Historiando Chico Buarque – CALABAR

Autoria de Lu Dias Carvalho

Estão todos gordos/ Sempre cem por cento cegos/ Cem por cento surdos-mudos/ Cem por cento sem perceber/ A agonia/ Da Luz/ do Dia. (Chico Buarque)

O povo do reino dividiu-se confuso quanto às profecias do oráculo. Elas alardeavam que apocalípticos dias estavam para chegar, se toda a gente não permanecesse em vigília. Diziam também que os céus iriam se rasgar e o inferno subiria à superfície do solo, em labaredas de fogo que tragariam os mais fracos, incapazes de safarem-se da estupidez da tormenta que se avizinhava, pois não teriam mais nada em que se amparar.  E disse mais: a maldade, a prepotência, a mentira e a estupidez encontravam-se a caminho, travestidas com uma roupagem roubada do bem, bordada em letras garrafais as suas diferentes siglas. O tempo era escasso e urgia que atitudes fossem tomadas.

Indiferentes, os fortes, querendo manter seus servos no eito e totalmente atracados à índole avara, clamavam por mais poder, mesmo à custa da derrocada do reino. Eles estamparam nas telas e jornais a seus serviços, que os augúrios eram inverdades. Espalharam pelas fábricas, bancos, construções, hospitais e escolas que tudo aquilo era uma genuína fantasia dos artistas e intelectuais, gente que não queria ver o reino na opulência, que somente eles poderiam proporcionar.  Disseram-lhes para ficar tranquilos, pois doravante todo o reino gozaria de uma prosperidade jamais vista, e que eles, os trabalhadores, nada tinham com que se preocupar.

Uma parte dos camponeses ouviu o apelo, enquanto a outra fez ouvidos moucos aos presságios do oráculo. Um grupo de pessoas corajosas alertava para o flagelo a caminho, que estava a fazer ninho justamente nos galhos da ignorância e da descrença do povo. Até mesmo profecias sobre a catástrofe anunciada, vindas das mais distantes regiões da Terra, àquele reino chegavam. E mesmo assim nem todos os fracos importaram-se. Uns até falavam com a ironia e o deboche dos fortes: “Ninguém sabe de nada/ Ninguém viu nada”. Achavam que tudo era invencionice de quem os queria enganar, não passando de uma mentira fajuta e deslavada. Melhor seria fazer ouvidos de mercador, pois o reino livre de maus augúrios encontrava-se.

Muito contristado e aborrecido, o oráculo chamou os incrédulos de “tolos”. E previu que logo estariam a reclamar da sorte, dizendo que “Ninguém fez nada/ Ninguém é culpado”. Disse também que melhor seria falar aos “Bichos de estimação/ Nesse jardim”. E dirigindo-se ao reino, o oráculo fez sua última previsão: “Você/ Seu ventre inchado/ Ainda vai gerar/ Um fruto errado/ Um bonequinho/ Um macaquinho de marfim/ Castrado”. E desapareceu, deixando atrás de si apenas o campo aberto para o caos anunciado.

As predições aconteceram tal e qual a vaticinação do oráculo. Durante muito tempo só se viu “A Agonia/ Da luz/ Do dia” e o soluçar dos camponeses, pois tudo lhes foi tirado. O reino, antes admirado, virou piada em todo o mundo, depois de totalmente estilhaçado. Os grandes, em luta, digladiaram-se pelo poder, até que caíram os corruptos, traidores e safados, um após o outro. A “Justiça” virou letra morta. Mas uma nova civilização começou a brotar, depois do banho de sangue  com que o solo do reino fora lavado. E livres da opressão dos fortes veio um governo do povo, para o povo e pelo povo. E foi assim que nasceu um mundo novo num reino chamado Brasil!

E Calabar? – perguntaram alguns.

O oráculo reapareceu para responder:

– Está no lugar que lhe foi reservado – o dos traidores da pátria!

Nota: Letra de uma canção de Chico Buarque, canção essa que foi censurada pela ditadura.

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O HOMEM É BOM OU MAU POR NATUREZA?

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Os bebês não se matam entre si porque não lhes damos acesso a facas e armas de fogo. A questão […] que temos tentando responder nos últimos trinta anos é como as crianças aprendem a agredir. Mas essa é a pergunta errada. A correta é: como elas aprendem a não agredir. (Richard E.Tremblay)

Grande parte da violência humana é violência covarde: golpes de surpresa, lutas desonestas, ataques preventivos, incursões noturnas, execuções mafiosas, tiros disparados de veículos. (Steven Pinker)

Os atuais filmes de terror, que esguicham sangue, são água com açúcar se comparados às torturas e mutilações simuladas, que durante séculos deleitaram suas plateias. (Harold Schechter)

Eu nunca matei um homem, mas já li muitos obituários com grande prazer. (Clarence Darrow)

Segundo o suiço Rousseau, importante filósofo, teórico político, escritor e compositor autodidata, o homem nasce bom, mas a sociedade corrompe-o, pois ele encontra maldades por toda parte. Já o inglês Thomas Hobbes, matemático, teórico político e filósofo, achava que o homem é mau por natureza, o lobo do próprio homem. Rousseau e Hobbes tinham, portanto, ideias totalmente divergentes sobre a natureza humana.

Uma ligeira imersão na história da humanidade permite-nos ver que o sangue jorrou em abundância nos mais diversos lugares e tempos e pelos mais diferentes motivos. Assim sendo, é possível chegar à conclusão de que natureza humana é propensa à maldade, acampando no seu bojo motivos que a impelem à violência, como a predação, a dominação e a vingança. Contudo, ela também tem uma inclinação para a paz, a compassividade, a retidão, o equilíbrio e a razão. O fato é que a espécie humana agrega seus demônios interiores, assim como seus anjos, vivendo esses “eus” em permanente colisão, quando uns tentam se sobrepor aos outros. Vencerão os anjos, se os demônios estiverem sob constante vigilância, ainda assim por certos períodos de tempo.

Um fato que pode nos surpreender é a descoberta feita pelo psicólogo e pesquisador Richard E.Tremblay que, ao medir os índices de violência no fluir da vida, chegou à conclusão de que o estágio mais violento encontra-se nos “dois anos”, ou seja, quando o homem é ainda bebê, sendo tais índices reduzidos no caminhar dos anos do indivíduo. Concordando com Tremblay, o humanista Steven Pinker acrescenta que “Um típico representante dessa fase, ao menos de vez em quando, chuta, morde, bate e se mete em brigas; então o índice de agressividade física passa a reduzir-se constantemente ao longo da infância.”.

Embora estejamos acompanhados por nossos demônios interiores da violência, poucos são aqueles que andam a soltá-los por aí, sem um mínimo de autocontrole. Ainda assim, é quase impossível dizer que nenhum de nós, em um dado momento, não desejou matar alguém, fazer uma determinada pessoa desaparecer de nosso campo visual. Trata-se de um instante que a psicologia chama de “fantasia homicida”. Esse nosso devaneio sanguinário está também presente quando usamos nosso tempo com passagens de certos livros religiosos “banhados em sangue”, sagas homéricas, tragédias gregas, dramas shakespearianos, livros de terror, folhetins sensacionalistas, filmes violentos, quadrinhos de horror, videogames de guerra, etc., conforme descreve Pinker em seu livro “Os anjos bons da natureza humana”. Aproveitemos para conhecer alguns termos relativos à violência (o sufixo -cídio exprime a ideia de morte, extermínio):

  • homicídio – morte de um indivíduo praticada por outro;
  • cristicídio – suplício de morte infligido a Cristo.
  • democídio – (neologismo) assassínio de qualquer pessoa ou grupo de pessoas por parte do seu próprio governo;
  • genocídio – extermínio deliberado, parcial ou total, de uma comunidade, grupo étnico, racial ou religioso;
  • etnocídio – destruição de uma etnia no plano cultural;
  • presidenticídio – assassínio de um presidente;
  • politicídio – as vítimas integram grupos definidos por suas filiações políticas;
  • regicídio – assassinato de um rei, seu consorte, de um príncipe, herdeiro ou de outras formas de regentes, como presidentes e primeiros-ministros;
  • infanticídio – assassínio de uma criança, especialmente de um recém-nascido;
  • neonaticídio – refere-se à morte ou o abandono de um recém-nascido por parte de um ou ambos os progenitores, nas primeiras vinte e quatro horas de sua vida;
  • filicídio – ato de matar o próprio filho;
  • feminicídio – significa a perseguição e morte intencional de pessoas do sexo feminino;
  • parricídio – assassínio do pai, mãe ou qualquer um dos ascendentes;
  • uxoricídio – assassinato da mulher pelo próprio marido;
  • mariticídio – assassinato do marido pela própria mulher;
  • terrorismo pelo suicídio – é qualquer tipo de operação bélica em cujo processo quem ataca tem a intenção de morrer junto;
  • animalicídio – morte violenta de animal;
  • regicídio – incluindo genocídio, politicídio, e assassínio em massa.

Sugestão de leitura
Homens maus fazem o que homens bons sonham/ Robert I. Simon (psiquiatra forense)

 Nota:  pormenor de A Criação do Homem, de Leonardo da Vinci

Fonte de pesquisa
Os anjos bons da natureza humana/ Steven Pinker/ Edit. Companhia das Letras

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Historiando Chico Buarque – CAROLINA

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Lá fora, amor/ Uma rosa nasceu/ Uma estrela caiu/ Lá fora, amor/ Uma rosa morreu/ Uma festa acabou. (Chico Buarque)

Por que o amor chega e vai tomando forma, criando vida, trazendo brotos, inundando tudo, como se sua força fosse capaz de transformar o mundo? E por que no seu bojo também traz contratempos, perde seiva e vivacidade, esgota-se, e, aborrecido, vai enfeando tudo, e na mesma intensidade com que chegou também vai embora? Abusado, ele não se dissolve em conjunto. Enquanto uma das partes da porção alça voo, a outra, com suas asas despedaçadas, jaz no fundo do poço, aniquilada.

Carolina apareceu em meu caminho e foi me absorvendo por inteiro. Fez morada no meu corpo, povoando meus dias e minhas noites. Era meu início, meu meio e meu fim. Para ela fiz os mais belos versos e musiquei lindas canções. Ela se revigorou, recebeu minhas sementes, intumesceu e produziu frutos. Não houve benquerença maior no mundo. Mas nem mesmo sei porque, com o tempo, o meu sentir perdeu vivacidade, amornou o aprazimento e definhou, levando nossos sonhos e juras de amor. E hoje, ela,  “Nos seus olhos fundos/ Guarda tanta dor/ A dor de todo esse mundo”.

Ao ver minha antiga musa assim tão murcha e amargurada, sinto-me o pior dos canalhas. “Eu já lhe expliquei que não vai dar/ Seu pranto não vai nada mudar”, mas justificativa alguma mitiga seu desalento. “Eu já convidei para dançar/ É hora, já sei, de aproveitar”, mas ela faz ouvidos ao vento. “Eu bem que mostrei sorrindo/ Pela janela, ói que lindo/ Mas Carolina não viu” a rosa que nasceu e a estrela que caiu.

Já não sei mais o que fazer para trazê-la de volta à realidade, pois “Carolina/ Nos seus olhos tristes/ Guarda tanto amor/ O amor que já não existe”. É fato que não parti de uma vez, não sendo tão cruel e covarde. “Eu bem que avisei, vai acabar/ De tudo lhe dei para aceitar/ Mil versos cantei para lhe agradar/ Agora não sei como explicar”. Sinto-me um desprezível e abjeto patife. Fui traído pelas minhas emoções, que mudaram de direção feito uma corrente desvairada, através da qual “Nosso barco partiu.”. Mas “Eu bem que mostrei a ela/ O tempo passou na janela/ Só Carolina não viu”.

Obs.:
1- música com Chico Buarque: CAROLINA
2-
música com Caetano Veloso – CAROLINA

Nota: Mulher com Gato, obra de Di Cavalcanti

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NATUREZA HUMANA E DIREITOS CONQUISTADOS

Autoria de Lu Dias Carvalho

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A Revolução Humanitária partiu da República das Letras. […] E revisitem o que deu errado no mundo islâmico: pode ter sido a rejeição à imprensa escrita e a resistência à importação de livros e ideias neles contidas. (Steven Pinker)

A insensibilidade para com os animais nada tem de moderno. No curso da história humana, ela foi a regra. (Steven Pinker)

Tudo o que se move e tem vida servir-vos-á de alimento; dou-vos tudo isso como já vos tinha dado as plantas verdes. (Gênesis: 9,2-3)

Não é fácil nadar contra as inconstantes e bravias correntezas da natureza humana. A violência está nos nossos genes, muitas vezes trazida à tona pelo discurso das religiões que fanatizam em vez de pacificar. Muitas passagens, nelas contidas, são verdadeiros panfletos de brutalidade, que atravessaram milhares de anos, mas que vêm sendo, ainda que não tão rápido como desejamos, descartados no mundo ocidental, ao contrário do que acontece em grande parte do mundo oriental. Como exemplo é possível viajar pela história da humanidade e citar alguns fatos tenebrosos: a demonização daqueles que não praticavam os mesmos credos, os chamados “infiéis”; a brutalidade dos castigo que eram dados às crianças, em razão do chamado “pecado original”; a visão de posse sobre as mulheres; a criminalização de qualquer opção sexual que não fosse a ditada pelas convenções religiosas; a abominação  ao nascimento de meninas; a desumanização e a demonização daqueles que não pertenciam “ao grupo” e os maus tratos infligidos aos animais, mantendo poder total sobre eles, sob a alegação de que esses não possuíam alma e, portanto, estavam imunes à dor.

Longe de mim querer dizer que os fatos acima mencionados não mais acontecem na civilização ocidental. Tampouco posso negar que eles vêm diminuindo ao longo dos tempos, descartados como imorais pelas Revoluções por Direitos, que exigem que o homem repense sua cultura no que ela traz de ruim, rejeite certas práticas religiosas e dome seus instintos. A linguagem dos direitos é inspirada na ética, na empatia e na razão. Não se pode pensar, em pleno século XXI, como se ainda vivêssemos na Idade Média. A Ciência expande-se cada vez mais, desmistificando superstições e tabus, ampliando informações sobre o funcionamento de nosso corpo emocional e físico. A Ciência ensina-nos que o que dói em nós, também dói no outro,  portanto, precisamos nos colocar no lugar dele, sem nos deixar levar por ninharias e superficialidades que fogem à essência humana, tais como raça, gênero, etnia e orientação sexual. Também não podemos desprezar as demais espécies que compartilham conosco o planeta Terra. Não somos os únicos donos deste planeta.

Os Direitos Humanos e Os Direitos dos Animais nasceram de revoluções liberais, comprometidas com o respeito à vida, e também dos governos democráticos que deram espaço a elas. Sem a garantia da democracia seria impossível o cumprimento de tais direitos. Nenhum deles foi conquistado em países dominados por governos autoritários e autocráticos.  E mesmo naqueles em que tais direitos estão assegurados pelas leis, ainda existe, por parte de grupos reacionários fascistas, machistas, misóginos e homofóbicos, o desrespeito a eles, pois esses grupelhos ainda esperam que a humanidade tenha por emblema o feixe (fascio, em italiano) de varas dos antigos lictores romanos, para descer-lhes nas costas, sendo eles os censores. Cabe, portanto, aos governantes e à Justiça podá-los no nascedouro. Contudo, ao povo cabe a eterna vigilância para que os direitos democráticos sejam verdadeiramente cumpridos. É preciso lembrar que a escória da humanidade torce para que voltemos à Idade Medieval. Olho aberto nessa corja, seja qual for a denominação que carregue.

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A ESCRAVIDÃO NEGRA

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Se alguém ferir com vara seu escravo ou sua escrava, e o ferido morrer debaixo de sua mão, será punido; porém, se ele sobreviver por um ou dois dias, não será punido, porque é dinheiro seu. (Êxodo 21, 20-21)

Mulheres em haréns eram perpétuas vítimas de estupro, e os homens que as guardavam, os eunucos, tinha os testículos – ou, no caso dos eunucos negros, toda a genitália – decepados com faca e cauterizados com manteiga fervente para não morrerem de hemorragia. (Steven Pinker)

A massa da humanidade não nasceu com sela nas costas, assim como uma  maioria favorecida não nasceu de botas e esporas, pronta para cavalgar legitimamente os demais. (Thomas Jefferson)

Nos séculos XVIII e XIX, os escravos africanos eram raptados ou capturados em guerras. Eram levados para o Novo Mundo para uma servidão vitalícia, da qual raramente eles ou seus filhos conseguiam escapar. ( David Feingold)

A prática da escravidão é um cancro presente em toda a história de nossa civilização. Basta folhear as Bíblias hebraica e cristã para deparar com inúmeras passagens relativas a essa abominação. Até mesmo filósofos, como Platão e Aristóteles, julgavam-na importante para a sociedade “civilizada”. Para bom entendedor, a classe de escravos não fazia parte da sociedade “civilizada”. Inicialmente, os cativos vinham como pilhagem, recompensa de guerra, mas depois as coisas foram mudando, priorizando o trabalho barato dos indefesos. Na Idade Média, os povos eslavos foram brutalmente capturados e escravizados. E mais patético é saber que os africanos, antes de serem submetidos ao jugo dos europeus, já eram tiranizados por outros africanos, e também por Estados Islâmicos na África do Norte e no Oriente Médio, conforme afirma o escritor canadense Steven Pinker em seu livro “Os Anjos Bons da Nossa Natureza”.

A escravatura do povo africano encontra-se entre as passagens mais cruéis da história da humanidade. Vendidos por seu próprio povo, os futuros escravos eram capturados, separados de suas famílias, sem ao menos delas se despedirem, acorrentados uns aos outros e jogados nos porões fétidos e sombrios dos navios que atravessavam o oceano Atlântico. E morriam aos milhares nessas travessias. Calcula-se que somente nos porões dos navios negreiros foram mortos mais de um milhão e quinhentos mil negros. Aqueles destinados aos mercados do Oriente Médio eram obrigados a caminhar por desertos e selvas. Existe o cálculo de que, no mínimo, 17 milhões tenham morrido nessas jornadas.

Os escravos tinham um preço tão baixo no mercado, que seus senhores não se preocupavam em mantê-los vivos, por isso, muitos tombavam entorpecidos pelo excesso de trabalho e pela pouca alimentação. Mas no mercado local, milhares de outros negros chegavam para substituir os que se extinguiam. Viviam debaixo da chibata, eram estuprados, mutilados e assassinados por qualquer motivo. Não dá mesmo para acreditar, em sã consciência, que, no Ocidente, os donos de escravos fossem seguidores de um homem cujo doutrina era o pacifismo e a caridade – Jesus Cristo e, no Ocidente, fosse seguidores de um homem bom – o profeta Maomé.

A Europa, na Idade Média, passou a libertar seus escravos, levando em conta dois motivos: 1- os Estado fracos não tinham como garantir as propriedades dos senhores de escravos; 2- a servidão feudal, que se baseava na parceria agrícola, era muito mais proveitosa ao senhores feudais, que praticamente não tinham despesas, pois tributavam as pessoas que moravam em suas terras. Em vez de gastarem, eles recebiam. Mas no século XVIII, partindo de intelectuais, iniciou-se um movimento contra o escravagismo. Esse movimento cresceu tanto que pôs fim a essa mancha pérfida da história humana.

Embora tenha sido uma das nações que mais se envolveu com o tráfico de escravos, a Grã-Bretanha, que o proibiu em 1807, e em 1833 aboliu o escravagismos em todo o país e colônias, muito contribuiu para que outros países também rejeitassem o tráfico de escravos. E para isso, ela chegou a usar sanções econômica nos países escravagistas, assim como fez uso de sua Marinha Real. Por que esse país mudou tão drasticamente de postura? Alguns historiadores dizem que foi em razão de motivos humanitários. É uma pena que esses motivos tivessem demorado tanto a chegar! Quanto ao Brasil, vergonhosamente foi o último país da América Latina a abolir a escravidão, e foi também o último em que as mulheres conquistaram direitos iguais.

É triste constatar que muitos políticos e pregadores religiosos (católicos e protestantes) usaram a Bíblia para justificar a prática da escravidão negra. Deduziam tais perversos que o grande livro cristão aprovava tal comportamento. Também argumentavam que a raça africana era inferior, além de que os escravos libertos não conseguiriam viver por conta própria. Porém, “Tais racionalizações desmoronaram sob o escrutínio intelectual e moral. O argumento intelectual dizia que era indefensável permitir a uma pessoa ser dona de outra, enquanto  a repulsa moral ganhou vida com os relatos de escravos.”, segundo o escritor Steven Pinker. E uma obra de ficção denominada A Cabana do Pai Tomás (de Herriete Beecher Stowe, em 1852) ganhou o mundo e o coração das pessoas, inflamando o movimento abolicionista.

Nota: Mercado de Escravos em Roma, obra de Gerome Jean-Leon/ Dança de Escravo, obra de Dirk Valkenburg

Fonte de Pesquisa
Os Anjos Bons da Nossa Natureza/ Steven Pinker

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A VIDA DAS CRIANÇAS ATRAVÉS DOS TEMPOS

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Poupe o cacete e estrague a criança. (Provérbio antigo)

Quem não faz uso da vara odeia seu filho, mas o que o ama desde cedo castiga-o. (Livro de Provérbios: 13,24)

Melhor bater em seu filho quando pequeno do que vê-lo enforcado. (Verso medieval)

Os contos de fadas de Grimm contêm apenas algumas das ameaças que podem ser encontradas na literatura infantil, referindo-se às desgraças que podem acontecer a uma criança descuidada ou desobediente. (Steven Pinker)

Respeitem a infância, e deixem a natureza atuar longamente antes de envolverem-se em agir no lugar dela. (Conselho de Rosseau aos pais)

 Os caçadores/coletores eram muito mais compassivos com seus filhos do que as sociedades que os precederam. Existem registros de espancamento infantil desde o antigo Egito, Suméria, Babilônia, Pérsia, Grécia, Roma, China, México (época dos astecas). Presumia-se que a criança, vista como um diabinho, era pervertida por natureza e, portanto, só podia ser educada através da força bruta. Tal visão permaneceu durante séculos.  Um pregador alemão, em 1520, chegou a afirmar que as crianças tinham tendência para “adultério, fornicação, desejos impuros, lascívia, idolatria, crença na magia, hostilidade, brigas, paixões, ira, discórdia, ódio, assassinato, embriaguez, gula…”. Portanto, era mais do que natural que as pequeninas vítimas passassem pelos mais brutais castigos.

Em seu livro, “Os Anjos Bons da Natureza Humana”, o humanista canadense Steven Pinker, refere-se a uma passagem do pensador social e historiador Lloyd DeMause, relativa à vida das crianças na Idade Média:

 “Que as crianças com o diabo no corpo devem ser surradas, nem é preciso dizer. […] instrumentos de castigo para este propósito: dos chicotes de nove tiras e açoites às férulas, bengalas, hastes de ferro, feixes de varas, a disciplina (uma chibata feita de pequenas correntes), o aguilhão (em forma de faca de sapateiro, usado para espetar a criança na cabeça ou nas mãos) e instrumentos especiais para as escolas, como a palmatória, com a parte final em forma de pera e um buraco redondo para provocar bolhas. […] começavam na primeira infância, em geral tinham uma conotação erótica por serem infligidos em partes nuas do corpo, perto da genitália, e faziam parte regularmente da vida diária da criança.”. DeMause também registra que no Japão, até o século XX, as crianças:

 “eram submetidas a surras e queima de incenso na pele como punições rotineiras, clisteres constantes para um cruel adestramento dos intestinos, […] levar pontapés, ser pendurado pelos pés, tomar banhos frios, ser estrangulado, ter o corpo atravessado por uma agulha, ter uma articulação do dedo cortada, etc.”.

 Ainda, segundo pesquisas de Steven Pinker, “as crianças também estavam sujeitas a punições pelo sistema legal”. Ele relata que o escritor e pensador Samuel Johnson, em sua biografia, conta o caso de uma garotinha de sete anos que foi enforcada na Inglaterra, no século XVIII, por roubar uma anágua.  Vida difícil também tinham as crianças na Alemanha, pois de acordo com Pinker, “mesmo na virada do século XX, as crianças alemãs eram regularmente colocadas em fogão de ferro em brasa, quando se mostravam teimosas, amarradas ao pé da cama durante dias, jogadas na água fria ou na neve para endurecer, forçadas a ajoelhar durante horas todos os dias contra a parede, em um tronco, enquanto os pais comiam ou liam.”.

 Às crueldades físicas praticadas contra crianças, durante a Segunda Guerra Mundial, foram agregadas às de cunho psicológico, segundo Lloyd DeMause. Elas eram sempre lembradas de que poderiam ser deixadas pelos pais; aleijadas por ogros (ente fantástico em que se fala para meter medo em crianças, o nosso conhecido bicho-papão); judiadas por padrastos, etc.

 É sabido que desde sempre o conflito pais-filhos existiu, querendo os dois lados fazer valer suas vontades. Outrora, motivados pela ignorância, os genitores submeteram-nos a milênios de impensáveis torturas, a fim de dobrá-los à sua vontade, numa guerra parcial, em que a força física e psicológica só se encontrava de um lado. Mas as coisas começaram a mudar a partir de 1693, quando o filósofo inglês John Locke publicou um livro que trazia pensamentos sobre a educação, enfatizando que “uma criança era apenas um papel em branco, ou uma cera, a ser moldada e conformada como se queira (tábula rasa), […] e que a educação das crianças poderia fazer uma enorme diferença na humanidade.”. À visão de John Locke agregou-se, mais tarde, a de Jean-Jacques Rousseau, filósofo e escritor suíço, em 1762,  rompendo com a ideia de que as crianças eram pervertidas por natureza. Ele pôs de lado o pensamento cristão sobre o “pecado original”, substituindo-o  pela “inocência original”. Mas esse avanço foi muito lento, só começando a acelerar a partir da virada do século XIX, no Ocidente.

Fecho este artigo com o parecer de Steven Pinker:

 “A ideia de que o modo como se trata as crianças determina o tipo de adultos que elas se tornam é hoje consensual.”.

 Nota: a ilustração é um quadro do artista brasileiro Sérgio Vidal.

 Sugestão de leitura:
Meu filho, meu tesouro/ Benjamin Spock

Fonte de pesquisa
Os anjos bons da natureza humana/ Steven Pinker/ Editora Companhia das Letras

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