Durante muito tempo se pensou que o Renascimento tivesse surgido na Itália durante o século XIV com as descobertas de Giotto (c.1266-1337) ou Cimabue (c.1240-1302?), tendo como término o final do século XVI. Contudo, na arte as coisas não acontecem com uma cronologia tão apurada, sendo muito comum dois ou mais estilos coexistirem num mesmo período, como já vimos anteriormente suceder com os estilos românico e gótico. Poucos sabem que muitas das ideias identificadas com o Renascimento já eram encontradas no século XII, sendo possível, portanto, encontrar na Renascença (ou Renascimento) muitos pontos ligados ao período medieval.
Muitos estudiosos acreditavam que a Idade Média não tivesse passado de um milênio de grande decadência, responsável por deixar para trás — através do esquecimento ou do descuido — o êxito da época anterior (a Antiguidade). Hoje, porém, a idade medieval vem sendo olhada sob um novo prisma. Está provado que a cultura clássica (greco-romana) jamais desapareceu totalmente da Europa durante a Idade Média, tendo havido diversas tentativas com o objetivo de revivê-la nos séculos que antecederam o Renascimento. Vejamos dois exemplos abaixo.
A primeira tentativa aconteceu no tempo de Carlos Magno, no final do século VIII e início do século IX. O desejo do imperador era restaurar o Império Romano na Europa Ocidental, fazendo renascer a arquitetura e a literatura romanas. Chegou a autorizar a cópia e a propagação dos textos clássicos e juntou um grupo de eruditos com o objetivo de dedicar-se ao estudo da literatura romana. Carlos Magno, mesmo sendo analfabeto, participou dessa realização com grande empenho. Essa tentativa do Renascimento carolíngio teve uma importância muito significativa ao manter viva as ideias clássicas e seus modelos, impedindo que fossem esquecidos. Os copistas da corte contribuíram para conservar os textos dos manuscritos latinos, tanto é que o tipo de letra “romana”, usada em nossos tempos, é carolíngia na origem.
Um segundo Renascimento aconteceu no século XII, quando houve um grande interesse pela civilização romana, havendo um crescimento e difusão de bibliotecas e a procura pela pureza da expressão literária. Buscavam imitar a escultura e a arquitetura clássicas. O contato com o mundo árabe e com as civilizações islâmicas através das Cruzadas permitiu o acesso às traduções de alguns trabalhos científicos e filosóficos da Grécia Antiga, permitindo acesso ao saber de Aristóteles sobre filosofia, física, astronomia, lógica, política e ética — assuntos até então desconhecidos dos eruditos do século XII. A criação das universidades, sobretudo em Bolonha, Pádua, Paris e Oxford, incluiu o estudo da lógica aristotélica, mas acabou por excluir todo o resto da grade de estudos, o que causou uma grande reação nos séculos XVI e XV.
O Renascimento foi muito mais do que um período. Foi principalmente um movimento cultural responsável por sinalizar um ponto crucial que se deu na transição da Idade Média para a Idade Moderna. Segundo o artista italiano e historiador de arte Giorgio Vasari (1511-1574), as artes estavam em busca da perfeição, o que levava “a uma recuperação da civilização antiga da Grécia e Roma”. O erudito humanista Marsilio Ficino (1433-1499) referiu-se a uma nova idade dourada em Florença que “tinha restaurado a vida das artes liberais que estavam quase extintas: a gramática, a poesia, a retórica, a pintura, a escultura, a música e o antigo cantar de canções na lira órfica”. Para o poeta e humanista Petrarca (1304-1374), o novo período fez com que “os homens saíssem da obscuridade”.
Ao Renascimento, portanto, não coube o papel de ocupar um vazio cultural absoluto, pois os “Renascimentos” anteriores foram responsáveis em vários sentidos por pavimentar o caminho para o ápice que viria a acontecer nos séculos XV e XVI. O Renascimento italiano foi a culminância de uma diversidade de tendências anteriores e não uma ruptura total com o passado, como se imaginava. Sabemos que a palavra “renascimento” significa “voltar a nascer” e foi com esse sentido que os eruditos e artistas dos séculos XV e XVI viram os acontecimentos no meio cultural do qual faziam parte — o renascer da civilização clássica após um imenso período de definhamento. O movimento renascentista teve um grande impacto em todos os aspectos da cultura, da literatura e da arquitetura, ao tentar, conscientemente, reabilitar e reviver o brilhantismo da Antiguidade Clássica. É fascinante estudar esse período!
Exercício
- Pode-se dizer que na Idade Média inexistiu a cultura clássica? Por quê?
- Por que o Renascimento carolíngio foi importante?
- O que foi o Renascimento italiano?
Obs.: Quem quiser rever alguma aula, basta buscar no ÍNDICE GERAL por ÍNDICE – HISTÓRIA DA ARTE onde se encontram todas as que já foram dadas.
Fontes de Pesquisa
A História da Arte/ E. H. Gombrich
Renascimento/ Nicholas Mann
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