GUEIXA (II) – A INICIANTE

Autoria de Lu Dias Carvalho

  gueixa II

Na época da grande recessão econômica japonesa, muitas menininhas eram vendidas por suas famílias, que não as podiam manter, para casas especializadas (okiyas) em preparar gueixas. Depois de compradas, as pequeninas eram levadas normalmente a uma mulher idosa, com muita tarimba no ramo, que as punha nuas e examinava-as dos pés à cabeça, como se fossem um ser inanimado. Mexia-lhes no seio, apalpava-lhes as nádegas e terminavam com o golpe fatal: afastava-lhes os joelhos, metia as mãos entre as pernas e, com os dedos, realizavam a prova do toque, para certificar-se de que eram virgens. Aquelas, que não passavam no teste para ser gueixas, eram encaminhadas para os bordéis.

Uma vez no okiya, a criança era submetida aos serviços mais rudes, até que se iniciasse o seu treinamento para a futura profissão. Nunca podia desobedecer à dona do okiya, a quem chamava de mamãe e apanhava por qualquer coisa. Seu treinamento consistia em frequentar a escola, onde teria aulas de música, dança, canto, cerimônia do chá, etiquetas e tudo aquilo que viesse a transformá-la numa companhia perfeita para os homens, pois a função de uma gueixa era entretê-los. Deveria, sobretudo, aprender a tocar um instrumento de cordas chamado shamisen.

A aspirante a gueixa era registrada num cartório e, além das aulas, deveria observar a gueixa da casa, para aprender a usar maquilagem e vestir o quimono, que obedecia a um ritual todo especial. E, por falar em maquilagem, houve uma época em que as gueixas usavam uma espécie de maquilagem branca, conhecida como “argila chinesa”, que tinha chumbo na base. Descobriu-se, tempos depois, que essa argila era venenosa. O estrago estava feito. As usuárias de tal argila ficaram com a pele arruinada, o pescoço amarelo e enrugado.

A garotinha, candidata a gueixa, era um investimento em longo prazo. Todos os gastos eram debitados em sua conta, até mesmo um objeto que quebrasse. Tudo, no futuro, deveria ser pago, acrescido de juros altos. Caso infringisse uma das regras abaixo, teria a vida arruinada, passando a ser serviçal do okiya:

  • tentar fugir;
  • tornar-se impopular com suas professoras;
  • não praticar as várias artes que lhe iam sendo ensinadas.

Quando a aspirante a gueixa torna-se uma gueixa aprendiz, ela pinta o rosto de branco pela primeira vez e passa a ser oficialmente conhecida com um novo nome. Seu cabelo passa a ser arrumado com o estilo conhecido como “pêssego partido”.

A dança é a mais importante das artes de uma gueixa. Talvez só a cerimônia do chá pode se comparada à riqueza da tradição da dança. Por isso, todas as gueixas aprendizes têm de estudar dança. Mas nem todas têm talento para dançar, por isso, só as mais promissoras e bonitas serão encorajadas a se tornar dançarinas, em vez de serem cantoras ou tocadoras de shamisen. Quando dançam, o rosto precisa permanecer inexpressivo, como se fosse uma máscara usada no teatro . Também precisam aprender a mover a parte superior do corpo, independente da inferior.

A maquiagem de uma gueixa é um capítulo à parte. Sem essa, ela não passa de uma mulher comum. Rosto e pescoço são pintados com uma pasta branca. Mas um pedacinho da pele nua, em torno da linha do couro cabeludo, não é maquiado. Dizem que os japoneses sentem grande atração pelo pescoço de uma mulher, assim como os ocidentais sentem atração pelas pernas, seios ou nádegas. Normalmente as gueixas deixam as golas de seus quimonos escancaradas atrás, para que os homens vejam seus pescoços. Quanto mais a maquiagem parecer uma máscara, mais erotizados ficam eles.

Colocar o quimono não é tarefa fácil, pois todos eles possuem o mesmo comprimento, não importando o tamanho da usuária.  Por isso existem pessoas especiais, cuja função é ajudar a vesti-los, de modo que o traje adapte-se aos contornos do corpo, o que demanda muito tempo.

Em razão dos elaborados penteados, as gueixas não lavam os cabelos todos os dias, sendo as caspas um grande problema entre elas, que possuem um jeito especial de dormir, para não desmanchar o penteado. Usam um suporte para a base do pescoço, de modo que o cabelo fica suspenso no ar. As gueixas também são extremamente supersticiosas. Nada fazem antes de consultarem um almanaque, onde buscam as datas auspiciosas.

Nota: Imagem copiada de
http://comunidademib.blogspot.com.br/2010/12/verdade-sobre-as-gueixas.html

Fonte de pesquisa:
Memórias de uma Gueixa/ Arthur Golden

 

Views: 6

GUEIXA (I) – TODO HOMEM QUER UMA

Autoria de Lu Dias Carvalho

gueixa I


Apesar de conhecer muito pouco sobre a vida de uma gueixa, sobretudo no que tange a seu altíssimo custo financeiro, todo homem gostaria de ter uma. Para nós ocidentais, uma gueixa é, sobretudo, uma mulher servil, preparada para agradar os homens e apenas dizer amém. Mas a verdade não é bem essa, como escreveu Arthur Golden em seu livro Memórias de uma Gueixa.

Arthur Golden, embora estadunidense, é formado em história da arte e mestre em história do Japão. Além disso, trabalhou como jornalista em Tóquio, no início da década de 80. Os personagens de seu livro são todos fictícios, mas os fatos históricos, que contam o dia-a-dia de uma gueixa nos anos de 30 e 40, são baseados em extensas pesquisas, inclusive ele teve contato com Mineko Iwasaki, umas das principais gueixas de Gion (bairro das gueixas em Kioto), nos anos 60 e 70, embora alguns digam que Mineko processou o autor posteriormente, por ter deturpado suas palavras. Mas quem nos garante que ela não tenha sofrido pressão por parte do governo?

Segundo Arthur Golden, todas as pessoas que conheceu, e que ainda moram em Kioto, pediram-lhe que não fosse muito franco na história de seu livro. Percebe-se que o Japão tem grande preocupação em manter a decantada delicadeza de suas gueixas, até como forma de propaganda turística. Ainda bem que o autor não aceitou os pedidos feitos, sendo muito honesto ao escrever seu livro. Nele, percebemos com clareza que a vida de uma gueixa não tem todo o glamour que nos é passado.  Ela é cheia de exploração por parte das donas das casas, onde ficam as aspirantes ao cargo e as profissionais, assim como pelas donas das casas de chá. Há muito sofrimento em toda a história. Mas este assunto eu vou deixar para o próximo texto. Fiquemos agora com mais algumas curiosidades sobre o tema.

Contam algumas fontes que inicialmente as gueixas eram homens. Artistas que trabalhavam com o entretenimento, pois as mulheres encontravam-se sob o jugo masculino. Eles não apenas cuidavam das conversas, como dançavam e elogiavam nobres e aristocratas. Somente no século 18 é que as garotas deram entrada no cenário, travando uma briga com as prostitutas. Seja lá como for, o governo resolveu meter o bedelho e fez uma série de determinações, dentre elas a de que as meninas não poderiam se apresentar sozinhas, de modo a coibir o sexo. Com a proibição, os clientes ficaram ainda mais fissurados, pois o que não é visto, acaba sendo mais desejado.

Os anos da recessão japonesa foram penosos para as menininhas, que jamais pensariam em se transformar em gueixas, se não fosse pelas agruras passadas por suas famílias. Muitos pais, sem ter como manter sua prole, passaram a vender as filhas para as casas responsáveis pela formação das superdelicadas profissionais.

Curiosidade:

Segundo a enciclopédia japonesa Kondasha, os primeiros registros da palavra gueixa datam por volta de 1750. Nessa época, a atividade de boa parte das gueixas esteve circunscrita aos yoshiwara, chamados “quarteirões do prazer“, locais onde também prostitutas e cortesãs exerciam suas atividades, com a permissão do governo. Vem daí o confuso envolvimento dessas mulheres com a sexualidade e a prostituição. Nesse tempo, as gueixas eram claramente orientadas por leis a não oferecer esse tipo de serviço. “Mas como essas leis eram renovadas com certa constância, isso é um sinal de que deviam ser freqüentemente desobedecidas“, acrescenta o professor e pesquisador Lao Kawashima, ex-diretor da Aliança Cultural Brasil Japão. Ele conta que ainda hoje as gueixas são sensíveis ao assunto. “Tanto a prostituição quanto a atividade das gueixas eram consideradas legais no Japão até a década de 50, quando o meretrício foi proibido e passou para a marginalidade. Ou seja, pelo mero aspecto técnico, são coisas bastante diferentes. Mas na prática, nem sempre é tão simples”, pondera ele.

Nota: Imagem retirada de http://sweetasiangeek.blogspot.com.br/2011/10/as-gueixas.html

Fonte de pesquisa:
Memórias de uma gueixa/ Arthur Golden
Wikipédia

Views: 9

HARRY POTTER – PRODÍGIO CONTEMPORÂNEO

Autoria de Lu Dias Carvalho

hapo  hapo a

Embora muitos tenham decretado o fim da era dos livros impressos, ainda não chegamos isso, graças a Deus, para a alegria dos leitores, que fazem questão de manuseá-los.

Para provar que os livros impressos continuam firmes e fortes, está aí Harry Potter, série de aventuras fantásticas, cuja autora vende livros a rodo. A série é, sem dúvida, o maior prodígio do mundo contemporâneo, mesmo sendo escrita com a antiga tecnologia da tinta preta sobre o papel branco.

 J.K. Rowling, britânica que passou por muitas dificuldades antes de atingir o sucesso como escritora, é a responsável por sete livros da famosa e premiada série Harry Porter e de três pequenos livros relacionados a Harry Potter. Ela é hoje a mulher mais rica na história da literatura. O livro mais vendido da série foi Harry Potter e a Pedra Filosofal.

A maioria da narrativa da série passa na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, com destaque para o combate que se trava entre Harry Potter e o bruxo do Mal, Lord Voldemort. Temas como amizade, coragem, responsabilidade, ambição, escolhas, preconceito, crescimento, responsabilidade moral e as complexidades sobre a vida e a morte são explorados na temática. O cenário é um mundo mágico com seus próprios habitantes e modo de viver.

Os sete livros deram origem a oito filmes de grande bilheteria, com o último, Harry Potter e as Relíquias da Morte, sendo dividido em duas partes: uma lançada em Novembro de 2010 e a outra com lançamento para Julho de 2011, que finalizará a saga do menino feiticeiro.

Diversas opiniões tentam explicar o sucesso da série. Alguns dizem que a autora conseguiu repassar para seus livros os valores que definem a nova geração de nossa época: tecnologia, diversidade, conhecimento, família, ética e globalização, misturando o racional ao sobrenatural. Outros avaliam que, através do cinema, os jovens têm a oportunidade de confrontar a si mesmos. O fato é que, quer como a série mais famosa do cinema, ou como a série infanto-juvenil de livros mais vendidos, Harry Porter agrega em torno de si uma legião de fãs que cresce mais e mais, levando valores e posturas aos jovens de hoje.

Os livros de Rowling, publicados nos anos de 1997 até 2007, já foram traduzidos em 69 idiomas e venderam quatrocentos milhões de exemplares. Comprovadamente é a série infanto-juvenil mais vendida em toda a história. E já é a franquia com maior êxito em toda a história do cinema.

Se toda a unanimidade é burra, como dizia Nélson Rodrigues, em uma de suas frases de efeito, Harry Porter também possui afetos e desafetos. O psicólogo Robin Rosenberg assim se coloca: J.K. Rowling cria um mundo completo. Ela fornece a seus fãs a possibilidade de unir suas imaginações à dela e viver nesse mundo fantástico.

O crítico americano Harold Bloom, ao contrário, acha a série perniciosa: Trata-se de subliteratura, um catálogo de lugares comuns. Os livros e os filmes induzem o jovem a acreditar em bobagens como magia negra e superstição e que sua vida pode mudar com uma varinha de condão. O que eles precisam é de ler os clássicos da literatura fantástica. Enquanto Ari Armstrong, cientista político americano, afirma: A obra de Rowling é um recado forte de que uma vida virtuosa vale a pena.

A crítica A. S. Byatt fala sobre a série: Uma colcha de retalhos inteligente de idéias recolhidas de todo o tipos de literatura infantil […], escrita para pessoas cuja imaginação está confinada aos desenhos animados da TV, e aos exagerados […] mundos-espelho das novelas, reality shows e fofoca de celebridades.

O Vaticano, por sua vez, em 2003 condenou a série, afirmando que: Sua sedução sutil poderia abalar a alma da cristandade antes que ela pudesse se desenvolver apropriadamente. mas, em 2009, mudou seu parecer: Harry Porter prega valores como a amizade, altruísmo, lealdade e autossacrifício

No novo livro e novo filme, Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1, o bruxo mirim encontra-se com dois baitas problemas: a perda de seu querido mestre Dumbledore e a perseguição de Lord Voldmort e os Comensais da Morte. Isso porque o pequeno órfão, escolhido pelas fortes forças da magia com a finalidade de salvar o mundo do Mal, ao completar 17 anos e entrando na idade adulta, é privado da proteção que tinha, quando era mais novo. Suas únicas armas serão a inteligência e a ajuda de seus grandes amigos Hermione e Ron.

Alguns críticos torcem o nariz para o sétimo filme da série, Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1, a ponto de achar que o fôlego criativo do diretor está se esgotando. Alegam que é um filme esticado, dispersivo e sem ritmo. Trocando em miúdos, só faz encher linguiça e não vêem razão para dividir o livro em dois filmes. De modo que se situa bem longe da criatividade vista em O Prisioneiro de Azkaban, O Cálice de Fogo e O Enigma do Príncipe.

As 7 lições de Harry Potter
1. Agir com ética.
2. Adquirir conhecimento.
3. Lidar com a diversidade.
. Usar tecnologia.
5. Reconstruiu a família.
6. Administrar a globalização.
7. Desenvolver a paciência.

Sinopse dos livros da saga:
Harry Potter e a Pedra Filosofal – A saga inicial traz um menino ingênuo que não entende as coisas estranhas que acontecem a sua volta. Tudo muda quando ele recebe a carta-convite da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. É na escola que ele descobre a sua fama como o “menino que sobreviveu”. Harry ficou vivo após o ataque de Lord Voldemort, seu principal inimigo.

Harry Potter e a Câmara Secreta – Harry surpreende os amigos Ron e Hermione ao demonstrar sua capacidade de falar com cobras. Segundo uma antiga lenda, o herdeiro de Salazar Sonserina abriria a câmara secreta para libertar o mortal basilisco, monstro que é misto de serpente e galo. A trama se desenrola com Harry tentando provar que não controla a serpente assassina e tentando descobrir o verdadeiro responsável por abrir a câmara.

Harry Potter e o Cálice de Fogo – Harry participa do famoso torneio tribruxo, que reúne escolas de magia de outros países, e acaba por ver renascer e enfrentar o seu pior inimigo, Lord Voldemort. E o pior: ninguém parece acreditar no que Harry Potter diz. O herói passa, neste livro, por uma crise de credibilidade.

Harry Potter e o Enigma do Príncipe – O livro traz, ao mesmo tempo, tristeza para os fãs da série que perdem um de seus personagens favoritos, e também uma boa dose de suspense com o enigma, o qual é resolvido parcialmente no livro, deixando boa parte das respostas para o último livro.

Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban – A história é uma das mais bem amarradas de toda a saga. Harry consegue respostas sobre os seus pais e seu passado, além de revelações importantes para a compreensão dos próximos livros.

Harry Potter e a Ordem da Fênix – a saga caminha para o final, e Harry descobre que seu nome está envolvido em uma antiga profecia. O bruxo começa a enfrentar problemas por conta de sua cicatriz em formato de raio. O leitor se dá conta que há muito mais semelhanças entre Harry e Voldemort. O livro traz duelos mágicos entre a “ordem” e os comensais da morte. As brigas tomam uma proporção nunca vista antes nos outros livros.

Harry Potter e as Relíquias da Morte – As respostas que Harry buscava por toda a série são respondidas, além de uma batalha final com Lorde Voldemort que acaba por envolver todos seus amigos de Hogwarts.

Fontes de Pesquisa
Revista Época de 15 de novembro/2010

Revista Veja de 24 de novembro/2010
Wikipédia
http://www.abril.com.br/noticia/diversao/no_292574.shtml

Views: 9

COMER, REZAR E AMAR

Autoria de Lu Dias Carvalho

coream

A escritora americana Elizabeth Gilbert não poderia imaginar que o seu livro Comer, Rezar e Amar, lançado em 2006 e presente na lista dos mais lidos até hoje, e já traduzido para trinta idiomas, pudesse ser um best-seller, que viria a se transformar num filme. Provavelmente o sucesso do livro deve-se á simplicidade da linguagem, ao fato de que muitas mulheres se identificaram com a história da autora e com a preguiça de muitos para ler grandes obras da literatura.

Na sua autobiografia, Elizabeth Gilbert conta como conseguiu superar o final de seu casamento, quando dele saiu sem o apartamento, o bom emprego jogado para o alto e emocionalmente para baixo. Em vez das comuns lamúrias de que se fazem vítimas as mulheres, ao saírem de um relacionamento, a escritora diz que sacudiu a poeira, fez as malas e foi viajar mundo afora. Viveu em Roma, num retiro espiritual, na Índia e em Bali (Indonésia). Resta lembrar que isso só é permitido a quem tem dinheiro. Quem não o tem, o máximo que pode fazer é visitar os parentes, até que eles se cansem do chororô e mandem a lamentosa choramingar em outras freguesias. Aí não tem reza que segure. No muito, pode comer até ficar balofa e mais cheia de rabugem.

O fato é que Liz Gilbert “superou” tão bem suas mazelas, que pouco tempo depois já estava casada com um nosso conterrâneo, José Lauro Nunes, gaúcho, apelidado de Felipe, embora ela tivesse jurado, de pés juntos, que jamais voltaria a se casar. Como é fugaz a constância humana. A escritora está tão bem, que já engatilhou um segundo livro, Comprometida, que mostra como ela anda mais feliz do que pinto no lixo.

Voltando ao livro, Elizabeth Gilbert busca, através do autoconhecimento e da observação das coisas do cotidiano, superar a “barra” que estava passando, embora não tenha filhos. É fato que, viajando por lugares desconhecidos e bonitos, a barra fica bem mais leve do que a de uma pobre mulher, sem lenço e nem documento, carregando uma prole chorosa nas costas, como as muitas donas gambás espalhadas pelo mundo.

Comer, Rezar e Amar foi adaptado para o cinema e dirigido por Ryan Murphy, tendo Julia Roberts como protagonista, que faz par romântico com Javier Bardem (interpreta o brasileiro Felipe), e levou parcos dez milhões de dólares pelo trabalho de comer, rezar e amar. Contam as más línguas que Júlia tentou recusar o papel, mas acabou apaixonada pelo livro. E, com o maior sacrifício, teve que viver cinco meses entre Itália, Índia e Bali, percurso pavoroso vivido pela autora do livro.

Mas falemos um pouco da história do marido “bonachão” de Elizabeth Gilbert, pois foi ele o responsável pela origem de Comer, Rezar e Amar. Não lhe render, ao menos, um parágrafo seria uma deslealdade para com os amantes do best-seller. Afinal, marido bom ou ruim também é gente.

Contam os anais da história que, certo dia, Liz levantou-se com a pá virada e resolveu chamar o moçoilo no arrocho. Ela estava se sentindo malditamente desafortunada, de modo que precisava partir em busca do seu eu interior. Iria mandar tudo pelos ares e botar o pé na estrada, ou melhor, nos ares. De modo que o verdugo não entendeu muito bem o palavrório da dileta, mas nada fez para reter tão “infeliz” andeja. Sabia o réprobo que mulher, quando encasqueta, não há mandinga que dê jeito. De modo que a infausta foi obrigada a partir para a Itália, lugar tão pavoroso, para a Índia dos mil e um tormentos e para a o lugar mais feio do planeta, Bali. Como eu queria esse sofrimento!

Mas nada se faz neste mundo, sem que o castigo venha a cavalo, alguns até de trem-bala. E assim se cumpriu a profecia: o brutamonte ficou sabendo que a sofrente havia fechado um contrato de duzentos mil dólares com uma editora para, ao retornar a seu país, publicar a saga de seu calvário. E ele, o que ganharia como responsável pelo deslanchar das ideias da ex-mulher? Nadica de nada! E, para redobrar o castigo, ficou sabendo que as memórias da ex-esposa, em que ele é o famigerado carrasco responsável pelo fim do idílio, havia se transformado num best-seller. E mais… num filme.

Eu cá com meus botões, estou morrendo de pena de Michael Cooper, o algoz, responsável por encher a conta de Liz com uma dinheirama de fazer inveja a qualquer mortal. Transformando-a de mulher desafortunada em afortunada mulher. O verdugo não possui nem mesmo uns trocados para encher a pança na Itália dos sabores divinos, encontrar Shiva na multifacetada Índia e apreciar os pagodes (nada tem a ver com os nossos) da maravilhosa Bali.

Segundo Ailin Aleixo, um jornalista da revista Alfa, se o protagonista da história fosse um homem, não seria reconhecido no planeta todo como um “ser forte, com coragem de enfrentar seus mais profundos questionamentos”. Seria chamado de desgraçado, apontado na rua como o bastardo que abandonou a mulher com uma desculpa esfarrapada e foi farrear mundo afora bancado por uma editora machista. Mas Elizabeth virou a Deepak das mocinhas (e das mulheres infelizes, completo eu)…

Para quem não sabe, Michael Cooper é um árduo defensor dos direitos humanos, trabalho que vem fazendo ao longo de sua vida. Já tendo viajado por Kosovo, Mongólia, Irã, Iraque e alguns países da África, ajudando as pessoas atingidas por conflitos armados e desastres naturais, mas sem jamais ter escrito um só livro sobre o assunto, pois tais histórias não interessam à maioria do público.

É por estas e outras que eu me recuso a ler Comer, Rezar e Amar e, muito menos, a ver o filme. Os best-sellers, nos dias de hoje, têm deixado muito a desejar para a literatura. Esta é a modernidade sem nenhuma profundidade. E (des)vivam os livros de auto-ajuda, essas estranhezas que entopem as estantes das livrarias e que todo mundo compra por causa da seleção dos 10+, que dificilmente são mesmo D+.

Fonte de Pesquisa:
Marie Clarie/ outubro de 2010
Alfa/ outubro/2010

Views: 17

A HORA DOS RUMINANTES (FIM) – BOIADA E PARTIDA

Autoria de Lu Dias Carvalho

bp hr 7

Pode ser que alguém dê um boi, para não entrar numa briga, e uma boiada para não sair, mas, quando a boiada extrapola os limites da racionalidade humana, aí a vaca vai pro brejo. E foi exatamente isso que aconteceu em Manarairema. Vamos aos fatos.

A população do povoado não levou muito a sério o fato de um boizinho aparecer ali, outro acolá, mais outro no quintal da casa e assim por diante. Os animais poderiam ter se soltado do campo de algum fazendeiro e ali estavam à procura de pasto novo. Além de tudo eram calmos, tranquilos e confiantes. Quando se cansassem iriam embora.

Mas, caro leitor, não foi bem isso o que ocorreu, para desespero dos manarairenses. Dupliquem a quantidade da cachorrada citada no último acontecimento e terá a real dimensão da quantidade dos ruminantes. E não seria nada mal, se acrescentassem mais um terço ao rol dos já imaginados. Todo o povoado era deles, assim como o horizonte. Todos os outros bichos estavam mortos por falta de espaço, ou puseram os pés no mundo, buscando ar para respirar. Os bois estavam gordos, luzidios e indiferentes. Só havia perigo quando brigavam entre si por mais espaço, pois tudo estremecia e as cercas dos quintais e paredes de adobe iam ao chão.

Contudo, um medo danoso tomava contava da gente do povoado: o estouro da boiada. Sabia que, se isso acontecesse nada ficaria de pé. À noite, quando todos os gatos são pardos, o pavor tomava conta da respiração das pessoas. Nem mesmo as orações, que varavam as cumeeiras das casas e se misturavam ao mugido dos bovídeos, traziam alento. Todos os habitantes estavam reclusos pela falta de espaço, até mesmo para pôr um pé, apenas, fora de casa. E pior, não havia sinal de que os animais fossem embora, fato que estava deixando o povoado numa grande inquietude. Aliado ao desânimo dos habitantes, tudo em volta havia se transformado num mar de urina e excremento, ocasionando dores de cabeça e vômitos. Manarairema morria aos poucos, atolada na merda.

Certa noite, houve um comportamento atípico dos bois, que pareciam espeloteados, berrando, arremetendo o rabo e cavando o chão. Os moradores não deram importância àquilo. Já não tinham mais uma réstia de esperança. Nada mais poderia fazer diferença. A morte seria o fim de tudo. E que ela chegasse. O melhor a fazer seria morrer dormindo.

E certas pessoas mal a madrugada chega e o corpo já pede para ficar na posição vertical. E assim reagiram certos moradores, mesmo sabendo que nada tinham para fazer. Nessa hora, os ouvidos se põem vigilantes, pescando tudo em derredor. E foram elas as primeiras a descobrirem que os ruminantes tinham partido. A notícia, apesar da madrugada, espalhou-se como palha seca ao vento. Era “gente chamando gente, sacudindo gente, arrastando gente para ver. Gente rindo, gente pulando, gente se vestindo às pressas, gente esmurrando portas, gente correndo pelas ruas e gente caindo no mar de urina e esterco”.

O dia seguinte amanheceu num lenga-lenga de chuva, que não dava para lavar a obra deixada pelos bois. À tarde, o sol deu as caras. Geminiano apareceu com a carroça carregada de utensílios. Serrote mal conseguia puxá-la. Diante da indiferença das pessoas gritou:

Na tapera tem muita coisa boa. É só pegar. Os sujeitos foram embora. Deram no pé de madrugada.

Diante da incredulidade das pessoas ele arrematou:

Juro por Deus. Quero ficar cego se estou mentindo. De viventes só ficaram as penosas e os porcos.

Não houve interesse pelo butim. À população de Maneirama era suficiente o consolo de ter se livrado daqueles estranhos intrusos. Fim!

Nota
O leitor deve estar insatisfeito com o final da história. Mas foi assim que aconteceram os fatos. Portanto, não há como dizer exatamente quem eram os homens misteriosos, porque escolheram o povoado de Manarairema, porque travaram amizade com Amâncio, porque enviaram as pestes (bois e cachorros), porque escravizaram Geminiano e porque queriam tanta areia.

Na verdade, José J. Veiga deixou a sua obra aberta, para que o leitor se deleitasse com as dúvidas. É incrível a sua capacidade de transformar sua obra num livro interativo, já naquela época.

Os leitores, que me acompanharam nesta saga, deram respostas a todas as indagações do autor e, paralelamente, construíram histórias brilhantes, com as mais variadas interpretações. De modo que o livro de José J. Veiga foi ricamente reescrito. Ele deve estar muito feliz, lá do outro lado do rio…

Views: 15

A HORA DOS RUMINANTES (6) – INVASÃO DOS CÃES

Autoria de Lu Dias Carvalho

ic hr 6

Se alguém ainda tinha a doce ilusão de que os forasteiros eram pessoas de bem, caiu do cavalo, quando se deparou com um marzão de cachorros, a perder de vista, espalhados por toda o povoado e seus arredores.

Uns três dias antes do ocorrido, o povo de Manarairema captou certa cachorrice no ar. Mesmo de bem longe do acampamento, notou que os bichos estavam esfogueteados e abespinhadiços. Alguns achavam que os animais estavam afaimados e outros que se preparavam para uma caçada.

Segundo Gemi, o melhor conhecedor da situação do lado de lá do rio, aquilo não era cachorros, mas capetas de quatro patas, vindos diretamente do inferno, enviados por Belzebu. Ao ser indagado sobre o número deles, explicou que dúzia e meia morria por dia, o que já dava para se ter uma noção da quantidade da cachorrada dos estranhos.

De repente, não mais que de repente, o cachorrismo dos homens misteriosos se fez presente em todo o povoado. Eles não mais deixavam dúvidas na cabeça dos ingênuos que, até então, acreditavam que vieram trabalhar para o progresso do povoado. Os cachorros alucinados apareciam do nada, enchendo ruas, becos, buracos, calçadas, terreiros, muros, telhados e descampados, obrigando as pessoas a ficarem presas em casa. Até as necessidades fisiológicas a céu aberto, foram suspensas. Ninguém queria uma língua de lixa lambendo certas áreas pudendas.

Manarairema virou uma amotinação de pêlos, dentes, rabos, urina e cocô. Era uma inhaca só. E ainda tinha que conviver com o rosnado, uivos, choramingos e o raspa-raspa canino. Todas as aves domésticas foram estraçalhadas num piscar de olhos e os gatos sumiram o lugar. Não havia tiro de espingarda, água quente ou pedrada que os enxotasse. Se cinco saíam de perto de uma janela, outros dez tomavam o lugar. E pior, ninguém sabia o que buscavam.

Os habitantes do povoado, lacrados em suas casas, sem que um fiapo de ar entrasse pelas janelas ou portas e ainda com medo de que lhes caíssem os bichos sobre as cabeças, eram obrigados a engolir a fumaça do fogão à lenha, sob os ganidos incessantes dos cães. Ali, nada podiam fazer a não rezar por um milagre.

Depois de passada a laúza, houve gente contando que os bichos entraram em sua casa, sem que soubesse por onde passaram. Uns saíam arrastando chinelos e roupas pelos dentes, enquanto outros descarregavam a bexiga ou os intestinos em qualquer lugar da casa. A seguir saíam abanando o rabo, como se nada tivessem feito.

Como o que não tem remédio, remediado está, assim que a população percebeu que os animais não mordiam ninguém e tampouco estavam com pressa de ir embora, começaram a deixar suas casas para travar relacionamento com os cães, que passaram a ser aceitos como se fossem antigos moradores da cidade, recebendo toda sorte de mimos, causando humilhação nos legítimos cachorros do povoado, que passaram a ser tratados como cães de segunda classe.

Contudo, certa tarde, no principiar do entardecer, Manarairema teve uma súbita surpresa: os amigos caninos escafederam-se, sem despedidas ou ranger de dentes, como se guiados pela flauta de Hamelin, em direção ao acampamento dos forasteiros, deixando para trás um mar, ainda maior, de cacas e um bodum de revirar os bofes. Os cachorros foram, literalmente, soltos na gente do povoado e, depois, chamados de volta. Ninguém conseguia intrujar o motivo de tanta humilhação. Afinal de contas, o que queriam aqueles homens?

Apesar de tudo, Amâncio ainda teve o desplante de rosnar na porta de sua venda:

Eu estou com os homens, o resto é muxingo de gongomé macho. Quem não gostar, que tire a ceroula e pise em cima.

 A seguir o capítulo final.

Views: 4