Fouquet – O DÍPTICO DE MELUN

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Há um sabor de ousadia blasfema sobre o todo, insuperável por qualquer artista do Renascimento. (Johan Huizinga)

 A Virgem de Melun — também conhecida como Virgem com o Menino e Anjos ou Mandona e o Menino — é a parte complementar de um díptico que tem hoje suas duas partes separadas, encontrando-se localizadas em duas diferentes cidades: a parte localizada à esquerda está em Berlim e à direita em Antuérpia. A Virgem com o Menino ao colo é um tema constante na arte sacra ocidental.

Acima vemos o Díptico de Melun em sua forma original (gravura menor). O painel que compõe a sua parte direita é denominado Madona e o Menino, tendo sido encomendado ao pintor Jean Fouquet pelo tesoureiro do rei Carlos VII de França — Etienne Chevalier. Já o painel do lado esquerdo retrata seu doador, ajoelhado em oração — sendo encomendado à Virgem por Santo Estêvão, de pé ao seu lado. As figuras parecem ter sido modeladas.

Embora se trate de um tema sacro, com a presença de anjos, o modo como o pintor representou a Virgem está carregado de erotismo, ou seja,  a representação translada do divino para a esfera do profano. A Madona tem os seios bem modelados, sendo que um encontra-se à vista e sua visão nada tem a ver com o tema, pois o Menino não se encontra amamentando. O seio foi sempre visto como uma imagem erótica por si só. Contudo, alguns críticos têm para o peito nu uma explicação teológica: Maria mostra o seio aos homens em referência a seu papel de Mãe e de intercessora.

A Virgem é uma mulher belíssima, esbelta e elegante, de pele marmórea e perfeita. Ela usa um vestido de seda cinza azulado, entrelaçado de fita no decote e que deixa o ombro e o peito esquerdos a descoberto. Ela tem a testa protuberante e raspada à navalha — moda usada à época do pintor. Tem na cabeça uma larga coroa de ouro com pérolas e pedrarias e segura um luxuoso manto forrado de arminho.

A Virgem encontra-se num trono suntuosamente decorado com ouro, pedras preciosas e pérolas, transportado por um grupo de anjos azuis e vermelhos que preenchem o restante da composição. Ela sustenta no joelho esquerdo o Menino Jesus nu e com o mesmo tom de pele da mãe. Ele aponta para o doador com o dedinho da mão direita,  gesto que significa que as preces do tesoureiro foram ouvidas e que ele pode esperar a misericórdia divina.

O tesoureiro usa um rico traje de festa na cor vermelha, todo forrado de pele, com duas grandes ombreiras e muitas dobras — vestimenta própria dos nobres da época. O lugar com paredes e piso de mármore, onde se encontra ajoelhado, deve fazer parte de um palácio. É interessante notar o contraste irreal que o artista conseguiu ao usar o azul e o vermelho na feitura dos anjos. Todas as cores usadas são fortes e contrastantes e não existe lógica espacial na composição. Contudo, os detalhes ornamentais usados na coroa e no trono demonstram extrema sensibilidade.

Santo Estêvão é reconhecido pelos atributos que lhe são próprios: o Livro dos Evangelhos e sobre ele se encontra uma das pedras com que foi martirizado. Sua presença ali, ao lado do doador, confere-lhe o dever de interceder junto à Virgem pelo tesoureiro real. O livro que ele carrega está encadernado em couro vermelho, com bordas douradas e um ponto de leitura. Provavelmente deve ter pertencido à biblioteca do tesoureiro. É importante notar o interesse do artista pela textura e pela a superfície das coisas, como observamos na pele dos personagens, na pedra, no pano e no mármore.

Eu sempre me encantei com esta pintura desde que a vi pela primeira vez. O mais interessante nela é que Jean Fouquet previu o uso do silicone nas cirurgias de mama, conforme nos mostra sua Virgem moderníssima. Perdoem-me a brincadeira, mas o seio da Madona está bem de acordo com os dias de hoje, ou seja, todo siliconado.

Curiosidades:

  • Díptico — nome dado a qualquer objeto que tenha duas placas planas ligadas entre si através de uma dobradiça.
  • Agnès Sorel — amante do rei Carlos VII — é tida como a modelo utilizada nesta composição de Jean Fouquet, pintor da corte e do rei.
  • Agnès Sorel era uma mulher belíssima, tendo aparecido na corte com apenas 20 anos. O rei tinha o dobro de sua idade — apaixonou-se por ela, segundo conta o cronista da corte de Borgonha, enquanto sua mulher estava ocupada na educação de seus 14 filhos.
  • No lado esquerdo do díptico, onde se encontra a Madona e o Menino, predominam as cores azul, branco e vermelho que eram as cores do escudo do rei Carlos VII de França.
  • As duas tábuas que compõem o Díptico de Melun apareceram no mercado de arte após a Revolução Francesa. Um prefeito de Paris, nativo de Antuérpia, adquiriu o batente direito, que desde 1840 está exposto no museu dessa cidade. O batente esquerdo foi descoberto pelo poeta alemão Clemens Brentano na casa de um comerciante em Basileia, sendo incorporado mais tarde, 1896, à Pinacoteca de Berlim.

Ficha técnica:
Data: c. 1450
Técnica: óleo sobre Madeira
Dimensões: 91 cm cm × 81 cm cm
Localização: Real Museu de Belas Artes, Antuérpia, Bélgica

Fontes de pesquisa:
Los secretos de las obras de arte/ Taschen
A história da arte/ E. H. Grombich
Gótico/ Taschen

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APOCALIPSE – O FIM DO IMPÉRIO ROMANO

Autoria do Prof. Pierre Santos

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E outro anjo seguiu, dizendo: Caiu, caiu Babilônia, aquela grande cidade, que a todas as nações deu a beber do vinho da ira de sua prostituição (São João, Apocalipse, 14:8)

A propalada catástrofe do Apocalipse já aconteceu. Senão, vejamos. São João nutria uma verdadeira ojeriza, ódio mesmo, do Império Romano, que tantas atrocidades fazia contra os cristãos. Em tudo quanto escreveu, sempre denominando, simbolicamente, Roma de Babilônia, profetizava a catastrófica derrocada daquele Império, algo, aliás, previsível, embora naquele tempo ele fosse extenso e firme; mas nada há que dure para sempre, mormente um sistema político. Hoje em dia é quase unânime a concordância dos especialistas, considerando que a queda do Império Romano, o maior de todos os tempos, significou o cumprimento das profecias do apóstolo.

Todavia, a este respeito, há algumas observações a serem postas. Considere-se, antes de tudo, a visão de mundo que o apóstolo tinha, do qual apenas um quarto era conhecido e, dessa parte, João conheceu tão somente pequena parcela circunscrita num perímetro de mil quilômetros, se tanto, estendido do Oriente Médio à Ásia Menor (fora desse arco, apenas chegou até o leste do Egeu, na Ilha de Patmos), percurso esse que se fazia a pé ou em lombo de burro, por caminhos mal construídos, na maioria das vezes meras trilhas. Assim, para ele, previsão a surtir efeitos quase dois mil anos depois seria algo temerário, vago e inócuo, além do que era impensável.

Embora tenhamos várias referências de como era o mundo naquele tempo, é-nos quase impossível imaginarmos como teria sido então a vida do homem comum. No mínimo, bastante insípida. O indivíduo não tinha absolutamente nada à sua disposição. Não tinha rádio, jornal, televisão, celular, caneta ou lápis e papel para escrever (São João, como foi referido, escrevia seus textos em pergaminho, com materiais próprios, hoje fora de uso, o que lhe impunha a necessidade da síntese, como severamente sintéticos são eles). Diversões só havia para os abastados, assim mesmo bastante primárias. As moradias eram toscas, de móveis toscos e de toscas instalações, como eram as fossas mal cheirosas em ‘casinhas’ no quintal. Não havia eletricidade: o escurecer do princípio da noite era iluminado por velas ou lâmpadas de azeite, pois nem lampião de camisa de vidro existia ainda, pois este só seria inventado muitos séculos depois.

Para melhor compreendermos o que é o nosso tempo, em matéria de evolução, permito-me citar aqui um trecho do livro Arte e Comunicação, publicado em 1973, autoria de Jacob Klintowitz, um dos mais importantes críticos de arte das Américas, atuante em São Paulo, sendo este o seu livro de estreia. Diz ele à pág. 21: “Se os últimos 50 mil anos da existência do homem fossem divididos em períodos de vida de 65 anos cada, haveria 800 períodos. Desses, 650 foram passados nas cavernas. Somente nos últimos 70 períodos foi possível haver uma efetiva comunicação entre um período e outro, com o surgimento da escrita. Apenas nos últimos seis períodos viu o homem sua palavra impressa. Só nos últimos quatro pode-se medir o tempo com precisão. Nos dois últimos, alguém usou um motor elétrico pela primeira vez. E a maioria dos bens materiais, usados na rotina diária, foi desenvolvida no último período. Neste, alterou-se a relação dos homens com os recursos. No campo econômico isso pode ser verificado com facilidade. Nos últimos 65 anos a agricultura, base original de todas as civilizações, perdeu seu domínio em todas as nações desenvolvidas; nas outras, o esforço é no mesmo sentido. E mesmo a sociedade industrial que substituiu a agrícola, começa a perder-se no tempo. Num único período”.

Se naquele momento, quando Klintowitz escreveu o texto acima transcrito, a sua conclusão (quanto ao último período dentre os 800 nos quais dividiu os últimos 50 mil anos da existência humana) já era impactante, deixando-nos boquiabertos – que espécie de impacto causa em nós hoje o fato de que, só nos quase 40 anos passados desde a publicação de seu notável livro, portanto um tempo menor do que um período de 65 anos, o homem já fez muito mais, mas muito mais mesmo, do que pôde fazer da pré-história até o ano de 1973?! Aí, fico pensando o seguinte: se os grandes inventores desde o século XVIII – Samuel Morse, do telégrafo, em 1837; Graham Bell, do telefone, em 1876; Thomas Edison, da lâmpada elétrica, em 1879; os irmãos Lumière, do cinematógrafo, em 1895; Gugliermo Marconi, do rádio, em 1901; e Santos Dumont, do aeroplano, em 1906, entre outros, como os ligados à computação – levantassem da sepultura e viessem ver em que resultaram suas invenções, iriam ficar estupefatos, talvez chocados, com o que veriam.

Voltemos agora ao nosso São João. O mundo em seu tempo de vida era tão atrasado com relação ao nosso, que ele nem de longe poderia intuir, sequer fazer uma vaga ideia do que é nossa realidade – e nem estava preocupado com isto, pois o total de suas preocupações centrava-se no Império Romano e todas as suas previsões a ele se dirigiam e não demoraria o seu cumprimento. São João tinha plena consciência de suas limitações temporais, pois várias vezes frisou que tudo, quanto previa, não demoraria a acontecer.

Nota: Os Cavaleiros do Apocalipse, det. do mural Guerra e Paz, de Cândido Portinari, exposto na Onu, USA.

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Mestres da Pintura – JEAN FOUQUET

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Jean Fouquet, nascido em Tours, c. de 1420, foi o mais importante pintor francês do século XV, no início do Renascimento, segundo fontes documentais dos séculos XV e XVI, mas pouco ou quase nada se sabe sobre sua juventude e formação, pois são pouquíssimas as informações encontradas sobre sua vida e obra. Sabe-se que foi bem conceituado no seu país e fora de suas fronteiras, à época.

Influências da pintura flamenga são encontradas nas obras do artista, assim como fica evidente nelas o seu amor pela natureza e o esmero usado nos detalhes. Acredita-se que, quando esteve em Florença, ele tenha se relacionado com Fra Angelico, Paolo Ucello e Masolino.

Fundador da escola francesa de pintura moderna, Fouquet foi um pintor muito famoso entre seus contemporâneos, mas infelizmente poucas de suas obras foram preservadas, o que não aconteceu com suas frágeis miniaturas, porque essas foram escondidas em livros e ficaram bem protegidas nas bibliotecas. Foi responsável por renovar a pintura francesa do século XV e foi um mestre na arte da iluminura de manuscritos, sendo provável que tenha aprendido tão delicada arte com os mestres flamengos e borgonheses, possivelmente com os irmãos Limburg.

Nos anos 1440, quando se encontrava na Itália, o artista pintou um retrato do papa Eugênio IV, que se encontra perdido, o que dá uma ideia da data aproximada de sua presença na Itália. Só o fato de se tratar de uma encomenda importante, presume-se que ele tinha uma boa reputação como pintor naquele país. Ao se relacionar com a pintura italiana, Fouquet sofreu influência de Ucello e Castangno, principalmente na modelação tridimensional da figura humana.

O Díptico de Melun — onde mistura a arte flamenga e a arte gótica italiana — e as iluminuras do Livro de Horas de Étiene Chevalier estão entre as suas obras-primas. Embora fosse muito conhecido em sua época, o artista passou por um grande período de esquecimento, até que foi redescoberto no século XIX pelos românticos franceses e alemães.  Jean Fouquet morreu em 1480.

Nota: Santa Margarida, de Fouquet
Data: c. 1453 – 1460
Miniatura do Livro da s Horas de Etiene Chevalier
Localização: Museu do Louvre, Paris, França

Fonte de pesquisa:
Gótico/ Taschen

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COREIA DO NORTE – O SATÂNICO SUPREMO LÍDER

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Você pode atirar (os alimentos) para eles do barco. Eles têm fome e são muito pobres. Não conhecem nenhum destes produtos (biscoitos, pães, pacotes de salsicha…). (Vendedora chinesa sobre os norte-coreanos)

Um DVD é mais difícil de esconder. Já se os guardas pegam você com um pen drive, basta engoli-lo. (norte-coreano exilado em Seul)

O governo de Pyongyang é muito isolado e hoje não há nenhum interlocutor que possa negociar com o país. Muitos analistas descartam essa possibilidade por acreditarem que é insano para a Coreia do Norte entrar em um conflito que não pode sustentar. Porém, não se pode descartar essa possibilidade. (Alexandre Uehara).

Com a vitória dos aliados na Segunda Guerra Mundial, em 1945, quando foi posto um fim ao domínio colonial japonês na Coreia, que já durava 35 anos, Estados Unidos e Rússia negociaram o domínio partilhado da ex-colônia japonesa, embora encontrassem uma oposição quase que total por parte dos coreanos. As duas potências alegavam que a nova tutela seria questão de tempo, até que a Coreia estivesse apta para dirigir o seu próprio destino. Mas os dois países apoiaram líderes diferentes, o que levou ao estabelecimento de dois Estados: o do norte, governado pela União Soviética e o do sul, pelos Estados Unidos

Como nenhuma das duas partes da Coreia estivesse satisfeita com a divisão obrada por russos e norte-americanos, em 1950, os norte-coreanos tiveram o apoio da China e da União Soviética para invadirem a parte sul, vindo imediatamente os Estados Unidos em auxílio de seus protegidos, os sul-coreanos. A guerra civil durou 3 anos, ao fim dos quais se deu a divisão da Coreia em dois países: Coreia do Norte, comunista, e Coreia do Sul, capitalista, separadas pela Zona Desmilitarizada Coreana (faixa de segurança que tem por finalidade proteger o limite territorial entre as duas repúblicas coreanas), estabelecida no paralelo 38.

Os habitantes da Coreia do Norte vivem debaixo do mando de uma dinastia assaz cruel, agora comandada pelo impiedoso Kim Jong-um, o Supremo Líder, filho do falecido Kim Jon-il, o Querido Líder, e neto do também falecido Kim Il-sung, o Sol da Humanidade. Ainda bem que são eles mesmos que se dão os títulos honoríficos, caso contrário perderiam para os adjetivos endereçados a Satã, tamanha é a maldade que reina naquele pedaço de mundo.

Até o ano de 1945, as duas Coreias eram unificadas, de modo que as últimas gerações que vivem na Coreia do Norte nada conhecem do mundo livre, uma vez que todas as informações, a que o povo tem acesso, passam pelo crivo do governo, ou melhor, são produzidas pela propaganda oficial, tecendo loas ao governante e ao estilo de vida do país, embora os computadores contrabandeados venham trazendo dor de cabeça para o Supremo Líder e perigo para os corajosos contrabandistas, pois se trata de um crime gravíssimo no país.

A década de 90 trouxe o esfacelamento da União Soviética (URSS) e, consequentemente, a fome para a Coreia do Norte, que recebia uma “mesada” do regime comunista soviético. Os norte-coreanos tornaram-se cada vez mais distantes de seus irmãos do sul, e muitas diferenças separam hoje os dois povos, que há 68 anos eram irmãos, filhos de uma mesma pátria, situação similar ao que aconteceu com a Alemanha, hoje unificada. A diferença mais gritante é a ocasionada pela fome, fator que vem influenciando no desenvolvimento físico dos norte-coreanos, que atualmente estão, em média, 11 centímetros mais baixos e dez quilos mais magros do que seus irmãos sul-coreanos. A situação é tão caótica que uma cidade chinesa, Dandong, separada da Coreia do Norte apenas por um rio, vende alimentos para turistas que, de lanchas, jogam-nos para os norte-coreanos famintos. Outra diferença gritante entre os povos das duas nações é a cultural. Na Coreia do Norte, o acesso à educação praticamente inexiste, ao passo que na Coreia do Sul, um aluno estuda cerca de 7 horas diárias, além de frequentar cursos extracurriculares e se posicionar entre os melhores do mundo.

Energia na Coreia do Norte é um luxo, e as famílias parecem viver ainda na época medieval com seus candeeiros, dormindo e levantando de acordo com a luz do sol. Quando não há comida, energia e educação, nem é preciso falar da tragédia vivida pelos norte-coreanos em relação à saúde. A vida dessa gente é tão miserável e reprimida que o simples fato de omitir o “tratamento honorífico” obrigatório, ao se referir a um dos “seres supremos” da dinastia Kim, pode enviar o sujeito “relapso” a um guleg (campo de trabalhos forçados).

Os norte-coreanos, que conseguem fugir do inferno comunista para a Coreia do Sul, vivem escondidos e mudam o nome para não serem descobertos por espiões postados naquele país pelo governo ditatorial do Supremo Líder. Além disso, precisam aprender coisas consideradas simples para o mundo civilizado, tais como andar de escada rolante, manusear cartão de crédito, caixa eletrônico, forno de cozinha, entre outras. Segundo contam os refugiados, a propaganda de Kim Jong-un ensina que:

  • a guerra civil começou com a invasão da Coreia do Sul à Coreia do Norte (deu-se o contrário);
  • a Coreia do Norte é o “paraíso dos trabalhadores” (que na verdade vivem miseravelmente);
  • a Coreia do Norte é a segunda nação mais feliz do planeta, ficando atrás apenas da China (na verdade são tidos como cidadãos de segunda categoria pelos países ricos do continente asiático, e o país pode ser comparado aos mais pobres da África);
  • a Coreia do Sul é uma nação paupérrima e seus desempregados sonham em fugir do país e se mudar para a Coreia do Norte (é exatamente o contrário).

O fato é que o governo de Kim Jong-un é um dos mais repressivos e fechados do mundo, onde a mídia não tem voz e a população tem total desconhecimento do que acontece além das fronteiras do país, como se vivesse num outro planeta. Os cidadãos não podem deixar o país, o uso de internet e de celular são restritos. O país vive hoje uma aguda recessão, com a pouca verba sendo destinada à compra de armas, no intuito de amedrontar seus inimigos. Sobre o uso da bomba atômica, assim explica o cientista político Alexandre Uehara:

O país é muito pobre, sua população passa fome. Por isso, a Coreia do Norte depende muito da ajuda internacional, principalmente da China e do Japão. E é possível que a nação tente usar seu poder nuclear para barganhar por mais privilégios e até pela possibilidade de negociar diretamente com os Estados Unidos. Se houvesse o conflito, a China provavelmente se colocaria ao lado da Coreia do Norte, enquanto os Estados Unidos defenderiam a do Sul. Seria a terceira maior economia do mundo enfrentando a primeira, o que traria consequências para todo o mundo. Além disso, poderiam se envolver também Rússia, Índia e Paquistão, colocando o Oriente Médio dentro do conflito.

A ditadura norte-coreana mantém cerca de 300.000 homens, mulheres e crianças em campos infernais de trabalho forçado, enquanto milhões de pessoas estão condenadas a viver vitimadas pela fome, ignorância e pela mentira elaborada por uma das ditaduras mais cruentas da história da humanidade. Se até o poderoso Império Romano desmoronou, resta-nos a esperança de que aconteça o mesmo com a Coreia do Norte, pois essa é a Lei do Retorno.

Fontes de pesquisa:
Revista Veja/ maio de 2013
Info Escola
Nova Escola

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Vermeer – A LEITEIRA

Autoria de Lu Dias Carvalho

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A Leiteira, obra do pintor holandês Jan Vermeer, é tida como uma das mais importantes obras-primas de todos os tempos. A personagem vista na composição é uma jovem e vigorosa camponesa, extremamente concentrada em seus afazeres. O ambiente em torno dela é muito simples: paredes pintadas, mas já descoradas e descascadas pelo tempo, janela com o vidro quebrado e vários objetos comuns, mas que de forma alguma tiram a concepção de ordem, tendo por objetivo mostrar a ampla gama de cores, texturas e contrastes da composição. A pintura já ousada por retratar uma empregada doméstica à época, ainda apresenta muito detalhamento.

A janela rústica deixa entrar um pequeno foco direto de luz, através de um dos pequenos painéis de vidro que se encontra quebrado. A luz incide sobre o caixilho à direita. A claridade que entra através dela é a única fonte de luz a iluminar o ambiente. Na mesma parede, onde a janela encontra-se, podem ser vistos um quadro negro de ébano, uma cesta de vime para guardar pão e um balde de bronze com uma longa alça. Tais objetos encaminham o olhar do observador para o centro temático da pintura, representado pelo leite que é derramado no recipiente de barro. O leite é o ponto focal da composição, assim como é o ponto de concentração da mulher.

Na mesa coberta com uma simples toalha verde estão o pão, o jarro e a bacia que também chamam a atenção para o foco da pintura. O pão que se encontra na cesta parece bem real, se visto de longe. Ali, pequenos pontos na pintura dão a sensação de que há centelhas de luz no pão e na borda do jarro. De perto podemos ver com clareza os “pointillés” (pequenos pontos feitos com tinta opaca grossa) do pintor. O pano azul que se encontra sobre a mesa é parte do avental azul-escuro da camponesa.

A mulher — com o rosto virado para baixo e antebraços expostos — veste inúmeras camadas de roupa para proteger-se do rigor do inverno. Usa uma touca branca que cai até os ombros; um colete de couro camurça amarelo, trançado na frente; mangas azuis e verdes que parecem compor o colete, mas que na verdade não fazem parte dele, pois são usadas separadamente; uma pesada saia vermelha feita de lã; um avental azul que desce da cintura, sendo que parte dele descansa sobre a mesa. Sua figura, esculpida por meio de sombreamento, repassa a impressão de que ela é quase tridimensional.

Acima da cabeça da leiteira — na parede atrás dela — vê-se um prego fincado onde, possivelmente, deveria haver algo dependurado, mais uma prova da meticulosidade do pintor. Uma fileira de azulejos decorados dá terminação à parede na sua parte inferior, a fim de proteger o rodapé. Bem próximo, vê-se um escalda-pés, tão comum à época, cuja finalidade era esquentar as partes inferiores do corpo durante o inverno rigoroso, sendo visto como um símbolo do amor e da gentileza.

A serenidade vista no rosto da mulher, ao executar seu trabalho, traz a impressão de que ele é costumeiro. A extrema simplicidade do lugar e a calma que nele se encontra dão vida a tudo que ali está representado. Infelizmente nem tudo pode ser captado através da reprodução do quadro, como o brilho e a profundidade do avental azul, pintado com uma camada transparente de ultramar (pigmento extraído do lápis-lazúli).

Vermeer gostava de retratar mulheres em interiores, ficando conhecido pela maestria na observação do cotidiano. Nenhum detalhe escapava-lhe. O prego visto na parede faz jus à observação feita ao artista, pois de tão detalhista a obra A Leiteira traz a impressão de que a cena foi retratada com fidelidade, através da observação direta do pintor.

Ficha técnica:
Ano: 1658
Técnica: Óleo sobre tela
Tamanho: 45,5cm x 41cm
Localização: Rijksmuseum, Amsterdã, Holanda

Fontes de pesquisa:
A história da arte/ E.H. Gombrich
1000 obras-primas/ Könemann
História da arte ocidental/ Edit. Redeel
http://www.essentialvermeer.com/catalogue/milkmaid.html

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Filme – A DOCE VIDA

Autoria de Lu Dias Carvalho

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O filme é uma sucessão de noites e madrugadas e de idas e vindas. É uma alegoria, um grito de alerta sobre um homem sem rumo. (Roger Ebert)

Filme limítrofe entre uma maneira antiga –linear- de fazer cinema e o modo novo de organizar a história em grandes blocos autônomos. A Doce Vida libera o imaginário de Fellini e abre para ele as portas do onirismo e da psicanálise, um mundo em que as certezas se esgarçam. (Jean A. Gill)

A primeira vez que vi Anita Ekberg foi numa fotografia de uma revista americana.  A poderosa pantera se fingia de garotinha, deslizando pelo corrimão de uma escada. Tornei a sentir aquela sensação de maravilha, de estupor, de incredulidade que se experimenta diante de criaturas excepcionais como a girafa, o elefante, o baobá, quando a vi, anos mais tarde. Ela é, além de tudo, fosforescente. (Fellini)

Os filmes do cineasta italiano Federico Fellini sempre foram dissecados pela crítica com suposições muitas vezes absurdas. Uma delas era a de que eles eram autobiográficos, suposição que o deixava muito chateado. Com relação ao filme A Doce Vida (1959), a teoria era a de que o diretor classifica ali os sete pecados capitais, tendo sido rodado nas sete colinas de Roma, num período de sete noites e sete madrugadas. Não acredito que o cineasta tenha se preocupado com isso. O que Fellini deixa claro é que se trata de um filme totalmente inventado, que não se baseia em nada que ele tenha conhecido: “A Roma de que falo é uma cidade do interior, tem uma topografia toda espiritual. Eu, por exemplo, nunca conheci nenhum aristocrata, nunca fui a uma festa de aristocracia, nunca participei de orgias e, algumas vezes, passo de carro pela Via Veneto.”. O filme foi rodado em Roma, na Via Veneto, onde se encontram muitas casas noturnas, cafés na calçada e muita badalação.

Marcello (Marcello Mastraioanni), figura central de A Doce Vida, é um jornalista que escreve uma coluna de sensacionalismo, o que o leva a transitar pelas ruas de Roma à cata de notícias referentes à aristocracia decadente, playboys já fora de forma, estrelas de segunda categoria e mulheres do comércio. Além disso, acompanha uma hipotética aparição de Nossa Senhora a duas crianças, nos arredores da cidade. Marcello tem como trabalho falar sobre a vida dos outros, mas se vê envolvido na sua própria história. Embora bonito, charmoso, cheio de conhecidos e com o hábito de tentar agradar a todos, Marcello mostra-se desiludido e sem direção. Ele se encontra exausto e chateado com a vida que leva, com noites vazias e madrugadas solitárias, mesmo quando se encontra rodeado de pessoas. Não gosta do que faz e tem vontade de escrever um livro. Mas tudo se limita apenas ao sonho, pois parece haver um ímã entre ele e o ambiente em que vive, à procura de mulheres e de histórias. Ele sonha com a felicidade, mas não faz nada para obtê-la, deixando-se levar. Apesar do glamour, é apenas uma vítima de suas próprias escolhas.

A vida do jornalista bonitão já começa complicada em casa, ao lado de Emma (Yvonne Furneaux), sua noiva ciumenta, insegura, temperamental, chantagista, pegajosa e suicida. Outra mulher que aparece em sua vida é Madalena (Anouk Aimée), uma socialite promíscua que o jornalista encontra numa casa noturna, com quem sai logo a seguir, acabando juntos no quarto de uma prostituta. Eles se reencontram no transcorrer da história, quando falam de suas carências, e ela lhe pede que se case consigo, mas, imediatamente cai nos braços de outro. Na sua vida sem rumo certo, Marcello frequenta casas noturnas subterrâneas, bordéis, uma antiga catacumba, sobe no domo da igreja de São Pedro e na galeria do coro, depois de ter sobrevoado a cidade de helicóptero, quando uma estátua de Cristo é transportada.

Sylvia (Anita Ekberg) é uma atriz sueca que chega a Roma para estrelar um filme a cores. Marcello, ao cobrir sua passagem pelo país, vê-se caído de desejos pela atriz que não fala a sua língua. Sobe com ela até o topo da igreja de São Pedro e a leva a vários lugares da cidade. A cena em que ela encontra um gatinho e pede ao jornalista que arranje leite para ele, assim como a que imita o uivo de cachorros são inesquecíveis. Mas a cena primorosa é a que acontece na mesma noite, quando, já alvorecendo, ela entra na Fontana di Trevi e ele, hipnotizado por sua beleza, faz o mesmo. Apesar de seu deslumbramento, nada acontece entre os dois. Ela está sempre fora de seu alcance.

Steiner (Alai Cuny) é um intelectual que recebe poetas, cantores folclóricos e intelectuais em seu luxuoso apartamento, cheio de obras de arte. Possui uma bela mulher e dois filhos lindos. Aparenta ser extremamente feliz com a vida que leva. É superestimado pelo jornalista que o admira e o inveja, e que pretende passar mais tempo em sua companhia. É ele quem o estimula a escrever seu livro. Por isso, quando Steiner mata os dois filhos e suicida, após uma viagem da esposa, Marcello fica decepcionado, pois a paz e a alegria, que o amigo mostrava ter, não passavam de engodos.

O filme A Doce Vida é bem mais profundo do que se pode imaginar, havendo implícitos falha de comunicação, tristeza e desencanto para com a vida. Dizer que causou escândalo quando foi lançado parece até brincadeira, se o compararmos com as produções atuais. O fato é que a Igreja e os conservadores da época viram-no como um desrespeito aos bons costumes e um incentivo à amoralidade. Contudo, não existe a certeza de que Marcello tenha feito sexo com alguém.

A Doce Vida, filme franco-italiano, em preto-e-branco, é uma crítica a algo que conhecemos muito bem: o endeusamento das celebridades, voltadas totalmente para as aparências, que nos dias de hoje são cada vez mais instantâneas, além de fazerem qualquer coisa para permanecerem em cena, ainda que nada acrescentem à história da humanidade. O filme não apresenta uma história com início, meio e fim, mas é montada a partir de uma série de encontros, que vão dando vida à trama. Fellini arranja os episódios com as várias passagens da vida do repórter, cujo resultado final nada mais é do que um retrato da vida de seu país entre os anos de 1950 e 1960.

Cenas imperdíveis:

  • Steiner tocando Bach na galeria de uma igreja;
  • a câmara de eco, quando a rica socialite pede que Marcello case-se com ela;
  • a missa da alvorada;
  • a desesperançada orgia final;
  • o comovente encontro de Marcello com o pai e a sua vontade de tê-lo por perto por mais tempo;
  • o palhaço que leva as bisnagas atrás de si ao tocar seu pistão;
  • a cena do banho na Fontana di Trevi.

A trilha sonora do filme, composta por Nino Rota, é muito rica: jazz, rock e canções populares.

A Doce Vida é visto como um clássico do cinema e uma das obras-primas do diretor Federico Fellini, ao lado de 8 ½ e Amarcord, igualado por muitos a Cidadão Kane. Encontra-se na lista dos 1000 melhores filmes de todos os tempos pelo The New York Times e, segundo o site Melhores Filmes, ocupa o 19º lugar entre os melhores de todos os tempos.  Roger Ebert, falecido crítico de cinema, colocou-o na lista de seus dez filmes favoritos e como o melhor de Fellini.

A famosa cena de abertura, na qual uma estátua de Cristo é transportada sobre Roma por um helicóptero, é associada ao final, em que pescadores encontram dentro da rede um monstro marinho. Dois símbolos de Cristo: a escultura “maravilhosa”, porém falsa, o peixe “horrendo”, mas verdadeiro. (Roger Ebert)

Curiosidades:

A pedido do site de VEJA, José Wilker, ator e cinéfilo, comentou a obra e o que faz dela um clássico:

1. Comece interpretando o título
Uma das coisas mais importantes e significativas é a ironia do título. A “doce vida” é, na verdade, uma vida miserável. Fellini retrata uma cidade absolutamente decadente depois da guerra, tentando agir como metrópole, o que não era mais. No lançamento, o filme provocou sensação, mas também escândalo. Como se alguém revelasse um segredo que só se pudesse contar dentro de casa, para as pessoas mais intimas – a decadência, a falta de direção do que seria considerado um bom comportamento.

 2. Perca-se no labirinto de Fellini
A Doce Vida segue o espírito do diretor, que nunca contou uma história em linha reta. Mas seus emaranhados de ideias em labirinto ganham forma clara ao final. O livro Fellini’s Book of Dreams, que reúne as ilustrações que ele fazia de seus sonhos noturnos, me ajudou a olhar sua obra. Ele filmava os próprios sonhos. E a desordem dos seus sonhos apresentava uma ordem fantástica.

3. Perceba as cores do preto e branco
O uso da fotografia em preto e branco é notável. Você olha uma Roma em p&b que é colorida – na verdade, sempre tive a sensação de que o filme era colorido, ainda que em tons sombrios, ao me lembrar de cenas dele, tempos depois de ter visto.

4. Confira a assinatura da obra
Uma vez perguntaram a Fellini: “Mestre, o senhor improvisa muito?”. Ele respondeu: “Sim, evidentemente. Mas, antes disso, eu ensaio muito”. Tenho a impressão de que ele trabalhava com amigos, mais do que com uma equipe, que era sempre a mesma. Dá para perceber que eles falavam a mesma língua. É por motivos como esse que a obra é precursora de filmes como Blow-up – Depois Daquele Beijo (1966, de Michelangelo Antonioni) e de Taxi Driver (1976, Martin Scorsese), por exemplo.

5. Visite a Roma de Fellini
Fellini lança um olhar singular sobre a arquitetura de Roma. A própria cena da Anita Ekberg se banhando na Fontana di Trevi é isso: a fonte é para tomar banho e não para ser admirada. Faço uma analogia com a minha mãe, que jogou meus bonecos de Vitalino no lixo, pois para ela aquilo eram coisas velhas. Ele olhava pra Roma com grande paixão, mas com grande clareza em relação à cidade se reconstruindo da guerra.

6. Note a atuação
Fellini fez com que seus atores sonhassem os mesmos sonhos que ele. Marcello Mastroiani não era um ator que, segundo consta, gostasse de trabalhar; percebi isso quando filmamos Gabriela, Cravo e Canela aqui no Brasil (1983). Ele dormia! [Risos] Ele pedia para ser acordado, ia lá e gravava. Isso só acontece com quem tem uma profunda formação e uma imensa intuição. Já a Anita Ekberg é uma figura exótica, devastadora. Acho que Fellini foi o único a arrancar dela, ela mesma. E um poder de sedução que provavelmente a atriz não sabia que tinha.

7. “Olhe” para o som
É difícil ver Fellini sem ouvir, mentalmente, o trabalho do compositor Nino Rota, que assina a trilha sonora. Quando ele esteve no Brasil, perguntei-lhe sobre a colaboração com o diretor. A impressão que me deu é a de que ele nem tinha visto o filme, como se já soubesse o que tinha que fazer. Bem, é claro que ele viu… A trilha é genial.

Fontes de Pesquisa:
A Magia do Cinema/ Roger Ebert
Cine Europeu/ Coleção Folha
Site da Veja

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