EU E MINHA ALDEIA (Aula nº 105 C)

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Autoria de Lu Dias Carvalho

Haverá sempre crianças que amarão a pureza, apesar do inferno criado pelos
homens. (Chagall)

Linhas, ângulos, triângulos e quadros levaram-me longe por horizontes encantadores.  (Chagall)

Para os cubistas, a pintura era uma superfície coberta com formas em uma determinada ordem. Para mim, a pintura é uma superfície coberta com representações das coisas… Em que a lógica e a ilustração não tem nenhuma importância. (Chagall)

A composição denominada Eu e Minha Aldeia é uma obra do pintor russo e surrealista Marc Chagall em que se nota as influências cubistas e flauvistas recebidas por ele. Além de ser a tela mais famosa do artista, é também uma das 50 pinturas mais famosas do mundo e de toda a história da arte. O pintor era um homem sonhador e lírico, sendo suas obras carregadas de magia. Nesta tela ele adiciona o moderno e o figurativo, usando um leve toque de magia.

Chagal tomou um ponto central na tela e, a partir dele, construiu raias, que usou para estruturar sua pintura, sequenciando lembranças de sua vida. Assim estão divididas:

1º – Parte de uma face masculina em perfil, provavelmente representando o pintor, trazendo no pescoço um colar de contas com um crucifixo. A face verde está em primeiro plano, ocupando grande parte da margem esquerda da composição. Uma linha reta liga seu olho ao da ovelha em cuja cabeça vê-se uma mulher ordenhando uma ovelha.

2º – Um colorido conjunto de casas ocupa o segundo plano, onde também se encontra uma igreja ortodoxa (o artista era judeu). Duas das casas, uma vermelha e outra verde, estão de ponta cabeça. Uma mulher, também de cabeça para baixo, parece tocar um violino. Já o lavrador, com uma foice no ombro direito, parece caminhar pelos campos russos, pátria do pintor, sempre lembrada em suas pinturas.

Uma árvore, representada por um ramo florido, simboliza a árvore da vida. Os animais também são vistos como uma ligação entre o homem, a natureza e o universo. As formas circulares vistas na pintura lembram o sol, a lua em eclipse (situada no canto inferior esquerdo) e a Terra.

Nesta composição, que foi pintada um ano após a chegada do artista a Paris, ele traz à tona as lembranças de sua aldeia nativa na Rússia, Vitebsk, onde viveu ao lado de camponeses e animais, como mostra a conexão entre o olho do rosto verde do homem e o da ovelha (ou vaca). Sua pintura é como um conto de fadas rural em que tudo se mistura. Todos os detalhes são retirados de sua memória.

Ficha técnica
Ano:1911
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 191 x 150,5 cm
Localização: The Museum of Modern Art, Nova Iorque, EUA

Fontes de pesquisa
Chagall/ Taschen
http://www.theartstory.org/artist-chagall-marc.htm
https://translate.google.com.br/translate?hl=pt-BR&sl=en&u=http://www.moma.org

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PÉ-RAPADO NEM PARA VISITA

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Autoria de Lu Dias Carvalho

pes sujos

Dona Iblantina e o senhor Dario Campos foram agraciados com seis meninas. Na verdade o casal não desejava uma prole tão numerosa, mas, enquanto esperava ansiosamente pela chegada de um varão, as meninas foram tomando a frente. Quando já eram cinco as mocinhas e já com um rebento no bucho, dona Iblantina deu um ultimato ao marido que tinha certeza que dessa vez viria um machinho.

– Sendo menino ou menina, homem, a fábrica será fechada. Já não aguento mais tanta espera e aperreação. Só eu sei o trabalho que essas crianças me dão! Já chega!

Pobre senhor Dario Campos, para seu desencanto quem chegou foi Rosalina, tão bonita como um botão de flor de laranjeira. O jeito foi se conformar, pois, como prometera sua mulher, a fábrica fora fechada a sete chaves.

As meninas foram crescendo e encorpando-se, atraindo os olhares gulosos masculinos. Mas rapaz algum servia para as filhas do distinto casal, pois dona Iblantina sonhava, para cada uma delas, criadas com muita denguice, uma vida de princesa. Dizia aos quatro ventos de sua pequena cidade:

– Filha minha só casa com rapaz diplomado, rico e bem apessoado. Não pari filhas para dar a um qualquer. Pés-rapados aqui passam longe. Não servem nem como visitantes.

Coitadinhas das seis mocinhas: Rosalva, Rosilene, Rosana, Ronilda, Rosmânia e Rosalina! Elas nunca arranjavam um namorado tal e qual queria a mãe. Se o varão tinha duas das qualidades exigidas, faltava-lhe a terceira e, se tinha apenas uma, faltavam-lhe as outras duas. E se não tinha nenhuma, não passava nem na calçada do casarão. Enquanto isso, as moçoilas iam ficando com aqueles olhos de cachorro pidão, à procura de um bom partido que agradasse à genitora. E o tempo passando!

O fato é que, como quem muito escolhe acaba ficando com o pior, a coisa foi se complicando. Já driblando o Cabo da Boa Esperança, sem mais alternativas para voltarem no tempo, casaram-se as seis moças com pés-rapados. Dona Iblantina, já adornada pelos cabelos brancos, ficou conformada.  Nenhum dos maridos trazia sequer um dos atributos estipulados pela zelosa mãe, mas compensaram o fato de não serem ricos, diplomados e bem apessoados tratando suas filhas com muito amor e dedicação. Dona Iblantina caiu na real e mudou sua cantilena em relação às netas:

– Minhas netas não precisam se casar com moços diplomados, ricos e apessoados. O que importa na verdade é que sejam trabalhadores e dediquem-lhes muito amor. Podem ser pés-rapados ou pés-rachados, o que importa é a benquereça.

A expressão pé-rapado refere-se a uma pessoa de condição humilde, pobretona.  Já era conhecida no século XVII, sendo usada até os nossos dias. Referia-se principalmente ao pé-rapado da zona rural. Pelo fato de andar descalço em razão de sua pobreza, o pobre trazia os pés sempre sujos de poeira ou lama, tendo que rapá-los para entrar nas casas, enquanto os que detinham melhores condições financeiras andavam a cavalo.

Tal expressão encontra-se registrada na Guerra dos Mascates, acontecida no início do século XVIII, no estado de Pernambuco. Enquanto as tropas portuguesas faziam uso de botas e uniforme militar, o exército de camponeses andava descalço, sendo tratado pejorativamente de pés-rapados. A expressão pé-rachado traz o mesmo sentido de pé-rapado, só que neste caso, além de ter os pés sujos de lama, o pobre coitado ainda traz rachaduras na sola dos pés em razão da falta de calçados. Pobre sofre!

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O GRANDE MASTURBADOR (Aula nº 105 D)

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Autoria de Lu Dias Carvalho

A inspiração do artista para a composição de O Grande Masturbador nasceu ao observar em Paris uma litografia do final do século XIX, em que uma mulher aspirava o cheiro de um lírio. E, como o próprio pintor não conseguia atingir o clímax sexual com outra pessoa, tendo que se valer da masturbação, como ele próprio dizia, tal visão foi o bastante para que sua mente complexa desse vida a esta composição em que ele expõe suas atitudes conflitantes em relação ao ato sexual.

O artista, cuja personalidade era narcisista e exibicionista, ao pintar esta obra expunha a público sua vida particular, ou seja, suas patologias. Para muitos especialistas em Dalí, a obra acima se trata de um autorretrato em que ele se mostra como “o grande masturbador”, assim como o conflituoso relacionamento que travava com a figura feminina.

Na composição um enorme rosto petrificado de perfil apoia-se no solo, através de um gigantesco nariz fálico. Os olhos com imensos cílios estão semicerrados, lembrando o sonho. O cabelo está repartido ao meio. Um anzol pinça o couro cabeludo, arqueando-o. O masturbador não possui boca. Em seu lugar está um gafanhoto cheio de formigas que estão sempre relacionadas com o medo e o putrefato.

Da cabeça do masturbador eleva-se uma mulher de perfil, nua e de cabelos revoltos, possivelmente sua amada Gala. À sua frente encontra-se uma estátua com os genitais bem delineados, debaixo de uma bermuda colante, o que leva o observador a presumir que a mulher esteja prestes a realizar um coito bucal. Ela traz consigo um lírio, símbolo da pureza, embora o pistilo tenha uma forma fálica. Pode querer dizer que o pintor considerava a masturbação, tão condenada à época, como a forma mais pura que ele tinha para chegar ao ápice do gozo sexual.

Encontram-se na obra elementos que amedrontavam o pintor: formigas, leões e gafanhotos. A tela também lembra a infância de Dalí, ao mostrar elementos de seu medo infantil, como conchas e plumas coloridas, assim como a afigura diminuta de um menino acompanhado de seu pai. A cabeça do masturbador é um peixe preso ao anzol. O gafanhoto e o peixe são bissexuais. O objeto dependurado no anzol também tem conotação fálica. Abaixo da cabeça um homem abraça uma rocha que possui a forma de uma mulher. Talvez essa figura petrificada represente a impossibilidade de uma mulher levá-lo ao orgasmo.

O gafanhoto está ligado à infância do pintor que tinha pavor do inseto. Na tela a sua posição lembra o louva-a-deus que tem a cabeça cortada pela fêmea após o coito. A cabeça do leão, semelhante à da Medusa, com uma língua fálica e vermelha de fora, simboliza o desejo sexual mais selvagem. Um pequeno homem vai se afastando da sombra do nariz em direção ao horizonte. Sobre a cabeça do masturbador pedras, uma rolha e uma concha do mar equilibram-se em meio ao delírio da tela. Seu grande rosto está presente em outras obras do pintor.

Uma das declarações de Dalí era a de que nem mesmo ele entendia o que pintava, pois gostava de confundir e provocar. Portanto, podem ser muitas outras as explicações para cada elemento de suas obras ou coisa nenhuma.

Ficha técnica
Ano: 1929
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 110 x 150 cm
Localização: Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofía, Madri, Espanha

Fontes de pesquisa
Dalí/ Coleção Folha
Dalí/ Abril Coleções

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O RATO E A RATOEIRA

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Autoria de Lu Dias Carvalho

Diferentes tipos de cereais enchiam o celeiro de certo fazendeiro. De uma feita,  ele  notou que um rato andava zanzando por ali, porque muitas espigas de milho encontravam-se roídas. Era preciso pegá-lo antes que proliferasse, aca- bando com suas valiosas provisões. Aqueles bichinhos procriavam logo após o terceiro mês de vida, sendo que o tempo de gestação era curto, durando em média 22 dias, podendo a fêmea parir entre cinco e 12 filhotes por vez — o que não era pouco.

O homem comprou na cidade uma potente ratoeira. Em casa armou-a com um pedaço de queijo e botou-a próxima ao balaio com milho.

O rato que não era tolo, ficou a espreitar a entrada do fazendeiro no celeiro, pois sentira de longe o cheiro do queijo — guloseima que muito apreciava — e pôs-se a espiar seus passos. Ao notar que o objeto deixado era uma ratoeira — armadilha muito conhecida de sua espécie —, sentiu-se amedrontado. O roedor tinha ciência de que era preciso contar aos bichos sobre o que avistara, antes que algum deles caísse na esparrela. E foi exatamente o que o espertinho fez:

– Amigos, um grande perigo nos ronda na figura de uma maldita ratoeira. Temos que dar um jeito de eliminá-la, antes que nos mate. Unamo-nos e tratemos de dar a ela um fim imediatamente.

– Uma ratoeira não é um problema para mim — falou a galinha.

– Tampouco para mim! — exclamou o porco.

– O que uma ratoeira poderá me fazer de mal? — inquiriu a vaca.

– O rato quer salvar a pele às nossas custas — debochou a ovelha.

O roedor nada pode fazer, senão voltar para casa abatido com a omissão dos companheiros de fazenda. À noite, porém, a mulher do fazendeiro ouviu um barulho e correu para ver se o rato fora preso na armadilha, mas ali estava uma cobra venenosa presa pelo rabo e que acabou por picá-la.

As criadas deram à mulher uma canja de galinha, pois ela se encontrava acamada e fraca. Para suprir a fome dos amigos visitantes, mataram o porco. E com a morte da desafortunada mulher que não resistiu ao veneno da víbora foram sacrificadas a ovelha e a vaca para alimentar todas as gentes que vieram participar do funeral.

Moral da História:
O problema de um pode estar fortemente atrelado ao dos demais.

Livro à venda
Capa dura, 545 páginas, 170 fábulas (incluindo apólogos)
Contato para compra: Lu Dias Carvalho    e-mail: ludiasbh@virusdaarte.net
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O LIMIAR DA LIBERDADE (Aula nº 105 B)

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Autoria de Lu Dias Carvalho

O artista francês René Magritte (1898–1967) foi a mais importante figura do movimento surrealista. Suas imagens excêntricas não eram o resultado de sonhos nem de estados psicológicos autoinduzidos, mas, sim, procedentes da observação e das indagações do artista no que diz respeito aos acontecimentos do dia a dia. Para ele a ideia era o resultado do pensamento consciente, e era isso o que importava na pintura.

A composição intitulada No Limiar da Liberdade é uma obra do artista que dela fez duas versões, uma menor (1929) que não trazia o teto cinza e esta que foi encomendada por seu patrono, poeta e colecionador de arte surrealista, Edward James. A obra apresenta oito painéis de parede, todos eles de igual tamanho que retratam: uma floresta, o céu azul com nuvens brancas, a fachada de uma casa, filigranas de papel, um torso feminino, uma textura apresentando as fibras da madeira, sinos e labaredas de fogo.

Magritte apresenta aqui vários pontos importantes de seu trabalho: espaços vazios e a impressão de que existe uma calmaria; pinturas dentro de uma pintura; e colocação de objetos fora de seus ambientes normais, dando-lhes um caráter muito real. Todos os elementos presentes na obra são temas ou desenhos que ele retirou de trabalhos anteriores.

O torso feminino — com curvas e tons de pele naturais — lembra uma obra do Renascimento. Ao apresentar apenas o torso da mulher, o artista torna-a anônima e sem personalidade, sendo vista apenas como objeto sexual. O painel de mogno é como se fosse uma homenagem a seu colega impressionista Max Ernst que usava em seus trabalhos texturas de fibra de madeira.

O único objeto presente na sala é uma densa peça de artilharia que se volta para o torso feminino, reforçando suas associações fálicas. O painel retratando o céu azul, embora convencionalmente seja pintado acima da linha do horizonte, aqui é visto mais abaixo, situando-se entre a floresta e a fachada da casa. O compositor e trompetista norte-americano Mark Isham compôs em 1983 a música “No Limiar da Liberdade” dedicada a esta pintura.

Ficha técnica
Ano: 1937
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 2,39 x 1,85 m
Localização: Museu Boijmans va Beuningen, Roterdã, Holanda

Fontes de pesquisa
Tudo sobre arte/ Editora Sextante
Magritte/ Editora Taschen
https://www.theartist.me/collection/oil-painting/on-the-threshold-of-liberty/

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Pieter Bruegel, o Velho – A VOLTA DA MANADA

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Autoria de Lu Dias Carvalho

A composição denominada A Volta da Manada é uma pintura do artista holandês Pieter Bruegel, o Velho. Faz parte de uma série de seis pinturas que retratam períodos do ano, encomendadas por um comerciante da Antuérpia. Cinco delas ainda sobrevivem (O Dia Escuro, Caçadores na Neve, Colheita de Feno, Os Ceifeiros e o Mastro de Maio, existindo do último apenas cópias feitas pelo filho do artista).

Presume-se que este quadro represente o mês de outubro ou novembro (ou os dois), mostrando uma paisagem de outono, como se vê no contraste entre as cores quentes da vegetação, composta por árvores desfolhadas, e as cores frias do céu que se mostra mais escuro do lado direito, onde há uma maior concentração de nuvens, prenunciando tempestade. A paisagem escarpada apresenta algumas edificações e mostra pessoas trabalhando na lavoura à direita. Um rio com algumas embarcações corta o cenário. Animais são vistos no campo a pastar. Uma ave solitária é vista no galho mais alto, à esquerda.

O artista, que gostava de pinturas retratando paisagens ou cenas camponesas, mostra aqui uma manada de vacas, sendo conduzida pelos vaqueiros que empunham grandes paus para tangê-la, levando o rebanho à aldeia no topo da colina. Os seis vaqueiros e o gado encontram-se numa colina, regressando da pastagem. Animais e homens possuem praticamente as mesmas cores. Eles formam uma larga curva que é quebrada por uma árvore isolada à direita e um grupo de árvores à esquerda.

Ficha técnica
Ano: 1565
Técnica: óleo sobre madeira
Dimensões: 117 x 159 cm
Localização: Museu de História da Arte, Viena, Áustria

Fonte de pesquisa
Enciclopédia dos Museus/ Mirador
https://www.wga.hu/html_m/b/bruegel/pieter_e/07/21novemb.html

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