Botticelli – A VOLTA DE JUDITE A BETÚLIA

Autoria de Lu Dias Carvalho

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A composição A Volta de Judite a Betúlia é uma obra do pintor italiano Sandro Botticelli (1445-1510), que aos17 anos de idade tornou-se aluno do prestigiado artista frade Filippo Lippi, mas não demorou muito para que o aluno superasse o mestre, com suas figuras suaves, rostos sérios e expressões contemplativas, buscando apresentar a realidade interior de seus personagens. Os artistas Antonio del Pollaiuolo, Andrea del Verrochio, Ghirlandaio e Perugino também exerceram influência na arte de Botticelli.

Nesta sua pintura, Botticelli mostra a influência recebida de alguns de seus mestres Lippi, Verochio e Pollaiolo. Ele retrata o momento em que Judite, depois de matar Holofernes, retorna a Betúlia, acompanhada por outra jovem. Apesar do assassinato cometido, nada há no rosto ou nas vestes de Judite que possam denunciar seu crime, a não ser a cabeça decepada de Holofernes, o inimigo de seu povo, que sua serva carrega numa cesta, envolta em panos.

A hebreia Judite e sua serva Abra encontram-se numa elevação. Ela caminha à frente, carregando na mão direita a espada usada no crime e um galho verde de oliveira na esquerda, o símbolo da paz para os hebreus, após a morte do general. Abra segue atrás, segurando a saia do vestido e carregando a cabeça do general. Elas se mostram apressadas. As ondulações das roupas das duas figuras, dos véus e do galho, mostram que se encontram em movimento. À frente das duas jovens está uma árvore de tronco reto. Embaixo, no vale, os soldados de Holofernes, em seus cavalos, buscam pela culpada. A luz pálida denuncia a madrugada.

O artista conseguiu expressar na pintura tanto o movimento quanto a imobilidade, num equilíbrio único. Enquanto a criada parece andar velozmente, com sua passada larga, Judite parece parar e voltar-se para o observador.

Obs.: A história bíblica sobre Judith, que matou o general Holofernes, comandante-em-chefe do rei assírio, porque ele perseguia os hebreus em Betúlia, foi um dos temas favoritos do Renascimento florentino.

Ficha técnica
Ano: c. 1470-1475
Técnica: têmpera sobre madeira
Dimensões: 31 x 24 cm
Localização: Galleria deglu Uffizi, Florença, Itália

Fontes de pesquisa
A Enciclopédia dos Museus/ Mirador
1000 obras-primas da pintura europeia/ Könemann
http://www.jornada.unam.mx/2010/10/03/sem-annunziata.html
http://www.wga.hu/html_m/b/botticel/1early/12judith.html

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Guignard – AS PAISAGENS E AS IGREJAS

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Guignard, quando esteve em Ouro Preto pela primeira vez, ficou embasbacado. Isso foi em 1942. Ele havia ganhado o Prêmio do Salão Nacional, no Rio de Janeiro, e veio conhecer Minas. Foi o poeta Manuel Bandeira que o aconselhou: “Vá pra Minas que tem tudo a ver com você.” Mário Silésio conta que eles chegaram à noite em Ouro Preto, após o dia inteiro de viagem. Guignard, cansado, não quis ver nada e foi dormir. No dia seguinte, acordou cedo e não sabia dizer uma palavra, maravilhado com o que via. Então exclamou: “É isso que eu procurei a vida inteira. Eu quero viver é aqui!”. (Prof. Pierre Santos)

Eterna criança grande, Guignard conservou a ingenuidade, o lirismo e e a frescura da infância, como se a vida e o tempo por ele tivessem passado impunemente, deixando-o intato. Ninguém como Guignard […] para nos pôr em “estado de graça” diante de um punhado de flores líricas, ou de colinas suaves, que lembram paisagens japonesas. Suas árvores explodem no ar como fogos de artifícios, e seus bosques fazem nossa sensibilidade recuar anos e anos, transpondo-nos a mágicas florestas de Grimm e Perrault. (Lúcia Machado de Almeida)

 O crítico de arte Olívio de Tavares Araújo afirma em seu livro “A Poesia Intacta” que “É em Minas que se completa a passagem da pintura de Guignard de uma etapa, digamos, ainda mimética – isto é, relacionada com uma transposição mais ou menos próxima da realidade contemplada – para uma etapa de invenção pura, como a que aparece nas paisagens imaginárias.”.  Mais adiante, o crítico complementa: “A paisagem mineira não é, por certo, exatamente como Guignard a representou, de meados dos anos 1950 em diante, com essas igrejinhas assim espalmadas entre linhas sinuosas e esparsas fileiras de casinhas voejantes.”.

Em seu lirismo, Guignard, através de sua observação, retirava da realidade os elementos necessários para a composição de uma obra, contudo, ao transpô-los para a tela, trabalhava-os livremente, criando algo que ninguém até então fizera antes, como diz o crítico de arte Pierre Santos, “em matéria de poesia dentro da pintura”, num misto de poética e invenção.

As “paisagens imaginantes” surgiram nos anos finais da vida de Guignard, quando sua palheta migra para um tom de cinza esbranquiçado. O crítico de arte e professor Rodrigo Naves assim define o novo trabalho do pintor: “[…] tudo parece estar em suspensão, sem solo ou pontos de apoio firmes. Não há caminhos, acidentes geográficos nem distâncias. Há apenas um mundo nublado e tristonho.”.

Ainda que a paisagem mineira não seja tal como a pintou Guignard, ela se fez real nos pincéis do grande artista, como se expressa Olívio de Tavares Araújo: “Sua grandeza está na invenção de uma paisagem mineira a que deu forma definitiva, na fusão dos elementos líricos com momentos do mais intenso patetismo, e enfim no ter sabido transformar a circunstância dolorosa da vida em obra universal, autônoma e perene.”. E é assim que a veem os mineiros e os diversos fãs do pintor, espalhados pelo Brasil e pelo mundo. A obra desse artista é a mais pura poesia.

As paisagens imaginárias de Guignard, adornadas por igrejinhas barrocas, que sempre brotam branquinhas e humildes, aqui e acolá, com pequeninas pinceladas coloridas  no arremate de suas cúpulas e telhados, e pontos mais escuros para fazerem a vez de portas e janelas, reinam majestosas sobre as montanhas, nesse mundo encantado com que nos presenteou o pintor-poeta, que se tomou de amor e encantamento pelas cidades históricas das Minas Gerais, eternizando-as com seus pincéis.

A escritora Lélia Coelho Frota, em seu livro “Guignard: Arte, Vida”, diz com conhecimento que “Guignard chega a inscrever-se a si próprio na paisagem. Com a diferença de estar na paisagem pintada, pintando. Como Klee, mas de maneira inteiramente diversa, ele alude a certa inflexão de arte infantil, ao distribuir os signos dos balões, das igrejas, das casas, do encontro das pessoas em festa, pelo risco da passagem pelos desfiladeiros, pela vertigem dos abismos, pela levitação atmosférica, luminescente.”. Bendito seja Guignard!

Ficha técnica de cada gravura

  1. Tela maior: Paisagem Imaginária Noturna, 1950, óleo sobre madeira, 110 x 180 cm.
  2. Primeira tela à esquerda: Paisagem Imaginante, 1955, óleo sobre madeira.
  3. Segunda tela, à esquerda: Tarde de São João, 1959, óleo sobre madeira, 38,5 x 29 cm.
  4. Terceira tela, a partir da esquerda: Noite de São João, 1961, óleo sobre tela, 61 x 46 cm.
  5. Quarta tela, a partir da esquerda: São João, 1961, óleo sobre tela, 49,5 x 39,9 cm.

Fonte de pesquisa
Brazilian Art VII

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Johann Liss – A TOALETE DE VÊNUS

Autoria de Lu Dias Carvalho

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A composição A Toalhete de Vênus, também conhecida por Vênus Diante do Espelho, é uma obra do pintro alemão Johann Liss (c.1597- c. 1630). A aprendisagem inicial do artista aconteceu na oficina de seus pais. Liss foi um pintor cosmopolita, viajando por vários lugares, como Holanda e Itália, apreendendo novas técnicas e recebendo novas influências. Morreu aos 33 anos de idade, em Veneza, vitimado pela peste. Apesar de ter vivido muito pouco tempo, sua evolução artistica foi brilhante. Recebeu influência de Peter Paul Rubens, Jakob Jordaens, Caravaggio e Domenico Ferri. Ao desenvolver o seu próprio estilo, contribuiu para dar vida nova ao barroco veneziano. Além de desenhista e pintor foi também um artista gráfico. Foi também um importatante colorista.

Em sua pintura de tema mitológico, o artista apresenta Vênus, deusa da beleza e do amor, conhecida como Afrodite na mitologia grega, quando faz sua toalete, após banhar-se. Ela se encontra nua, com todo o corpo exposto, assentada sobre um manto branco e outro vermelho, em cima de uma rocha. Com o corpo ligeiramente voltado para a esquerda e o rosto de perfil, segura com a mão direita um espelho e com a esquerda parte de seus cabelos que descem até a cintura. O pintor não se preocupu com a formosura da deusa, pois pintou-a como uma mulher normal, deixando à vista sua barriga e seios meio caídos, assim como culotes na cintura e nas nádegas.

Vênus está sendo cuidada por três ninfas, todas nuas. Uma delas, de costas para o observador, enxuga-lhe o corpo com a ponta do manto branco; a que se encontra às suas costas  prepara-lhe um ornamento, que tanto pode ser para enfeitar seus cabelo quanto para o pescoço; a terceira, à direita de Vênus, segura um majetoso manto cinza-azulado, formando uma cortina às costas e acima da deusa, para que esta não possa ser vista por estranhos, em seu banho.

Cupido, o pequenino deus do amor, filho de Vênus com Marte, segura o pesado espelho para que a mãe possa se ver melhor. O peso do objeto desequilibra seu corpo, cuja perna esquerda firma-se no assento da mãe. Sua aljava encontra-se debaixo do manto vermelho, rente com a parte inferior do quadro. Um pequeno cupido encontra-se à direita, com a cabeça e os membros superiores na sombra do manto vermelho, sustentando-o. No céu, à esquerda, dois pequenos cupidos brincam, recebendo o olhar da ninfa que protege Vênus dos olhares indiscretos.

No canto superior direito, numa pequena abertura, um humano ou sátiro libidinoso, fura o bloqueio do manto e observa a deusa em sua toalete. À esquerda, um homem ou deus aparece montado em um animal.

Ficha técnica
Ano: c. 1625-1626
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 82 x 69
Galleria deglu Uffizi, Florença, Itália

Fontes de pesquisa
A Enciclopédia dos Museus/ Mirador
1000 obras-primas da pintura europeia/ Könemann

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A FRIEND IN NEED (UM AMIGO EM NECESSIDADE)

Autoria de Flávio Sampaio

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O que seus bichos de estimação fazem quando você sai de casa? Algumas pessoas podem pensar que eles ficam abanando o rabinho, esperando-as voltar, enquanto outras acham que eles simplesmente ficam brincando com bolas ou novelos de lã. Esta é justamente a temática do filme “Pets”, atualmente em exibição nos cinemas. Claro que é só fantasia e mais uma tentativa de utilizar a antropoformização de animais para o entretenimento. Embora complicado, o termo tem um significado bem simples, significa a atribuição de traços humanos, emoções e intenções costumeiramente humanas a entidades não humanas, e não necessariamente a animais. Um exemplo muito bom disso é a série “Toy Story”, no qual ocorre a antropoformização de brinquedos.

Enquanto no filme “Pet”, os bichinhos mentem-se em várias enrascadas, a série “Dogs Playing Poker” (Cachorros Jogando Pôquer – em português), do pintor Cassius Marcellus Coolidge, foca em atividades bem mais “calmas” para os cães. Quer dizer, assim achamos. A série contém 16 pinturas a óleo, feitas pelo artista, que começaram a ficar famosas através da utilização dos quadros em anúncios da indústria tabagista. Em 1903, Coolidge assinou um contrato com a firma Brown & Bigelow com o objetivo de criar a série. Nem todas as 16 pinturas são de cães jogando pôquer. Algumas trazem os cães nas arquibancadas de um jogo de beisebol, outras num carro, e há também uma com eles jogando sinuca.

A mais famosa das pinturas, porém, é “A Friend in Need” (algo como “Um amigo em necessidade” – em português). Como outras telas de Cassius Marcellus Coolidge com a temática do pôquer, tal qual “His Station and Four Aces”, “Pinched with Four Aces” e “Poker Sympathy”, essa contém uma quadra de ases e é jogada na modalidade 5 card draw. O nome deriva do fato de um dos cães, um buldogue, passar um “ás” para um colega à sua esquerda – para que esse tenha uma quadra de ases (uma das mãos praticamente imbatíveis do pôquer). A tela ficou tão famosa, que seu nome virou uma expressão popular, usada quando um amigo ajuda outro – ao contrário de alguns que desaparecem quando isso acontece. Inclusive, esta expressão  figura como vernáculo em alguns sites.

Contudo, “A Friend in Need” não foi a tela de Coolidge que se tornou manchete mais recentemente – embora, como dito acima, seja considerada a mais famosa. Duas outras foram leiloadas por um valor recorde no portfólio do autor. “A Bold Bluff” e “Waterloo” – ambas com a mesma temática – tinham valor esperado entre 30 e 50 mil dólares. Atingiram 500 mil dólares em leilão no Doyle, de Nova York. Foi um recorde em relação aos trabalhos de Coolidge – o anterior era de “apenas” 75 mil dólares.

Cassius Marcellus Coolidge (1844-1934) foi um pintor estadunidense, que se tornou mais conhecido por suas composições que descrevem cães jogando pôquer. Compõem sua série com cães: Cão de Bacharel / Um blefe corajoso / Quebra de promessa /Um amigo em apuros/ Sua estação e quatro ás / Véspera de Ano Novo no cão Ville / Uns a amarrar dois a ganhar / Comprimido com quatro ás / A simpatia de poker / Post Mortem / A Reunião / Montando a cabra / Sentando-se com um amigo doente / Estranho em Campo / Dez milhas até uma garagem / Waterloo.

Ficha Técnica:
Ano: c. 1903
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 63×48 cm
Localização: Não há original, foi originalmente usada pela Brown & Bigolow em anúncios

Fontes de Pesquisa:
DogsPlayingPoker.org
Wikipedia
Money.CNN.com
http://www.greynotgrey.com/blog/wp-content/uploads/2012/05/A_Friend_In_Need-Cassius_Marcellus_Coolidge.jpg

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Pieter de Hooch – UMA CASA DE CAMPO

Autoria de Lu Dias Carvalho

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A composição Uma Casa de Campo é uma obra do pintor holandês Pieter de Hooch (1629-1684), tido como um dos mais importantes pintores holandeses de cenas de interior. Foi aluno do pintor paisagista Nicolaes Berchem. Inicialmente, o artista trabalhou com cenas de estalagens e casernas. Posteriormente deixou-se inspirar pelas obras de Jan Vermeer e Carel Fabrizius, passando a criar cenas de pátio e interiores, retratando a vida da burguesia da época. Mais tarde, inspirado pela arte francesa, mudou o seu estilo, passando a pintar grupos sociais elegantes, em suntuosos salões.

Em seu quadro acima, o artista apresenta o primeiro plano em sombra, com a luz atingindo o plano central e o fundo, como gostava de fazer em suas composições. Encontram-se presentes na pintura quatro figuras humanas: três mulheres e um homem, diante de uma casa de tijolinhos, com telhado avermelhado.

Uma mulher e um cavalheiro estão sentados em torno de uma mesa de madeira. Ela está sentada num banco com almofada e ele numa cadeira, sob a sombra. A mulher espreme limão em um copo com vinho branco, enquanto ele a observa. De pé, próxima aos dois, está uma senhora modestamente vestida, possivelmente empregada da casa, segurando um copo com bebida. Mais distante, próxima a um banco de madeira e a um barril, uma mulher lava um tacho de cobre. Pela vestimenta, trata-se também de uma empregada da família.

Atrás do casal, uma cerca de madeira separa o jardim da frente da casa.  Suas árvores sombreiam o par.  Um muro com um portão leva ao fundo da habitação, onde se encontram algumas árvores. O portão aberto permite que a luz entre, formando um caminho até à porta.  Nas janelas do sótão é possível ver um vidro quebrado. Também se mostram muito sujas. O céu está azul, mas carregado de nuvens.

Ficha técnica
Ano: c. 1665
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 61x 47 cm
Localização: Rijksmuseum, Amsterdam, Holanda

Fonte de pesquisa
A Enciclopédia dos Museus/ Mirador
1000 obras-primas da pintura europeia/ Könemann

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GUIGNARD, O MÁGICO DO GESTO

Autoria do Prof. Pierre Santos

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O mestre da pintura Alberto da Veiga Guignard foi um dos mais importantes alicerces sobre o qual se apoiou a arte moderna brasileira para o seu florescimento, juntamente com Portinari, Di Cavalcanti, Tarsila do Amaral, Oswaldo Goeldi e outros. De seus ensinamentos, que até hoje têm dado frutos, saíram artistas como Yara Tupynambá, Mário Silésio, Chanina, Sara Ávila, Amílcar de Castro, Jefferson Lodi e tantos outros.

Guignard, um dos mais importantes pintores do país, dentro do modernismo, tinha um defeito congênito: lábio leporino da forma a mais prejudicial para quem vem ao mundo com ele. Desde cedo foi submetido a várias cirurgias e nada resolvia o problema, sequer o minorava. A medicina ainda não tinha desenvolvido as técnicas que, se não curam completamente, pelo menos atenuam de forma bem satisfatória o problema, a ponto de levarem o portador a comer e a falar com uma naturalidade bem próxima do normal. Nosso pintor não teve a sorte de poder contar, em seu tempo de vida, com tais soluções, que só começaram a tornar-se realidade uns vinte e poucos anos depois de sua morte.

Esse defeito trouxe a Guignard sofrimento físico e psicológico. Deixou-lhe a voz fanha, às vezes cavernosa, quando aliada a alguma constipação ou inflamação da garganta. Era difícil entender o que falava e só quem estivesse bem acostumado a ouvi-lo podia consegui-lo. Por causa disso, ele desenvolveu, ao longo da vida, um método muito característico de desenhar no espaço, com as mãos, através de ampla gesticulação, o que pretendia dizer, numa linguagem gestual sempre controlada e comedida. Vinícius de Morais, que era seu amigo, dizia que ele era a única pessoa de seu conhecimento, que possuía a capacidade de descrever qualquer quadro seu somente com as mãos. Também Iberê Camargo, que fora seu aluno, disse-me que o mestre era sem igual, pois ensinava tudo sobre arte, pronunciando tão somente poucas, curtas e mais fáceis palavras, mas passando o essencial apenas com os gestos. Sara Ávila, que fora sua aluna, falou-me sobre a facilidade e competência que o mestre tinha de falar com as mãos. Naturalmente, neste aspecto, Guignard, o mágico do gesto, era um fenômeno.

Não era só a fala que amargurava o artista e fazia-o padecer. Por não ter tido o palato, seus maxilares não tinham a força necessária para a mastigação dos alimentos, principalmente os mais compactos. Para comer a carne, tinha que picá-la em pedaços miúdos, numa mastigação mais demorada, pois era obrigado a ajudar o processo com os dedos. A deglutição também era falha e fraca, e não raro o bolo alimentar regurgitava. Quando estava só, deixava a regurgitação cair numa vasilha e continuava a refeição, mas, quando acompanhado por pessoas não íntimas, usava um lenço mantido pela mão esquerda na frente da boca, enquanto com a outra auxiliava a mastigação. Em caso de regurgitação, tinha que fazer o alimento voltar garganta abaixo, coisa para si bastante dolorosa. Além disso, o vão do palato costumava ficar inflamado, seja em decorrência da mastigação forçada de alimentos mais resistentes, seja por causa de alguma gripe. Quando isso acontecia, ficava acamado. Se estivesse morando em casa de algum conhecido tinha assistência, se em pensão, era acudido pelos amigos, que lhe levavam alimentos mais palatáveis, remédios e o que mais fosse necessário.

Apesar de tudo isso, o artista estava sempre de bom humor. Não me lembro de tê-lo visto, uma vez sequer, amuado ou com azedume, apesar de seus angustiosos problemas. Estava sempre com aquele sorriso de criança nos lábios para saudar os amigos, beijando a mão de todas as mulheres que encontrava pela frente, e desejando a todos “Feliz Natal”, o ano inteiro. Sempre se mostrava alegre e comunicativo, como se, perante a dádiva de estar aqui, bem vivo, todas as mazelas da vida se tornassem definitivamente insignificantes e sem peso, pois todo aquele sofrimento ia sendo, a cada dia, superado pela mágica beleza de suas pinturas e de seus desenhos, até mesmo pelas singelas decorações que amava fazer em móveis ou nas casas das pessoas que o acolhiam. Sem dúvida, foi considerando este contraste entre a tortura e a beleza, que Portinari chamava-o de “São Guignard”, e Cecília Meireles preferia referir-se a ele em seus textos e em suas poesias como “Guignard, o Santo”.

Nota: Guignard, Autorretrato,1961, osm, 37 X 45 cm, MAM-RJ

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