FICAR UMA ARARA

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Autoria de Lu Dias Carvalho arara

Ao tomar conhecimento de que o azeite vem sendo adulterado e que o tão propalado “azeite extra virgem” só tem de virgem mesmo a desventurada ingenuidade do cliente, eu fiquei uma arara. Este nosso país é mesmo o paraíso do mau-caratismo. Aqui se adultera tudo, do leite ao remédio, sem o menor pudor, sem dó ou piedade. Fiscalização que é o dever dos poderes constituídos para tal, inexiste. Ou melhor, ela também foi adulterada pelo descaso, pela irresponsabilidade e corrupção dos grandões, aliados nas mamatas, irmanados no molha mão. Querem mesmo é que o povo fique a ver navios, num mato sem cachorro. É preciso botar a boca no trombone, ficar fulo de raiva e cuspir fogo.

O que uma bela e inocente avezinha tem a ver com a sem-vergonhice desse cartel de falsificadores e enganadores? É claro, que coisíssima nenhuma, pois ela só faz embelezar o nosso mundo. Então, por que a arara encontra-se nesta história? Bem, o seu comportamento foi tomado como símbolo das pessoas que se chateiam, que se se encolerizam ou se revoltam com certas coisas com as quais não estão de acordo, como faz a arara que, ao ser contrariada, mostra-se indignada, eriçando as penas, abrindo as asas e  grasnando com sua voz rouca. Ou seja, ela bota a boca no mundo, reclamando de peito aberto e em altos brados para quem quiser ouvir.

Neste nosso país não se pode fazer ouvidos moucos, é preciso ficar com a orelha em pé para tudo. Muito cuidado também com as cirurgias desnecessárias, pois há muita gente de avental branco, com estetoscópio no pescoço, querendo ganhar mais às custas dos ingênuos. Nunca aceite uma só opinião. Busque duas, três. Quase fiquei com os cabelos em pé, fula da vida,  mordida de raiva, ao saber que uma cirurgia a mim indicada era desnecessária. E olhe que o sujeito no comando é um bambambã no pedaço. Fiquei de beiço caído. É preciso estar de olho, minha gente, ficar de venta acesa, senão a vaca vai pro brejo, pois jacaré que dorme de barriga para cima vira bolsa de grã-fina. Quem ficar frosô leva tinta ou sai chamuscado. E se ficar uma arara não resolver a situação, vire uma onça, uma cobra ou o que for necessário. Em suma, bote a casa para baixo. Mostre que bulir em casa de marimbondo é o mesmo que mexer com fogo. Vamos botar vergonha neste país custe o que custar.

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O CAVALO BRANCO (Aula nº 88 D)

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Autoria de Lu Dias Carvalho

A composição intitulada O Cavalo Branco é uma obra de Henri Paul Gauguin (1848-1903). Foi pintada durante sua segunda permanência no Taiti, tendo se transformado num verdadeiro ícone. O artista era dono de um gosto decorativo, tendo desenvolvido uma nova ideia do uso da cor. Na sua tela ele apresenta três cavalos, um deles a beber água, enquanto os outros dois estão sendo montados em pelo por dois personagens nus. O artista usa os tons vermelho, alaranjado, azul e verde com extrema liberdade. Essa sua maneira de empregar as cores a transformou-se mais tarde na bandeira do fauvismo. As gravuras japonesas estiveram por um tempo muito na moda em Paris. E foi nelas que ele baseou a perspectiva desta obra.

O cavalo branco está pintado de verde acinzentado, porque a luz que incide sobre ele foi filtrada através das folhas verdes da grande árvore. É ele que dá título à composição. Encontra-se em primeiro plano, no meio de uma corrente de água azul-escuro que se principia grossa, quase na parte superior da tela, afina-se no meio e espalha-se ao atingir o último terço da composição. O animal traz as pernas dianteiras abertas, entre as quais enfia a cabeça para tomar água. Pode se tratar de um animal sagrado para os haitianos. Acima dele, à esquerda, um cavalo vermelho e seu cavaleiro encontram-se de costas para o observador. À direita encontra-se o cavalo marrom com seu cavaleiro, ambos de perfil, rumando em direção à água.

Uma enorme árvore, tida como certo tipo de hibisco, nasce à direita e segue na diagonal com seus ramos retorcidos, atingindo a parte superior de toda a tela. Na beira da água são vistas em primeiro plano outras formas de vegetação, como lírios e flores imaginadas pelo artista. Não se tem acesso ao céu e ao horizonte. Embora Gauguin gostasse de estar sempre em contato com a natureza, a cena vista é imaginária. É interessante saber que o homem que fez a encomenda da tela ao pintor, recusou-a, sob a alegação de que o cavalo era muito verde.

Ficha técnica
Ano: 1898
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 141 x 91 cm
Localização: Museu de Orsay, França, Paris

Fontes de pesquisa
Enciclopédia dos Museus/ Mirador
http://www.musee-orsay.fr/en/collections/works-in-focus/painting/ _id/the-white-horse-
http://www.gauguin.org/the-white-horse.jsp

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A TOQUE DE CAIXA

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Autoria de Lu Dias Carvalho

tambor

O velho homem, com seu corpo enrugado pelo sol e com as mãos e pés calejados pelo trabalho árduo na lavoura, aproveitou o sábado para ir à cidade comprar querosene para a lamparina e outras coisinhas necessárias para não morrer à míngua, pois o salário pago pelo fazendeiro era a metade do salário mínimo vigente no país, o que já era um miserê. Mas quem há de fiscalizar a vida dos pobres coitados no interior deste mundão de meu Deus, lá onde filho chora e mãe não ouve.

 Já na cidade, o homem tomou umas biritas, certamente das mais ruinzinhas e baratas, uma vez que não podia dar a si nenhum outro prazer, tamanha era a vida miserável que levava, para se esquecer um pouco das mazelas que carregava consigo. Com o sol a pino, não foi difícil a danada subir-lhe pela cachola, dando nó em seus miolos.

Um fato paralelo acontecia na cidade: a visita do deputado estadual mais votado da região para inaugurar uma ponte de dois metros de comprimento. Que perda de tempo! Mas as eleições estavam próximas e era preciso se fazer presente, de modo a não ser esquecido nas urnas. A verborragia começou a encher o ar, saindo do palanque armado no início da ponte, enquanto aguardavam a chegada do político. Foi nesse exato momento que o pobre diabo fazia o caminho de volta para seu casebre.

O lavrador, numa falha da segurança, subiu no bendito palanque e desandou a falar, pondo para fora todo o desprezo com que fora tratado pelo poder público e pela vida. Embasbacados, nenhum dos presentes conseguia tomar qualquer atitude. Mas, quando o deputado chegou, o sujeito foi retirado a toque de caixa e a empurrões pelo delegado, pois a verdade não pode ser dita a quem deve escutá-la.

Como surgiu a expressão a toque de caixa? Quem já assistiu a algum filme épico romano, lembra-se das trombetas enchendo os ares nas proclamações disso ou daquilo. Trombetas essas que foram depois substituídas pelos tambores dos muçulmanos na Europa. De modo que em Portugal, segundo dizem, durante as cerimônias públicas os indivíduos indesejáveis eram expelidos do local ao som do tambor, ou seja, a toque de caixa. Existe também outra explicação que remete ao uso dos tambores nos costumes militares, ou seja, no comando das tropas, tendo a invenção chegado à Europa, através dos muçulmanos que usavam o tambor em seus ritos religiosos e encontros militares. A toque de caixa = rapidamente, a toda pressa…

Fontes de pesquisa:
Blog Brasil Escola
A casa da mãe Joana/  Reinaldo Pimenta

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A PRIMEIRA IMPRESSÃO É A QUE FICA

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Autoria de Lu Dias Carvalho

galinha

Não há quem não se deixe levar pelas primeiras impressões. Sabemos, contudo, que tal caminho esconde muitos abismos e lodaçais. E para reforçar este nosso defeito, diz o ditado popular que é a primeira impressão que fica. Mas não deveria ser assim, para o nosso próprio bem, pois impressão não dá camisa a ninguém, mas a certeza, sim.

Todos nós carregamos uma certa dose de intuição, embora todo julgamento devesse estar alicerçado em paredes firmes. A dona intuição não pode tomar a frente e ir dando o caso por encerrado: gosto ou não gosto e ponto final. Tal avaliação leva-nos muitas vezes a cair numa tremenda esparrela. A gente vê cara, mas não possui raios-X para ver o coração das pessoas. Nem sempre aquilo que nos agradou num primeiro momento, conserva a nossa mesma opinião com o andar da carruagem. Por isso, acabamos muitas vezes dando com os burros n’água, se nos precipitamos nas avaliações.

Devo dizer, a bem da verdade, que os meus burricos estão sempre molhados, coitadinhos. Já devo possuir muitas tropas no fundo dos lagos, rios, mares e oceanos. Estou sempre a fechar os olhos, sem querer enxergar além das aparências, preferindo  apostar na bondade humana. Comigo não existe essa de ficar com um pé na frente e outro atrás, para o meu azar. O fato é que tenho uma grande tendência para acreditar nas pessoas, faça chuva ou faça sol. O meu juízo é sempre pródigo, até que venha a certeira cacetada. Algumas delas têm sido bem doloridas. Mesmo assim, ainda não aprendi que o dia do benefício é a véspera da ingratidão.

As primeiras impressões devem ser consideradas como indicações vagas, sujeitas a verificações. É preciso ter muito cuidado com o lodaçal das simpatias e antipatias instintivas, antes de edificar concepções do bem e do mal, do justo e do injusto, do real e do fictício, da verdade e do errado. A afoiteza foi sempre uma péssima companheira, levando-nos sempre à contrição, pois o apressado acaba comendo cru. Tomadas de posição precipitadas impedem-nos de fazer uso do discernimento e do comedimento.

Nós vamos acumulando enganos ao longo da vida em nossos julgamentos precipitados, pois uma concepção errônea impede-nos de buscar outra que possa ser a certa. Cautela é o caminho a ser seguido. O melhor mesmo é buscar o equilíbrio, até que o tempo – mestre da sabedoria – mostre-nos a verdade, ou pelo menos parte dela, para que não sejamos pegos com as calças na mão. Outro ponto importante para não cairmos em roubadas  é não nos deixarmos levar pela opinião de terceiros, pois, como diz a minha amiga Lena, galinha que anda atrás de pato morre afogada. Assim, só depois de um bom convívio é que se deve dizer: meu anjo da guarda não combina com o de sicrano ou beltrano.

 

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O GRANDE PINHEIRO (Aula nº 88 C)

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Autoria de Lu Dias Carvalho

Lembra-se do pinheiro plantado à beira do Arc, debruçando sua cabeça de longos cabelos sobre o abismo que se abre aos seus pés? O pinheiro que protegia nossos corpos do calor do sol com seus ramos. Ah! Possam os deuses protegê-lo do machado do lenhador! (carta de Cézanne a Zola)

A árvore abalada pela fúria dos ventos / Agita seus galhos despojados no ar / Um imenso cadáver que o mistral balança. (Cézanne) 

O pintor francês Paul Cézanne (1839–1906) era filho do exportador de chapéus Louis-Auguste Cézanne que depois se tornou banqueiro, e de Anne-Elisabeth-Honorine Aubert, tendo nascido na pequena cidade de Aix-en-Provence. Teve duas irmãs, Marie e Anne, nutrindo uma relação mais forte com a primeira que sempre tomava o seu lado, em relação ao autoritarismo do pai. Cézanne e Marie nasceram quando seus pais ainda mantinham uma relação secreta. Cézanne, pintor  impressionista e pós-impressionista, é tido como o precursor do Cubismo.

A composição denominada O Grande Pinheiro é uma obra do artista e encontra-se em solo brasileiro. Faz parte do acervo do MASP desde 1951. Trata-se de uma maravilhosa tela, uma das obras-primas do pintor. A composição tem como personagem central um majestoso pinheiro que ficava no parque do Jas-de-Bouffan, na Provença, já de propriedade do pai do artista.

O grande pinheiro ocupa a parte central da tela, dividindo-a verticalmente. Reina soberano sobre a vegetação que se mostra à sua esquerda e à sua direita, num terreno ligeiramente inclinado. Ele quase alcança o céu.  O vento dobra sua copa para a direita, enquanto seu tronco alto e delgado verga-se para a esquerda, oferecendo resistência. A folhagem do magistral pinheiro se parece com uma cabeleira revolta, tendo ao fundo um tocante céu azul.

O majestoso pinheiro figura na tela como se fosse um gigantesco personagem a receber o observador. Nada há que embote a sua beleza. Esta exuberante paisagem demonstra o nível de beleza a que chegou o grande mestre da pintura, com seu sincretismo maravilhoso de volumes e de tonalidades. O artista criou em sua paisagem uma harmonia de tons azuis e verdes com toques quentes ocasionais nos galhos e na folhagem que captam a tira ocre da estrada que passa à frente do pinheiro.

Ficha técnica
Ano: 1890 a 1896
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 85,5 x 92,5 cm
Localização: Museu de Arte, São Paulo, Brasil

Fontes de pesquisa
Enciclopédia dos Museus/ Mirador
http://sunsite.icm.edu.pl/wm/paint/auth/cezanne/land/great-pine/

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BIPOLARIDADE – NOIVADO DESFEITO

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Autoria de Rebeca Mendes

Eu me relacionei com uma pessoa bipolar durante um ano e três meses. Era um romance dos tempos de faculdade e do qual acabei me reaproximando durante a pandemia. Moramos em cidades diferentes e distantes, então nos vemos a cada mês. Eu não sabia que ele tinha qualquer problema de saúde mental, até presenciar o primeiro episódio de mania (até então não sabíamos que era assim que chamava) logo após o seu aniversário de 32 anos.

Foi tudo difícil. Eu estava muito assustada, sem saber como lidar com o problema. Ele se encontrava extremamente diferente do comportamento habitual. Normalmente é uma pessoa muito tranquila e amorosa, mas durante a fase de mania ficou super agitado, não dormia, inconsequente com as palavras e atitudes e passou a me contar coisas que havia feito sem o meu conhecimento, como conversas com outras mulheres. Aquilo me fez desabar em tristeza e frustração, mas não me sentia no direito de sofrer enquanto ele estava naquele estado lamentável. Passados os dias, ele me pediu perdão e prosseguimos com o nosso relacionamento.

Sete meses depois outro episódio de mania aconteceu. Ele havia parado a medicação por conta própria e sem o conhecimento de ninguém. Durante a crise ouvi mais confissões de traição, mas me senti culpada mais uma vez. Achava egoísmo sofrer e terminar com ele naquela situação. Não me sentia com o direito de abandoná-lo. Passados alguns dias, e com ele já menos instável, recebemos o diagnóstico de transtorno afetivo bipolar. Na hora eu cheguei a sentir até um alívio por saber do que se tratava e ele também. Prometeu-me se comprometer com o tratamento, parou de beber e parecia que tudo daria certo.

Mesmo com o problema de confiança por conta das traições confessadas por ele, o relacionamento seguiu tranquilo. Eu evitava situações de estresse ou gatilhos que pudessem despertar nele outras crises. No entanto, mesmo tomando a medicação e estando bem, ele entrou em mais um episódio de mania. Estávamos muito bem, viajamos no réveillon, fizemos planos para esse ano e, inesperadamente, ele terminou comigo. Este último episódio de mania começou de forma muito sutil e ele logo foi ao psiquiatra para rever a medicação, mas ainda assim o episódio progrediu, tendo dias de altos e baixos.

No último domingo saímos por insistência dele, pois eu não gosto de sair quando ele se encontra nessa situação, para evitar a exposição e o que pode gerar uma experiência desagradável, mas também é difícil negar todos os convites pelo medo de chateá-lo. Encontramos uns três amigos dele num barzinho que já é bem conhecido. Ele tomou um refrigerante, conversou bastante, falou de seus planos para a festa de aniversário. Depois de cerca de duas horas ele me chamou para voltarmos para casa.

Ao chegar em casa, ele se irritou porque eu ainda não tinha lavado a louça e terminou o relacionamento comigo. Entregou-me a aliança e pediu-me para tirar as minhas coisas do quarto. Eu moro a quase 400 km de distância da cidade dele, e tive que pegar o primeiro ônibus para voltar pra casa. Agora eu não sei o que fazer. Não sei se espero a mania passar. Não sei se sigo a minha vida. Estou devastada. Abri mão de muitas coisas pelo relacionamento, até mesmo de sofrer, quando tive motivos ruins e agora nem mesmo sei por que ele terminou o namoro.

Tenho tentado falar com ele, mas está tão frio que é como se nossa relação nunca tivesse existido para ele. Escrevo aqui como um desabafo e como um pedido de ajuda. Minha família e meus amigos não entendem essa relação e me dói muito pensar que eu me doei tanto para não ter o direito de um término digno, com um pouco de carinho e respeito. É possível que ele volte atrás? Hoje o meu pensamento não é na reconciliação e sim que possamos conversar, quando ele estiver lúcido. Recuso-me a aceitar uma separação sem nem mesmo saber a causa.

Ilustração: Ciúmes, 1930, Edvard Munch.

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