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Subías – O CANTOR CEGO

Autoria de LuDiasBH

O pintor, desenhista e gravurista espanhol Ramón Baueu y Subías (1746 –1793), irmão mais novo dos pintores Francisco Bayeu e Manuel Bayeu, era cunhado de Francisco de Goya, com quem colaborou em muitas comissões. Recebeu seu treinamento em pintura e desenho com seu irmão Francisco, pessoa com a qual mantinha fortes laços de amizade e trabalho, sendo seu assistente e colaborador. Em Madri ele ganhou uma bolsa de estudos que o levou à Itália.

A composição intitulada O Cantor Cego é uma obra do artista – a presença de um músico cego pedinte numa pintura era muito comum na arte europeia – que apresenta dois personagens masculinos e um cão, ao ar livre, trabalhando em conjunto para obter algum ganho material. Este trabalho tem como objetivo destacar a pobreza dos personagens e sua humildade, ainda que as cores presentes apontem para a harmonia e a elegância, mostrando o cantor cego mais como um poeta.

O cego está sentado no topo de uma elevação revalda. Ele se encontra vestido com uma roupa de um forte azul, segundo costumes da época, tendo por cima uma capa marrom. No seu colo descansa um instrumento musical típico daqueles tempos. Traz ainda uma bolsa de pano pendurada no ombro e um cajado encostado no seu corpo. O jovem guia responsável por guiar o cego, apresenta-se muito mal vestido. Ele se encontra mais abaixo, brincando com um cãozinho que dança sobre as patas traseiras, enquanto ele toca suas castanholas.

Ficha técnica
Ano: 1786
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 93 x 145 cm          
Localização: Museu Nacional do Prado, Madri, Espanha

 Fontes de Pesquisa:
Rococó/ Editora Taschen
http://dbe.rah.es/biografias/8196/ramon-bayeu-y-subias
https://www.wga.hu/html_m/b/bayeu/ramon/blindsin.html

A DEPRESSÃO E O SUICÍDIO

Autoria de LuDiasBH

 Estatisticamente o risco de suicídio em pacientes com depressão-maior é superior do que a população em geral. Contudo, nem todo paciente deprimido tem ideias suicidas, ou seja, não quer dizer que exista um perigo iminente de suicídio. Cada caso precisa ser avaliado (Rodrigo Pessanha de Castro)

 A falta de conscientização no que diz respeito às doenças mentais é um fator preocupante em nosso país. O que vemos na mídia sobre o assunto são informações esporádicas, muitas vezes com um teor tecnicista, incapaz de atingir a maioria da população. Ainda que as pesquisas mostrem que 50% dos adultos estejam predispostos a sofrer de algum tipo de doença mental em algum momento da vida, é lamentável saber que das pessoas acometidas por uma delas apenas cerca de 20% saem em busca de assistência médica, sendo a falta de informação e o preconceito as principais causas para sua banalização. Muitas famílias – mal orientadas – não veem porque gastar dinheiro com uma doença que consideram “irreal” ou “fruto da imaginação” do doente. No rol das doenças mentais encontra-se a depressão (DSM-5) que, ao contrário do que muita gente imagina, não se trata de um tipo de tristeza com tempo marcado para passar, mas, sim, de uma doença altamente perigosa.

A depressão é uma doença e ponto final – quer se queira ou não. Possui inúmeros sintomas e necessita de tratamento imediato. Tem sido assustador o aumento no número de ocorrências de pacientes diagnosticados com depressão. Não se pode ignorá-la sob a pena de o indivíduo ter seu estado de saúde agravado. Quanto mais cedo se buscar ajuda médica melhor, pois o tempo é fundamental para deter o poder destrutivo da doença. A depressão não respeita idade, raça, gênero ou posição social. É hoje a maior causa de incapacidade para o trabalho em todo o mundo, preocupando os planos de saúde e as empresas. O Estado brasileiro não tem mostrado comprometimento com o tratamento e a contenção da doença que a cada ano faz milhares e milhares de vítimas. O SUS além de inoperante, quase sempre não possui vagas. As consultas médicas particulares são extremamente caras, assim como as terapias, sem falar no alto preço dos medicamentos que já estão passando da hora de entrar na lista da chamada “Farmácia Popular”. Aliado a isso, mesmo os que procuram ajuda médica costumam, muitas vezes, ter uma avaliação incorreta sobre sua doença. O fator mais preocupante da depressão é que pode levar ao suicídio. Não são poucas as ocorrências em nosso país.

Os suicídios no Brasil – a menos que sejam de pessoas famosas – não são relatados pela mídia. Embora o número de pessoas que tira a própria vida venha crescendo assustadoramente, isso é abafado pelos meios de comunicação que partem do pressuposto de que a veiculação desse tipo de notícia pode impactar a população, influenciando as pessoas com tendências suicidas. Há certo tipo de convenção profissional extraoficial que elimina os suicídios dos noticiários. Contudo, a OMS (Organização Mundial de Saúde) pensa diferentemente da mídia nacional. Para ela se faz necessário noticiar tais casos, pois entende que o suicídio é um problema de saúde pública que deve ser levado a sério – jamais ignorado. No entanto, defende que a notícia obedeça a determinados critérios, tais como: referir-se ao ato como “suicídio consumado”, jamais “bem sucedido”; somente dados relevantes devem ser apresentados; a notícia deve ocupar somente as páginas internas dos jornais, nunca ser manchetes; não mostrar a cena do suicídio e o método utilizado; evitar exageros; qualquer problema mental que a vítima tiver deverá ser trazido à tona a título de informação e alerta para as famílias.

Sendo a depressão um distúrbio preocupante, seu tratamento deve ser levado a sério, portanto, sem essa de querer esconder ou mitigar o problama. Um familiar – ou mesmo um colega, amigo ou vizinho que tiver mais conhecimento sobre a doença – deverá conversar com a família sobre o assunto, cientificando-a sobre os problemas que podem advir, caso o doente não seja tratado. Caso a pessoa more sozinha, seria um ato de caridade acompanhá-la numa consulta médica, pois, muitas vezes, ela não possui uma real compreensão de seu problema, ou, se possível, notificar sua família. Outra postura importantíssima é ajudar na desmistificação do transtorno depressivo, mostrando que se trata de uma doença grave que em hipótese alguma pode ser banalizada, tratada como “fricote” ou “chilique”.  Depressão não é brincadeira!

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Centro de Valorização da Vida – 188

Fontes de pesquisa:
Segredos da Mente/ Cérebro e Depressão
https://www.fatosdesconhecidos.com.br/por-que-os-jornais-nao-podem-falar-de-suicidio/
https://bhaz.com.br/2017/09/23/imprensa-noticiar-casos-suicidio/

Cassatt – MULHER SENTADA COM…

Autoria de LuDiasBH

A pintora estadunidense Mary Cassat (1844 – 1926) mudou-se para a França em busca de melhores oportunidades em sua arte, uma vez que em seu país as convenções burguesas eram desfavoráveis a seu trabalho. Em Paris ela continuou a sua aprendizagem artística e também passou a expor suas obras no Salão, sendo também a única mulher estadunidense a participar das exposições impressionistas. Isso se deveu, sobretudo, a Edgar Devas – seu amigo e mentor – responsável por inseri-la no grupo dos impressionistas. Seus temas prediletos eram sobre teatros e a Ópera de Paris, interessando-se principalmente pelas mulheres – ansiosas para se exibirem – que iam a tais lugares, servindo o teatro apenas como pano de fundo. Cassat também mostrou mulheres em casa, na lida com seus filhos, como na tela que ora vemos, mas jamais num café. Ela nunca acompanhou seus amigos impressionistas em tais lugares – tidos como próprios de homens e nada respeitáveis para mulheres burguesas.

A composição intitulada Mulher Sentada com Criança no Colo é uma obra da artista. A pintora, nesta tela, volta toda a sua atenção para a criança, enquanto a mãe – de costas para o observador – encontra-se sentada numa volumosa cadeira de braços, cujo encosto oval cobre quase inteiramente suas costas, de frente para o lavatório. Apenas o cabelo escuro enrolado num coque e seu vestido branco determinam-na. A criança rechonchuda e corada encontra-se inteiramente nua, com o braço esquerdo e a cabecinha descansando no ombro esquerdo da mãe. Ela se encontra de frente para o observador e parece ainda meio sonolenta. As duas grandes figuras estão inseridas num pequeno espaço, o que parece ser um interior burguês.

Em frente à mãe e à criança está uma mesa. Nela é visto um jarro dentro de um recipiente de louça, utensílios usados no banho, o que alude à limpeza e também à inocência do bebê. Muitas das obras da pintora nasceram de seus círculos pessoais familiares, ou seja, ela retrata cenas de sua própria classe social.

Ficha técnica
Ano: 1890
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 81 x 65,5 cm           
Localização: Museu de Arte, Filadélfia, EUA

 Fontes de Pesquisa:
Impressionismo/ Editora Taschen
https://www.museobilbao.com/in/obras-maestras/mary-cassatt

APRENDENDO A SER FELIZ

Autoria de LuDiasBH

A felicidade é a transição do espírito para um estado mais perfeito, enquanto o sofrimento é a transição para um estágio inferior. (Baruch Spinoza)

 A alegria não tem efeito apenas sobre a mente, mas principalmente sobre o corpo – a infelicidade o destrói, enquanto a felicidade o regenera e o revigora. (Stefan Klein)

Se múltiplos são os pontos de vista, inúmeras são as definições sobre o que é a felicidade. Quando olhada sob um ponto de vista mais simplificado, trata-se de um estado de espírito que se encontra atrelado à maneira como sentimos e vivemos a vida. Com o chegar da maturidade vamos aprendendo que os problemas possuem a dimensão que damos a eles e que todos são passageiros. Aquilo que nos faz sofrer hoje, amanhã poderá provocar em nós boas risadas. Partindo desta premissa, procurar sempre minimizar os dissabores – o que não significa encobri-los com subterfúgios – é uma boa rota na busca pela felicidade. Necessitamos encarar os aborrecimentos com sabedoria, tentando resolvê-los na medida do possível, sem fazer dos contratempos um bicho de sete cabeças. É claro que tropeços muitas vezes existirão ao perseguirmos tal objetivo, mas sempre podemos voltar ao ponto de partida, recomeçando a caminhada incansavelmente. Não se ganha a felicidade, ela precisa ser trabalhada.

Esperar “grandes” momentos para ser feliz pode ser o mesmo que embarcar numa canoa furada ou passar a existência em brancas nuvens. Isso me faz lembrar a história de uma mulher que ganhou uma camisola do marido em seu aniversário. A peça era tão linda que ela dizia para si mesma que somente a usaria numa ocasião especial. Passaram-se dias, meses e anos sem que encontrasse uma data propícia para fazer uso de seu precioso mimo. Terminou abatida por uma doença súbita. Após sua morte a família envolveu seu corpo em sua maravilhosa camisola – única vez em que a vestira. De igual maneira vivenciam um grande perigo aqueles que esperam momentos especiais para serem felizes. Correm o risco de tê-los muito esporadicamente ou deles jamais gozarem, se grande for a exigência.

Cada um de nós deve moldar o próprio cérebro a fim de que esse assimile como ser feliz através das coisas mais simples que surgem. O primeiro passo é aprender a viver apenas um dia de cada vez.  O segundo é adotar um comportamento à Poliana*, buscado olhar – através de uma janela imaginária – os aborrecimentos  com os quais a vida costuma nos brindar, por maiores que possam parecer, sempre procurando seus pontos positivos.  É necessário desenvolver a percepção de que, de uma forma ou de outra, eles também são responsáveis pelo nosso crescimento pessoal. Não devemos procrastiná-los, mas, se não é possível resolvê-los, tampouco devemos ficar a ruminá-los, pois, como diz um velho ditado, “o que não tem solução, solucionado está”. Tocar a existência para frente faz-se necessário, como nos ensina o poeta português Fernando Pessoa: “Navegar é preciso”. 

Está provado cientificamente que existe uma parte do cérebro responsável por produzir as sensações de bem-estar. As nossas emoções estimulam essa região cerebral. E se “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”, podemos treinar para sermos felizes. É exatamente isso que deve ser feito – treinar e treinar. Começar o dia agradecendo pelo sol, chuva ou tempo nublado – todos são belos e importantes nos seus diferentes aspectos. Direcionar os pensamentos positivos para cada ser vivo que surge à frente. Cumprimentar as pessoas com um alegre “Bom- dia!” e as abraçá-las sempre que for possível. E o que é o abraço senão um laço de amor com o qual envolvemos as pessoas? Tais atitudes positivas estimulam a nossa capacidade intelectual, pois, segundo a neurolinguística (ciência que diz respeito às relações entre a linguagem e a estrutura cerebral), as pessoas felizes são mais criativas e tendem a resolver os problemas com mais sabedoria e rapidez. E quem não quer ser feliz?

Devemos trabalhar para nos sentirmos bem diariamente e não quando algo arrebatante e fantástico acontecer – Deus sabe lá quando. Acompanhar com atenção as emoções prazerosas que inundam nosso cérebro ajuda-nos a buscá-las. Fazendo isso estaremos exercitando a tendência natural para expandir nossos pensamentos e sentimentos positivos, modificando nossos circuitos cerebrais e fazendo surgir novas conexões na nossa complexa rede neuronal. É fato que para sermos felizes dependemos do ambiente em que vivemos e da cultura em que nos inserimos, mas também é fato que dependemos, sobretudo, da maneira como olhamos o mundo e interagimos  com todas as suas formas de vida. Os preconceitos arraigados e doentios têm sido um dos maiores inimigos dos sentimentos positivos.

Trabalhar para ter pensamentos e sentimentos positivos não significa transformar-se numa pessoa omissa ou deslumbrada, num robô ou zumbi. O compromisso com os problemas que nos envolvem e aos nossos semelhantes, país ou planeta continua. É impossível ser feliz sem se ater a eles, pois somos uma junção de elos, quando um enferruja põe em perigo todos os outros, pois acabará se rompendo. O que muda é o nosso tipo de ação. Em vez de ficarmos remoendo diariamente as mazelas da vida, cheios de um azedume irritante e sem valia, passamos a colocar a mão na massa, dando o melhor de nós em prol daquilo em que acreditamos. A comunhão com o planeta Terra deve ser real e irrestrita. E se nada disso convenceu você, medite sobre as palavras do escritor Stefan Klein**:

As pessoas felizes são também mais amáveis, atenciosas e dispostas a enxergar o bem em seus semelhantes. Engajam se mais no bem-estar comum […] A felicidade é um objetivo de vida e ao mesmo tempo um caminho para uma existência melhor.

 Nota: a ilustração é uma tela do pintor brasileiro Edmar Fernandes

Ver textos:
COMO VIVENCIAR A FELICIDADE
OS MUITOS TIPOS DE SORRISO
SORRIR TRAZ FELICIDADE?

Obs.:
*Poliana – personagem do livro do mesmo nome, cuja autora é Eleanor H. Porter
**Stefan Klein – autor do livro “A Fórmula da Felicidade”.

Fonte de pesquisa
A Fórmula da Felicidade/ Stefan Klein/ Editora Sextante

Caillebotte – OS RASPADORES DE SOALHOS

Autoria de LuDiasBH

O impressionista francês Gustave Caillebotte (1848 – 1894) iniciou sua carreira artística como autodidata, vindo depois a estudar na Escola de Belas Artes da cidade de Paris. Ele conheceu e tornou-se amigo de Edgar Degas e, através dele, entrou em contato com os impressionistas, deles recebendo grande influência. Era dono de uma visão extremamente moderna, sempre optando por temas que mostravam a vida parisiense. A sua presença trouxe grande influência ao grupo, pois ele – dono de excelente situação financeira – ajudava-os, comprando suas obras, legando, portanto, uma rica coleção do referido estilo ao Estado francês.

A composição intitulada Os Raspadores de Soalhos – obra-prima da pintura realista – é uma criação do artista que mostra seu interesse pela perspectiva e pela vida cotidiana. Ele apresenta três homens, nus da cintura para cima, raspando o verniz antigo do soalho de uma grande sala. Chamou a atenção de seus contemporâneos o fato de o artista apresentar um tema com trabalhadores urbanos, uma vez que ele pertencia à alta burguesia da época, sem vivência com esse tipo de gente. O quadro não foi aceito para exposição no Salão de Paris, sendo visto pelos responsáveis pela seleção como um “assunto vulgar”, uma inovação provocadora, contudo, fez parte da segunda exposição impressionista.

As três figuras masculinas recebem a luz que entra através da porta de grades de ferro em arabesco que leva à varanda. Seus torsos nus mostram-se luzidios, iluminados por esta luz que adentra pelo ambiente e incide sobre as faixas do verniz escuro que ainda está por ser retirado. Uma pequena parte da raspagem feita – como mostram as tábuas já aplainadas – destaca-se por apresentar uma cor sem brilho, embaciada. A luz também faz com que a sombra dos corpos dos homens trabalhando seja projetada no soalho. Aparas da madeira – parecidas com anéis de cabelo – são vistas espalhadas pelo piso.

As três figuras humanas ocupam o centro da tela. Os dois homens da esquerda fazem o mesmo gesto e interagem entre si, conforme mostram suas cabeças. O que se encontra à direita e um pouco mais atrás, tem parte do corpo cortada na lateral do quadro e traz os olhos voltados para o chão. Várias ferramentas de marcenaria estão espalhadas pelo ambiente. Uma garrafa aberta de vinho barato e um copo encontram-se à esquerda. As tábuas estão alinhadas em diagonal e as paredes possuem painéis retangulares. É interessante notar que o observador fica de pé sobre os três homens trabalhando no piso. É possível que o local seja o estúdio do próprio artista.

Caillebotte foi muito importante dentro do Impressionismo, pois, ao contrário de seus colegas que preferiam retratar paisagens e jardins, ele preferiu os trabalhadores urbanos – tão ignorados pela arte –, ainda que sua obra não tivesse nenhuma mensagem social ou moralizante. Os trabalhadores, através do olhar fotográfico de Caillebotte, passaram a fazer parte da arte, como aconteceu no passado com os humildes camponeses.

Ficha técnica
Ano: 1875
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 102 x 146,5 cm       
Localização: Museu d’Orsay, Paris, França

 Fontes de Pesquisa:
Impressionismo/ Editora Taschen
http://www.visual-arts-cork.com/paintings-analysis/floor-scrapers.htm
https://www.theartpostblog.com/en/gustave-caillebotte-the-floor-scrapers/

FELICIDADE X INFELICIDADE

 Autoria de LuDiasBH

A felicidade e a infelicidade são mestras que a natureza usa para nos educar. (Stefan Klein)

Ao analisarmos a afirmação acima do filósofo e biofísico Stefan Klein, concluímos que se trata de uma grande verdade. Apesar de ser uma mestra indesejável, a infelicidade é sem dúvida a mais contundente, pois mexe com as entranhas de nosso ser. Ainda que seja pensamento comum o fato de que só se aprende com a dor, a felicidade é também uma mestra, uma vez que age como um incentivo ao predispor-nos a escolher aquilo que faz bem ao nosso corpo, direcionando o nosso comportamento. Contudo, enquanto a infelicidade chega sem ser convidada, a felicidade precisa ser conquistada dia a dia, incessantemente.

Essas duas incansáveis conselheiras fazem-se presentes por vias diferentes. A infelicidade exprime-se através do medo, da raiva, da tristeza, do arrependimento e de outros sentimentos que não nos são aprazíveis. Contudo, tem por objetivo proteger-nos dos perigos do mundo exterior e também de nossos próprios impulsos. A felicidade, por sua vez, manifesta-se através de sentimentos agradáveis e tem como meta condicionar-nos a buscar aquilo que sadiamente nos faz bem. O mais interessante é que até mesmo os animais estão programados – assim como os seres humanos – a agir da mesma forma. Observe como seu animalzinho doméstico aproxima-se de quem o acaricia e foge daquele que o aborrece ou maltrata. Contudo, a capacidade de prever situações é o diferencial entre humanos e bichos. Enquanto os segundos só aprendem através da experimentação, os primeiros não precisam vivenciar situações para obterem conclusões, podendo buscá-las em diferentes fontes.

O capitalismo selvagem – fruto de nosso tempo – repassa-nos a ilusão de que a felicidade é produto das circunstâncias, algo fortuito, impossível de ser conquistado. Noutras vezes tenta induzir-nos a pensar que quanto mais coisas e poder tivermos, mais felizes seremos. A verdade é bem outra e disso os gregos da Grécia antiga já tinham conhecimento. Eles relacionavam a felicidade a atitudes corretas. Aristóteles – filósofo grego que viveu antes de Cristo – já dizia: “A felicidade é consequência de uma atitude”, ou seja, de acordo com as possibilidades e oportunidades que nos são oferecidas, devemos buscar fazer sempre o melhor, pois é aí que se encontra o segredo do êxito e da ventura. Tampouco devemos colocar o nosso bem-estar nas mãos de quem quer que seja, uma vez que ninguém é responsável pela nossa infelicidade, senão nós mesmos. O controle de nossa vida está na mão de cada um de nós.

Voltando aos filósofos antigos, eles partiram da premissa de que “a felicidade é consequência de uma atitude” e chegaram a duas premissas:

  1. Se a felicidade é resultante da plena realização das possibilidades humanas, logo existirão regras de aplicação geral que podem ser usadas com o objetivo de obtê-la, uma vez que os seres humanos são semelhantes.
  2. Se levarmos tais regras em consideração, seremos capazes de aprender a ser felizes.

Assim, uma vez que o ser humano possui vontade própria, poderá trabalhar suas atitudes, a fim de escapulir da servidão de seus humores azedos e do ambiente – muitas vezes hostil – em que se encontra inserido. A felicidade não está atrelada à acumulação de bens, à posição social ou ao  poder, como alguns imaginam. Ela tampouco se resume a um mero prazer. A felicidade é um processo contínuo e permanente de realização de nossas possibilidades na busca, sobretudo, pelo nosso crescimento interior. É um estado de espírito que pode e deve ser trabalhado permanentemente. Poderemos começar freando os impulsos – esses senhores mandões tão presentes em nossa vida.

Ainda que a Ciência dê-nos a conhecer – cada vez mais – como funciona a nossa mente, a essência do pensamento da antiga filosofia no que tange à felicidade continua correta, embora alguns termos possam ter sido mudados, como por exemplo: aquilo que os antigos pensadores chamavam de “virtude” e de “realização plena do organismo” é conhecido hoje como “estado ideal do organismo” a ser conseguido. A neurobiologia (campo da biologia que trata do sistema nervoso nos seus aspectos morfológicos, funcionais e patológicos) deixa claro que os sentimentos positivos não são produtos do acaso ou frutos do destino, mas da maneira como encaramos o dia a dia, ou seja, do modo como vemos e vivemos a vida. Portanto, devemos persegui-los a fim de conquistar a felicidade plena.

Vejamos mais alguns pensamentos de Aristóteles sobre o assunto:

  • Cada um é feliz na medida em que faz e cumpre a sua missão. A felicidade só resulta do cultivo da virtude. A felicidade é para quem se basta a si próprio.
  • A felicidade não se encontra nos bens exteriores. Felicidade é ter algo o que fazer, ter algo a que amar e algo a que esperar…
  • Ninguém é dono da sua felicidade senão você mesmo, por isso, não entregue a sua alegria, a sua paz, a sua vida nas mãos de ninguém, absolutamente ninguém.
  • A felicidade é o sentido e o propósito da vida, o único objetivo e a finalidade da existência humana. A felicidade consiste em fazer o bem.

Fonte de pesquisa
A Fórmula da Felicidade/ Stefan Klein/ Editora Sextante