Seu vestido de cetim, com fundo branco e listras verticais azuis, possui imensas mangas bufantes e gola que se fecha no pescoço com quatro botões de madripérola. Pelas costas e ombros desliza uma bela peça transparente feita de renda. Uma grossa fita branca de cetim cinge-lhe a cintura. Nos braços traz duas delicadas pulseiras de ouro. Através de sua vestimenta e da decoração que a rodeia é possível chegar à conclusão de que se trata de uma pessoa de classe rica.

O que estaria acontecendo com essa bela moça? Seu braço direito está estendido em seu colo, e a mão, com seus dedos rígidos, detém duas folhas meio amassadas, ou seja, uma carta, cujo teor está em conformidade com o título da obra: más notícias. É possível ver parte do escrito. Um biombo, decorado com motivos chineses, encontra-se à direita da figura feminina. O fundo preto da tela funde-se com o cabelo da jovem e põe em destaque sua figura.

Ficha técnica
Ano: 1895
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 100 x 74 cm
Localização: Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, Brasil

Fonte de Pesquisa
A arte brasileira em 25 quadros/ Rafael Cardoso

Pintores Brasileiros – RODOLPHO AMOEDO

Autoria de LuDiasBH 

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Talvez seja o artista mais injustiçado da história da pintura brasileira. […] Apesar de sua longevidade e da inegável qualidade de seu trabalho, Amoedo continua a ocupar um espaço relativamente acanhado na memória artística nacional. […] Não teve ainda sua reputação devidamente reabilitada pela historiografia posterior. (Rafael Cardoso)

O pintor brasileiro Rodolpho Amoedo (1875-1941) nasceu em Salvador. Estudou no Liceu de Artes e Ofícios, onde teve como mestres Victor Meirelles e Antonio de Souza Lobo. No ano seguinte foi para a Academia Imperial de Belas-Artes, onde estudou com Agostinho Motta,  Victor Meirelles, Zeferino da Costa e Chaves Pinheiro.

Amoedo exerceu a sua arte por cerca de 60 anos e, consequentemente, deixou um grande legado à arte brasileira: mais de 400 pinturas sobre cavalete e diversas pinturas decorativas para edifícios públicos. Também foi muito importante para o ensino da arte no país, tendo passado por ele duas importantes gerações de artistas, como João Baptista da  Costa, Raphael Frederico, Lucílio de Albuquerque, Eugênio Latour e Cândido Portinari. Ajudou transformar a antiga Academia em Escola de Belas-Artes, nos primeiros anos de república, sendo, inclusive, seu vice-diretor. Foi responsável por grandes mudanças no ensino artístico no país.

O artista ganhou o prêmio da Academia, que era uma viagem ao exterior, vencendo Henrique Bernadelli, até então favorito. Mas houve controvérsias em relação à justeza do concurso, o que trouxe para Amoedo muitos problemas de relacionamento, inclusive com a crítica. Em Paris, ele estudou com o mestre Alexandre Cabanel e Puvis de Chavannes.

O ostracismo, em que caiu Amoedo, pode estar ligado a seu gênio difícil, o que o levava a estar metido em altercações e brigas pessoais. A dificulade, em relacionar-se com ele, levava as pessoas a manterem-se distantes. Além disso, quando o modernismo chegou ao Brasil, ele, que era um pintor acadêmico e ainda exercia sua arte, passou a ser visto como antiquado e retógrado pelos novos artistas.

Amoedo também viveu um momento difícil para o tipo de arte que produzia. Após a proclamação da República, a arte estava mais voltada para “explorar questões ligadas ao espaço público e à identidade coletiva: fosse por meio de exaltação dos valores cívicos do novo regime […], do estudo de tipos nacionais ou regionais […], ou da boa e velha pintura histórica.”, explica Rafael Cardoso em seu livro “A Arte brasileira em 25 quadros”. Entretanto, a pintura de Amoedo não tinha a ver com nada disso, uma vez que sua arte era “interiorizada, intimista e psicológica”. Ele não aderiu, portanto, à nova tenência que havia no país. Gostava, sobretudo, de figuras femininas e passagens da vida urbana. Fez inúmeros retratos. Dentre os seus quadros famosos estão “Marabá”, “Estudo de Mulher”, “Dorso de Mulher”, “No Ateliê” e “O Último Tamoio”.

Na sua velhice, o artista viveu muito solitário, morrendo aos 66 anos de idade, na cidade do Rio de Janeiro. Após sua morte, parte de sua obra foi doada ao Museu Nacional de Belas-Artes (MNBA), no Rio de Janeiro.

Nota: autorretrato do pintor.

Fontes de Pesquisa
A arte brasileira em 25 quadros/ Rafael Cardoso
http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa21342/rodolfo-amoedo

Belmiro de Almeida – ARRUFOS

Autoria de LuDiasBH

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O artista atirou-se ao modernismo, deixando as convenções antigas para abraçar corajosamente o realismo. (Revista Ilustrada/1887)

 Ainda no Rio de Janeiro não se fez um quadro tão importante como este. (Gonzaga Duque)

A composição Arrufos é uma obra do pintor, caricaturista, escultor, jornalista e professor brasileiro Belmiro de Almeida, e também uma de suas telas mais conhecidas, ainda que tenha sido feita no início de sua carreira. Foi comprada pela ENBA (Escola Nacional de Belas Artes), três anos após a recusa da Academia em adquiri-la.

À primeira vista, a cena parece levar o observador a imaginar que se trata de uma briga de casal, na sala de estar de uma casa rica, onde se observa enormes almofadas, tecidos caros e um abano, sobre as costas do sofá, à esquerda, pintado com motivos japoneses. A parede, atrás do homem, está coberta com um papel de parede com listras verticais. Vê-se também um abajour de estilo antigo.

A mulher, bem iluminada, encontra-se de joelhos no tapete, com cabeça, braços e parte do tronco apoiados na beira do sofá, o que leva a crer que esteja chorando. A rosa despetalada a seu lado, no tapete, reforça a suposição de que os dois estejam em atrito. Seu chapéu encontra-se abaixo da mão esquerda do moço, o que leva a crer que acabaram de chegar de algum lugar.

Um jovem homem encontra-se assentado numa cadeira. Parte de seu rosto está oculta pela sombra. Ele está elegantemente trajado, usando calças cinzas, camisa vermelha e colete debaixo do paletó, o que denota sua boa posição social. Não usa gravata, mas uma gola branca alta, que se encontra presa à camisa por um ostentoso botão branco. Um relógio dourado desponta debaixo de seu colete. Na mão esquerda usa uma luva marrom de couro de dois tons e segura a da mão despida. Traz as pernas cruzadas e inclina levemente a cabeça para acompanhar a fumaça do charuto, como se estivesse perdido em pensamentos.

A aparente calma do moço leva a crer que seja ele o responsável pela desolação da mulher, levando-a a jogar a rosa no chão. A mão esquerda enluvada pode significar que ele não permanecerá muito tempo no local. E, segundo disse Gonzaga Duque, historiador e crítico da arte, pode ser que ela tenha levado um “pé na bunda”, como indica a posição do traseiro da mulher e, próximo a ele, o pé erguido do homem. Será mesmo?

O personagem masculino retratado nesta obra é o escritor e crítico de arte Gonzaga Duque, nos seus 24 anos de idade.

Fonte de pesquisa
Belmiro de Almeida/ Coleção Folha

Guignard – CIDADE COLONIAL IMAGINÁRIA

Autoria do Prof. Pierre Santos
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Eis que os acasos da vida trazem-me, ao conhecimento, algo excepcional, inesperado, desconcertante mesmo, da lavra de Guignard. Trata-se da pintura Cidade Colonial Imaginária, feita poucos dias antes de deixar-nos, sobre aleatório recorte de uma prancha de compensado, casualmente recolhida pelo pintor do chão de alguma pequena fábrica de móveis. Claro que algo assim extravagante e único no conjunto da obra deixou-me profundamente intrigado, levando-me a perguntar, dada a extraordinária qualidade plástica ali encontrada: que quadro é este? Quadro? Que objeto é este? Objeto? Que composição é esta, que ultrapassa a naturalidade da visão, para roçar o inaudito da ultra realidade?

Jamais vira algo assim no conjunto das realizações plásticas de Guignard. O presente trabalho se reveste de uma gravidade, que me obriga a pensar, ser ele a última criação do mestre, realizada poucos dias antes de sua morte. Lembro-me de que Arlinda, conversando comigo antes do velório do artista e ainda no Hospital São Lucas, onde faleceu, referiu-se ao fato de que, antes de sua doença agravar-se, “Guignard andou brincando lá no atelier com uma coisa bem diferente…”. Acredito que tal referência seria ao trabalho em foco; só que não estava brincando, pois quando pegou o recorte, já sabia o que fazer com ele, algum tempo depois, quando se dispusesse a usá-lo.

O material usado mais nos parece mera peça de imenso quebra-cabeça, mas é apenas o recorte aleatório, que os fabricantes locais de chapeleiras faziam em peças de compensado ou em papelão comum, e pregavam o restante devidamente pintado, sem aquele recorte feito, sobre o espelho, que as encimavam, para atenuar a transparência. Num recorte assim, Guignard dispôs de baixo a alto o seu motivo. Detenho-me primeiramente em algo que também me intriga: não sei se intencional ou se inconscientemente, o artista pôs sua grande cabeça, sobrepujando aquela paisagem, que via pela vez derradeira, como se estivesse desincorporado.

Se olharmos de maneira difusa para o morro acima da primeira igreja, a maior, ela perde na fímbria de nossa visão a sua fixidez, transformando-se numa boca cheia de dentes, pois a figura está sorrindo. Duas linhas onduladas partem de suas torres, vinculando-a com as duas igrejas acima dela: são os olhos. A face está um pouco inclinada para baixo, na posição de quem esteja vendo do alto. E no espaço infinito do cérebro, a paisagem com seus vales, morros, nuvens e balões povoa o sonho do artista. Duvido que tal coisa não tenha sido feita de propósito. Pura mágica.

Como Guignard intuiu este panorama e, no âmbito de sua intuição, propôs-se a edificá-lo? Embaixo, no primeiríssimo plano, balões inflados pouco abaixo começam a ascender-se e já estão prestes a ultrapassar a trilha, que leva, não se sabe de onde, à primeira igreja, sobrevoando as primeiras nuvens às fraldas do morro mais próximo. Guignard vê tudo isso de cima. De cima? Mas de onde? Promontório algum seria capaz de ombrear-se com toda essa elevação! Não há promontório, nem nada. Na imaginação, a alma se lhe desprendeu do corpo e voeja por sobre a paisagem rumo ao mundo encantado da fantasia. Seis igrejas construídas no nada ponteiam o espaço e, coordenadas com vales e montes, conduzem a visão do artista ao infinito, onde o céu azul com suas nuvens brancas prepara-se para embalar os balões que, naquele espaço, começam a levitar, balões que, sintomaticamente, de alto a baixo, têm o mesmo tamanho! Puro sonho.

Devido ao exotismo do recorte, jamais tinha visto algo assim na obra de Guignard e certamente é o único. Além disso, alguns recursos aí empregados comprovam, de maneira inequívoca, a presença do mestre nesta pintura: primeiro, o preparo da superfície feito com inusitado esmero, usando técnica a duras penas aprendida enquanto acadêmico em Munique, Alemanha, no que é inimitável; e, segundo, a ciência na distribuição dos elementos composicionais, no caso os componentes de uma paisagem de cidade colonial saída de sua imaginação, onde igrejas em posições estratégicas, vales cheios de nuvens, morros dispostos em sentido ascensional e balões sempre brancos tal se fossem almas que por ali adejam no supremo afã de atingir o céu, vão se dispondo com suas cores sempre para riba, em campos compartimentados e correspondentes, no rumo do infinito.

Quis o acaso que somente agora me fosse dado conhecer este trabalho. Foi o último pintado pelo artista? Seja. É o último que focalizarei no meu livro, encerrando-o com chave de ouro. Até lá e só por curiosidade, quero levantar uma questão interessante, atinente ao valor representativo, de um lado, e ao valor pecuniário, de outro, no que se refira a esta obra. Há poucos anos, o atual proprietário, que quase nada sabia sobre Guignard, adquiriu este trabalho na bacia das almas, como se diz, e o guardou em casa. Recentemente soube de minha existência. Viajou até mim e mostrou-me o quadro, querendo saber se “aquilo” era verdadeiro e se tinha algum valor. Fiquei boquiaberto ao ver a obra, estudei-a e concluí não só por sua autenticidade, mas também pelo aspecto inestimável no que tanja ao seu valor. Sendo feita num recorte de compensado com inusitado capricho, acabou ficando uma peça única, sem o menor paralelo na obra do mestre. Por ser assim, restou algo exótico e é por isso que seu valor parece-me bastante imponderável, fugindo à conceituação mercadológica dos próprios quadros de Guignard, que hoje atingem cifras impressionantes. Mas se a peça foge disto, eleva-se por sua excentricidade e raridade a plano bem diversificado e, certamente, irá chamar a atenção dos colecionadores, sendo um museu a sua acolhida no futuro.

Nota: Guignard, Cidade colonial imaginária, 1962, osm, 27 X 27 cm.