A MAGIA DO PONTO DE FUGA

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Autoria do Prof. Pierre Santos

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Quando fiz a análise da “Santa Ceia” de Leonardo, citei o fato de o pintor ter posto no olho direito de Cristo o ‘ponto de fuga’ do que estava em sua mira representar; e disse mais: que, se fizéssemos a projeção de todas as linhas arquitetônicas, todas elas, sem exceção, iriam morrer no olho direito citado. Uma só delas que não fizesse corretamente este percurso, comprometeria composicionalmente todo o conjunto. Para facilitar a visualização deste efeito técnico, tirei uma cópia da obra que inclui no meu texto, fiz a projeção em vermelho das linhas da arquitetura, “escaneei” o quadro assim preparado  para ilustrar este texto.

Só para se compreender melhor ainda, inclui também o afresco “Santíssima Trindade com os doadores” de Tomaso Masaccio, feito na Igreja de Santa Maria Novella, de Florença, Itália (na qual já estive ajudando quando da restauração das pinturas da abside), exatamente a obra em que se usou pela primeira vez na história a perspectiva científica. O ‘ponto de fuga’ foi posto no pé da cruz e para ali, como pode se ver na reprodução anexada, todas as linhas da cobertura do altar convergem, conforme marquei também em vermelho. Tanto aqui, como na obra de Da Vinci, o que se quis atingir foi o trompe l’oeil, literalmente o engana olho, ou seja, a ilusão de ótica, pois o espectador vai ver ali uma profundidade que não existe, a não ser virtualmente. Observe o leitor, que no afresco de Masaccio marquei também, em azul, dois triângulos, que são o ponto de partida para toda a composição que se desenvolveu para delas, um englobando apenas os componentes da Trindade, o outro englobando também Nossa Senhora e São João, deixando de fora o casal dos patrocinadores da obra, ajoelhados nas laterais.

O leitor vai observar também que Masaccio pôs o ‘ponto de fuga’, como disse, na base da cruz, pelo seguinte: tratando-se de um grande afresco feito em parede, o ponto de vista do espectador está abaixo da imitação de altar, em cujo bojo só há o esqueleto de alguém que ali foi inumado, com a legenda: “Já fui o que tu és; ora sou o que tu serás”. Este ponto de vista obriga quem olha o afresco de frente a erguer bem os olhos para ver direito, o que amplia a profundidade da composição num efeito de estéreo-perspectiva, como se pudéssemos subir até ali e, passando por trás da cruz e ir encostar-se à parede de fundo. É uma coisa mágica, não é mesmo? Mais para frente, quando estiver tratando, no momento oportuno, do vestíbulo renascentista, analisarei mais detalhadamente esta obra de Masaccio, pois um montão de coisas ainda há a se falar dela, inclusive de sua teatral inauguração.

1.Leonardo da Vinci, Santa Ceia, Convento della Gracia, Milão, Itália (com as linhas de sua perspectiva)
2.Tomaso Masaccio, Santíssima Trinidade, 1425, Igreja de Santa Maria Novella, Florença.

Um comentário sobre “A MAGIA DO PONTO DE FUGA

  1. Messias

    Professor,

    Muito interessante a sua análise correlacionando ciências exatas e percepção nas artes. Quando se trata de emoções o nosso cérebro felizmente perde a razão para melhor apreciar.

    Messias

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