A HORA DOS RUMINANTES (5) – RETORNO DE AMÂNCIO

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Um rumorejo espalha-se por todo o povoado de Manarairema, em razão da visita de Amâncio aos homens misteriosos. A demora é vista como um sinal de bons presságios, pois “conversa demorada é briga adiada”. Sem falar que “para saber se numa moita tem onça é preciso chegar perto”. E de longe, corre-se o risco de confundir veado com jaguar.

O carroceiro Geminiano transformara-se num enigma para a gente do povoado. Muitas pessoas estavam de acordo que ele “andava escondendo leite”, de modo que poderia dizer com segurança, se se tratava de onça ou veado. Outros o defendiam, dizendo que os forasteiros não iriam lhe contar nada.

Amâncio surgia como a salvação da lavoura. Era muito esperto para ser posto para trás. Além disso, não era funcionário dos intrusos. Enquanto a turma, reunida na venda do audaz pesquisador, discutia o assunto, um menino, que chegara na garupa de uma besta de carga, contou que vira os homens jogando peteca com o vendeiro. A notícia gerou um reboliço geral. Aquilo era invencionice do moleque que não tinha o que falar. Pois, se fosse verdade, estaria “tudo confuso, trançado, sobrando pontas”.

Com o sol já a pino, Amâncio entra na venda, trancado no seu antigo palavrório. Parece querer martirizar as pessoas, botando mais curiosidade nelas. Ao ser indagado sobre a ida ao acampamento, apenas responde “Fui e voltei. Não fui mordido. Proseamos, brincamos. Gente aberta, sem pé-atrás”. E tratou logo de botar outro rumo na conversa. Ao ser atochado por Manuel, acrescentou: “Compadre, eu vou lhe dizer uma coisa. Todo mundo estava comendo gambá errado. Se todo mundo aqui fosse como eles, Manarairema seria um pedaço de céu, ou uma nação estrangeira.”.

Tal como as gentes pensavam de Geminiano, também passaram a pensar de Amâncio. Ele estaria escondendo o leite, ou querendo ser bajulado pelos intrusos. O melhor seria dar o caso por encerrado e não tentar tirar dele nenhuma bisbilhotice. Seria chover no molhado, e ainda deixá-lo se sentido o tal. O caso estava morto morrido!

Quando o sol já ia dando de banda, a carroça de Geminiano estacionou na porta do vendeiro. Dela apearam três dos intrusos, muito bem vestidos, sendo recebidos com muito aprazimento pelo vendeiro. Logo após, a porta foi fechada. E o mais estranho é que essas visitas, de tanto se repetirem, acabaram caindo na rotina. Se havia algum freguês na venda, ele saía assim que os homens chegavam. Ninguém mais se preocupava com o que acontecia ali. Tudo já fazia parte da usança do povoado.

Um fato incomum começou a mexer com o ramerrão de Manarairema. O carroceiro Geminiano, antes tão calado e confiante, começou a rezingar. A princípio, suas lamúrias foram vistas como parte de se cansaço num serviço que nunca tinha fim. Até seu bom burro Serrote andava “desespiritado”. O caldo entornou, quando a carroça quebrou e metade da areia vazou para o chão. Desesperado, Geminiano deitou a soluçar como criança. Suas lágrimas misturavam-se a seus rogos: “O que é que eu faço, meu pai. Como vou sair desta prisão? Não aguento mais. O meu remédio é um tiro na cabeça ou um copo de veneno”.

O carroceiro, pranteando, consertou a carroça, ajuntou a areia e partiu para o acampamento com seu fiel amigo Serrote. Seus amigos ficaram para trás, tentando decifrar a causa da tristeza e revolta de Geminiano. Um deles falou condoído: “Tempo de escravo já acabou.” O outro completou: “Por que não manda os homens pentear macaco?”. Mas Dildério, sempre comedido, arrematou “Cada um sabe, onde morde o borrachudo.”.

O fato é que não mais existia o Geminiano de antes. Alguma coisa o impedia de largar aquele serviço. E, se assim fosse, estaria comendo o pão que o diabo amassou com o rabo. Mas, “se ele entrou no rio com os próprios pés, por que não saía também com os próprios pés, se não estava chumbado?”.

Passa o tempo e os fatos se repetem: Geminiano carreteando areia, cada vez mais deprimido e taciturno. Amâncio recebendo os homens do acampamento e fechando a porta, tão rebarbativo como as suas visitas. E a gente do povoado sem saber qual era a incumbência dos visitantes em Manarairema.

Peço a meus nobres colaboradores que me ajudem a desvendar as seguintes pendências:

1. O que aconteceu, para aproximar o vendeiro Amâncio dos homens misteriosos, a ponto de se tornarem amigos?

2. Qual é a causa da depressão de Gemininiano?

3. A que fim se destina a areia?

A seguir o capítulo 6…

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A HORA DOS RUMINANTES (4) – LEITORES DETETIVES

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Quando os homens misteriosos e intrigantes armaram barraca em Manarairema, tratei de pedir ajuda aos gentis leitores, para que trouxessem luz àquela situação, pois nenhum habitante do povoado, por mais que matutasse, tivera ainda uma resposta, mas, apesar da boa vontade de todos, o caso ainda se encontra insolúvel, embora muitas pistas tenham sido dadas, o que já é meio caminho andado. Vejamos as possibilidades.

O nosso consagrado perito Manoel Rodrigues apresentou três hipóteses: a) seriam os ditos alienígenas; b) compradores de terras petrolíferas; c) roteiristas de filme. Ficou de estudar o caso com mais acuidade, mas, em função de outros compromissos, não foi possível trazer-nos outros dados.

A aclamada delegada Rosali Amaral levantou a possibilidade de que tais sujeitos sejam militares que se instalaram no povoado, para estudar a gente da região com seus costumes e implantar ali uma reforma agrária, entre aspas. Pois, o motivo real dessa invasão, aparentemente inofensiva, está guardado a sete chaves pelos forasteiros. Há naquelas terras um tesouro escondido por antigos desbravadores, desconhecido pela população local. As escavações feitas, na verdade, têm como único objetivo encontra-lo. De modo que muita água irá correr debaixo da ponte, digo, no acampamento.

O advogado criminalista, Gutierritos, sentiu-se intrigado com o fato de os estranhos permanecerem distante da população local. Segundo ele, tais elementos irão molestar os habitantes do pacato e feliz povoado. A desconfiança tomará conta dos habitantes locais, deixando-os nervosos. Daí os boatos, o mudar dos costumes, a expectativa, tudo envolto em clima de mistério. O fato é gravíssimo. O nobre criminalista também com as forças do além, pedindo ajuda a The Ghost, um espírito desencarnado seu velho conhecido. Num caso desses, qualquer ajuda é bem vinda.

O perito Moacyr Praxedes dá ao fato uma visão mais romanesca. Acha que se trata de um circo, que chegou ao povoado e, como a faina para armá-lo é grande e demanda tempo, ninguém ainda poderá deixar o local. De modo que o povo de Manairarema está fazendo tempestade em copo d`água.

Aninha Timotheo, outra autoridade no caso, alega que a cidade possui abundância de metais. O acampamento instalou-se ali, para divisão de trabalho numa espécie de garimpo. Os forasteiros, sonhadores, instalaram-se no local, de boca fechada, para que a notícia da riqueza não se espalhasse. Quanto menos pessoas fizerem o serviço, maior é o lucro. Logo, bico fechado!

Maria Tereza Allagio, uma sapiência em tecnologia de ponta, apresenta a versão de que os invasores desceram de pára-quedas, numa operação militar, de madrugada, monitorados pelo GPS. O local foi escolhido por ser pouco povoado. Baseados nos mapas da NASA, os militares estão à procura de fragmentos de um satélite secreto, em missão fracassada, levando objetos altamente tóxicos e radioativos.

O nosso pesquisador de OVNIS, Manoel Matos, trabalha com a possibilidade de que os visitantes são extraterrestres de outro sistema solar. Como o planeta deles vai ser engolido por um buraco negro, estão procurando outro lugar, para viverem. Eles conseguem assumir o aspecto físico de qualquer outro ser. E são bem piores do que os terráqueos.

A auxiliar da delegada, Sinara Santos, diz que se trata de um grupo terrorista, que está enriquecendo urânio ali, para construir uma bomba atômica e por isso não quer ser visto ou incomodado.

E, por último, a famosa pesquisadora, Terezinha Pereira, diz não ter chegado a um parecer final. Prefere rever as pistas dos colegas para chegar a um parecer mais conclusivo.

Vamos aos fatos:

Antes de concluirmos o processo sobre o motivo da vinda dos misteriosos visitantes a Maneirama, deparamos com dois fatos novos: 1- a decisão de Geminiano de trabalhar para os invasores; 2- Amâncio decide visitá-los, custe o que custar. O fato é que tivemos que nos ater a novos pareceres do inquérito. Vejamos:

Gutierritos louva o fato de que Amâncio esteja buscando uma explicação sobre o que fazem os sibilinos visiteiros nas cercanias do povoado, mas acha que o vendeiro vai ficar só no papo furado e nada vai fazer. Talvez ele volte contando vantagens, mas sem sequer entrar no território inimigo.

Por sua vez, o senhor Moacyr continua insistindo na história do circo. Diz que o Amâncio será barrado pelo vigia do acampamento com a explicação de que, por enquanto, não será permitida a entrada de ninguém, para não estragar a surpresa, que está sendo preparada para o povo do vilarejo. Assim, o vendeiro voltará de mãos abanando e contará o ocorrido para todos.

A senhorita Sinara alega que a valentia de Amâncio vai acabar logo que ele vir os homens armados com metralhadoras, cercando o local. Irá voltar com as calças borradas.

Rosali Amaral acredita que Amâncio, um cabra por demais avarento e legítimo representante do poder econômico do lugarejo e, sendo sua venda um local, onde o fluxo de negócios é mais acentuado, quer ser o primeiro a usufruir de algum benefício, que porventura aqueles forasteiros possam trazer. Por isso, resolveu, na valentia, visitar os desconhecidos e, assim, desvendar, de uma vez por todas, o mistério; ver de perto o que se passa do outro lado do rio, e saber qual o motivo da mudança de atitude do carroceiro Geminiano, que agora, de bico calado, passou a prestar serviços de carreteiro para “os homens”, na maior subserviência.

Portanto, amigos, tudo continua como dantes no quartel de Abrantes. Não sabemos por que aqueles homens estranhos foram parar em Manairarema, nem o porquê de Geminiano ter aceitado trabalhar para os tais e tampouco se o Amâncio terá acesso a eles.

Só nos resta aguardar!

A seguir o capítulo 5

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A HORA DOS RUMINANTES (3) – AMÂNCIO E OS PEBAS

Autoria de Lu Dias Carvalho

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No capítulo passado, em que narrei a chegada dos sibilinos visiteiros ao povoado de Manarairema, vimos que houve um pacto entre os moradores, para que dissimulassem a curiosidade acerca dos intrusos. Pacto esse que não logrou criar raízes, pois a bisbilhotice das pessoas era maior de que a palavra dada.

O fato é que, ainda nos primeiros dias, algumas pessoas grudaram-se à cerca próxima ao acampamento, no intuito de entabular relações com os forasteiros. Nem mesmo o sol aferventando e os mosquitos nadando em sangue fresco eram motivos para que arredassem pé dali. Fome elas não sentiam, porque levavam consigo a matula. Mas os visitantes não davam a mínima. Continuavam com os seus afazeres ou descansavam da labuta. E, quando os curiosos voltavam, sem nenhuma novidade no embornal, para não ficarem com cara de tacho, punham-se a inventar um palanfrório, que jamais houvera sido dito.

Aperreados com aquele bando de curiosos, os sombrios sujeitos começaram a estender roupas, que jamais recolhiam, diante da cerca, de jeito a tapar a visão dos moradores intrusos. De modo que o acampamento voltou a ser observado de longe, como antes.

Quando o povoado apagava as suas luzes na hora de dormir, o barracamento ficava visível sob o fulgor de fogueiras e lampiões. Cansado de esmiuçar a vida dos estranhos, sem ver nisso nenhum resultado satisfatório, o povo largou os nojentos de lado, como se eles fizessem parte de Manarairema. Até Amâncio Mendes não levava mais a sério uma conversa sobre eles. E, nem o fato de Geminiano passar a trabalhar para eles, carregando areia, trouxe grande interesse para o povoado. Bem diz um ditado que a gente acaba se acostumando com qualquer coisa.

Mas, para tudo há um limite. E esse limite foi ultrapassado quando, após um mês, Geminiano e seu burro continuavam na mesmíssima faina. Já era tempo demais, fazendo a mesma coisa. Tornava-se necessário descobrir a finalidade de tanta areia. As pessoas, curiosas, começaram a esmiuçar o carroceiro para que lhes desse maiores informações. Mas o coitado só era capaz de dizer que os homens misteriosos estavam fazendo obras. O que levou à suposição de que os forasteiros iriam ficar no povoado para sempre. E pior, como o alimento vinha lá de cima, eles jamais iriam até o povoado, frustrando o sonho de vingança dos moradores, por terem sido tão desprezados.

Amâncio surpreendeu os amigos, quando disse que iria fazer uma visita ao acampamento no dia seguinte. Precisava saber o que “aqueles pebas estavam urdindo”. Aos que se mostravam preocupados, respondia que “Eles não são bicho, nem eu carrapicho”. Melhor seria que fosse o Dr. Nelório, pois se aqueles homens estavam em terras manarairemenses e, portanto, sujeitos aos ditames do município. Poderia ser também o Marianito do cartório. Amâncio era o menos indicado, com o seu jeito rixento de quem não leva desaforo para casa.

Quando alguns dos moradores propuseram a Amâncio levar mais alguém consigo, ele esbravejou com valentia, dizendo que “não nascera com rabo”. E quando Justino Moreira levantou a hipótese de que “os homens” poderiam não gostar da visita, respondeu na lata: “Se não gostarem, que tomem bicarbonato depois. Enquanto eu estiver lá, eles têm de me engolir.”.

Tentar convencer Amâncio a abrir mão daquela empreitada era tarefa difícil, principalmente depois de uma noite de cachaçada e doidice. Não havia sujeitinho mais encasquetado do que ele. Mexer com quem está quieto pode trazer tempestade. Quem sabe uma boa noite de sono limpasse aquelas suas caraminholas amalucadas. E, de mais a mais, ele era senhor de seu próprio umbigo. Se queria sarna para coçar, que tomasse conta da coceira sozinho, depois do acontecido.

Conforme prometera, no dia seguinte apareceu vestido de branco, de chapéu, também branco e botina de couro cru, seu traje de cerimônia. Pediu ao amigo Manoel Florêncio que, vez ou outra, desse uma olhada em sua venda. E partiu para seu destino sob o olhar curioso e ressabiado das pessoas nas portas, janelas e calçadas. Alguns até comentavam: “Aquele ali tira leite em onça, e vai entrar pela frente”.

E se os forasteiros recebessem o vendeiro a pedradas e, como vingança, não deixassem o povoado ter mais quietação? Estaria Amâncio apenas fazendo exibição? Chegaria ele arrotando afoiteza, falando que fez e aconteceu? Ou voltaria escorraçado? Os homens estranhos receberiam o vendeiro e conversariam com ele?

 Capítulo 4 a seguir…

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A HORA DOS RUMINANTES (2) – DÚBIOS VISITANTES

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Manarairema, aos poucos, ia sendo engolida pela noite, que trazia consigo uma friagem, que ficara escondida durante o dia. Os ouvidos das gentes estavam aguçados com a escuridão, para compensar a falta de uma visão mais ampla. O ladrar dos cachorros, o choro de crianças, o coaxar dos sapos, o barulho das asas dos morcegos esvoaçando, o zurro de um jumento, o cricrilar dos grilos e o nhenhenhém dos pernilongos tomavam uma dimensão, que seria imperceptível durante o dia.

Naqueles dias, o toucinho, produto de primeira necessidade, andava em falta no vilarejo. Muitos até diziam que chegaria os tempos em que o sal não tardaria a faltar. E, depois, faltaria tudo. Com certeza poderia ser o prenúncio do fim do mundo. Por isso, a visão de cargueiros na estrada trouxe esperanças para os dois homens que se encontravam na estrada. Até o sacolejar das bruacas podia ser ouvido com agrado.

As esperanças dos dois sujeitos sumiram com a evaporação dos aguardados cargueiros. De modo que se puseram a matutar sobre o acontecido. Era bem sabido que, quando se quer muito uma coisa, ela pode tomar vida em pensamento. Mas isso só aconteceria, se fosse só um a ver o sucedido, pensaram eles. Poderiam ser apenas animais soltos no mato. Mas, mesmo que fossem, eles não se escafederiam com tanta rapidez. Poderia ter havido um engano, pois, “no escuro toda corda é cobra e todo padre é frade”, já dizia o ditado. E o caso pareceu parar por aí.

Mas como “problema enterrado é problema plantado”, o fato é que em Maneirama quase todo mundo tivera a mesma visão. Essa era a conversa em cada palmo do lugar, naquela noite. A maioria persistia na certeza de que eram vendedores de toucinhos. Com certeza o toucinho era pouco e eles iriam vendê-lo para quem pagasse mais. Daí o silêncio danado de demorado.

Como “esperteza se vence com esperteza”, os moradores combinaram levantar-se bem cedinho e irem ao encalço dos cargueiros. Mas, ao se levantarem, depararam com um acampamento frenético do outro lado do rio. Com cerca de poucos minutos toda a cidade havia tomado conhecimento do fato. Com focos de lanternas, com todos os tipos de facho, todos os olhares estavam direcionados para o acampamento, curiosos para desvendar o mistério.

Alguém deduziu que poderia ser ciganos, mas um morador mais experiente explicou que os ciganos armam suas barracas espalhadas e nelas penduram panos em desordem. Os visitantes, ao contrário, acamparam em linha, duas fileiras certíssimas, com um largo no meio. Além disso, tinham cachorros. Coisa que cigano não usa ter. Seriam eles engenheiros, ou mineradores ou gente do governo? Quiçá!

A princípio os moradores pensaram em ir lá, para saber do que se tratava. Depois optaram por não ir. Se aqueles pareciam soberbos, eles também não iriam se oferecer. Seria melhor dar um tempo para daquela gente se assentar. Com certeza, logo depois viriam visitar o povoado. E também, se ali fossem, poderiam correr o risco de voltarem com o rabo entre as pernas, caso não fossem bem aceitos pelos forasteiros.

Os moradores de Manarairema esperaram impacientes pela visita. Todo mundo permaneceu de butuca nas janelas e portas esperando os visitantes. Nem mesmo comiam direito. E não aparecia uma vivalma. Os que moravam mais próximos ao acampamento iam transmitindo tudo para os mais distantes, feito um telégrafo.

A noite chegara outra vez, sem que houvesse novidade por parte dos estranhos. Os comerciantes ficaram com suas lojas abertas, para servir aos visitantes, caso precisassem de alguma coisa. Era uma forma de serem gentis e conservar o bom nome da cidade. Mas nada aconteceu, de modo que só restou à população ir dormir. Alguns até se levantaram no meio da noite para espiar o acampamento, em busca de novidade.

Os homens misteriosos continuaram fazendo obras no terreno, onde estavam acampados, de jeito que, vez ou outra, esbarravam em alguém da cidade, como da vez em que um deles quis comprar a carroça de Geminiano, que era um cara risonho mas sarçoso por dentro. Diante da insistência do visitante em lhe comprar a carroça, esse lhe dera as costas. E quando o forasteiro disse que “quando um burro fala, o outro pára para escutar”, ele lhe respondeu na lata que “não entendia conversa de burro”.

A história do encontro de Geminiano espalhou-se como penas ao vento. Recebendo ele muitos elogios por ter posto o visitante em seu devido lugar. Mas Amâncio Mendes da venda botou-se contra ele, fato que não foi tido como incomum, pois ele era sempre do contra. Já enraivado com o ocorrido, o carroceiro resolveu tirar satisfações com o vendeiro. Antes disso encontrou o Padre Prudente e relatou o sucedido. O padre deu-lhe conselhos de modo a deixar Amâncio de lado. Disse-lhe que “quando a conversa de um desmoraliza o outro, é porque o outro já estava desmoralizado”. Portanto, nada pegaria nele, que era um homem bom.

Geminiano ficou satisfeito com as palavras do vigário e pôs-se a matutar, gerindo a seguinte frase filosófica: “a fala de cada um devia ser dada em metros, quando ele nasce. Assim quem falasse à toa, ia desperdiçando sua metragem, um belo dia abria a boca e só saía vento”.

Nota:
Caros leitores, eu também não sei quem são esses visitantes misteriosos. Quem vocês pensam que sejam? O que estão fazendo em Manarairema? Por que ainda não tiveram contato direto com o povo do lugarejo?

Capítulo 3 a seguir…

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A HORA DOS RUMINANTES (1) – SEU AUTOR

Postado por Lu Dias Carvalho

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José Jacinto Pereira Veiga, conhecido na literatura como José J. Veiga, nasceu em Corumbá/ Goiás, lá pelos idos de 1915 e morreu no Rio de Janeiro em 1999. A sua estréia na literatura foi por volta dos 44 anos de idade com o livro, Os Cavalinhos Platiplanto, um conjunto de 12 contos, com o qual ganhou o prêmio Fábio Prado em 1959.

Além da obra referida acima, José J. Veiga escreveu A Hora dos Ruminantes, A Estranha Máquina Extraviada, Sombras de Reis Barbudos, Os Pecados da Tribo, O Professor Burim e as Quatro Calamidades, De Jogos e Festas, Aquele Mundo Vasabarros, Torvelinho Dia e Noite, A Casca da Serpente, Os Melhores Contos de J. J. Veiga, O Cavalo do Príncipe, O Relógio Belizário, Tajá e Sua Gente e Objetos Turbulentos.

Os livros de J.J. Veiga foram publicados nos Estados Unidos, Inglaterra, México, Espanha, Dinamarca, Suécia, Noruega e Portugal. Ganhou, pelo conjunto de sua obra, a versão 1997 do Prêmio Machado de Assis, em 1997, outorgado pela Academia Brasileira de Letras.

A obra de J.J. Veiga foi chamada de “literatura fantástica” apesar de o próprio autor não aceitar tal rótulo. A grande consagração do escritor deu-se com as duas mais importantes obras de seu acervo: A Hora dos Ruminantes (1966) e Sombras de Reis Barbudos (1972).

Dentre os livros de José J. Veiga, nenhum foi mais lido de que A Hora dos Ruminantes que, sem dúvida, é um livro extraordinário, com sua gente de falar simples e pitoresco, fácil de convívio e praticamente sem ambições.

A história, considerada como uma fábula moderna, passa-se num lugarejo pacato, Manarairema, que de uma hora para outra se vê submetido à vontade de homens desconhecidos e misteriosos que, sem nenhum aviso, acabam por se instalar no lugar. Ninguém sabe de onde eles vêm, se ficarão ali ou o que querem. Os habitantes, gente ingênua e simples pega de surpresa, agem como podem, cada um deles guiado por sua psicologia particular.

Os otimistas pensam que os forasteiros chegaram trazendo toucinho, que anda em falta nas redondezas. Uns ficam com a pulga na orelha. Outros se fecham em seus pensamentos. Uns falam em não curvar a cabeça. Outros dizem que vão enfrentar o perigo, se for preciso. Os amedrontados só fazem chorar ante o desconhecido. Tudo é indagação e curiosidade. O que é? O que não é? O que querem? Por que estão ali?

Os homens misteriosos com seus cães e bois mudam completamente a pacatez da vida de Manarairema, interferindo na vida dos cidadãos, para o bem ou para o mal. Isso é o que iremos ver nesta série de artigos que ora se inicia.

Nota:
Fã que sou de A Hora dos Ruminantes, vou tentar contar o livro, em alguns capítulos, como fiz com o livro de Marc Boulet sobre os dalits. Espero que gostem.

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FOTOGRAFIA – A OITAVA ARTE

Autoria de Lu Dias Carvalho

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 O nosso querido Aurélio define fotografia como um Processo de formar e fixar sobre uma emulsão fotossensível a imagem dum objeto, e que compreende, usualmente, duas fases distintas: na primeira, a emulsão é impressionada pela luz, e sobre ela se forma, por meio dum sistema óptico, a imagem do objeto; na segunda, a emulsão impressionada é tratada por meio de reagentes químicos que revelam e fixam, permanentemente, a imagem desejada.”.

O francês Joseph Nicéphore Niépce iniciou os seus experimentos fotográficos em 1793. A princípio, as imagens obtidas por Joseph desapareciam muito depressa. Somente em 1824 ele obteve imagens que permaneciam por mais tempo, vindo a lograr êxito em 1826, nesse processo ao qual dava o nome de heliografia (gravura com a luz do Sol). A imagem heliográfica, feita com uma placa de estanho derivado de um petróleo fotossensível (Betume da Judeia), exigia que a imagem permanecesse cerca de 8 horas de exposição à luz solar. Embora Joseph tenha chegado à primeira imagem fotográfica, sabe-se que muitos pesquisadores participaram do processo, reunindo conhecimentos ao longo de muitos anos, que culminaram na invenção da fotografia.

 Quem nunca ouviu falar numa máquina Kodak? Pois foi ela a responsável pelo boom da fotografia, quando a partir de 1888, a empresa multinacional Kodak (Eastman Kodac Company), fundada por um estadunidense, George Eastman, também inventor do filme fotográfico, usou como campanha o fato de que todos poderiam tirar suas fotos, sem ser necessário recorrer a um fotógrafo profissional.

 É interessante notar que os princípios fundamentais da fotografia continuam os mesmos, desde o aparecimento do filme fotográfico colorido, ou película fotográfica, no entanto, a tecnologia tem trazido melhorias inimagináveis na qualidade das imagens, rapidez nas etapas de produção e, mais importante, reduzido consideravelmente os custos. Tudo isso junto contribuiu para popularizar a fotografia e transformá-la em robe para muitos.

 Com a chegada da tecnologia digital, grandes mudanças vêm se processando no mundo da fotografia. Nunca foi tão fácil fotografar como nos dias de hoje. Os equipamentos estão cada vez mais sofisticados, oferecendo imagens cada vez melhores, fáceis de serem manuseados e com preços bem acessíveis. Atualmente, todo mundo pode ser jornalista, colhendo o fato na hora e distribuindo a imagem através da internet. Podemos dizer que os celulares são hoje os olhos do mundo. Os cliques acontecem nos lugares mais remotos do planeta, fazendo parte do cotidiano.

A fotografia nasceu em preto e branco (P&B), ou seja, com o preto sobre o branco, no início do século XIX. Mas hoje, apenas os grandes fotógrafos ou os aficionados por fotografia ainda preferem o P&B. Tais fotografias são mais ricas em tonalidades, tendo um alcance dinâmico (a faixa de luminância que uma câmara fotográfica consegue captar, ou os limites dessa faixa), maior do que a colorida.

 Apesar dos avanços da fotografia digital, a fotografia “líquida” continua, pois os amadores e grandes artistas qualificados continuam fazendo uso de materiais e técnicas tradicionais.

Curiosidades

Existem, basicamente, quatro gêneros de fotografia jornalística:

  1. Fotografias sociais – onde se incluem a fotografia política, de economia e negócios e as fotografias de fatos gerais dos acontecimentos da cidade, do estado e do país, incluindo a fotografia de tragédia.
  2. Fotografias de esporte – Nessa categoria, a quantidade de informações é o mais importante e o que influi na sua publicação.
  3. Fotografias culturais – Esse tipo de fotografia tem como função chamar a atenção para a notícia antes de ela ser lida e nisso a fotografia é única. Neste item podemos colocar um grande segundo grupo, a esportiva, pois no fotojornalismo o que mais vende depois da fotografia policial é a esportiva.
  4. Fotografias policiais – quase todos os jornais exploram o sensacionalismo para vender mais jornais. Pode-se dizer que há uma rivalidade entre os jornais para ver qual deles mostra a cena mais chocante.
  • Fotógrafo é a pessoa que tira (registra) fotografia, usando uma câmera. É geralmente considerado um artista, pois faz seu produto (a foto) com a mesma dedicação e da mesma forma que qualquer outro artista visual.
  • Faz parte da cultura brasileira a figura do fotógrafo lambe-lambe. Os fotógrafos ambulantes surgiram nas primeiras décadas do século XX, trabalhando em praças e parques.
  • A fotografia serve um vasto campo de assuntos e objetivos, por isso, foram criadas especializações, sendo as mais conhecidas: a foto reportagem (de eventos sociais), moda, fotojornalismo, paisagem, retrato e a publicitária  (arte da fotografia de objetos em estúdio).
  • George Eastman, fundador da Kodak e inventor do filme fotográfico, cometeu suicídio com um tiro de arma de fogo no coração e deixou uma nota de suicídio, onde dizia somente:

           “Para os meus amigos. Meu trabalho está feito. Por que esperar?“.

(*) Imagem da primeira fotografia permanente do mundo feita por Nicéphore Niépce, em 1826. / Imagem da primeira fotografia colorida da história, tirada por  James Clerk Maxwell, em 1861.

Fonte de pesquisa:
Wikipédia

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