O CÓDIGO HAYS

Autoria de Lu Dias Carvalho

Proinema
Os filmes não dispõem de qualquer característica que os redima e justifique a sua existência. (Chicago Tribune/ 1907)

Lixo pecaminoso e abominável. (Ramsay MacDonald/ Primeiro ministro britânico)

A arte do cinema é efêmera e parasítica. (Journal Education/1958)

Poucos de nós já ouviram falar sobre o Código Hays, que tinha como objetivo colocar bridão no cinema. Como pode perceber o leitor, os donos da verdade só mudam de época, mas continuam os mesmos, dentre eles os religiosos fanáticos que odeiam o Estado laico.

Como a Sétima Arte era democrática e única, além de ser imediata e de fácil acesso, logo começou a ser questionada pelos detentores do poder moral e político. Achavam eles que o cinema se espalhava com muita rapidez, de modo que sua influência só poderia ser maléfica. O medo tomou conta dos “donos” do mundo. E o cinema viu-se no banco dos réus, como o pior dos pecadores ou o mais abominável dos devassos.

Crimes: vulgarizar, idiotizar, incentivar a sensualidade, servir de propaganda política, provocar o consumismo exagerado, tramar contra os bons costumes, corromper a mente e a moral dos jovens, transformar o mundo num ambiente caótico e sem governança. Portanto, era preciso amordaçar o monstrengo, a besta-fera que há pouco nascera, antes que devorasse a santa e pia humanidade. Assim, o mundo da utopia continuaria existindo, em prol do bem geral de todas as nações, enquanto fora da tela a verdade crua e nua continuava grassando, sem que dela dessem conta os censores.

Os responsáveis pelo “bem comum” caíram com paus e pedras sobre a arte (cinema) ainda criança. Todos aqueles, que se julgavam com poderes para refreá-la, usaram de suas manhas e artimanhas, clamando insistentemente por sistemas de censura. O mais conhecido deles foi o Motion Producers and Distributors of America, cuja lista de restrições tornou-se conhecida como o Código Hays.

Do famigerado código para frente, a nudez libertina, o tráfico de drogas, a escravidão branca (a negra podia), cenas de nascimento, cirurgias, cenas de primeira noite, mulher e homem deitados na mesma cama (ainda que fossem casados), genitália de crianças, beijos excessivos ou prolongados, perversão sexual, miscigenação, e mais uma longa lista de proibições, passaram a ser excluídas dos filmes. E, com isso, muitos filmes de arte foram banidos sob a alegação de que eram apelativos.

O Código Hays foi escrito por um dos líderes do Partido Republicano (EUA), chamado William H. Hays, daí o seu apelido. Entrou em vigor em 1933 e sobreviveu até 1956, embora as mudanças fossem graduais até os meados dos anos de 1960, em razão dos vários movimentos que estavam aparecendo, como a liberação feminina e os hippies. Os cineastas passaram a ignorar as regras do código, fazendo filmes sem a aprovação da censura. Em 1968, o Código Hays cedeu lugar a uma tabela de classificação de filmes, levando em conta a idade do espectador.

Só para se ter uma ideia da rigidez do Código Hays, esse não aprovava o uso das seguintes palavras (já com tradução) no cinema: gata, vadia, prostituta, vampiro, mulher fácil, nádega, homossexual, dedo, gritos de gozo, doença venérea, patife, travesti, testículos, pederasta, arroto, urinol público, etc.

O mais engraçado nessa história é que um grande número de cineastas, como Ernest Lubitsch e Howard Hawk, sentiam o maior prazer em burlar aquelas regras mesquinhas e tolas. E, com a maior perspicácia, eles acabavam se safando delas, bem nos bigodes de seus censores.

Mas, como há mais mistérios entre o céu e a Terra, do que imaginam 10% da nossa massa cinzenta, um obstáculo bem maior do que o Código Hays encontrava-se dentro do próprio cerne do cinema: a sua popularidade. Mas que nonsense! Também acho.

O fato é, meu caro leitor, que assim que “os homens” perceberam que o negócio cinematográfico era uma mina de ouro, o lado comercial, guloso como sempre, tentou segurar as rédeas sozinho, deixando para trás os elementos experimentais e artísticos. Logo, os três principais ramos – produção, distribuição e exibição – começaram as suas manobras de guerra financeira. De modo que, no frigir dos ovos, o poder dos estúdios cresceu, inflou os egos e os bolsos e ainda aspirou a independência do restante. O poder dos diretores virou favas contadas, foi pro beleléu.

O que pode haver de bom em qualquer empreendimento onde o dinheiro é a única tônica? Nada, é claro. Por isso, a mediocridade começou a correr solta no cinema, sob o respaldo do vil metal, que jorrava abundantemente nos cofres dos grandes estúdios. Mas essa história não se restringe àqueles tempos. Ela continua firme nos dias de hoje. A batalha entre os investidores que só pensam na maximização de seus lucros e os criadores da arte, que desejam dar o melhor de si na feitura de bons filmes, continua. Ouso dizer que assim será, já que a humanidade não toma jeito diante da ganância pelo vil metal. Estamos todos condenados. Que entoem o réquiem para a criatividade: requiem aeternam dona eis!

Fontes de Pesquisa:
Tudo sobre Cinema/ Editora Sextante
Wikipédia

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3D – SUICÍDIO OU INOVAÇÃO

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Muitos imaginam que o cinema 3D teve seu início com Avatar/ 2009 (James Cameron). Na verdade, ele nasceu em 1950 nos estúdios de Hollywood. Renasceu em grande pompa com Avatar, que trouxe efeitos mais nítidos e óculos menos desagradáveis.

Avatar (2009) continua sendo o campeão de bilheterias da história do cinema. A pergunta que nos fazemos é se ele é mesmo um bom filme, ou se os milhões de espectadores que o viram, foram seduzidos por sua tecnologia revolucionária. O fato é que os estúdios de Hollywood estão produzindo filmes 3D a todo vapor, talvez obcecados pelo faturamento estrondoso obtido por Avatar. Sem falar que outros filmes com a mesma tecnologia vêm tendo muito sucesso, tais como: Alice no País das Maravilhas, Como Treinar o Seu Dragão e Fúria de Titãs. Mas, nem todos os cinéfilos acham o cinema 3D uma boa ideia.

Roger Ebert, um dos mais respeitados críticos de cinema dos Estados Unidos e jornalista do Chicago Sun-Times, diz odiar o 3D e que muitos diretores, montadores e fotógrafos de cinema concordam com ele. Vejamos os argumentos apresentados pelo brilhante crítico:

1 – É o desperdício de uma dimensão.

Quando alguém assiste a um filme em 2D, a sua mente recebe-o em 3D, usando o princípio da perspectiva, para conseguir a terceira dimensão. De modo que acrescentá-la artificialmente pode ofuscar a ilusão, tornando-a menos convincente. Será que Avatar não teria ido igualmente bem em 2D?

2 – Não acrescenta nada à experiência.

Basta que nos lembremos dos grandes filmes que nos tocaram profundamente. Se fossem em 3D, a emoção teria sido diferente? Um bom filme nos domina completamente a imaginação. Fargo – Uma Comédia de Erros ou Casablanca teriam sido melhores se tivessem sido rodados em 3D?

3 – Pode ser uma distração.

Alguns formatos de filmes em 3D apenas separam os planos visuais, de modo que os objetos movimentam uns na frente dos outros, mas tudo continua em 2D. Enquanto nos filmes em 2D os diretores costumam usar uma diferença de foco, para chamar a atenção do espectador, para o que está à frente ou ao fundo, nos filmes em 3D, a tecnologia sugere que toda a profundidade de campo está nitidamente em foco. Algo totalmente desnecessário.

4 – Pode causar náuseas e dor de cabeça.

Pesquisas feitas com oftalmologistas, por ocasião do lançamento dos televisores 3D (janeiro/2010), comprovam que podemos conviver muito bem com pequeníssimos problemas de vista. Contudo, o 3D oferece uma experiência visual com a qual não estamos acostumados, exigindo um maior esforço mental, o que pode provocar dor de cabeça. Cada olho enxerga coisas a partir de um ângulo ligeiramente diferente. Quando isso é processado no cérebro cria-se a percepção de profundidade. Entretanto, as ilusões, que vemos em três dimensões nos filmes, não estão calibradas da mesma forma que nossos olhos e nosso cérebro. Por isso muitas pessoas sentem dor de cabeça e vista cansada.

5 – É impossível imaginar um drama sério como “Amor sem Escalas” ou “Guerra ao Terror”, em 3D.

A tecnologia parece adequada para produções infantis, animações e filmes como Avatar, que são feitos, principalmente, em computadores.

6 – Os cinemas cobram uma sobretaxa pelo filme em 3D.

Existe certa esperteza no fato. Quando assistimos a um filme em 2D numa sala adaptada ao 3D, os projetores 3D também estão preparados para os filmes em 2D. O cinema usa o mesmo projetor, mas não cobra a mais pelo ingresso. Mas se o filme for em 3D o preço do ingresso sobe, pois a ele se incorpora uma sobretaxa. Muitas vezes, um filme só é exibido em 3D a fim de cobrarem mais pelo ingresso.

Em suma, alega Roger Ebert:

• O 3D não agrega nada de essencial à experiência de ver um filme.

• Para alguns é uma distração irritante.

• Para outros causa náuseas e dor de cabeça.

• São motivados pela venda de custosos equipamentos de projeção e o acréscimo de uma sobretaxa ao valor do ingresso.

• Sua imagem é mais escura do que em 2D.

• É inadequado para produções adultas com alguma seriedade.

• Para o público infantojuvenil, só raramente o 3D oferece uma experiência pela qual valha a pena pagar mais pelo ingresso.

Agora, a tridimensionalidade adentra nas residências através dos televisores 3D. Todos os grandes fabricantes já colocaram seus aparelhos no mercado. O problema para os brasileiros é que as emissoras nacionais de televisão ainda engatinham na produção de programas específicos. Mesmo os filmes blu-ray 3D são muito poucos.

Os interessados no avanço do 3D alegam que haverá uma explosão dos artigos responsáveis pela tridimensionalidade, mas pesquisas indicam que mais de 80% das pessoas no Brasil ainda não têm vontade de comprar tais produtos, alegando que os ganhos visuais são muito pequenos e os preços exorbitantes.

Bem, meu caro leitor, gostaria de saber a sua opinião sobre o cinema 3D. Ele veio para ficar ou se trata apenas de mais um modismo? Você compraria um televisor 3D? Roger Ebert é um retrógrado ou está coberto de razão? Agora a palavra (escrita) é sua.

Fonte de pesquisa:
Revista Veja/ 15 de dezembro de 2010
Wikipédia

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GUEIXA (V) – O MIZUAGE

Autoria de Lu Dias Carvalho

gueixa V
Os homens têm uma espécie de enguia. As mulheres não têm, mas os homens têm…Essa enguia passa a vida toda tentando encontrar um lar. Por sua vez, as mulheres têm cavernas dentro de si, onde as enguias gostam de viver. As enguias são meio territoriais. Quando encontram uma caverna de que gostam, entram nela algum tempo e se remexem lá, para ter certeza de que é uma boa caverna. E quando decidirem que é confortável, marcam a caverna como seu território, cuspindo nela. (Memórias de uma Gueixa)

 Nos idos dos anos 30 e 40, muitas gueixas aprendizes chegavam ao mizuage sem ao menos saber do que se tratava, pois ele ocorria quando elas ainda eram adolescentes. Tampouco participavam dessa ou de qualquer outra negociação. Elas eram o objeto a ser vendido. Não tinham direito a voto ou veto.

Entre todos os momentos especiais na vida de uma gueixa, o mizuage é certamente um deles. A dona do okiya mantém com severidade a virgindade de sua pupila, pois não se deve dar de graça aquilo pelo qual um homem deve pagar. É possível ouvir casos de garotas espertas, que manipulavam para que tal cerimônia acontecesse numa certa época do mês, quando sua caverna recebia as águas do Mar Vermelho. Mas muitos patrocinadores exigem que a debutante passe por um médico, que atestará o selo de sua virgindade.

Como em tudo que diz respeito à tradição da vida das gueixas, a proximidade da hora do mizuage também exige certos rituais. A aspirante à cerimônia presenteia com caixas de ekubo (espécie de bolo de arroz doce) os homens que a favorecem, ou seja, aqueles mais “generosos”, que pedem a sua companhia com mais assiduidade e deixam-lhe boas somas em dinheiro. Receber o presente significa que aceitam entrar na disputa para ser o patrocinador do mizuage da mocinha. Muitas vezes, os candidatos chegam a mais de uma dúzia e competem acirradamente entre si. A cifra final, oferecida pelo troféu, pode ultrapassar milhares de ienes. E a quantia paga pelo vencedor é apregoada aos quatro ventos. Quanto maior for a soma, maior fama terá a gueixa. Alguns homens chegam a ser “especialistas em mizuage”. Gastam tempo e dinheiro à procura deles.

Uma vez realizado o defloramento, algumas gueixas recebem um pacote de ervas chinesas do patrocinador, para tomarem como chá, de modo a evitar uma possível gravidez. O deflorador continua sendo o patrono da gueixa pelo resto da vida, embora nada ganhe com isso, a não ser a fama de ter sido o primeiríssimo. Muitos somem da vida da desvirginada, uma vez cumprida a sua “árdua” missão.

O dinheiro obtido com o mizuage também beneficia a Irmã Mais Velha, a dona da casa de chá, onde se deu a negociação e a dona do okiya.

Segundo informações, atualmente existem pouquíssimas gueixas no Japão e diminui mais e mais o número de aprendizes de gueixas. Dizem que hoje é possível escolher ser gueixa, como se escolhe qualquer outra profissão.

Sugestões sobre o assunto

1 – Memórias de uma Gueixa em livro e filme.

O filme começa nos anos que antecedem à Segunda Guerra Mundial, quando uma criança japonesa chamada Chiyo é vendida pelo pai pescador, habitante de uma vila de pescadores, para uma casa de gueixas. Ela é destinada, durante os primeiros anos, às tarefas domésticas, conforme ditava a tradição. Cresce na dúvida e na esperança de encontrar a família, sem compreender o sentido da vida que leva, até que, por obra do destino, conhece acidentalmente um dos homens mais poderosos do Japão, por quem se apaixona e muda todo o rumo de sua vida, tornando-se uma gueixa de sucesso. Chiyo, que passaria a ser conhecida por Sayuri — seu nome de gueixa — recebe a sua formação de uma das mais conceituadas gueixas do Japão, Mameha, rival de outra, que vive na sua casa (okiya) e que, desde a sua chegada, lhe tem dificultado a vida.

2 – Madame Butterfly (filme)

O Japão era um país quase que totalmente isolado do resto do mundo, até que por volta de 1870 um presidente americano mandou uma expedição de reconhecimento até Sua Majestade Imperial, cujo intuito era forjar laços de amizade com o Império do Sol Nascente. Nas décadas que se seguiram, vários oficiais da marinha americana visitaram o Japão e contraíram matrimônios temporários com jovens japonesas. A história de Cio-Cio-San (Butterfly, ou Borboleta), portanto, se baseia em fatos reais, e descreve as trágicas consequências de um desses matrimônios contraídos com leviandade, por não revelar, por duas décadas, ao seu pretendente, que se tratava de um homem.

3 – Minha vida como gueixa – A verdadeira história de Mineko Iwasaki (livro)

Mineko Iwasaki é a gueixa mais famosa do Japão, mas só agora ficou conhecida no mundo todo. O filme Memórias de uma Gueixa, sucesso de Hollywood, foi inspirado em sua vida. Para escrever a história, o escritor norte-americano Arthur Golden entrevistou Mineko Iwasaki diversas vezes. Ela havia concordado em revelar o fechado universo das gueixas, desde que sua identidade fosse preservada, o que não aconteceu. Mineko move um processo contra o autor, pedindo uma indenização milionária. Além disso, ela reclama que o livro não retrata a realidade das gueixas nem da cultura japonesa.

4 –  Os Segredos das Gueixas (livro)

A cultura japonesa e a figura das gueixas fascinam e despertam o interesse de pessoas em todo o mundo. Nesse livro, o leitor encontra um guia cultural que revela a tradição dessas jovens – marcada por um rigoroso aprendizado, símbolos, danças e maquiagem. Há também belas ilustrações que revelam as gueixas na arte da realização sexual.

5 –  Xógum (livro)

É uma saga sobre o universo mítico dos samurais e das gueixas, numa trama que une política, religião, guerra e romance. Ambientado nos anos 1600, época das grandes navegações e das conquistas de novos mundos, o livro narra a trajetória do piloto inglês John Blackthorne. Depois de quase dois anos embarcado no navio Erasmus, ele aporta na costa do Japão, dividido diante da disputa pela posição de xógum, a mais importante autoridade militar do país.

Fontes de pesquisa:
Memórias de uma Gueixa/ Arthur Golden
Wikipédia

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GUEIXA (IV) – SEU DANNA

Autoria de Lu Dias Carvalho

gueixa IV

 Embora danna seja o termo que uma esposa usa para se referir a seu marido na língua japonesa, a verdade é que uma gueixa não possui um danna na estrita concepção da palavra. Pois uma gueixa jamais se casa. E caso ela opte pelo casamento, terá que abandonar a profissão, o que já aconteceu a muitas delas.

Muitas versões correm sobre a vida sexual das gueixas. Uns consideram-nas apenas acompanhantes inteligentes e educadas de homens que, muitas vezes, cansados da esposa ou namorada ou até mesmo da solidão, buscam a companhia de tais mulheres apenas para conversar e serem entretidos, sem que haja nenhum contato sexual. Outros as consideram como prostitutas de luxo. Entre uma vertente e outra é possível encontrar um meio-termo.

Segundo a tradição, uma gueixa de verdade jamais se entregaria a um homem por uma noite. Seria como manchar a sua reputação a troco de nada. Pode acontecer que um homem não esteja interessado na sua companhia por apenas uma ou duas noites, mas que além de sua presença quer algo mais, por um longo tempo. É aí que entra a presença de um danna.

Não pensem os leitores que as condições para se obter um danna sejam fáceis. São semanas e semanas de negociações. Muitos candidatos entram no páreo, quando são analisadas as vantagens que cada um oferece. Nada de sentimentalismo piegas. O que conta é a “generosidade” oferecida por cada um deles. Ganha quem oferecer mais. E uma vez conhecidas as intenções do principal candidato, assim como suas po$$es, de modo que possa oferecer à gueixa em questão condições adequadas para uma vida extremamente faustosa, essa ficará muitíssimo feliz em aceitar os arranjo$. Seus ganhos sobem consideravelmente depois que é assumida por um danna.

Para se unirem, gueixa e danna passam por uma cerimônia especial. O que não significa um casamento do tipo “até que a morte os separe”, até porque a grande maioria dos dannas é composta por homens casados com cargos de relevância no país. Certas uniões duram apenas seis meses, indo cada um para o seu lado, sem choro e nem velas.

Vimos em um dos textos anteriores, que a dona do okiya paga tudo para que a candidata a gueixa tenha um bom aprendizado. E que tudo é contabilizado na conta da futura gueixa, que terá, no futuro, que pagar yen por yen. De modo que um danna generoso é capaz de saldar a dívida e obter a sua independência, ou seja, ela terá liberdade de mudar de okiya.

No arranjo entre gueixa e danna ele passa a ter as seguintes obrigações:

• pagar parte das dívidas de sua amante;

• cobrir suas despesas mensais (maquiagem, aulas, médicos, alimentação…);

• dar-lhe bons presentes como jóias e quimonos caríssimos;

  • pagar-lhe os tradicionais honorários pelas horas em que ela ficar com ele (como se fosse qualquer outro cliente).

 Os leitores poderão perguntar sobre o que ganha um danna com tal união, se ainda paga os tradicionais honorários? É aí que mora o X da questão. O danado terá “certos privilégios” negados aos mortais comuns menos endinheirados. Mas será que tais privilégios valem tanto dinheiro?

Quer dizer que uma gueixa nunca atravessa com o sinal vermelho? Não é bem assim, pois elas são tão humanas como qualquer mulher. Há casos de gueixas que se deixam ceder pelos caprichos de um homem atraente mesmo num único encontro. Mas correm um risco muito grande de serem descobertas e sujarem o nome. E, se tiverem um danna, o caso é mais sério ainda, pois pode acontecer de a gueixa ficar grávida de seu danna e ele ficará muito chateado, se sua amante parir um filho de outro homem. Mas gueixas que assim agem são incomuns, pois seguir paixão não dá quimono a ninguém. Elas preferem pensar na dinheirama que podem ganhar facilmente, seguindo a tradição.

Uma gueixa é preparada para passar seu tempo encantando homens, mas ela traz consigo um objetivo bem definido: encontrar um danna (ou um bobo, como diz certo amigo meu).

Há um ditado que diz: Uma gueixa sem um danna é como um gato vadio na rua, sem dono que o alimente.

Nota: Imagem copiada de
http://www.cidadeverde.com/arigato/arigato_txt.php?id=24103

Fonte de Pesquisa:
Memórias de uma Gueixa/ Arthur Golden

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GUEIXA (III) – IRMÃS MAIS NOVA E MAIS VELHA

Autoria de Lu Dias Carvalho

gueixa III

 Quando a candidata a gueixa está pronta para debutar como aprendiz, faz-se necessário que ela estabeleça uma relação com uma gueixa experiente e que essa seja mais velha do que ela, nem que seja um só dia a diferença de idade. A escolha por essa madrinha é de grande importância para a menina. Será ela quem a iniciará nos meandros da vida social de uma gueixa de prestígio.

A escolha pela “madrinha ideal” é uma tarefa a que a dona do okiya dedica-se com afinco, pois está em cheque o status social da futura gueixa, ou seja, o quanto de dinheiro ela poderá arrecadar no futuro, caso venha a ter um bom nome na praça. Ao longo do preparo da menina, a “mamãe” disponibiliza todo o capital necessário para sua educação “gueixística”. Ela investiu muito do seu dinheiro e sonha vê-lo voltar às suas mãos o mais rápido possível com os lucros devidos.

Uma cerimônia é realizada para selar a união entre a Irmã Mais Velha (a madrinha) e a Irmã Mais Nova (a debutante). Tal solenidade é executada como se fosse um casamento, onde são selados os laços de amizade, respeito e fidelidade. É como se ambas fossem membros de uma mesma família. Elas passam a se chamar, daí para frente, de Irmã Mais Velha e Irmã Mais Nova, protegendo-se mutuamente.

Mais do que qualquer outra pessoa no mundo, a Irmã Mais Velha torna-se a pessoa mais importante para a Irmã Mais Nova. É com ela que a novatinha vai aprender tudo que se passa no universo das gueixas. Irá aprender desde o modo certo de fingir vergonha, o riso adequado para se usar, quando um homem conta uma piada grosseira, até a quantidade correta de cera para fazer a maquiagem. É madrinha para ninguém botar defeito.

A Irmã Mais Velha tem o maior cuidado em ensinar à sua irmãzinha como atrair a atenção das pessoas que ela precisa conhecer em seu ofício: as donas das casas de chá, o homem que faz perucas para os espetáculos, os chefes de restaurantes e, sobretudo, os homens mais poderosos, ou seja, com mais “money” no currículo. Deve levá-la à noite para as diversões, apresentá-la a clientes benfeitores que conhece. Benfeitores são aqueles que abrem mão da “bufunfa” com generosidade.

Não pensem os leitores que a relação entre as duas irmãs dá-se pela mais absoluta dedicação e solidariedade. Naninanão! O fato é que no frigir dos ovos, com o sucesso adquirido pela Irmã Mais Nova, todos os envolvidos saem ganhando: a Irmã Mais Velha recebe parte dos honorários (ganhos da mais nova); as donas das casas de chá também possuem uma percentagem, além de ter a visita dos fregueses que ali vão consumir bebidas e comidas; a dona do okiya vê crescer o seu lucro e os homens… bem, aqui fica por conta da imaginação dos leitores.

Não pensem que a vida de uma gueixa é um mar de calmaria, pelo menos naquela época (anos de 30 e 40). Onde entra o vil metal a concorrência é acirrada. E não é diferente entre elas. Há uma disputa, não apenas para mostrar quem é a mais importante, como pelo espaço de trabalho. Muitas vezes, grupos são formados, onde elas se protegem mutuamente.

Nota: Imagem copiada de
http://otakuhalls.wordpress.com/2010/08/07/gueixas/

Fonte de Pesquisa:
Memórias de uma Gueixa/ Arthur Golden

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A ESCRAVIDÃO NO MUNDO ATUAL

Autoria de Lu Dias Carvalho

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A escritora chilena, Isabel Allende, sobrinha de Salvador Allende, presidente do Chile morto no golpe militar de 1973, é uma das autoras mais conhecidas da América Latina. Sua obra literária é composta por 15 romances, além de livros de contos e peças de teatro. Seu livro A Casa dos Espíritos, 1982, fez tanto sucesso, que acabou virando filme em 1993. Em 1995 ela lançou o livro Paula, que escreveu para sua filha, que estava em coma devido a um ataque de porfiria. (Porfiria é um grupo de distúrbios herdados ou adquiridos e que se manifestam através de problemas na pele e/ou com complicações neurológicas). Como não sabia se a memória da filha voltaria após a saída do coma, resolveu contar a sua história, para auxiliá-la a se lembrar dos fatos. Paula passa então a ser um retrato autobiográfico. Sua filha não volta do coma e morre um tempo depois.

Isabel Allende acaba de lançar o seu mais novo livro, A Ilha sob o Mar, que conta a saga de uma escrava, no século XIX, no Haiti. Embora alguns possam imaginar que o tema não mais retrata os tempos de hoje, a verdade não é bem assim. A autora diz que o seu livro também serve de alerta para a escravidão, que jaz oculta atualmente. Os movimentos abolicionistas conseguiram abolir a escravidão no mundo apenas oficialmente. A verdade é que a situação hoje é mais caótica, pois é difícil combater o que está oculto, mascarado e clandestino, como é o caso do trabalho escravo, que acontece tanto nos países ricos quanto nos pobres.

Embora todos os países tenham firmado acordos, para acabar com a prática escravagista, diz a autora, ela ainda não foi abolida. Existem atualmente cerca de 27 milhões de escravos em todo o mundo. Só na agricultura, há um milhão de seres escravizados no Paquistão. É a famosa servidão ocasionada por uma dívida que nunca se paga, mesmo que filhos e netos do camponês trabalhem juntos para sanar a dívida. As filhas dão a sua contribuição ao serem vendidas como empregadas domésticas, ou para trabalhar em casas de prostituição.

Embora o Haiti seja um país onde os negros lutaram por sua independência, existem ali milhares de crianças em trabalhos domésticos forçados, tentando sobreviver, pois os pais não podem sustentá-las. No Nepal, diz Isabel que meninas entre 5 e 7 anos são vendidas por uma quantia equivalente a um par de cabras. Em certos países, crianças são negociadas, em troca de dotes, para se casarem. No Sudoeste Asiático o tráfico de pessoas não sofre nenhum controle por parte dos governos.

Isabel Allende define o escravo como alguém que é obrigado a trabalhar contra a sua vontade, sem remuneração alguma, sob ameaça de violência. E diz que isso acontece mesmo nos países considerados de primeiro mundo, onde os imigrantes ilegais trabalham sob a ameaça da violência ou do medo de serem denunciados.

A escritora afirma que as relações humanas não mudaram muito até os dias de hoje. O poder funciona como passe livre para a impunidade. E essa relação de poder não está somente entre o amo e o servo, mas também entre os militares, de modo que um oficial graduado pode subjugar os subalternos. Os carcereiros subjugam os presos. Nas ditaduras, a polícia pode prender, matar e torturar. Mesmo dentro da família é possível ver pai abusando da esposa e dos filhos, etc.

Isabel lamenta o estado atual do Haiti, país de um povo extremamente sofrido, que foi invadido e ocupado várias vezes. Está falido e vive da caridade do mundo. E, para piorar, foi atingido por furacões e terremotos. Muito foi prometido aos haitianos, mas pouco chegou até lá. Não há dinheiro para a reconstrução do país.

A escritora diz que os livros possuem o poder de mudar mentalidades. Ela cita A Cabana do Pai Tomás, livro americano que marcou o movimento abolicionista. Portanto, fica aqui a minha sugestão, para que os leitores coloquem na lista dos livros a serem lidos e presenteados: A Ilha sob o Mar – Isabel Allende/ Editora Bertrand Brasil.

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